Arquivo do autor:Dora Incontri

Réquiem para a democracia brasileira

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Era ainda uma menina
Nunca cresceu inteira
Sempre atropelada
Por golpes e ditaduras
No sangue das torturas.
Criança abusada, comprada
Que sempre fez as vontades
Dos senhores da casa grande.
Mas mesmo pelas metades
Dava ainda uma esperança
De não mais morrer criança.

Passados só 20 anos
De uma nova tentativa
De não ir mais à deriva
Eis que de novo os amos
Dos antigos engenhos
Mostram os dentes ferrenhos
De mãos com a velha vadia
Dessa mídia sempre a postos
Para trair a verdade!
Eis que de golpe em golpe
Vão matando essa menina
A fraca democracia.
Ameaçada pela bala
Pela Bíblia (quem diria?)
Pelo antigo latifúndio
Pela caserna fardada
E pelo abismo profundo
Entre a mansão e a senzala!
Os mandantes usam toga
Ou então traficam droga
Ou habitam o hemisfério norte!
E com cínica maestria
Tripudiam sobre a justiça
Rasgando a soberania,
Decretando a pátria morte!

Invoco o poeta mulato
Que exclamava estupefato
“E existe um povo que a bandeira empresta
Para cobrir tanta infâmia e covardia!”
E a musa lhe chorava a escravidão.

Ainda sob essa bandeira enxovalhada
Geme e chora a multidão.
Cada vez mais sem socorro e educação!

Chora a musa, chora Castro Alves
Chora Paulo Freire, chora Chico Mendes
Chora esquartejado Tiradentes,
Chora Anísio, Darcy e tantas gentes
Que sonharam justiça e liberdade!

Choram as desaparecidas, as torturadas
Choram Marielle e Dorothy assassinadas
Choram os guerreiros e as guerreiras
Que carregaram já amarfanhadas
As mais justas e mais altas bandeiras!

E nós que aqui estamos, o que faremos?
Chorando, resistiremos!
Indignados, avançaremos,
Fortes, jamais nos dobraremos!

Um dia a justiça se erguerá
E o amor soberano se fará!

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Ode às mortes inocentes e indecentes (Crianças da Síria e Marielle Franco – presentes!)

Marielle

Será que vale poetar

A morte de um inocente?

Será a poesia um alívio

À revolta que se sente?

 

Quantos milhares de versos

Há que se tecer no mundo

Para explodir em poesia

Um grito de horror profundo?

 

Numa Síria em convulsão

São crianças massacradas,

E nas escolas da América

São crianças fuziladas.

 

São mulheres violentadas,

São negros que morrem mais,

Em toda parte a injustiça

Despedaça a nossa paz!

 

É Marielle que morre!

Nove tiros sem piedade!

Extinta uma voz de luta

Pela paz, pela igualdade!

 

Apesar de meus irmãos,

Os homens que querem paz,

De Jesus, Francisco, Gandhi

Mostrarem como se faz,

 

Preciso dizer que a guerra,

A violência e a injustiça

São obras do homem macho

Que o sangue no mundo atiça.

 

Os exércitos que matam?

A polícia que tortura?

Os governos em confronto?

Corrupção, ditadura?

 

Tudo ou quase tudo é obra

Da virilidade bruta,

Que quer trucidar veados,

E trata a mulher por puta.

 

O mundo ainda se move

Por estruturas brutais!

Foi a história que se fez

Em milênios patriarcais.

 

Eduquemos pois meninas

Delicadas e guerreiras,

Maternas e lutadoras,

Filósofas e parteiras!

 

Mas eduquemos meninos

Convictos na compaixão,

Sem vergonha de pensar

Também com o coração!

 

Meninos que se recusem

A fabricar armamentos,

A lucrar com a desgraça

E a reprimir sentimentos.

 

Homens que jamais aceitem

Bombardear um país,

Atirar numa criança,

Fazendo o mundo infeliz!

 

Homens que saibam enfim

Que tem em si luz divina!

E que em seu ser imortal,

Há uma parte feminina!

 

Saibam todos que Deus pai

É também Deusa materna,

E devemos caminhar

Para uma irmandade eterna!

 

Homens, mulheres do mundo!

Sejamos todos mais ternos,

Abrindo a trilha ao futuro

Com humanos mais fraternos!

 

Não deixemos que essas mortes

Tenham todas sido em vão!

Semeemos nesse mundo

Um pouco de coração!

