O aborto e a gratidão por ter nascido

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Minha mãe e eu, 54 anos atrás

Hoje, no dia do meu aniversário, uma data que sempre me alegra, pois gosto de ter nascido, resolvi escrever algumas considerações sobre esse tema tão controvertido: o aborto. Se estou comemorando meu aniversário e vivendo uma vida plena de sentido, é porque minha mãe permitiu que eu nascesse. Me recebeu e me acolheu, com a participação de meu pai. Então, é bastante pertinente falar sobre esse tema, nesse dia. Meu dia de entrada nessa vida.

Penso que esse debate sempre caminha por lados opostos, com argumentos que não tocam o cerne da questão.

Primeiro, a criminalização ou descriminalização do aborto não tem necessariamente a ver com ser contra ou a favor do aborto. Pode-se ser a favor da descriminalização e contra o aborto. No meu ponto de vista anarquista, obviamente acharia ridículo uma mulher ir para a prisão porque praticou aborto. Mas eu também considero todo o sistema estabelecido da justiça, com suas penalidades, prisões, humilhações, exclusões sociais, algo absolutamente abominável porque atenta contra a dignidade humana, exerce apenas uma função punitiva e nunca educativa. Não melhora ninguém. Por isso, não me comprazo nem mesmo quando políticos, de que tenho ojeriza, vão para a cadeia. Tenho pena, acho que não adianta, penso que se trata de vingança da sociedade e não justiça. Acredito em qualquer circunstância, mesmo com crimes graves, em justiça restaurativa, reparadora, que possa na medida do possível aproximar o criminoso e a vítima, trabalhar-se pelo perdão, pela reparação e pela recuperação do indivíduo. Coloco aqui um vídeo emocionante sobre o efeito da misericórdia e do perdão sobre um criminoso – do qual muitos diriam: “bandido bom é bandido morto.”

Posto isso, se não concordo com esse sistema penal que está aí, não o desejo como solução de nenhum problema.

Mas isso não quer dizer que não considere o aborto um grande problema e já direi por quê!

Segundo, todos os que defendem a descriminalização do aborto usam do argumento de que o Estado, sendo laico (e é laico no Brasil, pero no mucho, infelizmente), não pode legislar baseado em princípios religiosos… Concordo inteiramente! Mas a coisa não é tão simples assim.

Vivemos numa civilização, cujos valores foram herdados do cristianismo. Por exemplo, na Grécia antiga, era normal atirar crianças defeituosas dos penhascos. Ou seja, havia a prática legal de uma eugenia à moda nazista. Em Roma, o pai (pater) tinha direito de vida e morte sobre a mulher e os filhos. Que filosofia moral amenizou esses costumes? Que religião valorizou a mulher e a criança (quando essa religião seguiu aquele que elegeu para seu Mestre)?  O cristianismo, quando entendido dentro das mensagens deixadas por Jesus, veio para defender justamente os excluídos, os sem voz: a criança, a mulher, os marginalizados etc. Se por um lado, os cristãos viraram do avesso, e até hoje viram, os ensinamentos de Jesus, por outro lado, esses valores humanistas foram a base do avanço da legislação no Ocidente. Então, quando dizemos que o Estado deve ser laico significa que ele deve proteger a liberdade religiosa e não se deixar dominar por interesses de grupos religiosos e nem legislar com base em dogmas específicos dessa ou daquela religião. Mas pode e deve se inspirar nos valores humanos universais, que por acaso são os do cristianismo bem entendido. Entre eles, um dos mais fortes está o respeito à vida.

Mesmo assim, não é preciso se recorrer a nenhum valor cristão para se tomar uma posição anti-abortista. A questão é saber se aquele feto que ali está é um sujeito de direitos ou não. Se é alguém ou apenas um projeto de alguém, que pode ser abortado.

Podemos então conversar com a Ciência e não estaremos invocando crenças particulares. Vou apenas citar um livro, interessantíssimo, sobre uma pesquisa feita por uma psicanalista italiana, Alessandra Piontelli, De Feto a Criança – um estudo observacional e psicanalítico. Nessa pesquisa, essa médica acompanhou a gravidez de 11 mulheres e depois seguiu os filhos delas até o quarto ano de vida, entre eles, alguns gêmeos.

Pois bem, fica evidente, que há vida inteligente e emocional no feto, porque há memórias e comportamentos nas crianças, relacionados com a vida pré-natal. E há outras pesquisas nesse sentido. Eu mesma tenho um trauma pré-natal, porque minha mãe estava no quinto mês de gravidez, quando o avião em que estávamos quase caiu. Até hoje, aos 54 anos, tenho a sensação de queda quando subo ou desço uma ladeira muito íngreme, evitando pegar ruas com declive muito acentuado.

Se há memória, trauma e até conhecimento de fatos que ocorreram durante a estadia no ventre da mãe, de que depois a criança lembra em forma de emoções, comportamentos etc, então há ali um sujeito pensante, sensível.

Ainda falando de pesquisas científicas, lembro aqui os 2500 casos de memórias espontâneas de crianças sobre suas vidas passadas, estudadas por Ian Stevenson e sua equipe, na Universidade de Virginia. Casos com fortes evidências, de lembranças precisas, com marcas de nascença, que foram cuidadosamente analisados nessas investigações. Se a memória precede a fecundação, então desde o inicio há vida inteligente e perceptiva ali. Portanto, quando se pratica um aborto, já se está eliminando uma vida consciente e sensível. Aliás, basta ver o feto se defendendo dos alicates que o tiram aos pedaços durante o aborto.

Tudo isso posto, sim, o aborto é crime.

Mas o que vamos fazer com isso?

Dentro da perspectiva que citei acima, crimes não devem ser punidos, mas perdoados e prevenidos. Nesse caso, não perdoados por outros, mas por quem o cometeu (pois o mais difícil é perdoar-se a si mesmo) e prevenidos pela sociedade, sobretudo pela educação e por condições sociais que deem o apoio devido à mulher, para que ela não seja conduzida a um ato infeliz, por falta de apoio, esclarecimentos e recursos, embora, legalizado ou não o aborto, sempre ela terá a liberdade de praticá-lo.

