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A generosidade diante do umbiguismo

A young girl delivers flowers for you

Há uma doença que acomete gravemente algumas pessoas, sem que elas tenham a mínima consciência de estarem padecendo dela: o umbiguismo. É aquela personalidade que só fala de si, de seus problemas, de suas demandas, que está sempre orientada para seu próprio ego. Se entremeia a conversa com alguma pergunta sobre a saúde ou o bem-estar do outro, é por um resquício de cortesia superficial, que se esvai logo que o outro responde brevemente. A frase seguinte do umbiguista é de novo sobre si mesmo.

É claro que todo ser humano guarda em maior ou menor grau uma dose de egoísmo que, como diria tão acuradamente Kardec, ao lado do orgulho, são as maiores chagas da humanidade. Mas refiro-me aqui àqueles extremos, que se fixaram no período do narcisismo infantil. É normal a criança pequena, por uma questão de sobrevivência e do processo de desenvolvimento, ter um momento de total fixação em si mesma. Não é normal o adulto, que já deveria ter atingido a maturidade psíquica, agir dessa maneira autocentrada, sem conseguir sentir sinceramente empatia para com as demandas do outro.

Não é normal o adulto não se preocupar autenticamente com os de sua volta, movendo-se para atender às necessidades que estão ao seu alcance atender ou até que são de seu dever atender.

Ora, o problema que quero analisar aqui é o encontro de um umbiguista com uma pessoa generosa, dessas que ao contrário da descrita acima, gosta de ajudar, se preocupa genuinamente com o bem-estar alheio e se entrega afetivamente aos familiares, amigos, a colegas de trabalho, e em alguns casos de maior nobreza, a qualquer ser humano que se lhe aproxime.

O que muitas vezes se dá então é que o umbiguista pode se tornar um vampirizador, um explorador, um abusador da generosidade do outro. Já aqui uma vez neste blog, comentei a história da árvore generosa, cujo menino foi retirando todas as partes da árvore, que sempre lhe cedia tudo o que ele pedia. Então, defendi a atitude da árvore, apesar do umbiguismo do menino, porque a generosidade não pode trair a si mesma, por causa do egoísmo do outro.

E eis aí o grande conflito que quero comentar. Como não se tornar menos generoso, mais egoísta, mais defensivo, mais calculista, diante de tanto egoísmo empedrado que se vê hoje em dia? Sobretudo num momento histórico, em que se estimula o centrar-se sobre si mesmo, o pensar primeiro em si e sob o discurso do autoamor (sem dúvida necessário, pois até Jesus disse: ama ao próximo, como a ti mesmo), escondem-se muitas vezes uma apologia do umbiguismo disfarçado e um desprezo e um horror por palavras antigas e nobres como sacrifício, renúncia, entrega…

Como não perder a generosidade, como não trair a empatia, diante de pessoas que só pedem, só querem, só demandam, só falam de si e pensam que o mundo gira em torno delas? Que são incapazes de se preocupar de fato com o outro e, muito menos, de serem pró-ativas em cuidar de quem quer que seja? Rápidas no exigir, cobrar, esmolar, pedir e lentíssimas, desinteressadas, e mesmo ausentes, quando se trata de prestar um favor, ajudar ou mesmo praticar atos de civilidade social, como um telefonema, um cumprimento, uma visita, um convite, um como vai?

Chega um momento em que por mais que o generoso persista em sua generosidade, terá de se cobrir de uma camada de autoproteção, para que sua energia e seus recursos (sejam afetivos, humanos ou mesmo financeiros) não sejam totalmente drenados pelo umbiguista. Mas, diante de uma ou outra recusa sua em atender às demandas de quem sempre está pedindo algo, ou quando por qualquer circunstância, o umbiguista não está num momento de necessidade, a pessoa generosa verá amargamente o desaparecimento do outro. Ausência prolongada, desinteresse, ou um pouco de cortesia forçada apenas. Então, essa pessoa, que se doa por hábito, certamente sentirá o quanto o umbiguista usa e abusa e não consegue ter um afeto mais profundo por ninguém.

