Arquivo do mês: novembro 2012

Crônica familiar: meu avô faria 100 anos

Hoje, meu avô Chiquinho faria 100 anos. E eu resolvi homenageá-lo aqui, porque fazemos bem em homenagear os afetos autênticos, as pessoas que marcam nossas vidas, os homens e as mulheres comuns, mas especiais, que anônimos, deixam algo de bom no coração dos que conviveram com eles.

Meu avô, Francisco Beraldi, que carregava um nome ao mesmo tempo tão elevado e tão popular, era um homem simples. Filho de imigrantes italianos, saiu de casa aos 12 anos, para trabalhar.

Era pouquíssimo letrado, fez só até o segundo ano primário. Mas considerava muito a importância do estudo e da cultura. Gostava de ler, apoiava quem da família quisesse estudar, comprava livros para quem pedisse. Para mim, o incentivo que me deu foi determinante. Lembro aos 15 anos de idade, um presente mais do que precioso: as obras completas de Tolstoi em papel bíblia – os únicos livros em que minha avó escreveu a dedicatória e ele assinou. Qualquer livro que eu quisesse, ele me comprava. Não só, como desde os 13 anos de idade, eu era fanática por ópera, ele também me presenteava com os discos de vinil com óperas de Verdi e Puccini.

Depois, quando lancei meus primeiros livros, muito jovenzinha, entre 18 e 20 anos de idade, ainda em produção independente, sem editora, foi ele que financiou as edições. E não só: me levava de carro até o Belenzinho, para verificar as múltiplas provas. Naquela época, o livro ainda era feito com linotipo, não havia nada digital, nada de computador… Escrito em máquina de escrever, era preciso corrigir as provas muitas vezes, porque a gráfica consertava um erro e fazia outros no lugar. Isso era no comecinho dos anos 80.

Não que ele fosse um homem rico para financiar essas coisas. Longe disso. Tinha trabalhado muito e guardado algumas parcas economias. Mas isso nunca o impediu de ajudar um filho ou um neto que precisasse. Na cama, no final da vida, ainda se preocupava com alguma filha ou neta em dificuldade e mandava pagar isso ou aquilo, transferir dinheiro de sua conta ou socorrer alguma emergência.

Mas, contava minha mãe, que ele a vida inteira tinha sido assim, de ajudar todo mundo. Trazia sobrinho, filhos de amigos, para morar em casa; emprestava dinheiro se tivesse (e não era sempre que tinha)…

O mais incrível que hoje reconheço nele é que nunca eu ouvi de sua boca qualquer cobrança, qualquer crítica às pessoas a quem havia ajudado. (O que mais observo na vida é gente ajudando sempre com condições humilhantes, sempre jogando na cara o que fez, sempre exigindo coisas em troca).

Isso tudo não quer dizer que fosse santo. Tinha sangue calabrês e por isso era bravo. Mas dessa braveza inofensiva, que podia render um dia de cara feia, mas depois de se desanuviava. O seu maior problema era a relação com minha avó, que sofria daquelas patologias machistas da época. O homem podia tudo e a mulher nada. Muita briga, muita ciumeira. Mas depois dos 50 anos de idade, ele se aquietou e, apesar das brigas terem persistido sempre, cuidou dela até o fim – ela com Alzheimer.

O que de tudo ficou mais forte de herança em mim – hoje reconheço – é a sua relação italiana com a comida: dar importância ao ato de comer como um ato sagrado, em que a família deve se reunir em torno da mesa, para celebrar. E mais, que cozinhar para alguém é uma prova de amor. Chiquinho Beraldi era um cozinheiro de mão cheia: pães, massas, pastéis, berinjelas de todo o jeito – tudo fazia na mão, de forma artesanal. Levantava 6 horas da manhã para fazer o almoço em família. E eram travessas e mais travessas de delícias. E visita sempre levava alguma coisa para casa.

Esse cozinhar não era de receitinhas fechadas, mas de improvisação, de ter mão e nariz afinados, para a medida certa. Como italiano do sul, muito alho, muito azeite, muita alice (anchova). E muito prazer em fazer e em comer. Itália pura.

Sua relação com a espiritualidade era também muito interessante. Não tinha estudo, mas aceitava de forma natural, singela, os fenômenos espíritas. Contava sempre ter assistido a materializações do Padre Zabeu (sessões realizadas em São Paulo, na  década de 50) e via Espíritos corriqueiramente, sem medo, sem trauma, sem se impressionar muito.

Foi pena que perdemos as provas materiais de um fenômeno que se deu com ele na velhice, já no final da vida. Começamos a notar que quando ele dormia, fosse de noite ou tirava seus cochilos à tarde, ele falava em outra língua, que não conseguíamos identificar. Depois, ele acordava geralmente cansado e dizia ter sonhado que estava andando, andando…

Um dia, meu primo Paulo e eu resolvemos gravar o que ele falava durante o sonho (naquele tempo com fita cassete e gravadorzinho de mão). Pareceu-nos que era alguma língua árabe e conseguimos, através de alguns conhecidos, encaminhar a fita para o consulado sírio. Eles analisaram a gravação e o resultado foi que se tratava de um dialeto dos beduínos do deserto e o conteúdo era sobre uma longa viagem sobre as areias ardentes do deserto! O que havíamos gravado combinava com o conteúdo dos sonhos que meu avô contava!

Essas são algumas lembranças carinhosas do meu avô. Cada filho, cada neto, cada familiar terá as suas. Compartilho as minhas, para dizer o quanto é importante e bom o afeto familiar, a presença de pessoas marcantes, que se doam para nós, sem nada exigir. Que meu avô Chiquinho esteja bem do outro lado da vida e que toda criança, adolescente e jovem possam ter algum avô ou alguma avó assim.

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