Para prevenirmos o aborto, haveríamos de ter várias atitudes:

  • Uma eficaz educação sexual, com orientação para o uso de contraceptivos;
  • Campanhas educativas e esclarecedoras sobre a vida intrauterina e as consequências psicológicas traumáticas para as mulheres que praticam aborto;
  • Educação e conscientização dos homens, para que assumam suas responsabilidades e saibam que têm exatos 50% de dever de receber e acolher o filho que fizeram;
  • Valorização social da maternidade, com licença maternidade mais extensa, com licença paternidade, com respeito às mulheres que decidem ter filhos e não as considerando um estorvo no mercado de trabalho;
  • Centros de apoio para as mulheres que têm gravidez indesejada, com ajuda psicológica, orientação médica e jurídica e apoio espiritual (inter-religioso), para que a mulher possa ter conhecimento de todas as variáveis que envolvem o aborto.

E para quem já fez aborto? Não cabe a ninguém julgar, porque há inúmeras circunstâncias adversas que podem levar a mulher a praticá-lo ou simplesmente o desconhecimento do quanto o feto ali presente é já um sujeito de direitos e uma alma reencarnante (e isso não é apenas uma crença, mas algo de que já temos muitas evidências, mas que precisa ser alguma hora incorporado ao paradigma científico). Cabe-nos pois esclarecer e divulgar e não julgar e condenar.

Meu querido Pestalozzi, o gênio desconhecido no Brasil, cujas obras aqui nunca chegaram, escreveu uma obra-prima ainda no final do século XVIII, considerada a primeira pesquisa de sociologia da juventude do mundo: Legislação e Infanticídio. Naqueles tempos, havia em Zurique, na Suíça rigidamente protestante, uma onda de mulheres que matavam seus filhos ao nascer e depois eram condenadas à morte. Pestalozzi vai fazer um estudo dos processos e das histórias dessas mulheres. E chega à conclusão de que elas não eram culpadas. Chegavam do campo na cidade, pobres e sem educação e eram logo seduzidas (naquela época, sim, havia essa “sedução”, pois não havia a mínima educação sexual), por homens, que uma vez tido um breve relacionamento com elas, as abandonavam a si mesmas, muitas delas já grávidas. Ora, a sociedade católica sempre teve vias de escape para o “pecado”: a prostituição ou o convento, a roda da Santa Casa de misericórdia para as crianças nascidas em situação ilegítima… Na sociedade protestante, nada disso existia. Essas mulheres não tinham escapatória. Era a miséria, o escárnio público, não havia nenhum lugar para elas ou para seus filhos “bastardos”. Por isso, no desespero, matavam seus próprios filhos, ao nascerem. Pestalozzi escancara o problema e culpa a sociedade opressora, moralista e, sobretudo, os homens, por sua fuga à responsabilidade.

Hoje, essa situação específica que Pestalozzi descreve não existe mais na civilização ocidental, pelo avanço das mentalidades, pela mudança de padrões culturais e comportamentais.

Assim também deverá ser com o aborto.

Cabe-nos fazer uma sociedade em que a vida competitiva do mercado e os empregos massacrantes das corporações não sejam mais importantes do que a maternidade e a paternidade. Cabe-nos promover um mundo sem tantas diferenças sociais, em que todas as mulheres tenham acesso à educação. Cabe-nos construir um mundo em que o ventre materno seja um reduto sagrado de vida e a sociedade inteira se mobilize para preservar essas vidas que se reiniciam.

E eu só posso escrever tudo isso, porque nasci. Porque minha mãe me acolheu em seu ventre e me deu à luz. Toda vida é uma promessa de transformação e evolução para o planeta. Deixemos as crianças virem abençoar nossas vidas! E quando não as quisermos, há recursos para evitá-las, sem que as arranquemos do ventre, quando já tiverem sido concebidas.


Velhice: melancolia e obsessão ou serenidade e elevação?

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Dedico esse texto a meu pai, que em grande parte está vivendo uma velhice bem vivida. Ainda tem que ajeitar algumas coisas, mas que não ajeite muito rápido, para não ir embora tão logo!

Na maturidade dos meus 53 anos, caminhando a passos largos para a minha própria velhice, já observei muita gente próxima e menos próxima envelhecer.

E penso poder fazer alguns relatos, tirar algumas conclusões, formular algumas hipóteses.

É fato que a velhice é o caminho natural e óbvio para a morte. Toda velhice termina em morte, embora nem toda morte venha na velhice, colhendo pessoas de qualquer idade.

Sendo esse caminho natural para a dita cuja, para a tão renegada, parece que seja muito natural também que a velhice guarde algumas afinidades com a morte. A morte é um enfrentamento de si, é o momento máximo em que estamos face a face com nós mesmos, sozinhos (porque o ato de morrer é um ato solitário, mesmo se acontecer simultaneamente com outras mortes). Tanto é verdade que muitos relatos de quase-morte e outros tantos pós-morte, via mediúnica, falam daquele filme que se apresenta à nossa percepção, com todos os atos e vivências da vida inteira.

Então, a morte é um momento de suprema introspecção e a velhice já começa a fazer um trabalho nesse sentido. Já pelo próprio fato de que o velho, por mais ativo que seja (e é saudável que permaneça ativo, dentro dos limites que a idade impõe), sempre estará atuando menos no mundo, do que alguém em pleno vigor da juventude ou da maturidade. Há uma diminuição gradativa das forças vitais, um retirar-se lentamente do cenário e por isso, a mente se volta para si própria. Lembranças recorrentes da infância, fatos esquecidos da vida, saudades dos que se foram… enquanto estamos na correria da sobrevivência, da vida dita produtiva, guardamos tudo isso no subsolo da memória; mas na velhice, relaxam-se as amarras e vem à tona muita coisa escondida de si ou que nem sabíamos que estava lá.

Há também um acúmulo de dores e alegrias que constituem a bagagem emocional que se foi amontoando no decorrer da existência: perdas, lutos, frustrações, mágoas, ingratidões; realizações, afetos, conquistas, produções…

Isso é o que é a velhice, que se apresenta de forma mais ou menos restritiva por doenças e incapacitações.

Mas como se vive essa velhice é algo pessoal de cada um. Depende, em primeiro lugar, de como se viveu a vida e do que se faz agora com o resto de vida que falta.