 


O Francesco que me (nos) toca a alma

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A figura histórica que mais me comove, depois de Jesus, e justo por ser o mais próximo dele, o que melhor manifestou seu amor é Francesco, Francisco, Francisquinho…

Reler sua história, orar seu Cântico do Sol, assistir filmes sobre ele (meus proferidos e insuperáveis são Irmão Sol e Irmã Lua, de Zeffirelli e Francesco, de Liliana Cavani), simplesmente lembrar-me de sua figura, derrete meu coração…

Não é algo só meu. Ele é o santo mais popular da Igreja e católicos, protestantes, espíritas e ateus se sentem tocados pelo Poverello de Assis.

Em seu diário de viagem pela Itália, Fanny Mendelssohn Hensel, a compositora  judia (convertida ao protestantismo), confessa em sua passagem por Assis, no ano de 1832, que quase virava católica por causa de Francisquinho.

Mas seria possível explicar essa capacidade universal e atemporal de arrebatar almas, que tem Francisco?

Não sei se me arrisco a empalidecer os sentimentos que ele provoca, ao tentar fazer algumas reflexões a respeito.

Estamos em plena Idade Média, mas nesse momento, está nascendo o capitalismo, na sua forma primeira de mercantilismo. E Pietro Bernardone é justamente o protocapitalista: fascinado pelo dinheiro, com empregados tingindo tecidos em condições sub-humanas de trabalho. Louco para que seu filho, à custa de guerras e ouro, se torne Conde. As Cruzadas andam à solta – intolerância, mortes em nome de Deus, invasões a terras distantes, a Inquisição está batendo à porta da história, aliás começa bem no tempo de Francisco. As mulheres andam cobertas, como andam hoje as muçulmanas e se puderem participar da vida religiosa, encerram-se em clausuras.

Neste longo período medieval, o povo analfabeto não conhece diretamente o Evangelho. As missas são em latim, mas há muitos séculos os povos europeus esqueceram o latim e desenvolverem línguas locais. Ignoram assim o que Cristo ensinou.

O povo vive na miséria, os leprosos excluídos da cidade, sem cuidados, à mercê da caridade de alguns; jamais podem ser tocados, nunca mais verão suas famílias, morrerão entre a podridão e a fome, revoltados e sozinhos.

A Igreja se interessa muito mais pelas guerras “santas”, pelo ouro da nobreza, pelo domínio do mundo do que pelos ensinos do humilde e suave Nazareno.

A natureza jazia à distância da poesia e da literatura – tudo era voltado apenas para a submissão e a glória de Deus. Apenas canções cavalheirescas dos menestréis davam um tom mais romântico à beira dos castelos, onde as damas eram também enclausuradas.

Profundos fossos sociais, enormes injustiças, por toda parte sofrimento desamparado: nem escolas, nem hospitais, numa Europa que se dizia cristã.

E nasce um menino em Assis, que iria se insubordinar contra tudo isso com graça, leveza, amor e poesia.

Primeiro, Francesco experimenta os prazeres mundanos, com a riqueza do pai; depois vai em busca da glória guerreira.

Mas dois eventos o despertam e o relembram a que viera: a sua prisão em Perugia e a voz explícita de Jesus, que o chama a reconstruir sua Igreja.

Ele tem contato com um texto do Evangelho em língua vulgar – coisa considerada alta subversão na época (uma forma do povo não conhecer que a sociedade estava estruturada em total oposição aos princípios igualitários e fraternos do Mestre). E será ele a escrever a primeira obra literária do que viria depois a ser a língua italiana:  o Cântico do Sol é em vulgar. Antes de Dante, Francesco inaugura o italiano.

Sua primeira regra – que não será aceita pelos próprios franciscanos e pela Igreja – é em língua vulgar e, em sua maior parte, uma repetição pura e simples de mandamentos de Jesus.

Era como uma revivescência refrescante e confortadora das palavras do Mestre – um apelo direto ao coração cansado do povo e um ideal de vida pura para a juventude enojada do sangue das guerras.

Francesco provoca uma revolução. Arrasta a juventude de Assis e inclui as mulheres, com Chiara e suas amigas – que a princípio começam a viver junto dos primeiros amigos de Francisco. Inédito na Idade Média: mulheres misturadas com homens, cuidando de leprosos, andando pelas ruas, sem a tutela de maridos e pais. Um escândalo. A história oficial da Igreja trata de abafar esse episódio e diz que Chiara foi desde o início uma enclausurada. Mas Jacques Le Goff e Inácio Larrañaga refutam essa versão arrumadinha e comportada, dentro dos padrões impostos pela Igreja.