Esse é o cenário aparente da situação. Mas se quem doa persiste, com um certo cuidado para não se deixar esfolar pelo umbiguista; se quem é generoso não se mover de sua generosidade e se quem ama não deixar de amar incondicionalmente, apesar de receber um amor muito pobre daquele pobre egoísta, então, um dia, a ficha deste último cai. Um dia ele se toca. Um dia percebe o quanto foi infantil e centrado apenas em si. Mas talvez, não haverá tempo mais de ser generoso com aquele que foi generoso com ele. Será com outros. Assim é a dinâmica da vida. Porque o que de principal a pessoa generosa deu para o umbiguista terá sido justamente o aprendizado no exemplo do que é ser bom, altruísta, solidário e… generoso.

E o generoso, o que terá aprendido? A perseverar na bondade, a desapegar-se totalmente dos resultados e a manter-se sereno diante dos umbiguistas da vida…

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Como não transformar indignação em ódio?

PM e Gandhi

Partilhei hoje na minha página do Face uma foto de um membro da polícia militar com a arma em punho diante de uma estudante desarmada, em posição pacífica, durante a guerra declarada pelo Governo do Estado aos alunos que reivindicam a manutenção de suas escolas, no movimento “Não fechem minha escola”. Ao partilhar essa foto e comentar brevemente minha indignação diante da cena, vi-me arrebatada numa discussão desenfreada na minha própria página. Mantive-me calada, mas tenho ficado amargada com o nível de agressividade, conservadorismo, analfabetismo político reinantes no momento presente. E toda vez que manifesto qualquer posição, vejo-me enredada numa trama de contenda, de vibrações desencontradas, que me afetam por dentro.

Por isso, a reflexão de hoje é sobre uma questão fundamental: como manter a paz íntima diante das gritantes injustiças do mundo? Como exercitar a indignação (necessária, pois até Jesus a manifestou diante dos fariseus que exploravam o povo) sem se deixar escorregar para a ódio e para o asco? Como manter o olhar lúcido e crítico diante das estruturas profundamente injustas da sociedade, diante da falta de ética, diante da negligência com o ser humano, sem afundar-se num desânimo existencial, que nos faça parar deprimidos à beira do caminho? Como, enfim, atuar no mundo, para transformá-lo, com suficiente amor no coração, mas sem a pieguice e a apatia dos que aceitam tudo de cabeça baixa?

Lembro-me aqui de três figuras que muito me inspiram na vida e que viveram momentos críticos nesse sentido. Um foi Pestalozzi. Condecorado pela Revolução Francesa, por suas ideias progressistas para a melhoria das condições do povo e de sua educação, ele escreveu um livro intitulado Sim ou Não?, que pretendia responder se ele era contra ou a favor daquela Revolução sangrenta. Ora, claramente, ele se manifesta contrário à violência, mas a favor das reivindicações populares, diante da opressão em que vivia o povo. Hoje, é verdade, a análise marxista da História considera a Revolução Francesa uma revolução burguesa, que usou as classes populares a seu favor. Na época, na compreensão de Pestalozzi, era algo que brotava sobretudo legitimamente das entranhas do povo. Ele não aprovava, nem justificava a violência, mas compreendia-a, como uma reação inevitável à opressão. Numa outra obra sua, Minhas Indagações sobre a marcha do desenvolvimento da espécie humana, Pestalozzi desenvolve toda uma teoria, que antecede em alguns aspectos a psicanálise, apontando a repressão dos instintos das massas como uma das causas de explosão de guerras e revoluções. De qualquer forma, ele considera que uma educação integral, como a que ele propunha, deveria despertar a divindade interior dos indivíduos, motivando-os a agir autonomamente, sem repressão, no sentido da fraternidade e do bem-estar de todos.

Kardec, no Livro dos Espíritos, na questão 783, da mesma forma que seu mestre Pestalozzi, admite a necessidade das revoluções sociais, olhando a História de uma perspectiva no tempo: 

“O homem não pode ficar eternamente na ignorância, porque deve chegar à meta marcada pela Providência: ele se esclarece pela força das coisas. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram pouco a pouco nas ideias, elas germinam durante séculos, depois, de repente, estouram e fazem ruir o edifício carcomido do passado, que não está mais em harmonia com as necessidades e aspirações novas.