A ausência de remorsos graves é de início uma boa coisa. Mas se estiverem presentes, pequenos ou grandes arrependimentos, é hora de rever, refazer, pedir perdão e, sobretudo, perdoar-se, sabendo que foi o que foi possível ser feito e melhores ações ficarão para a próxima vida. (A certeza da reencarnação nesse ponto é altamente confortadora, afinal não precisamos aprender tudo de uma só vez, haverá outras oportunidades!). Mas como é bom durante a vida, a gente já ir resolvendo pendências, desculpando e pedindo desculpas…

A serenidade ou a melancolia crônica e até a depressão, levando à necessidade de antidepressivos, depende da capacidade de resiliência e superação de todo esse arsenal de mágoas e tristezas que fazem parte de todas as vidas… de como sabemos nos elevar ao alto da montanha e enxergar tudo com uma perspectiva de eternidade, com leveza, com compaixão, com perdão. De como soubermos transformar dores e frustrações em experiências de vida, em ensinamentos, que sejamos capazes de partilhar com os que amamos, de forma benevolente e sem imposição. De como tivermos aprendido (e se não aprendemos, corramos para aprender enquanto há vida física) a amar com desapego e compreensão.

O orgulho, no sentido positivo, que eu chamaria aqui de autoestima, de nunca se entregar, de não querer se tornar dependente e, portanto, fazer-se um esforço de se manter em pé é também um bom antídoto para uma velhice muito degradada. Entretanto, cuidado, para que isso não seja mais orgulho do que autoestima e a pessoa não acabe negando que a velhice é sim um período de limitações e que quando não há remédio, temos que aceitá-las com humildade e grandeza de alma, retirando disso o aprendizado possível.

Há outras três questões que ajudam numa velhice tranquila:

  • A espiritualidade, essa capaz de nos fazer conectar com Deus, com a natureza, com nossa essência divina… tudo o que é capaz de encher o coração de paz;
  • A sensação de continuar sendo útil – e a utilidade pode ser uma simples presença, uma referência, um afeto caloroso para filhos, netos, amigos e familiares (por isso considero um velho num asilo, isolado dos que ama, uma verdadeira tragédia);
  • A música – existem pesquisas que mostram, inclusive com pessoas com Alzheimer, o impacto produtivo dessa arte suprema nos neurônios, nas emoções, na qualidade de vida da pessoa.

E o Alzheimer nisso tudo?

Tenho para mim a hipótese, claro que algo que precisaria de pesquisas que juntassem evidências às simples observações que fiz no decorrer de contatos com pessoas que vivenciaram esse drama, de que o mal de Alzheimer é uma fuga radical da realidade. Própria de pessoas que sempre tiveram dificuldade de aceitar o mundo, as pessoas e as coisas como são. Pessoas que gostam de frase do tipo: “o mundo está perdido”, “a juventude não tem jeito”, “no meu tempo…”. Pessoas que se mostraram ao longo da vida um tanto fracas diante das dificuldades e simplesmente não querem mais brincar. Retiram-se para dentro de si.

É uma espécie de isolamento, um fechar-se na concha, regredindo lentamente ao útero da mãe, onde havia fusão, segurança e ausência de esforço e luta. Tanto que quando as pessoas de Alzheimer chegam ao fim do processo, podem ficar em posição fetal.

É claro que há causas orgânicas para essa e outras doenças que envolvem a mente, mas aqui estamos analisando as formatações psíquicas que podem facilitar tais processos.

Velhice, regressões e obsessões

 Quem lida com a velhice com a perspectiva da mediunidade pode acrescentar ainda outras observações, como as que fiz, quando presenciei o envelhecimento de pessoas próximas. Esse defrontar-se consigo, que a velhice proporciona, que pode levar à melancolia, à depressão e nos casos mais graves à demência senil e ao Alzheimer (como uma recusa de permanecer aqui e agora, enfrentando a dureza dos fatos e até as emoções com que não se soube lidar), traz também possíveis regressões ao passado espiritual (e não só ao passado dessa vida) e a presença de inimigos e companheiros de outras vidas, que não estejam ainda em boas condições espirituais. Por isso, como é bom também durante a vida toda, fazermos terapias, processos de autoanálise, participar de desobsessões… Se formos a fundo e conseguirmos resolver algumas coisas, evitamos um bocado de aborrecimento no final da reta e, sobretudo, no Além!

Vou aqui relembrar dois fatos que presenciei de maneira muito próxima e durante alguns anos. Como são pessoas que morreram há muitos anos, não tem problema esse relato aqui.

Uma delas era meu avô. Pessoa muito querida para mim e que no final da vida, começou a apresentar um fenômeno pouco comum: enquanto dormia, falava uma língua que desconhecíamos e com a qual ele nunca tinha tido contato em vida. Acordava cansado, como se tivesse caminhado longamente. Gravamos essas falas e mandamos para o consulado sírio – lá eles identificaram um antigo dialeto de beduínos do deserto e a narrativa era de uma interminável caminhada de dois homens pelo deserto…

Ocorre que não ficou nisso o fenômeno. Comunicou-se um espírito, que era um dos beduínos (o outro era meu avô), e que ainda estava fixado nesse momento, em que eles provavelmente morreram de inanição e sede. Meu avô nessa época estava impactado por diversas tristezas (entre elas de ter se aposentado e da esposa, minha avó, estar entrando no processo de progressão do Alzheimer). O Espírito foi atendido e encaminhado, mas meu avô, até morrer, embora tenha guardado a lucidez, estranhamente assumiu algumas coisas de uma personalidade muçulmana: por exemplo, dizia como queria ser enterrado (e fomos pesquisar era algo próprio da cultura islâmica), dizia que iria encontrar banquetes do lado de lá… só não falava das virgens! Durante a vida, ele não tivera nenhum contato mais próximo com essa religião e pouco a conhecia.

Outro caso foi uma grande amiga de minha mãe, D. Judith, mulher caridosíssima, que se tornou espírita depois de uma tuberculose na juventude e chegou a uma idade bem avançada. Antes de adoecer dos pulmões, ainda muito moça, ele havia sido carmelita descalça e teve que deixar o convento por causa da doença. Casou-se depois e fundou inclusive uma instituição espírita. Pois essa senhora, que morava ao lado do colégio onde eu estudava na adolescência, passou por uma cruel obsessão na velhice. E aqui poderia usar a palavra obsessão de duas maneiras: a da psicologia, que entende o comportamento obsessivo, como algo compulsivo, de que a pessoa não consegue se libertar; e a do espiritismo, que entende como a influência de espíritos em desequilíbrio sobre o encarnado.