Francesco e seus companheiros e companheiras invertem a ordem das coisas: fazem da Igreja de Porciuncula um abrigo para os pobres, cuidam dos leprosos, tocando-os, abraçando-os, sobretudo devolvendo-lhes a fé e a dignidade.

A comunidade primeira dos franciscanos é alegre, é jovem, é livre, é pura…

Um libelo contra a sociedade hierarquizada, pesada, sangrenta de então. Mas um libelo amoroso, que não condena.

Aliás, esse é o encanto de Francesco. Ele exemplifica, sem arrogância. Ele mostra de forma concreta (através de atos dramáticos e simbólicos, como o despir-se publicamente ou a criação do presépio) um amor infinito por todos. Socorre os pobres, tocando os ricos. Se faz um frade despojado, falando sem rancor com papas e cardeais. Conversa com os pássaros, mas também amansa os lobos. Deixa marcas profundas em todos, por sua poética simplicidade, ardente sinceridade e amor sem condições.

Le Goff mostra em sua biografia magistral o quanto a Igreja se empenhou em arrumar a história de Francisco dentro dos seus cânones, chegando a destruir narrativas originais. Fizeram dele um santinho melado, bem obediente às ordens papais.

Mas não foi assim. Francisco fez uma revolução pacífica, amorosa, apenas para dizer e mostrar uma coisa: é possível viver o Evangelho em sua radicalidade, de fraternidade, de desapego, de amor – o que contrastava e contrasta até hoje com as sociedades que se dizem organizadas, dentro da herança ocidental cristã.

Nascia um mundo, em que o principal deus seria o dinheiro. Francesco renuncia a tudo e proclama: a pobreza é a liberdade. Homens e mulheres de sua época responderam ao seu chamado. E até hoje, sua é mensagem atual, tocante, transformadora!

Salve, Francisquinho!


Crianças, Maria e o jargão do autoamor

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Hoje é dia das crianças, mas também é dia de Maria, símbolo da maternidade, na sua manifestação negra e brasileira de Nossa Senhora de Aparecida. Crianças precisam de mães Maria e Maria é uma inspiração para mães sensíveis, que tenham vínculo com a tradição cristã.

Mas quero refletir sobre isso, lançando alguma luz sobre uma ideia, o autoamor, que virou uma febre no ramo da autoajuda, seja ela católica, budista, espírita ou laica – pois como a autoajuda vende bem, ela está em toda parte e virou discurso comum da ala da espiritualidade light, que anda sendo semeada em nossos tempos de superficialidade.

Obviamente, uma pessoa saudável, com psiquismo minimamente equilibrado, terá seu autocuidado – o que implica desde cuidados de higiene e alimentação a cuidados psíquicos e financeiros. Ou seja, é necessário, útil, bom que cuidemos de nós mesmos, que tenhamos respeito por nossas necessidades.

Os grandes mestres da espiritualidade (me refiro aos grandes mesmo) sempre pensaram assim e não foram pessoas que maceraram o corpo e usaram de qualquer tipo de autoflagelação, nem física, nem psíquica. Jesus ensinou que é preciso amar ao próximo como a si mesmo. Buda, depois de passar por uma fase de ascetismo exagerado, afirmou que o ideal seria o caminho do meio. Nem ascetismo, nem hedonismo. No Evangelho segundo o Espiritismo, também se condena o autoflagelo e se diz que o ser humano tem que ser do bem, como “homem do mundo”, usufruindo moderadamente dos bens que a civilização oferece.

Nesse sentido, nenhum grande mestre e nenhuma grande tradição espiritual, em sua essência, cai no fanatismo da anulação da pessoa humana, nem no moralismo da repressão de todos os prazeres terrenos. Quem faz isso são os que, em todas as tradições, fazem leituras extremistas e na verdade querem dominar consciências, que devem sempre permanecer autônomas para se autogovernarem, sem necessidade de imposições externas.

Entretanto, também todas as tradições espirituais – inclusive a espírita – enfatizam a abnegação, a doação de si, o desapego aos próprios interesses, aliás o amor ao próximo, como princípio máximo da lei divina.

Em nossa sociedade, porém, ferozmente individualista e narcísica, fortemente hedonista e predominantemente materialista, doar-se, abnegar-se, sacrificar-se por alguém são atitudes menosprezadas, esquecidas e consideradas até de mau gosto. Vivemos cercados de adultos infantilizados, incapazes de assumir responsabilidades com o outro.

Entra o discursinho ralo da autoajuda: o do autoamor, que nunca vejo acompanhado do amor ao próximo, como fazia Jesus. O resumo desse discurso, o subtexto que está por trás dele é: primeiro tenho que atender aos meus interesses, aos meus desejos, ao meu desenvolvimento pessoal (e entra aí fortemente a busca da prosperidade pessoal) e se sobrar alguma coisinha para o próximo, tudo bem. Ou ainda, eu me amo e o resto que se dane!

