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O Francesco que me (nos) toca a alma

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A figura histórica que mais me comove, depois de Jesus, e justo por ser o mais próximo dele, o que melhor manifestou seu amor é Francesco, Francisco, Francisquinho…

Reler sua história, orar seu Cântico do Sol, assistir filmes sobre ele (meus proferidos e insuperáveis são Irmão Sol e Irmã Lua, de Zeffirelli e Francesco, de Liliana Cavani), simplesmente lembrar-me de sua figura, derrete meu coração…

Não é algo só meu. Ele é o santo mais popular da Igreja e católicos, protestantes, espíritas e ateus se sentem tocados pelo Poverello de Assis.

Em seu diário de viagem pela Itália, Fanny Mendelssohn Hensel, a compositora  judia (convertida ao protestantismo), confessa em sua passagem por Assis, no ano de 1832, que quase virava católica por causa de Francisquinho.

Mas seria possível explicar essa capacidade universal e atemporal de arrebatar almas, que tem Francisco?

Não sei se me arrisco a empalidecer os sentimentos que ele provoca, ao tentar fazer algumas reflexões a respeito.

Estamos em plena Idade Média, mas nesse momento, está nascendo o capitalismo, na sua forma primeira de mercantilismo. E Pietro Bernardone é justamente o protocapitalista: fascinado pelo dinheiro, com empregados tingindo tecidos em condições sub-humanas de trabalho. Louco para que seu filho, à custa de guerras e ouro, se torne Conde. As Cruzadas andam à solta – intolerância, mortes em nome de Deus, invasões a terras distantes, a Inquisição está batendo à porta da história, aliás começa bem no tempo de Francisco. As mulheres andam cobertas, como andam hoje as muçulmanas e se puderem participar da vida religiosa, encerram-se em clausuras.

Neste longo período medieval, o povo analfabeto não conhece diretamente o Evangelho. As missas são em latim, mas há muitos séculos os povos europeus esqueceram o latim e desenvolverem línguas locais. Ignoram assim o que Cristo ensinou.

O povo vive na miséria, os leprosos excluídos da cidade, sem cuidados, à mercê da caridade de alguns; jamais podem ser tocados, nunca mais verão suas famílias, morrerão entre a podridão e a fome, revoltados e sozinhos.

A Igreja se interessa muito mais pelas guerras “santas”, pelo ouro da nobreza, pelo domínio do mundo do que pelos ensinos do humilde e suave Nazareno.

A natureza jazia à distância da poesia e da literatura – tudo era voltado apenas para a submissão e a glória de Deus. Apenas canções cavalheirescas dos menestréis davam um tom mais romântico à beira dos castelos, onde as damas eram também enclausuradas.

Profundos fossos sociais, enormes injustiças, por toda parte sofrimento desamparado: nem escolas, nem hospitais, numa Europa que se dizia cristã.

E nasce um menino em Assis, que iria se insubordinar contra tudo isso com graça, leveza, amor e poesia.

Primeiro, Francesco experimenta os prazeres mundanos, com a riqueza do pai; depois vai em busca da glória guerreira.

Mas dois eventos o despertam e o relembram a que viera: a sua prisão em Perugia e a voz explícita de Jesus, que o chama a reconstruir sua Igreja.

Ele tem contato com um texto do Evangelho em língua vulgar – coisa considerada alta subversão na época (uma forma do povo não conhecer que a sociedade estava estruturada em total oposição aos princípios igualitários e fraternos do Mestre). E será ele a escrever a primeira obra literária do que viria depois a ser a língua italiana:  o Cântico do Sol é em vulgar. Antes de Dante, Francesco inaugura o italiano.

Sua primeira regra – que não será aceita pelos próprios franciscanos e pela Igreja – é em língua vulgar e, em sua maior parte, uma repetição pura e simples de mandamentos de Jesus.

Era como uma revivescência refrescante e confortadora das palavras do Mestre – um apelo direto ao coração cansado do povo e um ideal de vida pura para a juventude enojada do sangue das guerras.