Pois bem, durante os últimos anos de sua vida, depois da morte do marido, de quem era bastante dependente emocionalmente, D. Judith ouvia 24 horas por dia, cantos gregorianos – que, segundo ela, “a deixavam louca” e via padres e freiras caminhando pela casa. Eu era uma das pessoas que ia quase diariamente dar passes nela e sentia e via os Espíritos ali presentes. Então havia aí uma dupla regressão a meu ver: uma regressão à sua juventude (com certo temor por ter “deixado a igreja” e ela passou a comungar com um padre que alternava comigo suas visitas!) e a regressão ao seu passado espiritual, pois ela descrevia igrejas antigas e representantes do clero de séculos anteriores. As duas regressões eram obviamente estimuladas por espíritos credores e companheiros seus.

Com tudo isso, quero especular que, com a fragilidade física que se instala no idoso, se acompanhada por funda tristeza, por certas circunstâncias da própria velhice, e entrega a recordações amargas, a culpas e apegos, companheiros do passado podem ser atraídos ou se fazem mais notar (talvez estivessem ali antes, mas a vida ativa da pessoa os deixava ocultos). Se o velho não consegue desenvolver defesas de elevação mental, de perdão a si e aos outros, de serenidade existencial (se bem que esse é um cultivo da vida inteira) e de pensamentos otimistas e sadios, a obsessão pode se instalar irremediavelmente até a morte.

É verdade também que esse reencontro com o passado e com antigos amigos e inimigos pode muito bem significar uma espécie de acerto de contas consigo e com outros, para que quando a morte vier, ela se faça mais leve, sem muitos adversários, esperando atrás da porta. De qualquer modo, é preciso resolver a situação, ajudando os espíritos e, sobretudo, ajudando o velho e o velho ajudando-se a si mesmo para transcender tudo, fixar-se no bem e manter a paz!

 


À musa estuprada

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O rapto das Sabinas, pintura de Nicolas Poussin

Há indignações tão profundas, que só podem ser expressas em poesia, pelo  menos para mim. Nos últimos meses, no meio do espetáculo constrangedor e bizarro em que o país mergulhou, a mulher brasileira foi alvo das mais absurdas violências: uma presidenta que não cometeu nenhum crime afastada do poder por um bando de criminosos, depois de ter sido xingada por uma parte da população, com as maiores baixarias e depois de ter sido ofendida por um Bolsonaro, que invocou seu torturador, num gesto de fascismo e supremo desrespeito humano; a primeira dama do presidente golpista posta como modelo de “beleza, do lar e recato”; um ministério inteiro só de homens (a maioria envolvidos com corrupção); um fundamentalismo religioso avançando no Estado, ameaçando os direitos da mulher; a visita de um ator machista, de filmes pornô, que nada tem a ver com Educação e que se ufana de ter estuprado uma mulher, no ministério da Educação e, por fim, esse estupro coletivo de uma menina de 16 anos, com direito a espetáculo e aplausos na internet! Onde estamos? Retrocedemos séculos? Ou essas camadas obscuras, nauseantes da sociedade não estavam tão visíveis?

Se uma brasileira é estuprada a cada 11 minutos, isso está aí há muito tempo. Mas de repente, com a ascensão política de uma grande maioria de homens que representam justamente esse tipo de macho cafajeste, opressor e sem respeito pelas mulheres (veja-se o que fizeram com a presidenta, que pode ter os defeitos que tiver como política, mas é um ser humano, uma mulher, mãe, avó), temos todos esses homens medievais saindo das cavernas, para mostrar suas caras.

Para eles e para todos os homens que não são como eles (graças a Deus, há muitos); para as mulheres, as que lutam por dias melhores e para aquelas que assumem o discurso do opressor (infelizmente, há muitas), dedico a poesia abaixo:

À musa estuprada

(Versos sáficos)

 

Na favela, ou presidenta,

No congresso, ou no lar…

Há uma ferida nojenta

Há uma mulher a sangrar!

 

A mulher torturada,

Depois impedida.

A mulher estuprada,

Depois esquecida.

 

A mulher excluída,

Se não for recatada.

A mulher ofendida,

Se não for calada.

 

A mulher minha mãe,

A mulher minha irmã,

A mulher é culpada

Porque ela se expõe.

 

A mulher sufocada

De vestido na igreja,

De saia comprida,

Na burca escondida.

 

A mulher violentada,

Estendida na rua,

Porque é despudorada

Porque é puta e está nua!

 

É sempre a culpada,

É sempre a acusada,

É sempre a julgada,

É sempre a safada!

 

É sempre a piranha,

Que não se acanha

Nunca é culpa do senhor,

Do macho predador!

 

Do poder, exilada,

Se honesta, impedida.

Se esbofeteada,

Porque merecida.

 

É sempre a vadia,

É sempre a que traía!

Mas onde o traidor?

Onde o estuprador?

 

A mulher que trabalha,

Que sempre batalha,

Que raro se ausenta,

Dos seus que amamenta…

 

É a mulher que sustenta

Que tudo já aguenta

Por ela que a vida

Se faz e se alenta.

 

Ó terna guerreira,

Eterna na lida,

Não mais quero à beira,

Calada, escondida!

 

Não mais de olhos roxos

Não mais ensanguentada

Não mais enlameada

Não mais acuada.

 

Homens, sois filhos

Sois pais, sois irmãos

Por que não limpais

Enfim vossas mãos?

Por que não partilhais

Iguais condições?

Por que não espalhais

Honestos corações!

 

Mulheres, não rompamos

Nossas mãos unidas

E sempre as estendamos

Às irmãs mais feridas!

 

Homens e mulheres,

Um mundo mais igual

O respeito natural

E a liberdade afinal!


Jesus, a Páscoa e o momento de ódio em que estamos mergulhados

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Não posso deixar passar essa Páscoa, sem uma reflexão sobre seu personagem principal, para quem se considera cristão. E nesse momento de grande tumulto no Brasil e no mundo, com tanta violência e tão denso nevoeiro, estou pensando nos cristãos…

Esses cristãos que compõem a maioria da população brasileira, pelo menos no censo, divididos majoritariamente entre católicos, evangélicos e espíritas.

