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Diário da Mama 7 – Entre químios

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As pessoas que acompanham o Diário da Mama me perguntam por nova escrita, no justo desejo de saberem como estou passando. Nem relatei a segunda quimio e já estou às vésperas da terceira. O dia em que fiz a segunda, já duas semanas atrás, deslizou com suavidade e foi menos impactante do que a primeira. 

É algo palpável, quase concreto o quanto a oração nos carrega, para atraversarmos os mares bravios da vida. A nossa própria, a que fazemos do profundo de nossa fé e as que nos são endereçadas, nas asas de pensamentos amorosos, sinceros e potentes. Nessa segunda vez, fui acompanhada por minha outra Claudia amiga-irmã, a Gelernter. E nossas orações, ao som de Hildegard von Bingen, foram muito confortadoras durante o processo da químio. 

Nos dias que se sucederam, porém, embora de início me parecessem mais amenos, em relação à primeira, foram se mostrando cheios de novidades incômodas: a diabete destrambelhada (por causa da cortisona), taquicardia, episódios de pressão baixa, neuropatia nos pés, alteração de paladar, mas sobretudo, muito, muito cansaço. Um cansaço que não passa, descansando. Que me faz me arrastar entre o trabalho e a cama, entre o almoço e a rede, entre o trabalho e o sofá. Todo mundo com quem converso que já passou por isso, confirma a exaustão como sintoma incontornável da quimioterapia. 

O choque da químio nos tira de nós mesmos, de nossa energia vital, de nossa potência. É temporário, mas é estranho. Mais estranho para mim que sou um furacão de atividades… mas não será isso o necessário no momento, um repouso forçado, para algum tipo de aprofundamento da alma? 

Essa quinzena teve um ponto alto que não posso deixar de mencionar, porque revela o quanto a arte é terapêutica e vital: fui com todos os cuidados possíveis (para me prevenir de pegar Covid) a um concerto aqui em Bragança, em homenagem a Vinicius de Moraes, nosso poetinha querido. Orquestra Jovem de Bragança, a neta do Vinicius, Mariana, cantando, e ainda meus sobrinhos participando do coral infantil. Foi um deleite. Nesse dia, saí revigorada e o cansaço fugiu. Fui dormir às duas horas da manhã, depois de uma pizza com meu pai e amigos, e pulei da cama disposta, no dia seguinte. 

Hoje, estou me preparando para enfrentar a quimio de amanhã. É sempre imprevisível como será. Mas sempre posso contar com a música e com a prece, com os amigos desse lado e do outro lado da vida. 

 

A cada trecho da escalada 

Na montanha do tempo 

Uma fé esforçada 

Uma tênue mirada 

No topo da chegada. 

A cada dia, um dia 

A cada dor esguia 

Minha alma se recria… 


Diário da mama 6 – Acordando ao sol

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Arte de Erika Lourenço

Sábado de manhã, o sol entrando pleno pelas janelas da sala e eu me sinto eu mesma, como se tivesse acordado de um período sonambúlico, em que estava me procurando. Alívio, esperança nas luzes do dia.

Os dias que se sucederam à químio foram difíceis. Dores intensas de cabeça, tontura, enjoo (menos do que o esperado), cansaço extremo e uma intercorrência: uma gastrite aguda medicamentosa.

A sensação era de que tinham me jogado violentamente contra um muro e eu não conseguia voltar a mim, tomar prumo, saber o que estava acontecendo. Quase plenamente bem, só 8 dias depois. Mesmo assim, trabalhei, cozinhei (pelo menos duas vezes), fui a supermercado, farmácia… tive que levar meu pai ao hospital numa emergência (está tudo bem agora), mas repousei muito mais do que gostaria. O principal clamor de qualquer doença é esse: o corpo suplicando descanso, que em tempos normais ele não teria. Eis uma dura lição: não ouvimos nosso corpo. Eu às vezes finjo que ele não existe. E eis que que ele se impõe de maneira dolorosa. Vejam que falo do corpo em terceira pessoa, como se não fosse parte de mim. Faz parte. Mas penso de verdade que sou mais do que o corpo.

No meio do caminho desses dias pós químio, raspei a cabeça. Chamei o meu amigo cabeleireiro Marcus Wagner em casa (com medo do Covid voando pelo salão) e pedi a máquina 0. Por quê? Iria cair mesmo, não queria que meus fios já tão alquebrados escorressem pelas minhas mãos. Então me adiantei, pelo menos para manter o controle da situação. Comprei e desenterrei do armário lenços, boinas, turbantes… estou experimentando e fazendo disso um ensaio estético. Não se deve perder a classe, não se deve entregar os pontos – aprendi com minha avó, com minha mãe e meu pai.

Ao raspar a cabeça, senti-me irmanada com monjas e prisioneiras, e com outras tantas milhões de mulheres que passaram e passam por tratamento de câncer e não me senti nem só, nem entristecida. Uma etapa do processo, na esperança de que meus cabelos renasçam mais fortes, mais à frente. Como eu mesma.

Em toda a caminhada, estou sendo acompanhada por olhares amorosos, palavras acolhedoras, afetos profundos, ajudas inesperadas, presenças espirituais quase palpáveis… E constato como apesar dos pesares, há amor no universo, há empatia, há humanidade humana!

E hoje, nesse sábado ensolarado, em que me sinto muito bem, abastecida de amor, a poesia cabe mais do nunca.

Presenças

O sol é presença

Metáfora da luz

Escondida na vida.

É pertença na lida.

A vida, essa teia

Que se alteia

De afetos e trocas.

E quando a dor nos desloca

Nos provoca

Nos toca e retoca

Eis que o sol que ilumina

É a força divina

Que nos sublima.


Diário da mama 5 – O corpo em luta

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Arte de Camila Soato

São 5 horas da manhã, quando escrevo esse texto, em noite dividida entre horas de sono profundo e momentos de incômodos aflitivos. O corpo reage ante o veneno injetado para combater o câncer.

Ontem foi o dia da minha primeira quimioterapia, iniciando o que os médicos chamam de fase vermelha, dois meses de ataque com duas drogas pesadas. O dia transcorreu da melhor maneira possível. Saí de Bragança Paulista cedo, dia ensolarado – graças a Deus o frio intenso passou – estava disposta e animada.