O homem muitas vezes vê nessas comoções apenas a desordem e a confusão momentânea que o atingem em seus interesses materiais; aquele que se eleva pelo pensamento além do pessoal, admira os desígnios da Providência, que do mal faz surgir o bem. É a tempestade que purifica a atmosfera, depois de tê-la agitado.” (Tradução minha)

Entretanto, foi no século XX, que um elevado espírito, aliás chamado Mahatma (grande alma), deu um exemplo maravilhoso de uma atuação política, para transformação social, na luta contra a injustiça, por caminhos da não-violência, comprometido ao mesmo tempo com seu próprio aperfeiçoamento espiritual e com a elevação moral do povo. Gandhi foi passo a passo, como conta em sua autobiografia, construindo uma forma de atuar no mundo, para mudá-lo, sem render-se ao ódio, ao desespero e sem a alienação, muitas vezes característica, de alguns líderes espirituais. Unindo fé e política, autoconhecimento com a trilha da não-violência, ele deixou a mensagem de que só conquistamos a devida força moral, social e mesmo política (num sentido muito amplo e não partidário) se conquistarmos ao mesmo tempo a nós mesmos. Mas ele também se deparou com o rugir das paixões, o estouro da violência, da guerra civil, de seus compatriotas, pagando com a vida o seu empenho de dialogar com todos e não odiar ninguém.

Fica porém esse aprendizado para nós: guardemos serenidade nas lutas justas em que nos empenhemos no mundo. A oração é uma força essencial para isso. Assim nos ensinaram Jesus e Gandhi. Cuidemos de nosso mundo íntimo, para não nos rendermos ao ódio, que é um grau degenerado de indignação. E enchamo-nos de compaixão para com todos. Porque todos precisam dela.


Suicídio – a visão espírita revisitada

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Quadro A Melancolia de Edvard Munch

Há muito queria escrever algo sobre o suicídio e aproveito esse setembro amarelo, em que se faz uma campanha nacional de prevenção ao suicídio, para lançar ao público algumas das reflexões que tenho feito sobre esse tema de grande relevância. Pelo excelente documento preparado pela Associação Brasileira de Psiquiatria, com o título Suicídio, informando para prevenir (http://www.flip3d.com.br/web/pub/cfm/index9/?numero=14)  são 10 mil pessoas que se matam por ano no Brasil e quase um milhão no mundo! Temos, portanto, de falar sobre isso! E fazer algo a respeito.

A cena mais bela e forte de um filme que adoro – Lutero – é quando ele toma nos braços o corpo de um rapazinho que se suicidara e cava ele mesmo a terra, para enterrá-lo. Esse ato significava um gesto de empatia e compaixão para com o rapaz e para com a família e uma forma de resistência à inapelável condenação que a Igreja sempre lançou sobre os suicidas, nunca permitindo que fossem sepultados em “terra santa”.

Aliás, o suicídio é fortemente condenado pelas religiões em geral.

O Espiritismo, rompendo no século XIX com a ideia de condenação eterna e de inferno como um local de expiação, amenizou esse julgamento inapelável. Mas nem tanto. As reverberações atávicas da Igreja ainda ressoam hoje no movimento espírita, como veremos.

Examinemos primeiro Kardec. Em pleno século XIX, quando a Igreja católica ainda falava em inferno material, Kardec proclamou que céu e inferno são estados de consciência e não estão fora da alma humana. Hoje, o Catecismo oficial da Igreja também entende assim. Para mostrar o estado de consciência de Espíritos das mais diferentes categorias, com histórias de vida e de morte distintas, Kardec realizou em Céu e Inferno, entrevistas minuciosas com eles, através de diferentes médiuns, procurando perscrutar o que sentiam, o que viam, como estavam…

As entrevistas são sóbrias. Os suicidas se mostram em sofrimento sim, e afirma-se que o suicídio é uma infração às leis divinas. Aparece, segundo a linguagem da época, hoje para nós incômoda, como em várias obras de Kardec, a palavra castigo. Entretanto, sempre entendido como uma consequência natural dos atos praticados. Entre os motivos de suicídio dos entrevistados, havia a solidão e o abandono, o alcoolismo aliado à mendicância, a perda de entes queridos, a perda da fortuna, o amor não correspondido e o tédio existencial… esses motivos ainda estão presentes entre as causas de suicídio na atualidade. E as condições de consciência apresentadas pelos entrevistados eram de desapontamento, angústia, escuridão e alguns se viam junto ao corpo – mas isso não é regra.

