Cartas sobre não-violência (1)

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Esta é a primeira de uma série que vou escrever semanalmente e publicar simultaneamente nessa minha coluna de Espiritismo Progressista, replicando em meu blog pessoal e no blog da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita. Continue lendo


Pensando nas dores humanas – de cada um e de todos nós

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Acordei hoje pela manhã, no quarto dia do ano de 2020, e já tive que fazer uma longa oração para buscar conforto e inspiração, como antidoto às más notícias do mundo. O céu vermelho de fogo na Austrália, o assassinato através de um drone de seres humanos no Irã (já foram, segundo li, mais de 5 mil assassinatos que o Império americano perpetrou com drones direcionados – muitos deles sob ordem pessoal do próprio Barack Obama, que muitos acham que foi diferente dos outros presidentes – e não importa que digam que sejam terroristas os que morreram, um Estado que faz isso, assassinando à distância, de forma covarde, sem defesa, é um Estado terrorista também).

Passam também pelas minhas redes sociais, fotos terríveis de crianças fugindo, no meio do mar, crianças separadas dos pais, por muros de campos de refugiados… Por toda parte, violência, fome, injustiça e dores inomináveis.

Lembro-me então de duas pessoas iluminadas que pisaram nesse mundo: Buda e Jesus. O primeiro saiu de sua vida principesca para buscar um caminho de libertação do sofrimento para o ser humano. O segundo, saiu de sua vida celeste para vir viver e morrer na terra, partilhando de nossas dores. E ambos, e tantos outros, ensinaram o caminho do desprendimento, da renúncia, da compaixão e da paz.

Mas… ainda estamos distantes desses caminhos.

E eu me pergunto: para que tanta dor? Seria necessário tudo isso?

Em outra ótica, as escalas menores de dores humanas: as pessoas que passaram sozinhas o Natal, as famílias divididas, os filhos que não visitam os pais, coisa que quase nenhum motivo justifica (digo quase, porque talvez seja uma exceção quando houve abuso sexual na infância), os pais que exilam diariamente os filhos em terceirizações várias, para trabalhar em excesso ou apenas para garantirem seus espaços de “aproveitar a vida”.

As multidões sozinhas, em depressão, adoecidas psiquicamente, por falta de olhos nos olhos, por falta de mãos que as segurem, por desespero existencial, por falta de propósito…

Os doentes crônicos ou terminais, sem amparo do Estado, da sociedade e aqueles sem amparo da própria família…

Os prisioneiros, apartados da sociedade, mesmo que tenham cometido crimes, quase nunca há um projeto de verdadeira ressocialização e a prisão é muito mais uma vingança social, uma humilhação da dignidade humana; sem mencionar os que estão lá sem ainda terem sido julgados e estão lá porque fazem parte de uma população etnica e socialmente desprivilegiada e, portanto, sempre suspeita, e portanto sempre sujeita às penalidades desumanas de um sistema opressor.

E mais uma vez, pergunto, para que tudo isso? Para que virar a cara para um familiar, por causa de uma pequena contenda ou discordância? Para que matar um inimigo à distância, ameaçando o mundo com mais uma guerra? Para que abandonar à míngua um ente querido? Para que manter em cárcere multidões que não receberam oportunidades de educação e trabalho e cujo encarceramento, assim como ele é, não redundará em novas oportunidades e melhorias?

Para que nos atormentamos tanto? Para que temos tanto sofrimento nesse mundo?

Por causa desse estado de coisas, muitos deixam de acreditar em Deus. O vale de lágrimas desse planeta é tão abismal, que nossa angústia pode interpelar a Deus, como fazia o poeta: “Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, senhor Deus, se é mentira ou se é verdade, tanto horror perante os céus?”