Almocei em São Paulo, para ir alimentada, como me recomendaram. E parti para as longas horas no AC Camargo. Cheguei às 12:30 e saí às 18:15. Minha amiga-irmã materna, Claudia Mota, me acompanhou em cada segundo, cheia de cuidados, mimos e suporte amoroso.

Não tenho palavras para louvar a competência e o humanismo desse hospital, onde meu pai já tratou durante 20 anos de um câncer nas cordas vocais e sempre teve o mesmo acolhimento. (Hoje ele está curado, em remissão desde 2018).

Passei pela consulta da oncologista clínica, que me explicou longamente todo o processo, todos os cuidados necessários – até com marcas de cremes e pasta de dente (infantil!) a serem usadas, respondeu uma lista de perguntas que levei por escrito. No final, pedi a ela que retirasse um momento a máscara e retirei a minha, para podermos nos ver de fato, rosto inteiro, sorriso aberto, num momento de encontro humano: Dr.ª Milena Shizue Tariki.

Das mãos dela, passei para o corpo de um técnico e várias enfermeiras que me examinaram, me cuidaram e me tutoraram no processo da químio – todas de uma delicadeza exemplar.

Um espanto sempre presente, que eu já conhecia no caso do meu pai, os médicos sabem e nem ligam. Tanto meu pai quanto eu temos pressão muito boa, 12/8. Basta estar no hospital para algum procedimento, embora estejamos aparentemente calmos, bem-humorados e sem aflições, a pressão dispara: a minha ontem estava 15/9. O nome disso é síndrome do jaleco branco.

E o dia foi transcorrendo, numa sala privativa, com vista linda, contemplando o dia ensolarado, com a selva de São Paulo à frente e as montanhas ao fundo, ainda garantindo que existe algo da natureza… Passou entre explicações e aplicações de remédios: anti-enjoo, cortisona, e por fim as ditas cujas. A primeira foi suave. Levei minha caixinha de som, presente do meu irmão para essa fase, e estava flutuando em vibrações de amor e de paz. Centenas de mensagens recebidas, de afeto sincero e palpável e preces de todas as religiões, que me embalaram o dia. Na segunda droga, tivemos que interromper na metade, pois a náusea e a tontura vieram. Para-se a químio, 20 minutos de dramim na veia, alívio, término da segunda dose. Quando veio o mal-estar, desliguei a música e recorri à respiração.

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Antes de sair, pregaram um aparelhinho em minha barriga, que vai disparar depois de 27 horas, uma substância para ajudar a não deixar a imunidade cair. Nesses primeiros dois meses, todas as vezes que aplicar a químio (ao todo 4 vezes) terei esse aparelho armado em meu corpo, que depois de disparar o remédio automaticamente, devo descartá-lo numa caixa e levar ao AC Camargo para incinerar. Tive, claro, a curiosidade de ler toda a bula do dito cujo no Google, e saber o quanto custa: uma módica quantia de 5 mil reais cada um!!! O valor de um só é muito mais do que eu pago pelo meu convênio mensal.

Saí zonza do hospital, enfrentei (sem dirigir obviamente) 2 horas de trânsito até em casa e cheguei para a sopinha feita pela Nena, uma pessoa que trabalhou comigo 10 anos, muito amiga e querida, com mão santa na cozinha, que quando soube do meu câncer se dispôs a vir ajudar nos dias em que eu precisasse. Estou cercada de todo amor possível.

Agora sim, a palavra certa e válida é gratidão (já escrevi que ando achando essa palavra muito desgastada: a pessoa recebe uma pequena informação ou um favor corriqueiro e a outra já vem com a profunda e vasta gratidão).

Reflexões do dia:

Apesar da intensa vivência emocional, física e espiritual do dia todo, não consigo e nem quero me desligar das questões sociais. Faço parte de um pequeno grupo privilegiado no Brasil, que terá acesso a esse centro de referência em oncologia. E as mulheres espalhadas pelo país afora que não terão esse mesmo tratamento? Durante anos, minha maior tensão financeira tem sido pagar o convênio, muitas vezes fiquei com ele suspenso, quase o perdi, lutei como leoa para continuar, porque ele salvou a vida de uma filha espiritual amada e porque precisava continuar o tratamento do câncer do meu pai. Muitas vezes pedi empréstimo em banco, para amigos, doações de familiares, que continuam me ajudando. Algumas vezes, aconteceram verdadeiros milagres de entrada de dinheiro em meses que estava a ponto do convênio ser cancelado. Num certo momento, em que não conseguia mais pagar, tentei transferir meu pai para o tratamento dele para o SUS no AC Camargo e tive o pedido negado.

Nos longos em que acompanhava meu pai no AC Camargo, muitas vezes me confortei pelo fato de que encontrava nas salas de espera, pessoas que estavam ali por convênios e pessoas que estavam pelo SUS, recebendo o mesmo tratamento.

Isso acabou. Pelo que ouvi dizer, o SUS praticamente não tem mais nada no AC Camargo. Nos últimos anos, com o avanço dos desgovernos neoliberais, as poucas conquistas que tínhamos (era preciso avançar muito mais) estão escorrendo como água entre os dedos do povo empobrecido e esquecido. E isso me dói nesse momento. Ainda mais numa semana em que recebemos a notícia de um projeto repulsivo de um grupo de militares de permanecerem no poder até 2035 e dois itens dos mais revoltantes é a extinção do SUS e da educação pública gratuita. Tenho o privilégio (esse convênio é a continuidade de algo que meu pai pagava há 30 anos quando trabalhava no mundo corporativo), mas não fico confortável em ter, sem que tantos não tenham.

Sinto gratidão por todas as circunstâncias e pessoas que me ajudaram a chegar até aqui e até um certo alívio por ter sido teimosa em lutar por isso, e sinto indignação, incômodo e mal-estar porque a maioria não terá o que estou tendo – e todos merecem ter.

* * *

Já são 6 horas da manhã: dor de cabeça, palpitação, glicemia alta, uma sensação de que engoli um cabo de guarda-chuva, em paz de espírito e reflexiva, eis meu relato do dia. Restará um espaço para um pouco de poesia?

Meu corpo se rebela

Em incômodos inquietos.

Mas abro a janela

Da alma tranquila.

E ao longe cintila

O amor de tantos afetos

De cuidados repletos.

O que apenas me revela

Que Deus é sempre por perto.