Francesco provoca uma revolução. Arrasta a juventude de Assis e inclui as mulheres, com Chiara e suas amigas – que a princípio começam a viver junto dos primeiros amigos de Francisco. Inédito na Idade Média: mulheres misturadas com homens, cuidando de leprosos, andando pelas ruas, sem a tutela de maridos e pais. Um escândalo. A história oficial da Igreja trata de abafar esse episódio e diz que Chiara foi desde o início uma enclausurada. Mas Jacques Le Goff e Inácio Larrañaga refutam essa versão arrumadinha e comportada, dentro dos padrões impostos pela Igreja.

Francesco e seus companheiros e companheiras invertem a ordem das coisas: fazem da Igreja de Porciuncula um abrigo para os pobres, cuidam dos leprosos, tocando-os, abraçando-os, sobretudo devolvendo-lhes a fé e a dignidade.

A comunidade primeira dos franciscanos é alegre, é jovem, é livre, é pura…

Um libelo contra a sociedade hierarquizada, pesada, sangrenta de então. Mas um libelo amoroso, que não condena.

Aliás, esse é o encanto de Francesco. Ele exemplifica, sem arrogância. Ele mostra de forma concreta (através de atos dramáticos e simbólicos, como o despir-se publicamente ou a criação do presépio) um amor infinito por todos. Socorre os pobres, tocando os ricos. Se faz um frade despojado, falando sem rancor com papas e cardeais. Conversa com os pássaros, mas também amansa os lobos. Deixa marcas profundas em todos, por sua poética simplicidade, ardente sinceridade e amor sem condições.

Le Goff mostra em sua biografia magistral o quanto a Igreja se empenhou em arrumar a história de Francisco dentro dos seus cânones, chegando a destruir narrativas originais. Fizeram dele um santinho melado, bem obediente às ordens papais.

Mas não foi assim. Francisco fez uma revolução pacífica, amorosa, apenas para dizer e mostrar uma coisa: é possível viver o Evangelho em sua radicalidade, de fraternidade, de desapego, de amor – o que contrastava e contrasta até hoje com as sociedades que se dizem organizadas, dentro da herança ocidental cristã.

Nascia um mundo, em que o principal deus seria o dinheiro. Francesco renuncia a tudo e proclama: a pobreza é a liberdade. Homens e mulheres de sua época responderam ao seu chamado. E até hoje, sua é mensagem atual, tocante, transformadora!

Salve, Francisquinho!


Meu encontro com a Psicanálise – I

Spirit of Parenting

Esse tema daria e, quem sabe, ainda dará um livro, por sua extensão e necessário aprofundamento. Mas quero deixar aqui algumas breves reflexões, que anunciem próximos desdobramentos.

Minha relação com a Psicanálise, que já havia folheado superficialmente, era de uma ambígua curiosidade, com rejeições pré-concebidas. Quando fiz meu trabalho na USP sobre Pestalozzi, deparei-me com uma tese de doutorado, feita na Alemanha, que sugeria a interessante ideia de que o educador suíço tinha intuído alguns conceitos que seriam depois propostos por Freud. Coloquei isso na dissertação de mestrado, depois publicada em meu livro Pestalozzi, Educação e Ética, e ficou por isso mesmo.

A corrente inaugurada por Freud me afastava por seu confesso materialismo e eu, como espírita e, portanto, espiritualista, considerava que suas premissas positivistas do século XIX levariam necessariamente a um entendimento equivocado do inconsciente. E mais, talvez mais do que o materialismo, me desencantava o pessimismo de Freud em relação ao ser humano. Esse traço de suas obras, sobretudo das últimas, como O Mal-estar da Civilização, é admitido mesmo por seus seguidores. Para ele, as forças destrutivas do ser humano poderiam acabar com o processo civilizatório e até com a espécie humana.