Porque o que se vê socialmente é um estímulo a esse tipo de atitude.

Ora, na vida, claro que que temos que atingir um modo de existir independente e autônomo, mas… sempre dependemos uns dos outros e há momentos na existência em que dependemos totalmente dos outros. São os momentos de maior vulnerabilidade por que todos os seres humanos passam: a infância (sobretudo os primeiros anos), a doença, a velhice e a morte.

Quando estamos nessas fases, precisamos de pessoas que nos amem e que nesse momento pensem mais em nós do que nelas. Uma mãe, por exemplo, e de preferência o pai também,  no primeiro ano de vida de um filho, precisa pensar muito mais na criança do que nela própria. Aliás, o nascimento de uma criança, eu digo isso sempre, mexe com o egoísmo dos adultos. Somos convocados a sair de nosso umbiguismo, para atender às necessidades do bebê, que requer absolutamente tudo. Precisamos estar numa atitude madura de responsabilidade e não cabe sermos crianças cuidando de outras crianças, como o que acontece muito por aí.

Para driblar esse conflito entre a necessidade dos vulneráveis e dependentes e a necessidade de sobrevivência material ou a tendência ao individualismo que jamais cuida de ninguém, a sociedade oferece o caminho da terceirização: berçários, escolas em período integral, creches, casas de repouso para idosos, babás, cuidadores profissionais etc. Muitas mães e pais gostariam de cuidar mais e estar mais com seus filhos, mas não podem, porque precisam trabalhar. A sociedade não valoriza esse tipo de trabalho de cuidar dos seus e por isso não favorece isso. Muitas mães e pais poderiam cuidar mais e estar mais com os filhos, mas não querem, porque são atraídos para essa vida louca de sucesso profissional e ganhos monetários.

O mesmo se refere aos idosos, aos doentes. Ninguém tem tempo, ninguém tem paciência, ninguém tem vontade de cuidar, de estar junto.

Mas, temos de ter tempo para cuidar de nós. De fazer academia, de viajar, de namorar, de postar no Face que estamos no auge da felicidade, leia-se, prosperidade e fruição dos prazeres da vida.

O discurso do autoamor aí entra como brilhante justificativa e estímulo.

Nunca ouço os arautos desses discursinhos falarem sobre temas como compaixão, dedicação, abnegação, amor devotado…

E assim vamos caminhando para uma sociedade em que adolescentes estão se automutilando, tentando e muitas vezes conseguindo se suicidar; uma sociedade em que velhos morrem sozinhos em apartamentos inóspitos, e cujos corpos só são encontrados meses depois (recentemente houve uma reportagem a respeito na Espanha).

Por isso, quis relacionar o meu texto de hoje, lembrando das crianças, esses seres de ternura, de emoção e de amor, que precisam da nossa presença, de nossos cuidados plenos e lembrando de Maria, mãe de Jesus, cuja imagem representa justamente esse amor de entrega, sem reservas, que não está presente nessa fala rala do autoamor de hoje.


Meu encontro com a Psicanálise – I

Spirit of Parenting

Esse tema daria e, quem sabe, ainda dará um livro, por sua extensão e necessário aprofundamento. Mas quero deixar aqui algumas breves reflexões, que anunciem próximos desdobramentos.

Minha relação com a Psicanálise, que já havia folheado superficialmente, era de uma ambígua curiosidade, com rejeições pré-concebidas. Quando fiz meu trabalho na USP sobre Pestalozzi, deparei-me com uma tese de doutorado, feita na Alemanha, que sugeria a interessante ideia de que o educador suíço tinha intuído alguns conceitos que seriam depois propostos por Freud. Coloquei isso na dissertação de mestrado, depois publicada em meu livro Pestalozzi, Educação e Ética, e ficou por isso mesmo.

A corrente inaugurada por Freud me afastava por seu confesso materialismo e eu, como espírita e, portanto, espiritualista, considerava que suas premissas positivistas do século XIX levariam necessariamente a um entendimento equivocado do inconsciente. E mais, talvez mais do que o materialismo, me desencantava o pessimismo de Freud em relação ao ser humano. Esse traço de suas obras, sobretudo das últimas, como O Mal-estar da Civilização, é admitido mesmo por seus seguidores. Para ele, as forças destrutivas do ser humano poderiam acabar com o processo civilizatório e até com a espécie humana.