Diário da mama 4 – Anúncio do Calvário

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Será excessivo chamar de calvário a previsão de 5 meses de quimioterapia, depois cirurgia e depois rádio? Sei que há muita gente que passa por calvários mais longos, mais torturantes e que parecem sem fim, mas para mim, esse prenúncio me fez tremer nas bases. Assim foi a orientação da equipe do AC Camargo, depois da análise do meu caso.

Nessa semana, passei longas horas no hospital, entre consultas, exames e orientações. Saí carregada de papeis, com um calendário cheio para os próximos dois meses, não só para as aplicações de químio, mas também para profissionais da equipe multidisciplinar: nutricionista, psicólogo (apesar de já estar fazendo terapia por conta própria), endócrino, a enfermagem que acompanha a químio… tudo muito organizado, assertivo, acolhedor.

Mas também desanimador. Quando lemos e ouvimos sobre os efeitos colaterais da droga, agressiva, avassaladora, que vai fazer cair o cabelo, descamar a pele, abaixar a imunidade, que pode mexer com o intestino e o estômago, que pode causar neuropatia e até atacar o coração… meu Jesus Cristinho, é muito veneno sendo injetado em nosso corpo! E não há alternativa, à esperança de que esse ataque diminua o tumor e a operação possa ser menos invasiva e causar menos danos.

Mas o chão parece faltar. Racionalmente sabemos que nem todos os efeitos estarão presentes, que cada pessoa é uma pessoa (embora eu tenha o fator complicador da diabete), mas sempre nos perguntamos: e se eu for aquela pequena parte da estatística que teve a sequela mais grave?

E o chão parece faltar também em relação ao trabalho: será que darei conta de me cuidar, de descansar, de realizar tudo o que é inadiável e necessário para a minha sobrevivência?

Então é a hora da entrega, da confiança, da oração e do colo dos que nos amam. A onda de desânimo vem e depois se esvai. Vamos enfrentar no plural, porque tenho muita gente comigo, desse lado e do outro lado da vida.

O calvário se inicia dia 26 de maio e se até Jesus disse do Horto: “Pai, afasta de mim esse cálice, mas faça-se a tua vontade e não a minha”, então também posso me mostrar hesitante e vulnerável, lembrando que Ele está comigo e que milhões de mulheres, como eu, já passaram ou estão passando por isso… Estamos juntas.

Um instante

Um trecho da estrada escureceu

E assombra-me que a lua se escondeu.

Parece que a poesia se faz rala

E uma nesga de fel me avassala…

Que será que Deus quer comigo

Nesse instante fugaz de desabrigo?

Que há de certo num poema

Que na garganta se entala?

Fecho os olhos, respiro,

Procuro no alto da montanha

Um fôlego, um retiro

Que me acuda nessa dor tamanha…

E aí estás, coração divino,

Em que doce, me reclino…

Coração que se espraia no universo inteiro

Que é sólido, fagueiro,

Infinito luzeiro

Para inundar de paz

O minuto passageiro…


Diário da mama 3 – Desafios

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Com todos os exames nas mãos, estive colhendo a opinião de dois médicos, um médico do Einstein e a chefe da mastologia da AC Camargo. Acompanhada de primos, meus queridos Ana e Fábio, minhas amigas-irmãs, as duas Claudias (Gelernter e Mota), e meu pai, senti-me cercada por um séquito de amor e sustentação.

A notícia que me aliviou é que não terei de tirar a mama, mas apenas um quadrante. As notícias que me pesaram são as que já se sabe, mas que quando se anunciam, sempre assombram: a cirurgia, o dreno, a longa químio, com todos os seus horrores.

Apesar de todo mundo achar uma maravilha a medicina de hoje, com seus avanços tecnológicos, eu – que já quis ser médica na primeira juventude e desisti porque não queria o horror de dissecar cadáveres – euzinha acho a medicina ainda uma barbárie. Uma medicina que tira pedaços, que serra o tórax, que usa pinos e ruelas, que para curar algo provoca mil efeitos colaterais…Uma medicina enfim que vê o corpo como um mecanismo material apenas, sem conhecer suas conexões com o espírito, sem adentrar seus aspectos energéticos! Mas é o que temos para hoje. E claro que, desde o tempo das sangrias e dos purgantes, evoluiu muitíssimo. E temos que recorrer a ela com confiança, porque nesse meu caso, ela cura.

Pelo menos, o hospital em que decidi fazer o tratamento, AC Camargo, tem algumas coisas que me agradam muito: equipes multidisciplinares e humanismo.

No dia seguinte à consulta, passei angustiada. A perspectiva dos próximos meses, as idas e vindas entre São Paulo e Bragança, com a cirurgia, as químios, a rádio, tudo isso de repente se agigantou em meu peito, como uma aluvião de medos. Não duvido de que ficarei curada desse câncer. Mas o processo de cura é doloroso e longo para o meu gosto. Pode ser que depois de tudo ter passado, as coisas me parecerão ter sido rápidas.

Procurei pelos recursos de sempre: falei com pessoas queridas, que me confortaram e me apoiaram, fiz uma consulta com a endócrino que me trata há anos da diabete e que já teve um câncer de mama – e ela me deu bons e úteis conselhos – orei, recebi visitas espirituais e fiz poesia. E o coração se desanuviou. Enfrentemos o que virá e… encaremos um dia de cada vez – a frase que mais tenho escutado desde o anúncio do câncer, ou como dizia Jesus, a cada dia seus cuidados.

Durante a oração da noite, entrei em conexão profunda com Jesus e senti uma paz doce e infinita. É uma presença real, que nos conforta e acalenta. Ele também experimentou o que é viver, sofrer e morrer nesse corpo que carregamos na Terra e compreende as nossas fragilidades. E prometeu estar conosco até o final dos tempos.

Depois de um dia ruim, brotou um poema de profunda paz:

 

Ao Espírito do Mestre

 

Não sou digna que entres em minha casa…

Mas aqui estás, bem assim,

Trazendo no colo um jasmim,

Olhando-me com olhos de amor sem fim…

 

Estás aqui, ombro a ombro,

Desfazendo todo assombro

Das dores no coração…

Tudo se torna mais leve

Tal como pena breve

Que em nossa alma já inscreve

A trilha de nossa ascensão.

 

Não mais a sombra da noite

Mas a luz do pleno dia

Não mais o íntimo açoite,

Mas a perfeita alegria.

 

E mesmo se a noite escura

Se faz em certa jornada,

Teus olhos, estrelas puras

Nos conduzem pela estrada.