No imprescindível documentário Papa Francisco, um homem de palavra, no meio de uma belíssima entrevista com ele, aparece essa questão: por que sofrem os inocentes? Por que sofrem as crianças? O Papa se refere à liberdade humana. Sim, muito de nosso sofrimento decorre de nossa ganância, de nossa ignorância, de nossa violência, de nossa indiferença. Mas ainda a pergunta persiste: diante de um Deus bom, por que sofrem inocentes? Não adianta apenas responder com a chamada lei de causa e efeito das múltiplas encarnações. Aliás, Buda quis justamente achar um caminho que nos livrasse dessa roda cíclica do karma, que ele, como hindu, estava ciente de existir. Entretanto, a lei de causa e efeito não justifica tanta dor no mundo. Primeiro, porque os animais, que estão fora do domínio da liberdade humana, sofrem tremendamente – muito por causa da ação perversa do homem, mas não só. Segundo, porque não podemos nunca dizer (e isso é um alerta para os espíritas que adoram simplificar o entendimento das coisas de uma maneira superficial e apressada) que um determinado sofrimento seja consequência de más ações de outras vidas. Nunca houve tiranos, criminosos, perversos suficientes no mundo para terem depois reencarnado aos milhões, sofrendo toda essa barbárie como câmeras de gás nazistas, fome na África, massacres em guerras, escravidão no trabalho…

Então, paremos de querer equacionar tudo de maneira exata, matemática, como se fôssemos donos de verdades prontas e definitivas.

Existe a liberdade humana, sim, e dela decorrem as más escolhas individuais e coletivas. Exista e roda indefinida do karma, em que nos enredamos por ignorância, inconsciência (aliás, punindo a nós mesmos, porque não haveria necessidade de punição, apenas de tomada de consciência e reparação). Existem também as condições naturais da vida material, as doenças, o envelhecimento, a morte, que são dores incontornáveis da nossa humanidade – as coisas que impressionaram Buda, quando saiu de seu palácio para olhar a vida lá fora. Existem hoje, no mundo contemporâneo, as condições estabelecidas por um capitalismo selvagem e global, que gera lucro de uns poucos e miséria de milhões, que agride a natureza e está levando o planeta à bancarrota climática. As causas das dores humanas são múltiplas, entrelaçadas, complexas… Por isso, podemos recorrer ao budismo, ao cristianismo e ao espiritismo, ao marxismo e ao anarquismo, à psicologia e à psicanálise, para tentarmos apalpar as nossas desgraças, as nossas dores e as nossas cegueiras. Não se trata de uma miscelânea de ideias, que não combinam entre si e que vamos aplicar de maneira superficial para captarmos a realidade. Mas, cada um que procurou meios de sanar nossas dores, seja por caminhos espirituais, seja por revoluções sociais, seja por terapias de cura de nosso psiquismo ou de propostas de ascensão de nossa alma, cada mestre, cada filósofo, cada pensador, cada ativista, pode ter trazido alguma luz, para enfrentarmos a angústia de estarmos mergulhados num mundo tão sofrido.

Gosto muito de uma abordagem do grande escritor espírita Léon Denis: para ele, a dor faz parte de nossa condição humana porque nossa evolução ou maturação como espíritos imortais passa pelas dores do parto dessa ascensão. Ou como diriam muitos mestres, orientais e ocidentais: estamos, a maioria, dormindo. A dor nos desperta. Não adianta portanto, nos escondermos dela, num turbilhão de futilidades ou numa espiritualidade light de autoajuda egoísta. Como Buda e como Jesus, temos que encarar as dores humanas, nos compadecermos profundamente delas, e com nossa consciência desperta, acordarmos o maior número possível de pessoas, através de nossa entrega, de nosso amor, de nossos gestos de luta, em paz.

 


Réquiem para a democracia brasileira

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Era ainda uma menina
Nunca cresceu inteira
Sempre atropelada
Por golpes e ditaduras
No sangue das torturas.
Criança abusada, comprada
Que sempre fez as vontades
Dos senhores da casa grande.
Mas mesmo pelas metades
Dava ainda uma esperança
De não mais morrer criança.

Passados só 20 anos
De uma nova tentativa
De não ir mais à deriva
Eis que de novo os amos
Dos antigos engenhos
Mostram os dentes ferrenhos
De mãos com a velha vadia
Dessa mídia sempre a postos
Para trair a verdade!
Eis que de golpe em golpe
Vão matando essa menina
A fraca democracia.
Ameaçada pela bala
Pela Bíblia (quem diria?)
Pelo antigo latifúndio
Pela caserna fardada
E pelo abismo profundo
Entre a mansão e a senzala!
Os mandantes usam toga
Ou então traficam droga
Ou habitam o hemisfério norte!
E com cínica maestria
Tripudiam sobre a justiça
Rasgando a soberania,
Decretando a pátria morte!