Agora, entretanto, em plena maturidade física e intelectual, fui me debruçar mais seriamente sobre a Psicanálise, num excelente curso de formação em Campinas-SP e em leituras mais aprofundadas de Freud em alemão e de alguns de seus mais interessantes discípulos, como Melanie Klein, Winnicott e Bion. E confesso que estou apaixonada e com diversos clarões mentais, prontos a gerarem reflexões, escritos e práticas.

O conceito de Id em Freud, com suas pulsões de vida e de morte, com sua dimensão de sem tempo, sem lógica, sem moral e sem palavras, é uma ferramenta de entendimento para abordarmos as obscuridades do comportamento humano, com suas perversões, violências, impulsos irracionais e destrutivos.

A ideia que está presente nos autores espiritualistas, como Platão, Comenius, Rousseau e Pestalozzi, de que temos uma divindade imanente – coisa totalmente rejeitada pela Psicanálise – não exclui a presença desse inconsciente pulsional, de desejos inconfessáveis pela moral estabelecida pela sociedade e que corresponde bastante ao estado natural de Pestalozzi, na sua teoria dos três estados.

O que essa descoberta do Id nos faz, mesmo que estejamos convencidos da nossa divindade em potencial, é nos jogar no chão da realidade de nós mesmos e da humanidade em geral. Isso nos dá uma espécie de humildade e nos faz solidários com o pior criminoso ou o mais pervertido dos seres humanos. Porque os desejos irracionais, perturbadores, inconfessáveis podem estar tanto em nós quanto naqueles que lhes dão vazão. Para a teoria de Freud, aqueles que dão vazão, contrariando os necessários limites sociais, não estruturaram devidamente um ego saudável e um superego forte para conter dentro dos domínios dos sonhos – onde matar por exemplo, é permitido – aquilo que não pode ser posto em prática na civilização.

Esse dado é muito importante para nos vacinarmos contra o moralismo hipócrita que muitas pessoas religiosas adotam como forma de comportamento. Escamoteiam elas esse lado obscuro, passando a um julgamento altivo daqueles que manifestam esses impulsos, que todos nós temos – e reprimem seus desejos, mas eles não estão anulados, apenas disfarçados.

Para as propostas espiritualistas, a transcendência é o acordar da divindade interior, para que não queiramos apenas prazeres que contentem nosso Id, mas felicidade que satisfaça nossa alma. Num certo sentido, é o que Freud chamou de sublimação, embora ele não reconhecesse essa dimensão do Espírito. Mas seria possível, para ele, transformar essa energia pulsional em cultura e civilização, em produção intelectual ou artística.

O que considero interessante aqui é que aquilo mesmo que faz da teoria psicanalítica algo um tanto pessimista – quase sem redenção para o ser humano, que sempre ficará aprisionado entre os desejos do Id e a repressão do Superego – é o que a torna humanista, no sentido de compreender a fragilidade humana e acolhê-la sem julgamento.

Alguém que se torna abusivo, agressivo, destrutivo ou perverso não tem uma natureza diversa do santo. Seu psiquismo não foi bem constituído, quebrou-se no caminho, não se fez de maneira adequada. E o psiquismo de algum suposto santo pode ser de alguém que está escondendo muita coisa. A psicanálise assim pode nos levar a menos julgamento dos que “caem” e nos prover de mais desconfiança dos que são idolatrados (ou idealizados?).

Isso nos lembra quem? Um outro judeu, conhecido como Jesus: “não julgueis para não serdes julgados”. “Não me chameis de bom, pois só Deus é bom.”

Mas uma visão espiritualista, por outro lado, nos faz ver que há verdadeiros “santos”, no sentido não sobre-humano, mas da transcendência real, da bondade sincera, do amor aniversal e não apenas na repressão superficial. Afinal, o mesmo mestre judeu falava: “Vós sois deuses!” Ele mesmo foi alguém que realizou plenamente a divindade: “eu e o Pai somos um!”

Outra coisa que fala à minha alma de educadora é que na Psicanálise está a maior fonte de observações e evidências – e é uma ciência que vem se desenvolvendo e aprofundando há cem anos – do quanto a primeira infância é determinante para a saúde psíquica do indivíduo, do quanto as funções materna e paterna são vitais para o desenvolvimento do psiquismo da criança. A maternagem, o afeto, o investimento psíquico do ser em formação, garantem uma vida com muito menos possibilidades de adoecimento psíquico e comportamentos antissociais. E considero que a maior contribuição nesse setor é de Winnicott, que tem um diálogo incrível e profundo (que pretendo demonstrar num futuro breve) com Pestalozzi.