 

Ah mestre, irmão dos séculos

Que prometeste estar

Ao nosso lado no mundo,

Que amor teu, tão profundo,

Para sempre peregrinar

No meio de nossas dores,

Descendo de todo altar!

 

Quero apenas segurar

Nas mãos serenas da alma

Esse momento perfeito

De inteiro silêncio e calma

Em que me achego em teu peito

Em que em ti tenho meu lar!


Diário da mama 2 – É câncer!

 

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A notícia veio por uma pessoa muito querida, alguém que conheço desde criança e está se formando em medicina: Vitor Dal Poggetto. Eu havia dado o login e senha para ele ver os primeiros exames e ele, por conta própria, preocupado, entrou e viu primeiro que o resultado da biópsia já estava lá. Ligou para mim e contou-me com muito amor e delicadeza. Mas a notícia é dura. Cai com uma pedra no estômago. Eu, que sou tão articulada, fiquei sem fala.

Não prolonguei a conversa. Precisei contar para outras pessoas, precisei chorar, precisei orar.

A gente sente como se o tempo tivesse parado, não sabemos o que pensar e o que sentir.

Não, em nenhum momento pensei na morte (apesar do poema sobre morte no primeiro episódio dessa série da mama), porque sei que câncer de mama tem cura, está no começo e não pretendo morrer tão já.

Mas mil ideias perpassam a mente e atormentam o coração. O sofrimento em vista, a possível perda da mama (coisa que sempre me assombrou), o trabalho, os recursos, as reponsabilidades.

Depois de ser acolhida e confortada por alguns mais amados, que garantiram presença, cuidado, acompanhamento, prece e todo o amor do mundo, senti-me melhor.

E quando escrevo isso, ainda no mesmo dia da notícia, estou serena. Respiro fundo, concentro-me, elevo-me e sei que estou amparada, sei que tenho recursos psíquicos e espirituais para enfrentar toda dor, sei que tenho rede de apoio para atravessar o processo, seja ele qual for – do qual ainda não sei os passos, porque só conversei com o médico por telefone e ainda faltam alguns exames.

E o que pensar até agora desse evento inesperado e incômodo? Por que, para que, como me apareceu isso de repente, contrariando todas as expectativas de não ter justamente o câncer de mama? Preciso encontrar todos os sentidos, preciso procurar todas as aprendizagens.

Entre as primeiras impressões está o fato de nesses poucos dias ter recebido inúmeros testemunhos de casos de outras mulheres que já tiveram o mesmo câncer. Sensação de sororidade, sabendo que estou sendo apoiada por irmãs que já experimentaram ouvir essa má notícia e atravessar a jornada da cura. Sensação de pertencimento igualitário e fraterno.

Um dos motivos principais que não queria nada na mama é porque para mim é o maior símbolo do feminino, um lugar sagrado do corpo, impensável extirpá-lo. E ouvi de algumas mulheres: você vai suportar a dor, porque nós mulheres temos um limiar de dor mais alto. Então o sagrado da mulher está além do corpo: está na resiliência, na resistência, na alma feminina.

A outra impressão é o quanto de transbordamento de amor estou percebendo à minha volta e isso abastece o coração e asserena a aflição.

Então vou. Estou preparada (será?) para peregrinar pela via sacra, com estoicismo, com espiritualidade e com tantos amores.

E… sem jamais deixar a poesia.

 

Nessa vida

Não dei de mamar

Mas nunca deixei de amar

E oferecer o colo

Aos que estavam no mesmo solo

Do meu amplo lar.

 

E agora vai sangrar-me o seio

E vem-me o receio

De quebrar-me ao meio

O sangue guerreiro.

 

Mas não, logo poeto e me levanto

Seco depressa meu pranto.

Porque há tanto acalanto

De todo canto…

Logo me domino,

Pois não há espaço

Para titubeio.

Para o meu seio

Só há regaço

Humano e divino.


Diário da mama 1 (Será câncer?)

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Eu já havia conversado com os meus guias, com Deus, com Jesus ou com qualquer um acima de direito, que não queria duas coisas na vida: nenhum problema nos olhos, de que tenho aflição extrema e nenhum problema na mama. Para o segundo caso, tomei todas as precauções possíveis: nunca fiz reposição hormonal, sempre evitei desodorantes spray, nunca usei sutiã apertado e me consolava dizendo que não há um caso de câncer de mama na família, apesar de casos de outros tipos câncer de todos os lados: pai, mãe, avós…

Meses atrás, porém, apalpei um nódulo no banho. Fiquei um pouco preocupada, mas não pude ir ver logo e não me esforcei para contornar os obstáculos – COVID ainda atuando, o carro estava ruim e não estava licenciado para ir a SP, não tinha com quem deixar meu pai… desculpas?

Passaram-se alguns meses. E eu sempre me confortando: não temos câncer de mama na família. Processo de negação?

Num dia, na semana passada, vi que o nódulo estava maior e doendo, e fiquei a noite em claro, já além de preocupada, aflita.

No dia seguinte, marquei os exames numa das melhores referências em câncer no Brasil, o hospital AC Camargo, em São Paulo, onde aliás meu pai trata há 20 anos de um câncer nas cordas vocais, agora em remissão. Felizmente o meu convênio cobre totalmente qualquer procedimento neste hospital – convênio pelo qual me mato para pagar. Minha conta mais alta.

E fui para a mamografia e para o ultrassom de mamas. Já tinha um pedido que minha endócrino – Glaucia Duarte, com quem também já falei durante o sufoco dos últimos dias – havia feito ainda durante a pandemia. Não fazia esses exames de rotina desde antes do pesadelo pandêmico. E o outro pedido, minha querida vizinha médica, Leni, preencheu para mim.

O primeiro susto: o médico do ultrassom chamou o outro e os dois examinaram longamente e avisaram que eu precisaria ver aquilo com urgência, que havia um nódulo suspeito no seio e um linfonodo na axila.

O olhar de preocupação e o longo silêncio dos dois já me abalaram.

E aí as coisas se sucederam. Passei numa médica do mesmo hospital e ela (coisa por mim nunca vista) ao me dar a notícia de que tinha muita chance de ser câncer, pegou nas minhas mãos e olhou nos meus olhos – depois soube que se trata de um protocolo – Spikes – para dar notícias ruins. Mas nunca havia visto tal protocolo posto  em prática por qualquer médico.