Agora, entretanto, em plena maturidade física e intelectual, fui me debruçar mais seriamente sobre a Psicanálise, num excelente curso de formação em Campinas-SP e em leituras mais aprofundadas de Freud em alemão e de alguns de seus mais interessantes discípulos, como Melanie Klein, Winnicott e Bion. E confesso que estou apaixonada e com diversos clarões mentais, prontos a gerarem reflexões, escritos e práticas.

O conceito de Id em Freud, com suas pulsões de vida e de morte, com sua dimensão de sem tempo, sem lógica, sem moral e sem palavras, é uma ferramenta de entendimento para abordarmos as obscuridades do comportamento humano, com suas perversões, violências, impulsos irracionais e destrutivos.

A ideia que está presente nos autores espiritualistas, como Platão, Comenius, Rousseau e Pestalozzi, de que temos uma divindade imanente – coisa totalmente rejeitada pela Psicanálise – não exclui a presença desse inconsciente pulsional, de desejos inconfessáveis pela moral estabelecida pela sociedade e que corresponde bastante ao estado natural de Pestalozzi, na sua teoria dos três estados.

O que essa descoberta do Id nos faz, mesmo que estejamos convencidos da nossa divindade em potencial, é nos jogar no chão da realidade de nós mesmos e da humanidade em geral. Isso nos dá uma espécie de humildade e nos faz solidários com o pior criminoso ou o mais pervertido dos seres humanos. Porque os desejos irracionais, perturbadores, inconfessáveis podem estar tanto em nós quanto naqueles que lhes dão vazão. Para a teoria de Freud, aqueles que dão vazão, contrariando os necessários limites sociais, não estruturaram devidamente um ego saudável e um superego forte para conter dentro dos domínios dos sonhos – onde matar por exemplo, é permitido – aquilo que não pode ser posto em prática na civilização.

Esse dado é muito importante para nos vacinarmos contra o moralismo hipócrita que muitas pessoas religiosas adotam como forma de comportamento. Escamoteiam elas esse lado obscuro, passando a um julgamento altivo daqueles que manifestam esses impulsos, que todos nós temos – e reprimem seus desejos, mas eles não estão anulados, apenas disfarçados.

Para as propostas espiritualistas, a transcendência é o acordar da divindade interior, para que não queiramos apenas prazeres que contentem nosso Id, mas felicidade que satisfaça nossa alma. Num certo sentido, é o que Freud chamou de sublimação, embora ele não reconhecesse essa dimensão do Espírito. Mas seria possível, para ele, transformar essa energia pulsional em cultura e civilização, em produção intelectual ou artística.

O que considero interessante aqui é que aquilo mesmo que faz da teoria psicanalítica algo um tanto pessimista – quase sem redenção para o ser humano, que sempre ficará aprisionado entre os desejos do Id e a repressão do Superego – é o que a torna humanista, no sentido de compreender a fragilidade humana e acolhê-la sem julgamento.

Alguém que se torna abusivo, agressivo, destrutivo ou perverso não tem uma natureza diversa do santo. Seu psiquismo não foi bem constituído, quebrou-se no caminho, não se fez de maneira adequada. E o psiquismo de algum suposto santo pode ser de alguém que está escondendo muita coisa. A psicanálise assim pode nos levar a menos julgamento dos que “caem” e nos prover de mais desconfiança dos que são idolatrados (ou idealizados?).

Isso nos lembra quem? Um outro judeu, conhecido como Jesus: “não julgueis para não serdes julgados”. “Não me chameis de bom, pois só Deus é bom.”

Mas uma visão espiritualista, por outro lado, nos faz ver que há verdadeiros “santos”, no sentido não sobre-humano, mas da transcendência real, da bondade sincera, do amor aniversal e não apenas na repressão superficial. Afinal, o mesmo mestre judeu falava: “Vós sois deuses!” Ele mesmo foi alguém que realizou plenamente a divindade: “eu e o Pai somos um!”