Esse encontro, portanto, com a Psicanálise, me fez mais realista, mais pé no chão e mais fincada naquilo que defendo como uma educação amorosa e presente.

Mas há uma discrepância entre a Psicanálise e os clássicos da Educação com que trabalho, no desdobramento do processo educativo como um todo. Para Freud, o superego – que é o domínio da lei, das regras sociais, dos pais introjetados, é a única fonte da moralidade humana. Ou seja, estamos em permanente contradição interna, entre nosso Id desejante e nosso Superego repressor. Cabe ao coitado do Ego administrar a situação, sempre incerta e dolorosa – por isso somos todos neuróticos. Ora, a educação tem, portanto, uma função meramente disciplinadora – a partir da castração, ante o complexo de Édipo. No início, afeto, investimento psíquico, para sua majestade, o bebê. Mais adiante, a lei, a regra, a introjeção da moral social.

Mas quando temos aquela perspectiva que inclui a dimensão da espiritualidade e do conceito da divindade humana, há uma esfera de moralidade intrínseca no ser, radicada na alma imortal. E é essa que deve ser acionada, tocada, despertada na educação moral.

Nesse ponto, educar, segundo Sócrates, Rousseau ou Pestalozzi, não é introjetar uma moral social que entra em conflito com os impulsos profundos do ser humano, mas sobretudo fazer brotar uma consciência mais profunda, aquela que deseja algo mais alto e mais sublime, do que o impulso cego do Id.

Quando se fala então hoje em dia a cada duas palavras sobre Educação, em imposição de limites, pensa-se a partir dessas premissas psicanalíticas, que nesse sentido possuem talvez um parentesco com o imperativo categórico de Kant. O filósofo iluminista considerava que o ser humano tem um “mal radical”, quer dizer algo de escuro enraizado em sua natureza. E por isso, a moral deveria se autoimposta como um dever, que ele chamou de imperativo categórico, causasse bem-estar ou não, ao praticante do ato moral correto. Essa autoimposição moral, na teoria freudiana, se dá pelo superego, que também controla e coloca freios à manifestação do ID. Aquele processo para Kant seria totalmente racional, portanto consciente. Para Freud, não necessariamente: o ID é totalmente inconsciente; o Superego pode atuar em parte consciente e em parte inconscientemente. O que importa demonstrar é que tanto na teoria kantiana, quanto na freudiana, a moral é extrínseca, embora internalizada para Freud, e embora autolegislada para Kant, e leva o ser a contradizer seus impulsos, inclusive, contrariando, desviando ou, compensando, segundo Freud, o princípio básico que nos move, que é o princípio do prazer.

Já numa visão espiritualista, essa contradição de si é vencida pela real transcendência e pelo encontro de um Ego superior, se assim podemos nos expressar (não vou aqui invocar a teoria de Jung, com o Self). E a educação não pode se limitar a dar limites – aliás, deve transcender esses limites impostos, criadores de conflitos e repressões, para acordar uma alma com a moralidade intrínseca que possui, como herdeira da divindade.

Outras reflexões – e há muitas – ficarão para próximos textos.


A liberdade de pensar: sem incoerência, sem dogmatismo, sem patrulhamento

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Neste mês, publiquei um artigo sobre política, fazendo uma análise da situação e da personalidade de Lula, sob vários aspectos… No artigo, me declaro anarquista, espírita e cristã. Foram mais de 220 mil visualizações, centenas de comentários, milhares de compartilhamentos e reproduções, inclusive em alguns blogs famosos como o de Luis Nassif.

Mas pareceu-me ter entrado num turbilhão e me lançado sem âncora em alto mar. Milhares de elogios, milhares de agressões.

Não me afetei emocionalmente com as agressões, porque já estou acostumada. Mas, como tudo é aprendizado, vou tecer algumas reflexões aqui sobre algumas das coisas que me escreveram.

Muitas das mais agressivas investidas eram nesse tom: “Anarquista, espírita e cristã? Interna!” E isso escrito por espíritas e por anarquistas! E porque, depois de fazer toda uma crítica a todos os partidos e a todos políticos, incluindo o PT e Lula, eu dizia que na presente circunstância eu estava inclinada a votar no Lula…se caso ele chegasse a 2018, então as agressões se multiplicaram: petralha, petista disfarçada de anarquista, idiota, ingênua etc…

Além de um problema evidente que observamos no Brasil – a dificuldade de entendimento de um texto, suas argumentações e seu fio condutor, fiquei pensando como é difícil as pessoas aceitarem que pensemos livremente, sem obedecer a uma cartilha pré-estabelecida… por exemplo, se sou anarquista, tenho que seguir todos os seus pressupostos. Se sou espírita, tenho que seguir a massa média do movimento espírita – aliás conservador em sua maioria. Mas o anarquismo permite várias leituras; o espiritismo permite várias leituras também. Não sou marxista, mas posso concordar com muitas e pertinentes leituras que o marxismo faz da economia, da sociedade… Enfim, posso pensar como me apraz, usando meu raciocínio, minha experiência de vida, meus múltiplos encontros com correntes diversas, autores diferentes.