O suicídio é tema recorrente na maioria dos 12 volumes da Revista Espírita, demonstrando que Kardec tinha uma grande preocupação com o assunto. Em julho de 1862, escreve um artigo intitulado Estatística dos Suicídios, fazendo uma análise sobre o aumento dos suicídios na França, e procurando apontar as causas, lamentando que não existam pesquisas a respeito. Hoje, há essas pesquisas em todo mundo. Entre as que Kardec reconhece em seu tempo estavam as doenças mentais, problemas sociais, e sobretudo, o avanço do materialismo e a falta de perspectiva existencial. O artigo continua muito atual e revela bem como Kardec procurava abordar as questões, abrangendo todos os seus aspectos e procurando soluções educativas e preventivas. Para ele, a maior prevenção possível para o suicídio seria o conhecimento seguro e com contornos mais precisos da vida pós-morte, que o Espiritismo nos dá. Demonstrada a imortalidade, de maneira clara e racional, o suicídio perde sua razão de ser.

No Brasil, como sabemos – e inclusive isso hoje é objeto de teses acadêmicas, feitas por pesquisadores não-espíritas, mas já era opinião de um Herculano Pires, por exemplo – o Espiritismo desenvolveu-se num caldo cultural eminentemente católico e por isso acentuou aquilo que já nos incomoda em Kardec – com palavras como castigo por exemplo, o que pode induzir a uma ideia antropomórfica de Deus – mas deixaou de lado aquela racionalidade sóbria e crítica e aquele espírito científico de observação, que fazem a originalidade e conservam a atualidade do mestre.

No caso do suicídio, temos o clássico da nossa querida Yvonne Pereira, Memórias de um Suicida, que estou relendo no momento, anos depois das primeiras leituras. E realmente o tom do livro em alguns aspectos parece-me hoje excessivo. Há coisas interessantes, como a própria Universidade que os personagens frequentam. Mas os suicidas são chamados o tempo inteiro de criminosos, réprobos, condenados… e causa espécie também a descrição pavorosa daquele vale nas trevas profundas, para onde foram arrastados e aprisionados – como se fosse uma espécie de campo de concentração de suicidas. Eu mesma, em meus 40 anos de mediunidade, já recebi inúmeros suicidas que não estavam em vale nenhum. Um caso de suicídio relatado por exemplo, no livro Missionários da Luz, de Chico Xavier, também não descreve o espírito no vale e muito menos os entrevistados de Kardec.

Outras narrativas por outros médiuns brasileiros seguem trilhas parecidas ao livro de Yvonne. Tudo muito pesado, determinista, condenatório. Não há as nuanças do pensamento de Kardec, que a toda hora avisa que cada caso é um caso, que há muitas atenuantes, que há causas psíquicas, sociais, filosóficas dos suicídios e que precisamos preveni-los.

Isso significa que esses vales não existem? Que são ilusões dos médiuns? Existem sim aglomerações no Plano Espiritual (embora Kardec não tenha tratado disso, há inúmeras narrativas a respeito e eu mesma já visitei algumas). Mas não são lugares necessários a que as pessoas irão. São espíritos reunidos na mesma afinidade de pensamentos, que projetam o ambiente consciente ou inconscientemente e vivem na mesma faixa vibratória e de lá podem sair na hora em que mudarem o vetor vibratório.

Há muitos espíritas que pensam que, ao desencarnarem, passarão um período no Umbral, como os católicos achavam que iriam passar necessariamente pelo purgatório. Isso é materializar e generalizar demais as circunstâncias espirituais de cada consciência. Kardec foi bem mais sutil.