Esses cristãos que, em sua maioria, não fazem conta dos ensinos de Jesus. Que talvez achem que são palavras poéticas, bonitas, mas preceitos inaplicáveis na vida prática. Ou ainda que são ensinos que só possam ser pensados em relações pessoais, mas nada podem acrescentar às relações sociais, à organização política, à produção econômica… Teorias bonitas, mas utópicas, que não são para esse mundo… E no entanto, há dois mil anos que essas belas palavras estão buscando nosso coração e nossa mente e estão sendo semeadas, muito além das relações de indivíduo a indivíduo, sendo justamente o fermento de avanços em todas as áreas, no Direito, na Educação, na Política, na Sociedade, na Economia.

Só para citar três exemplos: um ateu, como André Comte-Sponville, ou um judeu, como Erich Fromm, ou um historiador da Educação, como Franco Cambi, reconhecem que a mensagem de Jesus – essa de fraternidade universal, de igualdade, de valorização dos excluídos – permeia toda a história da civilização ocidental, sendo a base de muitas de nossas conquistas sociais, inspiração de muitos direitos concretizados, vertente do humanismo mais universal que habita mesmo doutrinas, movimentos sociais e leis, que se consideram laicos, mas carregam dentro de si, as sementes cristãs.

E, no entanto, ainda muitos cristãos não conseguem se deixar permear por essa onda refrescante de amor, liberdade, compaixão, humanismo… que sopra das palavras e dos exemplos de Jesus. Muitos cristãos que agem com o outro, que se portam socialmente, que trabalham em seus empregos e empreendimentos, que têm uma visão da lei e da justiça, da sociedade e do mundo, em completa oposição ao que ensinou, ao que demonstrou Jesus.

Senão vejamos!

Como pode um cristão ser racista, se a compreensão que lhe felicita é a da fraternidade universal? Se Jesus mostrou que seus discípulos viriam do Ocidente e do Oriente e que todos seriam bem-vindos ao banquete do Reino?

Como pode um cristão discriminar alguém por sua conduta sexual, se Jesus acolheu aqueles que eram considerados “pecadores” e fez questão de, depois de morto, aparecer em primeiro lugar para Madalena, uma prostituta, que os judeus da época julgavam que deveria ser apedrejada?

Como pode um cristão proferir uma frase do tipo: “bandido bom é bandido morto”, se Jesus disse “misericórdia quero e não sacrifício” e ele mesmo morreu entre dois ladrões, acolhendo-os em seu amor?

Como pode um cristão acreditar, pregar e praticar qualquer tipo de violência, armada, física, psicológica, verbal e ainda achar que a violência se justifica, quando Jesus disse que deveríamos “perdoar setenta vezes sete”, que os “mansos herdariam a terra”, e que deveríamos amar os próprios inimigos? E se ele próprio não usou de violência, mas perdoou toda a violência recebida; se deu a outra face e morreu, pedindo que Deus perdoasse seus algozes?

Como pode um cristão lutar pelo poder, trapacear, corromper-se, aviltar-se, para se sobrepor ao próximo, espezinhando quem a ele se interponha, se Jesus disse que “veio para servir e não para ser servido” e que “quem quisesse ser o maior, que fosse o servo de todos”? Se ele, que muitos cristãos consideram como o próprio Deus, e nós, espíritas, consideramos como um Espírito perfeito, veio ao mundo, como filho de um carpinteiro, viveu sem poderes e morreu perseguido pelos poderosos?

Como pode um cristão se esfalfar, se atirar a uma luta insana, explorando outros seres humanos, seus irmãos, se corromper, vender seus valores, trair sua pátria, pisar em todos os princípios morais, para acumular dinheiro, para possuir o excesso, quando a muitos falta o necessário, se Jesus disse ao jovem rico que o procurou para segui-lo, que desse todos os seus bens aos pobres, acrescentando em seguida, que seria mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus? E se ele próprio, nascido na pobreza, dizia não ter uma pedra onde encostar a cabeça?

Como pode um cristão desprezar uma criança, fechar o ouvido à sua voz, desvalorizando a infância, negligenciando-a e tantas vezes abusando e usando de vara e violência (como querem os que seguem mais o Velho Testamento do que Jesus), se o Mestre disse “vinde a mim as criancinhas, porque é delas o Reino dos Céus”?

Como pode um cristão ser machista, desrespeitando a igualdade de direitos das mulheres, explorando-as, olhando-as como objeto, usando de violência física ou psicológica contra elas, se Jesus, num tempo em que um rabino (como até hoje entre os rabinos ortodoxos) nem sequer podia encostar numa mulher, deixou que Madalena lhe tocasse, honrou-lhe com a primeira aparição em Espírito, acolhia em seu círculo mulheres, consideradas de má vida, ou mulheres de família, incluindo-as em seus ensinos (como fez com Marta e Maria, as irmãs de Lázaro ou com a samaritana do poço de Jacó, aliás multiplamente discriminada, por ser mulher, por ser samaritana e por ter tido vários maridos…)?

Enfim… como pode um cristão ser tão contrário a todos os ensinos de Jesus?

E como podem nações inteiras, formadas sob a égide do cristianismo, explorarem outros povos, promoverem a guerra, atacarem os mais fracos, dominarem outras nações, exercerem a tortura e matança, ignorando a fome, a injustiça e a marginalidade em que vivem inúmeros povos em todos os Continentes?

Como podem nações que têm suas leis inspiradas na igualdade e fraternidade, que beberam nas fontes do cristianismo, que assinaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que nada mais é do que uma carta laica com uma forte herança cristã, infringirem diariamente suas próprias leis e pisotearem a cada instante essa Declaração?

E agora, como pode um povo como o brasileiro, cujas pesquisas revelam que 99% acredita na existência de Deus, de repente estar possuído dessa fúria selvagem, digladiando-se mutuamente, cuspindo ódio e contaminando até mesmo as crianças?

Não posso me eximir de pensar tudo isso nessa Páscoa!