Outra coisa que fala à minha alma de educadora é que na Psicanálise está a maior fonte de observações e evidências – e é uma ciência que vem se desenvolvendo e aprofundando há cem anos – do quanto a primeira infância é determinante para a saúde psíquica do indivíduo, do quanto as funções materna e paterna são vitais para o desenvolvimento do psiquismo da criança. A maternagem, o afeto, o investimento psíquico do ser em formação, garantem uma vida com muito menos possibilidades de adoecimento psíquico e comportamentos antissociais. E considero que a maior contribuição nesse setor é de Winnicott, que tem um diálogo incrível e profundo (que pretendo demonstrar num futuro breve) com Pestalozzi.

Esse encontro, portanto, com a Psicanálise, me fez mais realista, mais pé no chão e mais fincada naquilo que defendo como uma educação amorosa e presente.

Mas há uma discrepância entre a Psicanálise e os clássicos da Educação com que trabalho, no desdobramento do processo educativo como um todo. Para Freud, o superego – que é o domínio da lei, das regras sociais, dos pais introjetados, é a única fonte da moralidade humana. Ou seja, estamos em permanente contradição interna, entre nosso Id desejante e nosso Superego repressor. Cabe ao coitado do Ego administrar a situação, sempre incerta e dolorosa – por isso somos todos neuróticos. Ora, a educação tem, portanto, uma função meramente disciplinadora – a partir da castração, ante o complexo de Édipo. No início, afeto, investimento psíquico, para sua majestade, o bebê. Mais adiante, a lei, a regra, a introjeção da moral social.

Mas quando temos aquela perspectiva que inclui a dimensão da espiritualidade e do conceito da divindade humana, há uma esfera de moralidade intrínseca no ser, radicada na alma imortal. E é essa que deve ser acionada, tocada, despertada na educação moral.

Nesse ponto, educar, segundo Sócrates, Rousseau ou Pestalozzi, não é introjetar uma moral social que entra em conflito com os impulsos profundos do ser humano, mas sobretudo fazer brotar uma consciência mais profunda, aquela que deseja algo mais alto e mais sublime, do que o impulso cego do Id.

Quando se fala então hoje em dia a cada duas palavras sobre Educação, em imposição de limites, pensa-se a partir dessas premissas psicanalíticas, que nesse sentido possuem talvez um parentesco com o imperativo categórico de Kant. O filósofo iluminista considerava que o ser humano tem um “mal radical”, quer dizer algo de escuro enraizado em sua natureza. E por isso, a moral deveria se autoimposta como um dever, que ele chamou de imperativo categórico, causasse bem-estar ou não, ao praticante do ato moral correto. Essa autoimposição moral, na teoria freudiana, se dá pelo superego, que também controla e coloca freios à manifestação do ID. Aquele processo para Kant seria totalmente racional, portanto consciente. Para Freud, não necessariamente: o ID é totalmente inconsciente; o Superego pode atuar em parte consciente e em parte inconscientemente. O que importa demonstrar é que tanto na teoria kantiana, quanto na freudiana, a moral é extrínseca, embora internalizada para Freud, e embora autolegislada para Kant, e leva o ser a contradizer seus impulsos, inclusive, contrariando, desviando ou, compensando, segundo Freud, o princípio básico que nos move, que é o princípio do prazer.

Já numa visão espiritualista, essa contradição de si é vencida pela real transcendência e pelo encontro de um Ego superior, se assim podemos nos expressar (não vou aqui invocar a teoria de Jung, com o Self). E a educação não pode se limitar a dar limites – aliás, deve transcender esses limites impostos, criadores de conflitos e repressões, para acordar uma alma com a moralidade intrínseca que possui, como herdeira da divindade.

Outras reflexões – e há muitas – ficarão para próximos textos.