A posição de Kardec em relação ao suicídio, mais analítica, mais preocupada com as causas e com prevenção do que em aterrorizar os vivos com os horrores do vale dos suicidas, é muito mais próxima da perspectiva contemporânea.

Hoje se sabe que a depressão (e outras doenças mentais) é a causa de muitos suicídios – ora, a depressão é uma doença psíquica que requer cuidados, amparo, terapias e, às vezes (penso que menos do que se dá) remédios. Aliás, os medicamentos devem justamente entrar, a meu ver, sobretudo quando a pessoa está correndo o risco de se matar. O próprio Kardec avisava no século XIX, quando a Psiquiatria estava apenas nascendo, que se o indivíduo estivesse doente mentalmente, isso lhe isentaria ou ao menos atenuaria muito sua responsabilidade no suicídio. Ora, hoje, considera-se que o suicídio quase nunca é praticado por pessoas que estão saudáveis psiquicamente. Isso já descriminaliza grande parte dos suicidas, nos critérios de Kardec.

Hoje se estudam os fatores de risco do suicídio e além das doenças mentais, há os abusos sofridos na infância, a falta de sentido existencial, tipo de personalidade impulsiva etc. Em todos os casos, identificados os riscos, acompanhando-se de perto a pessoa que os apresente, com atenção, cuidados psíquicos e médicos, o suicídio pode ser evitado. Logo, algo que pode ser prevenido não é apenas um problema individual, mas uma questão social, coletiva. Somos todos responsáveis.

Lembro-me de um livro fantástico, escrito por Pestalozzi, no virar do século XVIII para o século XIX. Chama-se Legislação e Infanticídio e é considerado o primeiro livro de sociologia escrito antes mesmo do advento dessa ciência. Nessa obra, Pestalozzi examina uma grave questão criminal que estava ocorrendo na Suíça do seu tempo. Mulheres eram condenadas à prisão por terem assassinado seus filhos recém-nascidos. Qualquer pessoa diria na época e ainda hoje: mulheres monstruosas, criminosas, que mereciam toda punição. Pois Pestalozzi não se contentou com essa resposta simplória, já que matar o seu próprio rebento não é algo tão natural assim… (assim como o suicídio, que contraria o instinto de sobrevivência, também não é!) Foi se debruçar sobre os processos de julgamento dessas mulheres, para saber da história delas e constatou que a sociedade era culpada, sobretudo os homens. Eram todas mulheres que vinham do campo para a cidade e ao chegarem eram seduzidas por homens (sim, isso existia 200 anos atrás!), que depois as abandonavam. Grávidas solteiras, não havia escolha para elas. Ao contrário das sociedades católicas, que sempre deram um jeito de remediar o pecado, com Casas de Misericórdia, Conventos, ou mesmo prostituição, o universo protestante, calvinista, não tinha válvulas de escape. As mulheres ou se matavam ou matavam seus filhos. Ninguém iria se casar com uma mãe solteira, mulheres não podiam ter profissão e independência e no caso da velha Suíça calvinista, nem putas ou freiras elas poderiam ser… Pestalozzi então responsabiliza a moral rígida, a sociedade intransigente e os homens que abusavam e se desresponsabilizavam…

Esse é um exemplo para mostrar o quanto aquilo que consideramos crimes monstruosos sempre têm que ser analisados dentro de seus contextos, com olhos abrangentes e de preferência seguindo-se aquelas recomendações de Jesus: “não julgueis para não serdes julgados” e “quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra”.

Nossa visão contemporânea de compreender o suicídio como uma questão de saúde pública é muito mais cristã do que esses arroubos condenatórios, implacáveis, inapeláveis. O suicida é um espírito em sofrimento, sim. Mas ele já estava em sofrimento na terra. E não foi suficientemente visto, socorrido, amparado. Quando ele pratica esse ato, ele está se ferindo a si mesmo. Agora, que espécie de Pai seria Deus se ainda punisse esse ato, se nós, pais terrenos, imperfeitos, ao vermos uma criança se machucar a si mesma, seja por descuido, teimosia ou inexperiência, corremos a socorrer a criança, trazendo remédio, enxugando as lágrimas, cercando de consolo? Não consideraríamos abaixo de qualquer crítica um pai ou uma mãe que ainda espancassem a criança machucada ou a deixassem chorar sem socorro, ou se sentissem pessoalmente ofendidos com a queda do pequeno?