Invoco o poeta mulato
Que exclamava estupefato
“E existe um povo que a bandeira empresta
Para cobrir tanta infâmia e covardia!”
E a musa lhe chorava a escravidão.

Ainda sob essa bandeira enxovalhada
Geme e chora a multidão.
Cada vez mais sem socorro e educação!

Chora a musa, chora Castro Alves
Chora Paulo Freire, chora Chico Mendes
Chora esquartejado Tiradentes,
Chora Anísio, Darcy e tantas gentes
Que sonharam justiça e liberdade!

Choram as desaparecidas, as torturadas
Choram Marielle e Dorothy assassinadas
Choram os guerreiros e as guerreiras
Que carregaram já amarfanhadas
As mais justas e mais altas bandeiras!

E nós que aqui estamos, o que faremos?
Chorando, resistiremos!
Indignados, avançaremos,
Fortes, jamais nos dobraremos!

Um dia a justiça se erguerá
E o amor soberano se fará!


Ode às mortes inocentes e indecentes (Crianças da Síria e Marielle Franco – presentes!)

Marielle

Será que vale poetar

A morte de um inocente?

Será a poesia um alívio

À revolta que se sente?

 

Quantos milhares de versos

Há que se tecer no mundo

Para explodir em poesia

Um grito de horror profundo?

 

Numa Síria em convulsão

São crianças massacradas,

E nas escolas da América

São crianças fuziladas.

 

São mulheres violentadas,

São negros que morrem mais,

Em toda parte a injustiça

Despedaça a nossa paz!

 

É Marielle que morre!

Nove tiros sem piedade!

Extinta uma voz de luta

Pela paz, pela igualdade!

 

Apesar de meus irmãos,

Os homens que querem paz,

De Jesus, Francisco, Gandhi

Mostrarem como se faz,

 

Preciso dizer que a guerra,

A violência e a injustiça

São obras do homem macho

Que o sangue no mundo atiça.

 

Os exércitos que matam?

A polícia que tortura?

Os governos em confronto?

Corrupção, ditadura?

 

Tudo ou quase tudo é obra

Da virilidade bruta,

Que quer trucidar veados,

E trata a mulher por puta.

 

O mundo ainda se move

Por estruturas brutais!

Foi a história que se fez

Em milênios patriarcais.

 

Eduquemos pois meninas

Delicadas e guerreiras,

Maternas e lutadoras,

Filósofas e parteiras!

 

Mas eduquemos meninos

Convictos na compaixão,

Sem vergonha de pensar

Também com o coração!

 

Meninos que se recusem

A fabricar armamentos,

A lucrar com a desgraça

E a reprimir sentimentos.

 

Homens que jamais aceitem

Bombardear um país,

Atirar numa criança,

Fazendo o mundo infeliz!

 

Homens que saibam enfim

Que tem em si luz divina!

E que em seu ser imortal,

Há uma parte feminina!

 

Saibam todos que Deus pai

É também Deusa materna,

E devemos caminhar

Para uma irmandade eterna!

 

Homens, mulheres do mundo!

Sejamos todos mais ternos,

Abrindo a trilha ao futuro

Com humanos mais fraternos!

 

Não deixemos que essas mortes

Tenham todas sido em vão!

Semeemos nesse mundo

Um pouco de coração!

 


O Francesco que me (nos) toca a alma

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A figura histórica que mais me comove, depois de Jesus, e justo por ser o mais próximo dele, o que melhor manifestou seu amor é Francesco, Francisco, Francisquinho…

Reler sua história, orar seu Cântico do Sol, assistir filmes sobre ele (meus proferidos e insuperáveis são Irmão Sol e Irmã Lua, de Zeffirelli e Francesco, de Liliana Cavani), simplesmente lembrar-me de sua figura, derrete meu coração…

Não é algo só meu. Ele é o santo mais popular da Igreja e católicos, protestantes, espíritas e ateus se sentem tocados pelo Poverello de Assis.