Parece que a voz do Mestre nos conclama de novo à mansuetude, à compaixão (mesmo com aqueles que consideramos que erraram), ao “não julgueis para não serdes julgados”, ao perdão incondicional e ao amor, acima de tudo!

Parece que a fera que dorme em nós ainda pode ser despertada por uma propaganda maciça, por uma hipnose coletiva, por uma histeria popular – como foi feito na Alemanha nazista ou na Itália fascista, apenas para citar duas situações históricas muito emblemáticas desse processo em que se acorda o monstro, escondido no inconsciente coletivo.

Isso significa o quê? Que ainda não transcendemos as sombras que habitam em nós, que nossa adesão aos valores cristãos é superficial, é fraca, ainda não conseguiu transformar totalmente a fera em ser humano.

Paremos um instante, respiremos fundo e analisemos a situação. Estamos mergulhados num comportamento de massa, irracional e muitos destilam ódio. Paremos antes que seja tarde e lembremos de Jesus! Pode parecer piegas falar assim: mas não é Jesus, que católicos, evangélicos e espíritas dizem seguir? E que mesmo ateus admiram?

Então, não há solução, nem política, nem social, nem econômica, sem os valores essenciais que Jesus ensinou e exemplificou e esses valores são justiça, igualdade, desapego, desprendimento, humildade, compaixão… enfim, o que todos sabemos já há muitos séculos, de cor e salteado, mas que a maioria ainda não teve coragem de colocar em prática.


O modelo masculino de civilização

 

Yin Yang Bonsai

Ying e Yang – a simbologia chinesa para o feminino e o masculino

Reflito aqui sobre duas matérias que vi recentemente, sobre diferentes assuntos, mas ambas ligadas a São Paulo, a cidade em que nasci e de onde fugi há 15 anos, para viver no interior, mas onde estão minhas raízes e um pedaço do meu coração.

Uma é a reportagem chocante, de dezembro de 2015, intitulada As veias abertas da Faculdade de Medicina da USP, e a outra é o documentário Entre Rios, já mais antigo de 2011, mas que eu não conhecia, que conta de maneira didática o processo de urbanização de São Paulo.

O link para a primeira é:

http://www.adusp.org.br/files/revistas/58/mat05.pdf

Para o documentário:

https://www.youtube.com/watch?v=Fwh-cZfWNIc

O que há de comum entre essas duas matérias: elas de certa maneira dissecam a lógica da dominação, da sujeição, da violência do homem sobre a natureza e sobre outros seres humanos.

No processo de urbanização da cidade, vemos como os rios que a alimentavam, que lhe deram a vida lá nos primórdios das aldeias indígenas, foram sufocados, encanados, soterrados, poluídos, mortos. O rio Tamanduateí, o ribeirão do Anhangabaú, o rio Tietê. A lógica usada nessa urbanização foi a lógica da exploração, do abuso da terra, do crescimento econômico baseado no automóvel, no concreto, na especulação imobiliária. Sem nenhum interesse ou cuidado pela beleza, pela natureza, pela integração do ser humano ao seu meio, de maneira harmoniosa, saudável e nobre. O que vale é dilacerar o solo, construir, ganhar dinheiro. E as delicadas curvas do rio são concretadas, são forçadas a caber nos canos, são submersas debaixo da terra. E o esgoto abunda e as enchentes são uma das péssimas heranças dessa urbanização violenta, acelerada.

Na Faculdade de Medicina da USP, há as denúncias terríveis e silenciadas, de violação dos direitos humanos, nos trotes, nas festas, no cotidiano. Com as mulheres, com os homossexuais, com rapazes recém-chegados, que se não adotarem o corporativismo violento das festas e das iniciações humilhantes, estão ameaçados de não merecerem o respeito dos seus pares, de não fazerem parte do clube. As denúncias são acachapantes. Uma das que mais me impressionou foi referente ao assassinato do calouro Edison Tsung Chi Hsueh, em 1999, de que aliás me lembrava, durante um trote dos veteranos. A morte em si já seria suficientemente revoltante. Mas agrava-se pelo fato narrado pela reportagem de que a família do rapaz nunca recebeu a solidariedade de nenhum professor da Faculdade. O caso foi encerrado depois de anos pela Justiça, inocentando os acusados.

Não quero fazer generalizações indevidas, porque aprecio os seres humanos do gênero masculino e acho negativo declararmos uma guerra de sexos. Mas há que convir, analisando as duas matérias em pauta, que esse é o modelo de mundo dominado pelos homens.

Alguém viu no decorrer da história uma engenheira como Prestes Maia, planejando a urbanização violenta e exploratória de uma cidade? Há alguma denúncia de abusos de mulheres contra homens num trote, numa situação de trabalho, numa faculdade?

Esse modelo de civilização de opressão do mais fraco, de depredação da natureza, de violação constante do que é humano – foi um modelo construído em milênios de dominação masculina. É o guerreiro, é o macho, é o conquistador…

É verdade que a versão masculina do mundo não pode ser simplesmente jogada na lata do lixo, como querem alguns radicais. As conquistas da ciência, a construção do direito, o pensamento filosófico – tudo isso foi feito no mundo pelo gênio masculino, simplesmente porque a mulher não tinha voz para participar dessa construção, salvo algumas exceções históricas. Admiro o senso prático, a racionalidade, a capacidade de liderança masculina. Mas o homem ainda carrega a marca do dominador, do agressor, do opressor, de insensibilidade  com a dor do próximo. Essas duas reportagens mostram isso. O homem-homem não desenvolveu em sua grande maioria os dons do cuidado, da empatia, da humildade construtiva. Claro que os homens que se destacaram na história como portadores dessas qualidades são os grandes líderes espirituais que apontam caminhos para uma transmutação do macho, guerreiro, conquistador. Pessoas como Buda, Jesus, Francisco de Assis…

O problema é que quando a mulher começa a sair de seu papel de companheira passiva, de vítima da dominação, muitas vezes é tentada a se masculinizar. Não gosto de ver, quando viajo, essas mulheres executivas, robotizadas como seus colegas, dentro da mesma lógica neurótica da carreira competitiva, que não se dão o direito de ter filhos ou de ficar mais com eles. Mas aprecio quando vejo homens que hoje partilham o cuidado dos filhos com a mulher e procuram trabalhos em que podem conservar a sua participação na família e seu diálogo dentro de casa.