Ora, há gente que advoga que o suicídio é uma ofensa a Deus!! E Deus lá pode se ofender? O suicídio é o ato de um espírito imaturo, inconsciente, desesperado ou mesmo teimoso, de se ferir a si próprio. Ele terá de curar a ferida que fez em si. Mas a misericórdia de Deus é infinita.

Nesse caso, gosto bastante da ideia presente no livro Memórias de um Suicida, em que se conta que Maria de Nazaré é um Espírito que dirige uma falange de almas que socorre os suicidas. Porque é bem isso: o suicida é uma criança machucada, que precisa de um colo materno.

Faz parte da nossa evolução psíquica, social, espiritual, deixarmos de lado essas visões tão trágicas de culpa e castigo e avançarmos para uma visão de que tudo no universo é educativo. Sofrimento há, mas é transitório. E cabe-nos trabalhar para minimizá-lo e até extingui-lo, como propunha Buda. Para isso, cabe-nos sempre perdoar a nós mesmos, perdoar o outro e saber que Deus nem precisa nos perdoar, porque sabe que estamos aprendendo.

Numa das mais impressionantes manifestações de um Espírito suicida, que já tive, observei que ele estava num lugar bonito, amparado por almas amigas, mas sofria intensamente: não conseguia se perdoar por ter feito o que fez, ter ferido a si mesmo e a família. Então, assim podemos ler um relato como o de Camilo Castelo Branco no livro de Yvonne: ele próprio se qualificava de criminoso, réprobo etc. Isso é da consciência acostumada a agir com o próximo e consigo mesma de maneira dura e implacável. Precisamos superar isso e caminhar no sentido da misericórdia, do perdão e sobretudo do amor, que cobre a multidão de pecados, como dizia Jesus.

E o que podemos fazer concretamente para evitar o suicídio à nossa volta?

Não poderia deixar de mencionar a educação, como a mais eficaz prevenção em relação ao suicídio. Mas que educação? Não é certamente essa que é dada nas escolas, que nem a função de instruir faz bem feita.

Mas sim uma educação que procure cercar o indivíduo de fortes e sólidos afetos, de modo que ele nunca se sinta sozinho.

Uma educação que trabalhe sentido existencial, resiliência diante da dor, projeto de vida…

E sobretudo, uma educação que cuide desde cedo da espiritualidade e que abra uma perspectiva de eternidade e transcendência.

Quadro A Melancolia de Edvard Munch


Existem almas gêmeas? Sim e não

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Um dos pontos polêmicos e contraditórios, presentes nas obras espíritas, é a questão das almas gêmeas. Kardec nega terminantemente a sua existência. Léon Denis e Emmanuel falam que as há. Sempre tive uma postura estritamente kardecista de negar também. Mas ultimamente tenho meditado no assunto e cheguei a algumas conclusões um pouco mais matizadas, que não podem se encerrar apenas no sim ou no não.