Nunca desistir…

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Faixa inspiradora da manifestação de ontem na Avenida Paulista

Num mundo, onde tudo se tornou descartável, incluindo o ser humano, onde os valores se tornaram tão flexíveis, que quase se liquefazem, onde sonhos e utopias se esvaziaram, sou ainda alguém que acredita em amores eternos, em amizades inquebrantáveis, em valores como fidelidade e lealdade, em causas existenciais pelas quais há que se viver e, se preciso for, morrer…

Jamais desistir de um propósito elevado, de uma meta que faz sentido, de um sonho de justiça, de um projeto existencial. Jamais desistir de alguém que se ama, seja um filho, um amigo, um irmão, um marido ou uma esposa. Investir no próximo até o sacrifício, entregar-se ao outro com amor incondicional. Trabalhar por um ideal, sem medir a luta; servir a uma causa, com abnegação.

Tal persistência, que nunca desiste, que sempre acredita; que nunca foge, que sempre permanece – tece o caminho que nos faz atingir o coração do outro, faz o roteiro que nos faz deixar algo significativo no mundo.

As pessoas hoje, com o incentivo vigente de um individualismo feroz, não consideram que devam se sacrificar nem por nada, nem por ninguém. Não se trata, é claro, de procurar ou aceitar relações patológicas ou de descuidar-se de si. Mas, não há amor de fato, se não doamos coisas preciosas de nós: cuidado, paciência, abnegação, devotamento… Não há como realizar um projeto de vida significativo, dedicado ao bem, seja ela que qual for, se não nos empenharmos por ele com toda a nossa esperança, toda a nossa dedicação, toda a nossa vontade.

O individualismo contemporâneo, ao invés, estimula o egoísmo, o prazer sensorial, a busca de recompensas materiais, o uso e o abuso do outro (e portanto também de si mesmo). Por isso, tudo se terceiriza: o cuidado com as crianças, o cuidado com os idosos, o cuidado com os doentes. Quem há de sacrificar horas de sono, dias de trabalho “produtivo” (leia-se remunerado), para cuidar de alguém? Por isso, relações são frágeis. Quem há de se dispor ao perdão, à compreensão, à empatia?

O nihilismo contemporâneo também tudo relativiza, tudo esvazia. Assim, não vale perseguir altos ideais, porque a vida não tem sentido, além daquele de preenchê-la de consumo, correria e sensações. Assim, ideais generosos podem até brotar aqui e ali, mas poucas vezes criam raízes, poucas vezes crescem e dão frutos suculentos. Afinal, eles logo são comprados por uma empresa, pela segurança de um trabalho sem sentido, por uma moradia de luxo, por um carro do ano… Não é que não deveríamos ter uma casa, um carro, um trabalho… o problema é pisotear convicções, desistir de projetos existenciais, abandonar ideais, para apenas ter…

E as relações então? Zygmunt Bauman fala de relações líquidas. Pode-se desistir de qualquer ser humano com a maior facilidade do mundo. Expulsa-se o aluno da escola, manda-se o pai ou a mãe para o asilo, fecha-se a porta para o filho ou para o irmão problema, rompe-se friamente com o amigo antigo, despede-se rapidamente, com um e-mail, o funcionário com anos de casa. O outro não tem valor intrínseco. Não há vínculos confiáveis para sempre!

Essa ausência de sentido, essa instabilidade dos afetos, essa ausência de âncoras sólidas, tanto no amor do outro, quanto em valores que não se vendem – isso é que causa a angústia do século, a depressão vigente, que alimenta as indústrias farmacêuticas.

Quem vive um ideal com força, persistência e fé e quem tem raízes afetivas fortes, construídas aliás desde a infância, tem menores possibilidades de se deprimir, de adoecer psiquicamente, de mergulhar nessa solidão existencial em que tantos se perdem hoje.

Sim, eu acredito que não devemos desistir nem de entes queridos, nem de ideais nobres, nem da confiança na humanidade, nem da busca do amor universal!

Acredito que quando nos entregamos sem reservas, o amor cobre a multidão de pecados; quando nos devotamos até o sacrifício a um projeto do bem, as sementes que deixarmos brotarão algum dia.