O que estou querendo dizer é que precisamos de valores tradicionalmente femininos, para reconstruir a civilização. Valores como delicadeza, cuidado, empatia, sensibilidade. Mais intuição e não só razão instrumental. Mais flores e frutos e não apenas concreto.

Temos que caminhar para um mundo em que a voz do homem e da mulher se harmonizem dentro da família e fora de casa. Em que um reconheça o valor do outro, com respeito mútuo e sem desejos de dominação. E também devo dizer, cada um podendo adquirir, como já tem sido o caso, um pouco das qualidades do outro, mas ainda conservando a identidade de cada gênero, pois eu não sou partidária dessas teorias pós-modernas de que o ser homem e o ser mulher são meras construções sociais. Essa ideia de um relativismo fanático pode levar à perda dos valores positivos que cada gênero construiu ao longo dos milênios e é uma ideia que desconsidera completamente o dado biológico. Embora eu seja reencarnacionista e me lembro de já ter sido homem e mulher, e saiba que o espírito não tem sexo, enquanto condicionados a um corpo, temos uma influência dele em nosso psiquismo. Se assim não fosse, seríamos hermafroditas e não renasceríamos homens e mulheres.

Para citar o caso da medicina, como um campo necessário de integração dos valores dos dois gêneros, já comentei uma vez num artigo que foram duas mulheres no século XX que trouxeram uma grande contribuição para a humanização do cuidar: Cicely Saunders e Elisabeth Kübler-Ross. Nesse exemplo, dá para observar bem a diferença da lógica feminina e masculina. Pela tradição da medicina criada pelos homens, trata-se de guerrear contra a morte e vencê-la com galhardia. Mas a morte faz parte da vida. E é preciso cuidar de quem está morrendo. Então as mulheres é que dão o principal impulso para os cuidados paliativos e para a tanatologia. Não há o que vencer nesse caso. Há que se cuidar, há que se compadecer, há que dar passagem à morte, aceitando-a quando não houver nenhum remédio, criado pelos homens.

Com tudo isso, devemos tomar cuidado para não querer abolir o progresso da ciência e voltarmos à era das bruxas. Mas temos que dar um passo adiante nesse modelo vigente, onde só o lucro conta, onde a lei do mais forte se instala em toda parte, onde ainda mulheres e crianças no mundo todo são abusadas, espancadas, violentadas, onde a própria mãe natureza é estuprada…

Caminhemos para um mundo em que a virilidade seja mais sensível e a feminilidade mais participativa. E assim já está sendo.


A generosidade diante do umbiguismo

A young girl delivers flowers for you

Há uma doença que acomete gravemente algumas pessoas, sem que elas tenham a mínima consciência de estarem padecendo dela: o umbiguismo. É aquela personalidade que só fala de si, de seus problemas, de suas demandas, que está sempre orientada para seu próprio ego. Se entremeia a conversa com alguma pergunta sobre a saúde ou o bem-estar do outro, é por um resquício de cortesia superficial, que se esvai logo que o outro responde brevemente. A frase seguinte do umbiguista é de novo sobre si mesmo.

É claro que todo ser humano guarda em maior ou menor grau uma dose de egoísmo que, como diria tão acuradamente Kardec, ao lado do orgulho, são as maiores chagas da humanidade. Mas refiro-me aqui àqueles extremos, que se fixaram no período do narcisismo infantil. É normal a criança pequena, por uma questão de sobrevivência e do processo de desenvolvimento, ter um momento de total fixação em si mesma. Não é normal o adulto, que já deveria ter atingido a maturidade psíquica, agir dessa maneira autocentrada, sem conseguir sentir sinceramente empatia para com as demandas do outro.

Não é normal o adulto não se preocupar autenticamente com os de sua volta, movendo-se para atender às necessidades que estão ao seu alcance atender ou até que são de seu dever atender.

Ora, o problema que quero analisar aqui é o encontro de um umbiguista com uma pessoa generosa, dessas que ao contrário da descrita acima, gosta de ajudar, se preocupa genuinamente com o bem-estar alheio e se entrega afetivamente aos familiares, amigos, a colegas de trabalho, e em alguns casos de maior nobreza, a qualquer ser humano que se lhe aproxime.

O que muitas vezes se dá então é que o umbiguista pode se tornar um vampirizador, um explorador, um abusador da generosidade do outro. Já aqui uma vez neste blog, comentei a história da árvore generosa, cujo menino foi retirando todas as partes da árvore, que sempre lhe cedia tudo o que ele pedia. Então, defendi a atitude da árvore, apesar do umbiguismo do menino, porque a generosidade não pode trair a si mesma, por causa do egoísmo do outro.

E eis aí o grande conflito que quero comentar. Como não se tornar menos generoso, mais egoísta, mais defensivo, mais calculista, diante de tanto egoísmo empedrado que se vê hoje em dia? Sobretudo num momento histórico, em que se estimula o centrar-se sobre si mesmo, o pensar primeiro em si e sob o discurso do autoamor (sem dúvida necessário, pois até Jesus disse: ama ao próximo, como a ti mesmo), escondem-se muitas vezes uma apologia do umbiguismo disfarçado e um desprezo e um horror por palavras antigas e nobres como sacrifício, renúncia, entrega…

Como não perder a generosidade, como não trair a empatia, diante de pessoas que só pedem, só querem, só demandam, só falam de si e pensam que o mundo gira em torno delas? Que são incapazes de se preocupar de fato com o outro e, muito menos, de serem pró-ativas em cuidar de quem quer que seja? Rápidas no exigir, cobrar, esmolar, pedir e lentíssimas, desinteressadas, e mesmo ausentes, quando se trata de prestar um favor, ajudar ou mesmo praticar atos de civilidade social, como um telefonema, um cumprimento, uma visita, um convite, um como vai?

Chega um momento em que por mais que o generoso persista em sua generosidade, terá de se cobrir de uma camada de autoproteção, para que sua energia e seus recursos (sejam afetivos, humanos ou mesmo financeiros) não sejam totalmente drenados pelo umbiguista. Mas, diante de uma ou outra recusa sua em atender às demandas de quem sempre está pedindo algo, ou quando por qualquer circunstância, o umbiguista não está num momento de necessidade, a pessoa generosa verá amargamente o desaparecimento do outro. Ausência prolongada, desinteresse, ou um pouco de cortesia forçada apenas. Então, essa pessoa, que se doa por hábito, certamente sentirá o quanto o umbiguista usa e abusa e não consegue ter um afeto mais profundo por ninguém.