Em seu diário de viagem pela Itália, Fanny Mendelssohn Hensel, a compositora  judia (convertida ao protestantismo), confessa em sua passagem por Assis, no ano de 1832, que quase virava católica por causa de Francisquinho.

Mas seria possível explicar essa capacidade universal e atemporal de arrebatar almas, que tem Francisco?

Não sei se me arrisco a empalidecer os sentimentos que ele provoca, ao tentar fazer algumas reflexões a respeito.

Estamos em plena Idade Média, mas nesse momento, está nascendo o capitalismo, na sua forma primeira de mercantilismo. E Pietro Bernardone é justamente o protocapitalista: fascinado pelo dinheiro, com empregados tingindo tecidos em condições sub-humanas de trabalho. Louco para que seu filho, à custa de guerras e ouro, se torne Conde. As Cruzadas andam à solta – intolerância, mortes em nome de Deus, invasões a terras distantes, a Inquisição está batendo à porta da história, aliás começa bem no tempo de Francisco. As mulheres andam cobertas, como andam hoje as muçulmanas e se puderem participar da vida religiosa, encerram-se em clausuras.

Neste longo período medieval, o povo analfabeto não conhece diretamente o Evangelho. As missas são em latim, mas há muitos séculos os povos europeus esqueceram o latim e desenvolverem línguas locais. Ignoram assim o que Cristo ensinou.

O povo vive na miséria, os leprosos excluídos da cidade, sem cuidados, à mercê da caridade de alguns; jamais podem ser tocados, nunca mais verão suas famílias, morrerão entre a podridão e a fome, revoltados e sozinhos.

A Igreja se interessa muito mais pelas guerras “santas”, pelo ouro da nobreza, pelo domínio do mundo do que pelos ensinos do humilde e suave Nazareno.

A natureza jazia à distância da poesia e da literatura – tudo era voltado apenas para a submissão e a glória de Deus. Apenas canções cavalheirescas dos menestréis davam um tom mais romântico à beira dos castelos, onde as damas eram também enclausuradas.

Profundos fossos sociais, enormes injustiças, por toda parte sofrimento desamparado: nem escolas, nem hospitais, numa Europa que se dizia cristã.

E nasce um menino em Assis, que iria se insubordinar contra tudo isso com graça, leveza, amor e poesia.

Primeiro, Francesco experimenta os prazeres mundanos, com a riqueza do pai; depois vai em busca da glória guerreira.

Mas dois eventos o despertam e o relembram a que viera: a sua prisão em Perugia e a voz explícita de Jesus, que o chama a reconstruir sua Igreja.

Ele tem contato com um texto do Evangelho em língua vulgar – coisa considerada alta subversão na época (uma forma do povo não conhecer que a sociedade estava estruturada em total oposição aos princípios igualitários e fraternos do Mestre). E será ele a escrever a primeira obra literária do que viria depois a ser a língua italiana:  o Cântico do Sol é em vulgar. Antes de Dante, Francesco inaugura o italiano.

Sua primeira regra – que não será aceita pelos próprios franciscanos e pela Igreja – é em língua vulgar e, em sua maior parte, uma repetição pura e simples de mandamentos de Jesus.

Era como uma revivescência refrescante e confortadora das palavras do Mestre – um apelo direto ao coração cansado do povo e um ideal de vida pura para a juventude enojada do sangue das guerras.

Francesco provoca uma revolução. Arrasta a juventude de Assis e inclui as mulheres, com Chiara e suas amigas – que a princípio começam a viver junto dos primeiros amigos de Francisco. Inédito na Idade Média: mulheres misturadas com homens, cuidando de leprosos, andando pelas ruas, sem a tutela de maridos e pais. Um escândalo. A história oficial da Igreja trata de abafar esse episódio e diz que Chiara foi desde o início uma enclausurada. Mas Jacques Le Goff e Inácio Larrañaga refutam essa versão arrumadinha e comportada, dentro dos padrões impostos pela Igreja.

Francesco e seus companheiros e companheiras invertem a ordem das coisas: fazem da Igreja de Porciuncula um abrigo para os pobres, cuidam dos leprosos, tocando-os, abraçando-os, sobretudo devolvendo-lhes a fé e a dignidade.