E ontem foi o dia da biópsia e enquanto escrevo isso, ainda não sei o resultado – só sei por enquanto, que a classificação do nódulo é BI – RADS 4c – o que significa uma enorme chance de ser maligno.

Fiquei mal… não tenho o mínimo medo da morte, embora não tenha o mínimo desejo de morrer agora. Ainda tenho muita coisa a fazer e algumas pessoas de quem cuidar, sobretudo minha responsabilidade direta, meu pai de 85 anos. Mas uma série de assombrações me tiraram o chão: como vou trabalhar – e dependo do trabalho de cada dia para comer, pagar as contas e o convênio? Quem vai cuidar do meu pai, que ainda tem autonomia, mas está bastante dependente de mim? E meus cursos, meus pacientes, meus livros, minhas lives e toda a multidão de coisas que faço?

“Slow down, Doris” – me disse uma pessoa amada, Franklin, que me chama por esse apelido.

“Ah, minha amiga! Sei que o susto é grande, mas abandona todas as tuas inseguranças, inclusive as financeiras, porque tu e teu pai não estão em perigo. Haverá sempre aqueles que inspiraremos, e que estarão ao teu lado para, se preciso for, amparar-te, enquanto completas as lições que a Vida – outro nome para Deus – quer te ensinar” – disse um espírito amigo pela psicografia do amigo Rodrigo.

Ante o susto e a aflição, procurei familiares e amigos deste e do outro lado da vida. Mensagens, telefonemas, orações, evocações, reuniões mediúnicas… e recebi uma avalanche de amor! Muitos me oferecendo ajuda financeira, preces, companhia, hospedagem em São Paulo….

Na noite de quinta, um dia antes da biópsia, reuni-me presencialmente com nosso grupo mediúnico. Durante as orações e entre as mensagens que recebi, apresentou-se D.Addy, uma alma muito querida, que foi médium de cura em vida, com quem convivi e trabalhei durante mais de 30 anos. E ela me disse: “vou te acompanhar em todo processo”.

No dia seguinte, ontem, era o dia para mim já aflitivo, pois implicava em dois desafios: enfrentar a ressonância magnética porque tenho claustrofobia, e saber e sentir que estavam enfiando uma agulha no meu seio – meu maior medo, porque sempre considerei muito aflitivo. Fui acompanhada pela Claudia Mota, uma das minhas mais próximas amigas-irmãs maternas.

Pois não é que tirei de letra? Durante a ressonância, meditei, orei e até cheguei a me soltar do corpo, mesmo com todo aquele barulho infernal.

E durante a biópsia, bem quando estavam enfiando a agulha da anestesia – procedimento aliás feito por uma delicadíssima médica nascida em Montes Claros (é claro que falamos de Darcy Ribeiro), ouvi D. Addy me dizendo: “nunca iria deixar de acompanhar você nesse momento, você sempre acompanhou minha filha quando ela teve câncer de mama…” E então me lembrei do que não lembrava mais. De fato, estive sempre com a filha da D.Addy, a Neyde, que mais tarde teria metástase e viria a falecer antes da mãe, indo fazer orações, dando passes, prescrevendo receitas mediúnicas homeopáticas para diminuir os efeitos da químio ( durante muitos anos fiz receituário mediúnico e depois deixei por falta de tempo). E ali estava a Addy em espírito, me confortando. Quase nem senti a agulha no meu seio.

À espera do resultado da biópsia, agora estou calma, preenchida de amor e aceitando o que vier, para enfrentar com coragem e fé, claro que, preferindo que o resultado seja negativo.

Primeiras lições colhidas nesses poucos dias:

  • Por mais queiramos ter controle de tudo, a vida flui além da nossa vontade e nos apresenta desafios inesperados.
  • O bem que se planta, por mais singelo e despretensioso, sempre é fecundado por Deus e vamos colhê-lo mais adiante, quando menos esperamos.
  • O universo tem amor em abundância, basta precisarmos e nos abrirmos para ele, que nos sentimos fartos e amparados.
  • “O senhor é meu pastor, nada me faltará!” Salmo que me acompanha diariamente e que ganhou novos sentidos nesses últimos dias.

Resolvi escrever esse diário, porque a escrita pode ser sempre terapêutica, como me ensinou o querido amigo e terapeuta, Julio Peres, e porque pode ajudar outras pessoas.  E já como resultado das meditações desse primeiro impacto, fiz hoje a poesia abaixo:

Irmã morte

A morte sempre aparece

Como um sinal de vida

Anda à espreita, escondida

Atrás de qualquer assombro

Caminha no ombro a ombro

De nossa jornada cumprida

De nossa saudade mais linda

De nossa pendência perdida!

É preciso estar sempre pronto

Colando os pedaços esparsos

Desconfrontando o confronto

Retomando silêncios e abraços

Usando com muita fartura

Todo perdão que cura

E toda união que costura…

Assim, a morte é uma irmã

Bem vinda quando vier,

Na hora que Deus quiser

Na fresta de nova manhã

Com gosto de aurora e romã,

Com gosto de casa, agasalho e avelã!


A salvação da poesia

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Na semana passada, dia 4 de dezembro, completei 58 anos e lancei meu 45º livro. Isso contando com os livros de minha inteira autoria, e ainda os organizados, os traduzidos, os psicografados. Esse último lançamento é de poesia – Luas vermelhas, poemas de outono– entre outros sobre educação, espiritismo, espiritualidade, infanto-juvenis, didáticos e paradidáticos. De tudo um pouco. Não estão entre esses 45 títulos, os tantos outros editados por mim, pela Editora Comenius.

Queria comentar sobre lançar livros de poesia – o primeiro que publiquei, aos 19 anos, Chamas de Paz, foi de poesia, o lançamento desses últimos dias também. E no meio dos dois, um outro de 2014, A Hora de Dora. Poderia ter lançado muitos outros, porque poemas feitos não faltam.

Quando decidi que iria ser escritora aos 13 anos de idade, já escrevia poesias e talvez, entre todas as coisas que produzo, é o que me dá mais prazer escrever, declamar e publicar.

Mas a poesia parece um artigo de luxo em nossa sociedade corrida, pragmática, tecnológica. Pode ser até que muita gente goste, mas poucos se importam em adquirir um livro de poemas, e ainda menos dedicarem um tempo a uma leitura poética.