Esse é o cenário aparente da situação. Mas se quem doa persiste, com um certo cuidado para não se deixar esfolar pelo umbiguista; se quem é generoso não se mover de sua generosidade e se quem ama não deixar de amar incondicionalmente, apesar de receber um amor muito pobre daquele pobre egoísta, então, um dia, a ficha deste último cai. Um dia ele se toca. Um dia percebe o quanto foi infantil e centrado apenas em si. Mas talvez, não haverá tempo mais de ser generoso com aquele que foi generoso com ele. Será com outros. Assim é a dinâmica da vida. Porque o que de principal a pessoa generosa deu para o umbiguista terá sido justamente o aprendizado no exemplo do que é ser bom, altruísta, solidário e… generoso.

E o generoso, o que terá aprendido? A perseverar na bondade, a desapegar-se totalmente dos resultados e a manter-se sereno diante dos umbiguistas da vida…


Como não transformar indignação em ódio?

PM e Gandhi

Partilhei hoje na minha página do Face uma foto de um membro da polícia militar com a arma em punho diante de uma estudante desarmada, em posição pacífica, durante a guerra declarada pelo Governo do Estado aos alunos que reivindicam a manutenção de suas escolas, no movimento “Não fechem minha escola”. Ao partilhar essa foto e comentar brevemente minha indignação diante da cena, vi-me arrebatada numa discussão desenfreada na minha própria página. Mantive-me calada, mas tenho ficado amargada com o nível de agressividade, conservadorismo, analfabetismo político reinantes no momento presente. E toda vez que manifesto qualquer posição, vejo-me enredada numa trama de contenda, de vibrações desencontradas, que me afetam por dentro.

Por isso, a reflexão de hoje é sobre uma questão fundamental: como manter a paz íntima diante das gritantes injustiças do mundo? Como exercitar a indignação (necessária, pois até Jesus a manifestou diante dos fariseus que exploravam o povo) sem se deixar escorregar para a ódio e para o asco? Como manter o olhar lúcido e crítico diante das estruturas profundamente injustas da sociedade, diante da falta de ética, diante da negligência com o ser humano, sem afundar-se num desânimo existencial, que nos faça parar deprimidos à beira do caminho? Como, enfim, atuar no mundo, para transformá-lo, com suficiente amor no coração, mas sem a pieguice e a apatia dos que aceitam tudo de cabeça baixa?

Lembro-me aqui de três figuras que muito me inspiram na vida e que viveram momentos críticos nesse sentido. Um foi Pestalozzi. Condecorado pela Revolução Francesa, por suas ideias progressistas para a melhoria das condições do povo e de sua educação, ele escreveu um livro intitulado Sim ou Não?, que pretendia responder se ele era contra ou a favor daquela Revolução sangrenta. Ora, claramente, ele se manifesta contrário à violência, mas a favor das reivindicações populares, diante da opressão em que vivia o povo. Hoje, é verdade, a análise marxista da História considera a Revolução Francesa uma revolução burguesa, que usou as classes populares a seu favor. Na época, na compreensão de Pestalozzi, era algo que brotava sobretudo legitimamente das entranhas do povo. Ele não aprovava, nem justificava a violência, mas compreendia-a, como uma reação inevitável à opressão. Numa outra obra sua, Minhas Indagações sobre a marcha do desenvolvimento da espécie humana, Pestalozzi desenvolve toda uma teoria, que antecede em alguns aspectos a psicanálise, apontando a repressão dos instintos das massas como uma das causas de explosão de guerras e revoluções. De qualquer forma, ele considera que uma educação integral, como a que ele propunha, deveria despertar a divindade interior dos indivíduos, motivando-os a agir autonomamente, sem repressão, no sentido da fraternidade e do bem-estar de todos.

Kardec, no Livro dos Espíritos, na questão 783, da mesma forma que seu mestre Pestalozzi, admite a necessidade das revoluções sociais, olhando a História de uma perspectiva no tempo: 

“O homem não pode ficar eternamente na ignorância, porque deve chegar à meta marcada pela Providência: ele se esclarece pela força das coisas. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram pouco a pouco nas ideias, elas germinam durante séculos, depois, de repente, estouram e fazem ruir o edifício carcomido do passado, que não está mais em harmonia com as necessidades e aspirações novas.

O homem muitas vezes vê nessas comoções apenas a desordem e a confusão momentânea que o atingem em seus interesses materiais; aquele que se eleva pelo pensamento além do pessoal, admira os desígnios da Providência, que do mal faz surgir o bem. É a tempestade que purifica a atmosfera, depois de tê-la agitado.” (Tradução minha)

Entretanto, foi no século XX, que um elevado espírito, aliás chamado Mahatma (grande alma), deu um exemplo maravilhoso de uma atuação política, para transformação social, na luta contra a injustiça, por caminhos da não-violência, comprometido ao mesmo tempo com seu próprio aperfeiçoamento espiritual e com a elevação moral do povo. Gandhi foi passo a passo, como conta em sua autobiografia, construindo uma forma de atuar no mundo, para mudá-lo, sem render-se ao ódio, ao desespero e sem a alienação, muitas vezes característica, de alguns líderes espirituais. Unindo fé e política, autoconhecimento com a trilha da não-violência, ele deixou a mensagem de que só conquistamos a devida força moral, social e mesmo política (num sentido muito amplo e não partidário) se conquistarmos ao mesmo tempo a nós mesmos. Mas ele também se deparou com o rugir das paixões, o estouro da violência, da guerra civil, de seus compatriotas, pagando com a vida o seu empenho de dialogar com todos e não odiar ninguém.

Fica porém esse aprendizado para nós: guardemos serenidade nas lutas justas em que nos empenhemos no mundo. A oração é uma força essencial para isso. Assim nos ensinaram Jesus e Gandhi. Cuidemos de nosso mundo íntimo, para não nos rendermos ao ódio, que é um grau degenerado de indignação. E enchamo-nos de compaixão para com todos. Porque todos precisam dela.