A comunidade primeira dos franciscanos é alegre, é jovem, é livre, é pura…

Um libelo contra a sociedade hierarquizada, pesada, sangrenta de então. Mas um libelo amoroso, que não condena.

Aliás, esse é o encanto de Francesco. Ele exemplifica, sem arrogância. Ele mostra de forma concreta (através de atos dramáticos e simbólicos, como o despir-se publicamente ou a criação do presépio) um amor infinito por todos. Socorre os pobres, tocando os ricos. Se faz um frade despojado, falando sem rancor com papas e cardeais. Conversa com os pássaros, mas também amansa os lobos. Deixa marcas profundas em todos, por sua poética simplicidade, ardente sinceridade e amor sem condições.

Le Goff mostra em sua biografia magistral o quanto a Igreja se empenhou em arrumar a história de Francisco dentro dos seus cânones, chegando a destruir narrativas originais. Fizeram dele um santinho melado, bem obediente às ordens papais.

Mas não foi assim. Francisco fez uma revolução pacífica, amorosa, apenas para dizer e mostrar uma coisa: é possível viver o Evangelho em sua radicalidade, de fraternidade, de desapego, de amor – o que contrastava e contrasta até hoje com as sociedades que se dizem organizadas, dentro da herança ocidental cristã.

Nascia um mundo, em que o principal deus seria o dinheiro. Francesco renuncia a tudo e proclama: a pobreza é a liberdade. Homens e mulheres de sua época responderam ao seu chamado. E até hoje, sua é mensagem atual, tocante, transformadora!

Salve, Francisquinho!


Crianças, Maria e o jargão do autoamor

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Hoje é dia das crianças, mas também é dia de Maria, símbolo da maternidade, na sua manifestação negra e brasileira de Nossa Senhora de Aparecida. Crianças precisam de mães Maria e Maria é uma inspiração para mães sensíveis, que tenham vínculo com a tradição cristã.

Mas quero refletir sobre isso, lançando alguma luz sobre uma ideia, o autoamor, que virou uma febre no ramo da autoajuda, seja ela católica, budista, espírita ou laica – pois como a autoajuda vende bem, ela está em toda parte e virou discurso comum da ala da espiritualidade light, que anda sendo semeada em nossos tempos de superficialidade.

Obviamente, uma pessoa saudável, com psiquismo minimamente equilibrado, terá seu autocuidado – o que implica desde cuidados de higiene e alimentação a cuidados psíquicos e financeiros. Ou seja, é necessário, útil, bom que cuidemos de nós mesmos, que tenhamos respeito por nossas necessidades.

Os grandes mestres da espiritualidade (me refiro aos grandes mesmo) sempre pensaram assim e não foram pessoas que maceraram o corpo e usaram de qualquer tipo de autoflagelação, nem física, nem psíquica. Jesus ensinou que é preciso amar ao próximo como a si mesmo. Buda, depois de passar por uma fase de ascetismo exagerado, afirmou que o ideal seria o caminho do meio. Nem ascetismo, nem hedonismo. No Evangelho segundo o Espiritismo, também se condena o autoflagelo e se diz que o ser humano tem que ser do bem, como “homem do mundo”, usufruindo moderadamente dos bens que a civilização oferece.

Nesse sentido, nenhum grande mestre e nenhuma grande tradição espiritual, em sua essência, cai no fanatismo da anulação da pessoa humana, nem no moralismo da repressão de todos os prazeres terrenos. Quem faz isso são os que, em todas as tradições, fazem leituras extremistas e na verdade querem dominar consciências, que devem sempre permanecer autônomas para se autogovernarem, sem necessidade de imposições externas.

Entretanto, também todas as tradições espirituais – inclusive a espírita – enfatizam a abnegação, a doação de si, o desapego aos próprios interesses, aliás o amor ao próximo, como princípio máximo da lei divina.

Em nossa sociedade, porém, ferozmente individualista e narcísica, fortemente hedonista e predominantemente materialista, doar-se, abnegar-se, sacrificar-se por alguém são atitudes menosprezadas, esquecidas e consideradas até de mau gosto. Vivemos cercados de adultos infantilizados, incapazes de assumir responsabilidades com o outro.