E no entanto, poesia é alívio da alma, fruição do coração, estímulo ao cérebro, catarse da dor – tudo isso para quem faz (e todo mundo pode fazer) e para quem lê.

Desde a minha primeira adolescência, eu era dessas que na volta da escola, sempre que me sobrava um dinheirinho da mesada, passava numa livraria que havia no caminho entre o colégio e minha casa, e comprava um livrinho da Edições de Ouro, que fosse de Castro Alves, Casimiro de Abreu, Mário de Andrade, Cecília Meirelles, Fernando Pessoa. E vinha lendo até em casa.

Depois que mergulhei fartamente em toda a literatura luso brasileira, passei a ler em outras línguas. Poetas alemães, franceses, espanhóis. Os russos também me apeteciam, mas esses só podia ler traduzidos. Lembro-me que aos 15 anos, comprei várias obras de Victor Hugo em francês (que ainda não havia estudado) e procurava palavra por palavra no dicionário, para decifrar os longos e épicos ou líricos poemas do gênio francês. Já aos 16, lia poetas em alemão, como Goethe e Schiller, depois de ter vivido em Berlim e estudado em escolas de lá.

A poesia me encharcava de deleite e imaginar ser poeta, publicar livros, era um sonho fagueiro (para usar uma expressão dos meus românticos prediletos).

A realidade, porém, não é assim tão dourada. Imprimir um livro custa dinheiro. E para mim, até hoje, livro só publicado em e-book, não está publicado. Editoras não se interessam por quem já não é renomado. Para escrever poesia, nunca fui muito incentivada em família, mas por alguns poucos professores e amigos, e sempre senti que muita gente acha que a poesia é supérflua. Que não vende, que não dá dinheiro, que é perda de tempo.

Mas a poesia é uma necessidade, sim. Nessa pandemia, vimos o quanto todas as artes são essenciais, incluindo a sagrada poesia de cada dia.

Por tudo isso, encorajo-me, apesar dos pesares, a publicar livros de poesia, a declamar meus poemas e de outros autores em vídeos diários, que tenho feito na pandemia – o Boas palavras para um bom dia – porque semear poesia é algo que sustenta a força de viver – minha e de outros que se sintonizam no mesmo élan poético.

A poesia também é arma de luta, a palavra que denuncia as mazelas do mundo e anuncia as esperanças que vêm.

Até mesmo nessa coluna (do Jornal GGN), quando não consigo articular a prosa crítica, pelo peso do momento e pelos temas sombrios, me valho do verso cortante, para deixar a rebelião necessária.

Aqui abaixo, um dos poemas desse meu novo livro, Luas Vermelhas, que está disponível no site da Editora Comenius!

 

A salvação da poesia
 
Depois de uma guerra
Sobra poesia?
E enquanto se atura
Uma pandemia?
Sobrevive a poesia?
Mas em tempos de paz suposta
De normalidade torta
Onde se esconde a poesia
No meio da noite fria
Com o irmão da rua?
Como se canta a lua
Com a chacina na favela?
A poesia, onde se esgueira
Ante a criança abusada
Ante o pobre sem beira
E a mulher espancada?
Onde se acha a poesia
Quando a natureza anda abatida?
  
A poesia corre enlouquecida
Ávida de flores e de delicadezas.
A poesia grita proezas
Para reclamar justiça e humanidade,
Para ensaiar beleza e sanidade!
  
Apesar dos pesares
A poesia persiste
Avista estrelas
Na noite triste.
Abre-se em mares
De pranto reparador.
A poesia pode gemer de dor
Mas ainda nos salva do destempero
Abranda o desespero
E nos faz tecer
A cada dia, um caminho
De certo alvorecer...

NOTA: Esse texto foi originalmente publicado no Jornal GGN, em minha coluna Espiritismo Progressista


O Francesco que me (nos) toca a alma

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A figura histórica que mais me comove, depois de Jesus, e justo por ser o mais próximo dele, o que melhor manifestou seu amor é Francesco, Francisco, Francisquinho…

Reler sua história, orar seu Cântico do Sol, assistir filmes sobre ele (meus proferidos e insuperáveis são Irmão Sol e Irmã Lua, de Zeffirelli e Francesco, de Liliana Cavani), simplesmente lembrar-me de sua figura, derrete meu coração…

Não é algo só meu. Ele é o santo mais popular da Igreja e católicos, protestantes, espíritas e ateus se sentem tocados pelo Poverello de Assis.

Em seu diário de viagem pela Itália, Fanny Mendelssohn Hensel, a compositora  judia (convertida ao protestantismo), confessa em sua passagem por Assis, no ano de 1832, que quase virava católica por causa de Francisquinho.

Mas seria possível explicar essa capacidade universal e atemporal de arrebatar almas, que tem Francisco?

Não sei se me arrisco a empalidecer os sentimentos que ele provoca, ao tentar fazer algumas reflexões a respeito.

Estamos em plena Idade Média, mas nesse momento, está nascendo o capitalismo, na sua forma primeira de mercantilismo. E Pietro Bernardone é justamente o protocapitalista: fascinado pelo dinheiro, com empregados tingindo tecidos em condições sub-humanas de trabalho. Louco para que seu filho, à custa de guerras e ouro, se torne Conde. As Cruzadas andam à solta – intolerância, mortes em nome de Deus, invasões a terras distantes, a Inquisição está batendo à porta da história, aliás começa bem no tempo de Francisco. As mulheres andam cobertas, como andam hoje as muçulmanas e se puderem participar da vida religiosa, encerram-se em clausuras.

Neste longo período medieval, o povo analfabeto não conhece diretamente o Evangelho. As missas são em latim, mas há muitos séculos os povos europeus esqueceram o latim e desenvolverem línguas locais. Ignoram assim o que Cristo ensinou.

O povo vive na miséria, os leprosos excluídos da cidade, sem cuidados, à mercê da caridade de alguns; jamais podem ser tocados, nunca mais verão suas famílias, morrerão entre a podridão e a fome, revoltados e sozinhos.

A Igreja se interessa muito mais pelas guerras “santas”, pelo ouro da nobreza, pelo domínio do mundo do que pelos ensinos do humilde e suave Nazareno.

A natureza jazia à distância da poesia e da literatura – tudo era voltado apenas para a submissão e a glória de Deus. Apenas canções cavalheirescas dos menestréis davam um tom mais romântico à beira dos castelos, onde as damas eram também enclausuradas.