Acredito que se vivermos nesse diapasão de perseverança no bem, de experiência profunda de afeto, podemos sim sofrer, nos entristecermos, nos depararmos com mil obstáculos – sobretudo os das resistências dos que ainda não descobriram esse caminho – mas encontraremos um recanto de paz dentro de nós.

Não é um caminho fácil, porque ele é tão diferente do caminho da maioria! Tantos conselhos ouviremos para desistirmos, para não sermos idiotas, para retribuirmos desentendimentos, deserções e agressões com gelo, vingança ou indiferença. Tantas pessoas nos dirão que nossos ideais são utópicos, que nossas esperanças são tolas, que nossos sonhos são irrealizáveis! Haverá momentos de desânimo, porque quase acreditaremos que somos loucos ou desajustados. Haverá dias de tristeza, porque quase teremos certeza de que a pessoa que mais amamos nunca vai nos compreender ou que a mudança que esperamos no mundo nunca vai se concretizar…

A questão é que esse nunca desistir só pode persistir, com a visão da eternidade. Com a perspectiva de um futuro que nunca acaba, no qual também habitaremos, com nossa alma imortal.

Algumas tímidas flores, veremos despontar à beira do caminho de nossa persistência. Algumas retribuições, colheremos de pessoas queridas. Alguns despertares, veremos à nossa volta com a semeadura de nosso amor. Mas apenas a eternidade, o futuro imenso, os séculos vindouros na Terra, poderão se preencher plenamente de nosso amor, de nossos ideais.

Nunca desistir é saber-se imortal. Nunca desistir é saber o outro imortal. Nunca desistir é estar concectado com a dimensão do sem tempo, onde só o amor habita.


Adeus, Mister Spock! Boa viagem, Leonard Nimoy!

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Only

When I die

And realize

That I am born again

For dying is

A beginning

And I

Have died

Thousands of times

(Somente quando morro, percebo que renasço. Pois morrer é um início. E eu já morri milhares de vezes.)

Leonard Nimoy

A ficção científica tem o dom de nos fazer pensar e repensar questões humanas do presente ou questões atemporais, deslocando-as para um imaginário espaço-tempo. Transfigurar essas questões em problemas interplanetários, em coisas do futuro, parece que nos induz a um salutar estranhamento, que pode nos dar uma mensagem fortemente positiva e uma apreensão mais lúcida de nós mesmos. É claro que falo aqui de ficção científica séria, bem feita e não dessas de sessão pipoca, para apenas impressionar com efeitos especiais e monstros intergalácticos. Entre todas as que foram feitas até hoje, arrisco dizer que uma das melhores, senão a melhor, foi a Jornada nas Estrelas, sobretudo a com o time original, os mosqueteiros do espaço, Kirk, Mccoy e Spock, tanto na série da TV, quanto nos filmes posteriores, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.

Só para citar algumas de suas glórias, essa série, em plena luta dos direitos civis nos Estados Unidos, liderada por Martin Luther King Jr. colocou uma negra, lindíssima por sinal, Nichele Nicholson (Uhura) entre os principais personagens e ainda exibiu o primeiro beijo inter-racial da TV norte-americana, entre o Capitão Kirk e Uhura. Em plena Guerra Fria, outro personagem da tripulação da Enterprise era um russo…

Para os trackers de todo o mundo (entre os quais me incluo), isso tudo são informações corriqueiras. Mas como tracker, não poderia deixar de falar aqui de meu personagem mais querido, inspirador de tantas gerações: o Vulcano Spock, e de quem por trás dele se manifestava, o ator Leonard Nimoy, que se lançou agora numa jornada de fato estelar, deixando seu corpo na terra, como Spock tinha deixado o seu no planeta Gênesis, no filme A Ira de Khan.