Entra o discursinho ralo da autoajuda: o do autoamor, que nunca vejo acompanhado do amor ao próximo, como fazia Jesus. O resumo desse discurso, o subtexto que está por trás dele é: primeiro tenho que atender aos meus interesses, aos meus desejos, ao meu desenvolvimento pessoal (e entra aí fortemente a busca da prosperidade pessoal) e se sobrar alguma coisinha para o próximo, tudo bem. Ou ainda, eu me amo e o resto que se dane!

Porque o que se vê socialmente é um estímulo a esse tipo de atitude.

Ora, na vida, claro que que temos que atingir um modo de existir independente e autônomo, mas… sempre dependemos uns dos outros e há momentos na existência em que dependemos totalmente dos outros. São os momentos de maior vulnerabilidade por que todos os seres humanos passam: a infância (sobretudo os primeiros anos), a doença, a velhice e a morte.

Quando estamos nessas fases, precisamos de pessoas que nos amem e que nesse momento pensem mais em nós do que nelas. Uma mãe, por exemplo, e de preferência o pai também,  no primeiro ano de vida de um filho, precisa pensar muito mais na criança do que nela própria. Aliás, o nascimento de uma criança, eu digo isso sempre, mexe com o egoísmo dos adultos. Somos convocados a sair de nosso umbiguismo, para atender às necessidades do bebê, que requer absolutamente tudo. Precisamos estar numa atitude madura de responsabilidade e não cabe sermos crianças cuidando de outras crianças, como o que acontece muito por aí.

Para driblar esse conflito entre a necessidade dos vulneráveis e dependentes e a necessidade de sobrevivência material ou a tendência ao individualismo que jamais cuida de ninguém, a sociedade oferece o caminho da terceirização: berçários, escolas em período integral, creches, casas de repouso para idosos, babás, cuidadores profissionais etc. Muitas mães e pais gostariam de cuidar mais e estar mais com seus filhos, mas não podem, porque precisam trabalhar. A sociedade não valoriza esse tipo de trabalho de cuidar dos seus e por isso não favorece isso. Muitas mães e pais poderiam cuidar mais e estar mais com os filhos, mas não querem, porque são atraídos para essa vida louca de sucesso profissional e ganhos monetários.

O mesmo se refere aos idosos, aos doentes. Ninguém tem tempo, ninguém tem paciência, ninguém tem vontade de cuidar, de estar junto.

Mas, temos de ter tempo para cuidar de nós. De fazer academia, de viajar, de namorar, de postar no Face que estamos no auge da felicidade, leia-se, prosperidade e fruição dos prazeres da vida.

O discurso do autoamor aí entra como brilhante justificativa e estímulo.

Nunca ouço os arautos desses discursinhos falarem sobre temas como compaixão, dedicação, abnegação, amor devotado…

E assim vamos caminhando para uma sociedade em que adolescentes estão se automutilando, tentando e muitas vezes conseguindo se suicidar; uma sociedade em que velhos morrem sozinhos em apartamentos inóspitos, e cujos corpos só são encontrados meses depois (recentemente houve uma reportagem a respeito na Espanha).

Por isso, quis relacionar o meu texto de hoje, lembrando das crianças, esses seres de ternura, de emoção e de amor, que precisam da nossa presença, de nossos cuidados plenos e lembrando de Maria, mãe de Jesus, cuja imagem representa justamente esse amor de entrega, sem reservas, que não está presente nessa fala rala do autoamor de hoje.


Meu encontro com a Psicanálise – I

Spirit of Parenting

Esse tema daria e, quem sabe, ainda dará um livro, por sua extensão e necessário aprofundamento. Mas quero deixar aqui algumas breves reflexões, que anunciem próximos desdobramentos.

Minha relação com a Psicanálise, que já havia folheado superficialmente, era de uma ambígua curiosidade, com rejeições pré-concebidas. Quando fiz meu trabalho na USP sobre Pestalozzi, deparei-me com uma tese de doutorado, feita na Alemanha, que sugeria a interessante ideia de que o educador suíço tinha intuído alguns conceitos que seriam depois propostos por Freud. Coloquei isso na dissertação de mestrado, depois publicada em meu livro Pestalozzi, Educação e Ética, e ficou por isso mesmo.