Profundos fossos sociais, enormes injustiças, por toda parte sofrimento desamparado: nem escolas, nem hospitais, numa Europa que se dizia cristã.

E nasce um menino em Assis, que iria se insubordinar contra tudo isso com graça, leveza, amor e poesia.

Primeiro, Francesco experimenta os prazeres mundanos, com a riqueza do pai; depois vai em busca da glória guerreira.

Mas dois eventos o despertam e o relembram a que viera: a sua prisão em Perugia e a voz explícita de Jesus, que o chama a reconstruir sua Igreja.

Ele tem contato com um texto do Evangelho em língua vulgar – coisa considerada alta subversão na época (uma forma do povo não conhecer que a sociedade estava estruturada em total oposição aos princípios igualitários e fraternos do Mestre). E será ele a escrever a primeira obra literária do que viria depois a ser a língua italiana:  o Cântico do Sol é em vulgar. Antes de Dante, Francesco inaugura o italiano.

Sua primeira regra – que não será aceita pelos próprios franciscanos e pela Igreja – é em língua vulgar e, em sua maior parte, uma repetição pura e simples de mandamentos de Jesus.

Era como uma revivescência refrescante e confortadora das palavras do Mestre – um apelo direto ao coração cansado do povo e um ideal de vida pura para a juventude enojada do sangue das guerras.

Francesco provoca uma revolução. Arrasta a juventude de Assis e inclui as mulheres, com Chiara e suas amigas – que a princípio começam a viver junto dos primeiros amigos de Francisco. Inédito na Idade Média: mulheres misturadas com homens, cuidando de leprosos, andando pelas ruas, sem a tutela de maridos e pais. Um escândalo. A história oficial da Igreja trata de abafar esse episódio e diz que Chiara foi desde o início uma enclausurada. Mas Jacques Le Goff e Inácio Larrañaga refutam essa versão arrumadinha e comportada, dentro dos padrões impostos pela Igreja.

Francesco e seus companheiros e companheiras invertem a ordem das coisas: fazem da Igreja de Porciuncula um abrigo para os pobres, cuidam dos leprosos, tocando-os, abraçando-os, sobretudo devolvendo-lhes a fé e a dignidade.

A comunidade primeira dos franciscanos é alegre, é jovem, é livre, é pura…

Um libelo contra a sociedade hierarquizada, pesada, sangrenta de então. Mas um libelo amoroso, que não condena.

Aliás, esse é o encanto de Francesco. Ele exemplifica, sem arrogância. Ele mostra de forma concreta (através de atos dramáticos e simbólicos, como o despir-se publicamente ou a criação do presépio) um amor infinito por todos. Socorre os pobres, tocando os ricos. Se faz um frade despojado, falando sem rancor com papas e cardeais. Conversa com os pássaros, mas também amansa os lobos. Deixa marcas profundas em todos, por sua poética simplicidade, ardente sinceridade e amor sem condições.

Le Goff mostra em sua biografia magistral o quanto a Igreja se empenhou em arrumar a história de Francisco dentro dos seus cânones, chegando a destruir narrativas originais. Fizeram dele um santinho melado, bem obediente às ordens papais.

Mas não foi assim. Francisco fez uma revolução pacífica, amorosa, apenas para dizer e mostrar uma coisa: é possível viver o Evangelho em sua radicalidade, de fraternidade, de desapego, de amor – o que contrastava e contrasta até hoje com as sociedades que se dizem organizadas, dentro da herança ocidental cristã.

Nascia um mundo, em que o principal deus seria o dinheiro. Francesco renuncia a tudo e proclama: a pobreza é a liberdade. Homens e mulheres de sua época responderam ao seu chamado. E até hoje, sua é mensagem atual, tocante, transformadora!

Salve, Francisquinho!


Meu encontro com a Psicanálise – I

Spirit of Parenting

Esse tema daria e, quem sabe, ainda dará um livro, por sua extensão e necessário aprofundamento. Mas quero deixar aqui algumas breves reflexões, que anunciem próximos desdobramentos.

Minha relação com a Psicanálise, que já havia folheado superficialmente, era de uma ambígua curiosidade, com rejeições pré-concebidas. Quando fiz meu trabalho na USP sobre Pestalozzi, deparei-me com uma tese de doutorado, feita na Alemanha, que sugeria a interessante ideia de que o educador suíço tinha intuído alguns conceitos que seriam depois propostos por Freud. Coloquei isso na dissertação de mestrado, depois publicada em meu livro Pestalozzi, Educação e Ética, e ficou por isso mesmo.

A corrente inaugurada por Freud me afastava por seu confesso materialismo e eu, como espírita e, portanto, espiritualista, considerava que suas premissas positivistas do século XIX levariam necessariamente a um entendimento equivocado do inconsciente. E mais, talvez mais do que o materialismo, me desencantava o pessimismo de Freud em relação ao ser humano. Esse traço de suas obras, sobretudo das últimas, como O Mal-estar da Civilização, é admitido mesmo por seus seguidores. Para ele, as forças destrutivas do ser humano poderiam acabar com o processo civilizatório e até com a espécie humana.

Agora, entretanto, em plena maturidade física e intelectual, fui me debruçar mais seriamente sobre a Psicanálise, num excelente curso de formação em Campinas-SP e em leituras mais aprofundadas de Freud em alemão e de alguns de seus mais interessantes discípulos, como Melanie Klein, Winnicott e Bion. E confesso que estou apaixonada e com diversos clarões mentais, prontos a gerarem reflexões, escritos e práticas.

O conceito de Id em Freud, com suas pulsões de vida e de morte, com sua dimensão de sem tempo, sem lógica, sem moral e sem palavras, é uma ferramenta de entendimento para abordarmos as obscuridades do comportamento humano, com suas perversões, violências, impulsos irracionais e destrutivos.

A ideia que está presente nos autores espiritualistas, como Platão, Comenius, Rousseau e Pestalozzi, de que temos uma divindade imanente – coisa totalmente rejeitada pela Psicanálise – não exclui a presença desse inconsciente pulsional, de desejos inconfessáveis pela moral estabelecida pela sociedade e que corresponde bastante ao estado natural de Pestalozzi, na sua teoria dos três estados.