No meio de tudo isso, devo e posso permanecer coerente, mantendo fidelidade a alguns princípios fundamentais. Por exemplo, o princípio fundamental que me impulsionou nesse artigo foi o humanismo, com o devido o respeito à dignidade humana e a repulsa a qualquer tipo de violência e abuso…

Pensar é um ato único, solitário, original, abrangente. Não é seguir um almanaque de posições, não é seguir opiniões alheias e hegemônicas.

Isso não quer dizer que gosto de saladas ecléticas e contraditórias. Aliás, acho que o fio de racionalidade deve entretecer nosso discurso, embebido em sentimentos elevados e ideais humanitários.

Por isso mesmo, a ideia da Universidade Livre Pampédia – porque nos meios acadêmicos, sobretudo nas áreas de humanidades, imperam os guetos ideológicos, onde só se entra quem estiver totalmente submisso àquela visão de mundo. Guetos marxistas, pós-modernos, lacanianos, estruturalistas, piagetianos e outros que tais. Não é sequer permitido reinterpretar os autores estudados.  É repetir suas ideias, com as palavras deles e ponto. Dizer por exemplo que o Espírito Absoluto de Hegel é uma forma de Deus panteísta é um pecado lesa-hegeliano.

Queremos um espaço de discussão realmente livre, sem agressões, sem patrulhamentos, sem repressões – em que as pessoas possam conhecer todas as formas de pensar e construir sua própria perspectiva de mundo! Um lugar de debate respeitoso e de pensamento original – que necessariamente vai se afastar das cartilhas fechadas dos dogmatismos.

Para mim, isso é ser anarquista, ser espírita, ser cristã: prezar a liberdade e a fraternidade acima de tudo. O resto é consequência.

*Texto publicado no Blog da Universidade Livre Pampédia


Lula: a visão de uma anarquista

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Nunca votei no Lula. Também não votei em Dilma. Nem em Fernando Henrique, nem em Collor. Não votei, porque sou anarquista. O que é ser anarquista? É ter consciência de que os sistemas de governo – todos, incluindo a democracia e incluindo os sistemas pretensamente socialistas que tivemos na história recente – estão sempre a serviço de alguma classe, de alguns privilegiados. O Estado é mantido pela violência militar e policial, que pode ser usada a qualquer momento contra o próprio povo ou contra outros povos. E sempre a serviço de interesses de grupos. No caso da democracia atual, ela está a serviço dos bancos, das corporações, dos lobbies, das elites locais e das elites internacionais. Em momentos menos ruins, sobram alguns direitos a mais para o povo. Em algumas tradições de construção estatal, com mais tempo sob influência de ideias sociais e igualitárias, como alguns países da Europa, houve maior oportunidade para o povo adquirir mais educação e um tanto mais de direitos – mas que agora estão sendo retirados em toda parte.

Em todas as democracias do planeta, é o dinheiro do capital que financia os políticos que, portanto, estão a serviço do capital. Se aqui temos uma Odebrecht, nos EUA, temos por exemplo uma indústria bélica, com que os governos “eleitos democraticamente” estão comprometidos até o pescoço. Já o grande anarquista norte-americano Henry Thoreau, no século XIX, negava-se a pagar impostos, porque o dinheiro seria usado para armamentos e guerras expansionistas, que desde aquela época era a política externa do seu país.

Para entrar no jogo político, portanto, ser eleito, governar e fazer acordos, usa-se dinheiro. O dinheiro corrompe princípios, compra pessoas, atende a interesses de grupos e não aos interesses da coletividade.

Assim, nunca me iludi que o PT pudesse manter uma pureza de vestal, ao entrar no jogo do poder e realmente governar. Por isso, nunca votei no PT.

Mas, dentro dessa realidade de como funciona a democracia, por que se escolheu agora fazer uma cruzada inquisitorial, para varrer a corrupção na política? Por que se derrubou o governo Dilma e se persegue com voracidade a pessoa do Lula? Por que Lula está sendo acusado (ainda sem nenhuma prova e com uma orquestração odienta da mídia em peso) de ter um apartamento triplex no Guarujá e Fernando Henrique, sob cujo governo havia os mesmos esquemas de corrupção endêmica no Brasil, não está sendo investigado por seu apartamento em Paris?