A corrente inaugurada por Freud me afastava por seu confesso materialismo e eu, como espírita e, portanto, espiritualista, considerava que suas premissas positivistas do século XIX levariam necessariamente a um entendimento equivocado do inconsciente. E mais, talvez mais do que o materialismo, me desencantava o pessimismo de Freud em relação ao ser humano. Esse traço de suas obras, sobretudo das últimas, como O Mal-estar da Civilização, é admitido mesmo por seus seguidores. Para ele, as forças destrutivas do ser humano poderiam acabar com o processo civilizatório e até com a espécie humana.

Agora, entretanto, em plena maturidade física e intelectual, fui me debruçar mais seriamente sobre a Psicanálise, num excelente curso de formação em Campinas-SP e em leituras mais aprofundadas de Freud em alemão e de alguns de seus mais interessantes discípulos, como Melanie Klein, Winnicott e Bion. E confesso que estou apaixonada e com diversos clarões mentais, prontos a gerarem reflexões, escritos e práticas.

O conceito de Id em Freud, com suas pulsões de vida e de morte, com sua dimensão de sem tempo, sem lógica, sem moral e sem palavras, é uma ferramenta de entendimento para abordarmos as obscuridades do comportamento humano, com suas perversões, violências, impulsos irracionais e destrutivos.

A ideia que está presente nos autores espiritualistas, como Platão, Comenius, Rousseau e Pestalozzi, de que temos uma divindade imanente – coisa totalmente rejeitada pela Psicanálise – não exclui a presença desse inconsciente pulsional, de desejos inconfessáveis pela moral estabelecida pela sociedade e que corresponde bastante ao estado natural de Pestalozzi, na sua teoria dos três estados.

O que essa descoberta do Id nos faz, mesmo que estejamos convencidos da nossa divindade em potencial, é nos jogar no chão da realidade de nós mesmos e da humanidade em geral. Isso nos dá uma espécie de humildade e nos faz solidários com o pior criminoso ou o mais pervertido dos seres humanos. Porque os desejos irracionais, perturbadores, inconfessáveis podem estar tanto em nós quanto naqueles que lhes dão vazão. Para a teoria de Freud, aqueles que dão vazão, contrariando os necessários limites sociais, não estruturaram devidamente um ego saudável e um superego forte para conter dentro dos domínios dos sonhos – onde matar por exemplo, é permitido – aquilo que não pode ser posto em prática na civilização.

Esse dado é muito importante para nos vacinarmos contra o moralismo hipócrita que muitas pessoas religiosas adotam como forma de comportamento. Escamoteiam elas esse lado obscuro, passando a um julgamento altivo daqueles que manifestam esses impulsos, que todos nós temos – e reprimem seus desejos, mas eles não estão anulados, apenas disfarçados.

Para as propostas espiritualistas, a transcendência é o acordar da divindade interior, para que não queiramos apenas prazeres que contentem nosso Id, mas felicidade que satisfaça nossa alma. Num certo sentido, é o que Freud chamou de sublimação, embora ele não reconhecesse essa dimensão do Espírito. Mas seria possível, para ele, transformar essa energia pulsional em cultura e civilização, em produção intelectual ou artística.

O que considero interessante aqui é que aquilo mesmo que faz da teoria psicanalítica algo um tanto pessimista – quase sem redenção para o ser humano, que sempre ficará aprisionado entre os desejos do Id e a repressão do Superego – é o que a torna humanista, no sentido de compreender a fragilidade humana e acolhê-la sem julgamento.

Alguém que se torna abusivo, agressivo, destrutivo ou perverso não tem uma natureza diversa do santo. Seu psiquismo não foi bem constituído, quebrou-se no caminho, não se fez de maneira adequada. E o psiquismo de algum suposto santo pode ser de alguém que está escondendo muita coisa. A psicanálise assim pode nos levar a menos julgamento dos que “caem” e nos prover de mais desconfiança dos que são idolatrados (ou idealizados?).

Isso nos lembra quem? Um outro judeu, conhecido como Jesus: “não julgueis para não serdes julgados”. “Não me chameis de bom, pois só Deus é bom.”