O que essa descoberta do Id nos faz, mesmo que estejamos convencidos da nossa divindade em potencial, é nos jogar no chão da realidade de nós mesmos e da humanidade em geral. Isso nos dá uma espécie de humildade e nos faz solidários com o pior criminoso ou o mais pervertido dos seres humanos. Porque os desejos irracionais, perturbadores, inconfessáveis podem estar tanto em nós quanto naqueles que lhes dão vazão. Para a teoria de Freud, aqueles que dão vazão, contrariando os necessários limites sociais, não estruturaram devidamente um ego saudável e um superego forte para conter dentro dos domínios dos sonhos – onde matar por exemplo, é permitido – aquilo que não pode ser posto em prática na civilização.

Esse dado é muito importante para nos vacinarmos contra o moralismo hipócrita que muitas pessoas religiosas adotam como forma de comportamento. Escamoteiam elas esse lado obscuro, passando a um julgamento altivo daqueles que manifestam esses impulsos, que todos nós temos – e reprimem seus desejos, mas eles não estão anulados, apenas disfarçados.

Para as propostas espiritualistas, a transcendência é o acordar da divindade interior, para que não queiramos apenas prazeres que contentem nosso Id, mas felicidade que satisfaça nossa alma. Num certo sentido, é o que Freud chamou de sublimação, embora ele não reconhecesse essa dimensão do Espírito. Mas seria possível, para ele, transformar essa energia pulsional em cultura e civilização, em produção intelectual ou artística.

O que considero interessante aqui é que aquilo mesmo que faz da teoria psicanalítica algo um tanto pessimista – quase sem redenção para o ser humano, que sempre ficará aprisionado entre os desejos do Id e a repressão do Superego – é o que a torna humanista, no sentido de compreender a fragilidade humana e acolhê-la sem julgamento.

Alguém que se torna abusivo, agressivo, destrutivo ou perverso não tem uma natureza diversa do santo. Seu psiquismo não foi bem constituído, quebrou-se no caminho, não se fez de maneira adequada. E o psiquismo de algum suposto santo pode ser de alguém que está escondendo muita coisa. A psicanálise assim pode nos levar a menos julgamento dos que “caem” e nos prover de mais desconfiança dos que são idolatrados (ou idealizados?).

Isso nos lembra quem? Um outro judeu, conhecido como Jesus: “não julgueis para não serdes julgados”. “Não me chameis de bom, pois só Deus é bom.”

Mas uma visão espiritualista, por outro lado, nos faz ver que há verdadeiros “santos”, no sentido não sobre-humano, mas da transcendência real, da bondade sincera, do amor aniversal e não apenas na repressão superficial. Afinal, o mesmo mestre judeu falava: “Vós sois deuses!” Ele mesmo foi alguém que realizou plenamente a divindade: “eu e o Pai somos um!”

Outra coisa que fala à minha alma de educadora é que na Psicanálise está a maior fonte de observações e evidências – e é uma ciência que vem se desenvolvendo e aprofundando há cem anos – do quanto a primeira infância é determinante para a saúde psíquica do indivíduo, do quanto as funções materna e paterna são vitais para o desenvolvimento do psiquismo da criança. A maternagem, o afeto, o investimento psíquico do ser em formação, garantem uma vida com muito menos possibilidades de adoecimento psíquico e comportamentos antissociais. E considero que a maior contribuição nesse setor é de Winnicott, que tem um diálogo incrível e profundo (que pretendo demonstrar num futuro breve) com Pestalozzi.

Esse encontro, portanto, com a Psicanálise, me fez mais realista, mais pé no chão e mais fincada naquilo que defendo como uma educação amorosa e presente.

Mas há uma discrepância entre a Psicanálise e os clássicos da Educação com que trabalho, no desdobramento do processo educativo como um todo. Para Freud, o superego – que é o domínio da lei, das regras sociais, dos pais introjetados, é a única fonte da moralidade humana. Ou seja, estamos em permanente contradição interna, entre nosso Id desejante e nosso Superego repressor. Cabe ao coitado do Ego administrar a situação, sempre incerta e dolorosa – por isso somos todos neuróticos. Ora, a educação tem, portanto, uma função meramente disciplinadora – a partir da castração, ante o complexo de Édipo. No início, afeto, investimento psíquico, para sua majestade, o bebê. Mais adiante, a lei, a regra, a introjeção da moral social.

Mas quando temos aquela perspectiva que inclui a dimensão da espiritualidade e do conceito da divindade humana, há uma esfera de moralidade intrínseca no ser, radicada na alma imortal. E é essa que deve ser acionada, tocada, despertada na educação moral.

Nesse ponto, educar, segundo Sócrates, Rousseau ou Pestalozzi, não é introjetar uma moral social que entra em conflito com os impulsos profundos do ser humano, mas sobretudo fazer brotar uma consciência mais profunda, aquela que deseja algo mais alto e mais sublime, do que o impulso cego do Id.

Quando se fala então hoje em dia a cada duas palavras sobre Educação, em imposição de limites, pensa-se a partir dessas premissas psicanalíticas, que nesse sentido possuem talvez um parentesco com o imperativo categórico de Kant. O filósofo iluminista considerava que o ser humano tem um “mal radical”, quer dizer algo de escuro enraizado em sua natureza. E por isso, a moral deveria se autoimposta como um dever, que ele chamou de imperativo categórico, causasse bem-estar ou não, ao praticante do ato moral correto. Essa autoimposição moral, na teoria freudiana, se dá pelo superego, que também controla e coloca freios à manifestação do ID. Aquele processo para Kant seria totalmente racional, portanto consciente. Para Freud, não necessariamente: o ID é totalmente inconsciente; o Superego pode atuar em parte consciente e em parte inconscientemente. O que importa demonstrar é que tanto na teoria kantiana, quanto na freudiana, a moral é extrínseca, embora internalizada para Freud, e embora autolegislada para Kant, e leva o ser a contradizer seus impulsos, inclusive, contrariando, desviando ou, compensando, segundo Freud, o princípio básico que nos move, que é o princípio do prazer.

Já numa visão espiritualista, essa contradição de si é vencida pela real transcendência e pelo encontro de um Ego superior, se assim podemos nos expressar (não vou aqui invocar a teoria de Jung, com o Self). E a educação não pode se limitar a dar limites – aliás, deve transcender esses limites impostos, criadores de conflitos e repressões, para acordar uma alma com a moralidade intrínseca que possui, como herdeira da divindade.

Outras reflexões – e há muitas – ficarão para próximos textos.