Por que há uma multidão no Brasil espumando de ódio contra um homem de 70 anos, querendo sua prisão, como fanáticos inquisidores queriam eliminar as bruxas? Por que se cuspiu na dignidade de uma mulher como Dilma, que não teve até agora nenhum crime comprovado – quando o congresso nacional e esse governo ilegítimo estão tomados de corruptos já mencionados em todas as investigações em curso?

Por três motivos principais:

1) Porque por mais que os governos do PT tivessem adotado a famosa governabilidade – que significa a composição com as forças econômicas e políticas que desde sempre comandam o país, ainda havia nesses governos uma preocupação com o social e um impedimento de se implementar plenamente o programa neoliberal selvagem a que estamos sendo submetidos desde o golpe. Acabar com todos os direitos trabalhistas, esvaziar ainda mais a já combalida educação pública, arrancar dinheiro da saúde, da previdência e da educação, sem mexer um milímetro com os juros exorbitantes dos bancos e com os impostos devidos pelos ricos… Isso só poderia ser feito por um governo que não foi eleito e que está a serviço desse projeto de neoliberalismo selvagem, que aliás é um projeto internacional.

2) Porque enquanto esses direitos são tirados do povo, a mídia, alimentada em primeira mão pela republiqueta de Curitiba e em conluio com ela, montou um circo inquisitorial, em que o principal bode expiatório é o Lula, com seu suposto e patético triplex. Oferece-se alguém ou um grupo para se odiar, com linchamentos públicos diários, e o povo deixa vir à tona seus instintos mais primitivos, enquanto lhe surrupiam os direitos e a nação. Técnica muito conhecida pelos nazistas e descrita por George Orwell em 1984! Não por acaso, nesse livro é que aparece a figura mediática do Grande Irmão (Big Brother)… Lembra alguma coisa?

3) Porque o Brasil era uma economia ascendente – participante do Brics (grupo composto pelas chamadas economias emergentes, Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) e economias emergentes devem ser cortadas pela raiz pelo Império dominante no planeta. Gera-se então uma crise artificial, produz-se descontentamento popular e faz-se cair o governo que causa incômodo àqueles que de fato mandam no mundo. E mais, o Brasil, com seus recursos naturais de petróleo e água, não pode crescer com seus recursos. Eles devem ser transferidos aos donos do mundo. Entre as primeiras ações do governo golpista foi a de entregar o pré-sal ao capital estrangeiro.

E toda essa trama que parece maquiavélica e é maquiavélica sim (aliás, uma leitura esclarecedora é O Príncipe de Maquiavel, para vermos como o poder se comporta em todos os tempos) é possível pela alienação do povo e por seu desejo de odiar alguém, em que pode depositar suas frustrações e sua agressividade. Lula é o objeto perfeito para esse ódio, porque muita gente jamais aceitou que um operário, um “analfabeto”, chegasse ao poder…. Por isso tantos acham normal Fernando Henrique ter um apartamento em Paris, mas babam de raiva com um suposto triplex de Lula no Guarujá. Esse menino nordestino saiu do lugar da senzala a que são destinados os de sua classe social. E não vi ninguém espumando contra a Odebrecht, que participou da corrupção de todos os governos….

E por fim, como anarquista e como espírita e cristã, não me apraz ver ninguém, nem Lula, nem qualquer outro político, de qualquer partido, seja José Dirceu, Sérgio Cabral ou Eduardo Cunha (de quem tinha verdadeiro horror quando comandava o Congresso), nenhum ser humano, seja criminoso ou não, ser humilhado, com sua dignidade arrancada. Esse sistema de suposta justiça que temos no mundo, e ainda mais no Brasil com seu sistema carcerário indecente, é na verdade um sistema de vingança social. Não se quer consertar a ação maléfica e melhorar quem a praticou, mas punir sadicamente o indivíduo, satisfazendo um anseio de extermínio do outro. Pessoas diante de um tribunal, culpadas ou não, e pessoas encarceradas, em prisões decentes ou não, me causam compaixão e empatia e não satisfação.

Por tudo isso e mais um pouco, digo o seguinte:

Nunca votei no Lula e nunca votei em nenhum presidente. Mas se esse homem, que cresceu aos meus olhos, pela perseguição implacável que vem sofrendo, conseguir sobreviver ao massacre e se levantar de novo como candidato em 2018, terá finalmente meu voto.