Explico-me. Não, não pode haver almas gêmeas no sentido de metades, de seres que se complementam. Isso fere um dos princípios básicos da filosofia espírita, que enxerga com muita ênfase a individualidade (não individualismo) do espírito. Aliás, esse e outros aspectos da visão espírita têm um diálogo surpreendente e fecundo com as ideias de Erich Fromm. Ele também aponta como uma necessidade evolutiva da espécie, e de cada ser humano em particular, o processo de individuação. As relações saudáveis e plenas, portanto, seriam para ele, aquelas em que duas pessoas inteiras, se amam, sem complementaridade, nem submissão, nem perda da identidade de nenhuma das duas. Nesse sentido, portanto, e talvez seja esse o que Kardec entende, não há almas gêmeas – duas metades que se procuram na eternidade e que se encontram e não podem estar uma sem a outra. Isso significaria que há uma falta a ser preenchida, uma lacuna no ser, que não pode ser inteiro, sem outro ser. De fato, essa ideia revela um aspecto de romantismo exarcebado e místico e que se distancia da racionalidade (que vem desde a Grécia e perpassa a cultura judaico-cristã – raízes em que o espiritismo se mantém). A razão anda junto com o princípio da identidade. A razão define, individua, afirma a identidade dos seres. Sócrates e Platão, que têm ideias reencarnacionistas e visão de mundo portanto espiritualista, foram os primeiros a definir o conceito do ser, aliás como alma independente do corpo. As teorias panteístas, por exemplo, são bem menos racionais e quebram com a lógica da identidade, lógica que é socrática, platônica e artistotélica. Que é cristã e que é espírita. Quando Fromm segue por essa linha, também se ancora nessa tradição. Aliás, ele revive os clássicos da filosofia. A psicologia ocidental, com todas as suas práticas terapêuticas, está igualmente radicada no princípio da singularidade de cada um, o que no fundo revela a identidade do ser.

Então, em que sentido poderíamos entender, se é que há esse sentido, a existência de almas gêmeas? Eu diria que num sentido a posteriori e não a priori. Ou seja, não há almas que foram criadas pela metade e estão à procura de sua outra metade. Mas há almas que seguiram tanto tempo juntas, em milênios de convivência, cumplicidade, amor (mesmo passando por momentos de distanciamento e conflito naturais em seres imperfeitos), que se identificam mais plenamente uma com a outra do que com outros seres amados. Intimidade, construção conjunta e até quedas e desvios e retornos em sintonia, que proporcionam uma sintonia fina, maior e mais profunda do que com outros seres também afins.

E agora outra questão: essas almas “gêmeas” no sentido amplo da palavra, tiveram relacionamentos sexuais, no sentido terreno? Podem ter tido, mas não só. Aliás, uma constante que tenho observado em reuniões mediúnicas, em que se manifesta junto a espíritos renitentes, aquela alma que é capaz de os tocar, e que geralmente foram espíritos, que já passaram por diversas condições de relacionamento nos séculos. Já foram esposos, irmãos, pai, mãe, filho, filha… de modo que o amor parece assumir todas as dimensões possíveis e ao mesmo tempo transcender o amor carnal, porque esse nível de sintonia está além do exercício da sexualidade terrena.

Outra pergunta ainda: casais que vemos no mundo são almas gêmeas? Rarissimamente, acredito. Porque se forem, têm uma sintonia muito grande. Alguém pode ser casado com alguém, com amor e compromisso, com as dificuldades naturais de uma convivência mútua e com felicidade relativa, mas a alma mais afim pode vir na forma de um filho, por exemplo, ou nem estar encarnada.

Pode ser ainda que nem todos tenham almas gêmeas, mesmo nesse sentido amplo, porque pode ser construção de alguns espíritos, resultado de algumas experiências específicas. O universo é livre e as almas vão evoluindo no amor, através de múltiplas vivências.

Na sociedade contemporânea, a descartabilidade das relações, a ênfase no prazer carnal e a rara busca de identificações mais profundas de alma para alma, acaba por deixar as pessoas mais solitárias e mais sedentas de um amor verdadeiro. Isso pode muitas vezes obstruir o fluxo do amor num sentido mais profundo, pode impedir que vejamos nossas almas gêmeas (aquelas que mais se identificam essencialmente conosco, porque se estamos vivendo na superfície, estamos longe de nós mesmos também) ou pode também bloquear a comunicação mental e emocional com possíveis almas gêmeas nossas que estejam em outros pontos do universo e que mandam vibratoriamente seu amor por nós.

Quanto mais vivermos com lucidez espiritual, autoconhecimento, em sintonia com nossa essência divina, mais saberemos distinguir (e portanto não querer) relações de superfície, apenas baseadas em paixões e impulsos primários, e mais saberemos encontrar a pérola de nossas almas. E se ela não estiver por aqui, poderemos ter relacionamentos também amorosos, verdadeiros e responsáveis, mas sempre teremos uma nostalgia oculta da falta de alguém.