Arquivo do mês: maio 2022

Diário da mama 4 – Anúncio do Calvário

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Será excessivo chamar de calvário a previsão de 5 meses de quimioterapia, depois cirurgia e depois rádio? Sei que há muita gente que passa por calvários mais longos, mais torturantes e que parecem sem fim, mas para mim, esse prenúncio me fez tremer nas bases. Assim foi a orientação da equipe do AC Camargo, depois da análise do meu caso.

Nessa semana, passei longas horas no hospital, entre consultas, exames e orientações. Saí carregada de papeis, com um calendário cheio para os próximos dois meses, não só para as aplicações de químio, mas também para profissionais da equipe multidisciplinar: nutricionista, psicólogo (apesar de já estar fazendo terapia por conta própria), endócrino, a enfermagem que acompanha a químio… tudo muito organizado, assertivo, acolhedor.

Mas também desanimador. Quando lemos e ouvimos sobre os efeitos colaterais da droga, agressiva, avassaladora, que vai fazer cair o cabelo, descamar a pele, abaixar a imunidade, que pode mexer com o intestino e o estômago, que pode causar neuropatia e até atacar o coração… meu Jesus Cristinho, é muito veneno sendo injetado em nosso corpo! E não há alternativa, à esperança de que esse ataque diminua o tumor e a operação possa ser menos invasiva e causar menos danos.

Mas o chão parece faltar. Racionalmente sabemos que nem todos os efeitos estarão presentes, que cada pessoa é uma pessoa (embora eu tenha o fator complicador da diabete), mas sempre nos perguntamos: e se eu for aquela pequena parte da estatística que teve a sequela mais grave?

E o chão parece faltar também em relação ao trabalho: será que darei conta de me cuidar, de descansar, de realizar tudo o que é inadiável e necessário para a minha sobrevivência?

Então é a hora da entrega, da confiança, da oração e do colo dos que nos amam. A onda de desânimo vem e depois se esvai. Vamos enfrentar no plural, porque tenho muita gente comigo, desse lado e do outro lado da vida.

O calvário se inicia dia 26 de maio e se até Jesus disse do Horto: “Pai, afasta de mim esse cálice, mas faça-se a tua vontade e não a minha”, então também posso me mostrar hesitante e vulnerável, lembrando que Ele está comigo e que milhões de mulheres, como eu, já passaram ou estão passando por isso… Estamos juntas.

Um instante

Um trecho da estrada escureceu

E assombra-me que a lua se escondeu.

Parece que a poesia se faz rala

E uma nesga de fel me avassala…

Que será que Deus quer comigo

Nesse instante fugaz de desabrigo?

Que há de certo num poema

Que na garganta se entala?

Fecho os olhos, respiro,

Procuro no alto da montanha

Um fôlego, um retiro

Que me acuda nessa dor tamanha…

E aí estás, coração divino,

Em que doce, me reclino…

Coração que se espraia no universo inteiro

Que é sólido, fagueiro,

Infinito luzeiro

Para inundar de paz

O minuto passageiro…


Diário da mama 3 – Desafios

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Com todos os exames nas mãos, estive colhendo a opinião de dois médicos, um médico do Einstein e a chefe da mastologia da AC Camargo. Acompanhada de primos, meus queridos Ana e Fábio, minhas amigas-irmãs, as duas Claudias (Gelernter e Mota), e meu pai, senti-me cercada por um séquito de amor e sustentação.

A notícia que me aliviou é que não terei de tirar a mama, mas apenas um quadrante. As notícias que me pesaram são as que já se sabe, mas que quando se anunciam, sempre assombram: a cirurgia, o dreno, a longa químio, com todos os seus horrores.

Apesar de todo mundo achar uma maravilha a medicina de hoje, com seus avanços tecnológicos, eu – que já quis ser médica na primeira juventude e desisti porque não queria o horror de dissecar cadáveres – euzinha acho a medicina ainda uma barbárie. Uma medicina que tira pedaços, que serra o tórax, que usa pinos e ruelas, que para curar algo provoca mil efeitos colaterais…Uma medicina enfim que vê o corpo como um mecanismo material apenas, sem conhecer suas conexões com o espírito, sem adentrar seus aspectos energéticos! Mas é o que temos para hoje. E claro que, desde o tempo das sangrias e dos purgantes, evoluiu muitíssimo. E temos que recorrer a ela com confiança, porque nesse meu caso, ela cura.

Pelo menos, o hospital em que decidi fazer o tratamento, AC Camargo, tem algumas coisas que me agradam muito: equipes multidisciplinares e humanismo.

No dia seguinte à consulta, passei angustiada. A perspectiva dos próximos meses, as idas e vindas entre São Paulo e Bragança, com a cirurgia, as químios, a rádio, tudo isso de repente se agigantou em meu peito, como uma aluvião de medos. Não duvido de que ficarei curada desse câncer. Mas o processo de cura é doloroso e longo para o meu gosto. Pode ser que depois de tudo ter passado, as coisas me parecerão ter sido rápidas.

Procurei pelos recursos de sempre: falei com pessoas queridas, que me confortaram e me apoiaram, fiz uma consulta com a endócrino que me trata há anos da diabete e que já teve um câncer de mama – e ela me deu bons e úteis conselhos – orei, recebi visitas espirituais e fiz poesia. E o coração se desanuviou. Enfrentemos o que virá e… encaremos um dia de cada vez – a frase que mais tenho escutado desde o anúncio do câncer, ou como dizia Jesus, a cada dia seus cuidados.

Durante a oração da noite, entrei em conexão profunda com Jesus e senti uma paz doce e infinita. É uma presença real, que nos conforta e acalenta. Ele também experimentou o que é viver, sofrer e morrer nesse corpo que carregamos na Terra e compreende as nossas fragilidades. E prometeu estar conosco até o final dos tempos.

Depois de um dia ruim, brotou um poema de profunda paz:

 

Ao Espírito do Mestre

 

Não sou digna que entres em minha casa…

Mas aqui estás, bem assim,

Trazendo no colo um jasmim,

Olhando-me com olhos de amor sem fim…

 

Estás aqui, ombro a ombro,

Desfazendo todo assombro

Das dores no coração…

Tudo se torna mais leve

Tal como pena breve

Que em nossa alma já inscreve

A trilha de nossa ascensão.

 

Não mais a sombra da noite

Mas a luz do pleno dia

Não mais o íntimo açoite,

Mas a perfeita alegria.

 

E mesmo se a noite escura

Se faz em certa jornada,

Teus olhos, estrelas puras

Nos conduzem pela estrada.

 

Ah mestre, irmão dos séculos

Que prometeste estar

Ao nosso lado no mundo,

Que amor teu, tão profundo,

Para sempre peregrinar

No meio de nossas dores,

Descendo de todo altar!

 

Quero apenas segurar

Nas mãos serenas da alma

Esse momento perfeito

De inteiro silêncio e calma

Em que me achego em teu peito

Em que em ti tenho meu lar!