Mas uma visão espiritualista, por outro lado, nos faz ver que há verdadeiros “santos”, no sentido não sobre-humano, mas da transcendência real, da bondade sincera, do amor aniversal e não apenas na repressão superficial. Afinal, o mesmo mestre judeu falava: “Vós sois deuses!” Ele mesmo foi alguém que realizou plenamente a divindade: “eu e o Pai somos um!”

Outra coisa que fala à minha alma de educadora é que na Psicanálise está a maior fonte de observações e evidências – e é uma ciência que vem se desenvolvendo e aprofundando há cem anos – do quanto a primeira infância é determinante para a saúde psíquica do indivíduo, do quanto as funções materna e paterna são vitais para o desenvolvimento do psiquismo da criança. A maternagem, o afeto, o investimento psíquico do ser em formação, garantem uma vida com muito menos possibilidades de adoecimento psíquico e comportamentos antissociais. E considero que a maior contribuição nesse setor é de Winnicott, que tem um diálogo incrível e profundo (que pretendo demonstrar num futuro breve) com Pestalozzi.

Esse encontro, portanto, com a Psicanálise, me fez mais realista, mais pé no chão e mais fincada naquilo que defendo como uma educação amorosa e presente.

Mas há uma discrepância entre a Psicanálise e os clássicos da Educação com que trabalho, no desdobramento do processo educativo como um todo. Para Freud, o superego – que é o domínio da lei, das regras sociais, dos pais introjetados, é a única fonte da moralidade humana. Ou seja, estamos em permanente contradição interna, entre nosso Id desejante e nosso Superego repressor. Cabe ao coitado do Ego administrar a situação, sempre incerta e dolorosa – por isso somos todos neuróticos. Ora, a educação tem, portanto, uma função meramente disciplinadora – a partir da castração, ante o complexo de Édipo. No início, afeto, investimento psíquico, para sua majestade, o bebê. Mais adiante, a lei, a regra, a introjeção da moral social.

Mas quando temos aquela perspectiva que inclui a dimensão da espiritualidade e do conceito da divindade humana, há uma esfera de moralidade intrínseca no ser, radicada na alma imortal. E é essa que deve ser acionada, tocada, despertada na educação moral.

Nesse ponto, educar, segundo Sócrates, Rousseau ou Pestalozzi, não é introjetar uma moral social que entra em conflito com os impulsos profundos do ser humano, mas sobretudo fazer brotar uma consciência mais profunda, aquela que deseja algo mais alto e mais sublime, do que o impulso cego do Id.

Quando se fala então hoje em dia a cada duas palavras sobre Educação, em imposição de limites, pensa-se a partir dessas premissas psicanalíticas, que nesse sentido possuem talvez um parentesco com o imperativo categórico de Kant. O filósofo iluminista considerava que o ser humano tem um “mal radical”, quer dizer algo de escuro enraizado em sua natureza. E por isso, a moral deveria se autoimposta como um dever, que ele chamou de imperativo categórico, causasse bem-estar ou não, ao praticante do ato moral correto. Essa autoimposição moral, na teoria freudiana, se dá pelo superego, que também controla e coloca freios à manifestação do ID. Aquele processo para Kant seria totalmente racional, portanto consciente. Para Freud, não necessariamente: o ID é totalmente inconsciente; o Superego pode atuar em parte consciente e em parte inconscientemente. O que importa demonstrar é que tanto na teoria kantiana, quanto na freudiana, a moral é extrínseca, embora internalizada para Freud, e embora autolegislada para Kant, e leva o ser a contradizer seus impulsos, inclusive, contrariando, desviando ou, compensando, segundo Freud, o princípio básico que nos move, que é o princípio do prazer.

Já numa visão espiritualista, essa contradição de si é vencida pela real transcendência e pelo encontro de um Ego superior, se assim podemos nos expressar (não vou aqui invocar a teoria de Jung, com o Self). E a educação não pode se limitar a dar limites – aliás, deve transcender esses limites impostos, criadores de conflitos e repressões, para acordar uma alma com a moralidade intrínseca que possui, como herdeira da divindade.

Outras reflexões – e há muitas – ficarão para próximos textos.