A série Jornada nas Estrelas ao longo de seus episódios, discutiu diversas questões muito pertinentes ao contexto histórico em que estava, muitas ainda atuais, como pacifismo, respeito à pluralidade cultural e crítica ao imperialismo (a Federação Interestelar tinha a lei de não-interferência nas culturas encontradas em outros planetas – o que infelizmente os Estados Unidos não adotaram no planeta Terra), contracultura (a época também era dos hippies), diálogo inter-religioso, fenômenos paranormais e muitos outros temas…

Mas o personagem que representava a maior novidade, o portador de ideias e atitudes de vanguarda, era justamente Spock. Pouca gente sabe uma fato curioso. Quando Gene Roddenberry, o genial criador da série e dos personagens, estava concebendo Spock (será?), ele passava horas fazendo perguntas ao personagem e simulando respostas, para melhor entendê-lo. Mero exercício de escritor ou houve aí alguma inspiração mediúnica?

Meio Vulcano, meio humano, Spock representava por si mesmo, o conflito de duas culturas. Dividido entre suas reprimidas emoções humanas e sua lógica vulcana, era telepata, pacifista, praticava meditação. Dizia agir pela lógica e ter suprimido as emoções, mas mostrava sempre amizade, fidelidade, espírito de sacrifício – e o que dava maior prazer aos seus fãs, deixava que seu lado humano escapasse num meio sorriso e numa reação inesperada de afeto. Parecia muito com um budista – inclusive dizia não ter “ego” – ou com um estoico.

Por trás dessa figura enigmática e fascinante (uma palavra que usava o tempo todo), estava o ator, dando consistência e vida a esse personagem.

Leonard Nimoy não era uma pessoa qualquer. Era poeta, militante de movimentos sociais e ecológicos, descrito por seus amigos, como pessoa interessada no próximo. No filme que dirigiu Jornada nas Estrelas IV, a Volta para casa, na sensível história de resgate de uma espécie de baleia no passado da Terra, estava na verdade militando por uma de suas causas prediletas, a proteção às baleias. Gravou aliás um disco (na época dos discos de vinil), com sons de baleias e poemas e trechos literários famosos, lidos com aquela voz de baixo profundo.

No início da década de 80, ainda muito jovem e muito apaixonada por Spock, encontrei uma preciosidade numa livraria de Miami: um livro de poesias Warmed by Love (Aquecido pelo amor). Singelas muitas, algumas profundas, simpáticas todas, essas poesias relevam um grande ser humano, que todos são unânimes em descrever. (Meu avô, injuriado que eu entrava em todo lugar na viagem e procurava coisas do Spock, dizia que eu só ia atrás do orelhudo).

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Se eu já gostava de Spock/Nimoy, quando o descobri poeta, gostei mais ainda. Aqui, em homenagem à sua passagem para o além, algumas pequenas pérolas do seu livro, que ainda guardo em minha biblioteca, mais de 30 anos depois.

O milagre é esse

Quanto mais dividimos

Mais temos. 

*

Quando me deixas

tomar,

sou grato.

Quando me deixas

dar,

sou abençoado.

*

Naves espaciais são excitantes

Mas rosas num aniversário

também são.

Computadores são excitantes

Mas o pôr do sol também é.

A lógica jamais tomará 

o lugar do amor.

Às vezes, me pergunto

aonde pertenço:

no passado ou no futuro?

Acho que sou apenas

um homem do espaço

à moda antiga.

*

Uma boa acolhida no Além, Leo, e leve nosso afeto terreno para suas novas jornadas estelares!

 


Kardec, a biografia – um livro bom de se ler

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Não direi que o livro Kardec: a biografia é uma grata surpresa, porque quem escreveu a melhor biografia de Chico Xavier, até hoje, prometia escrever também a melhor do mestre de Chico e de milhões de espíritas brasileiros: Allan Kardec.

Por que considero ambas excelentes biografias? Porque são biografias mesmo e não hagiografias. (Para quem não sabe, hagiografia é história de santo, escrita dentro dos cânones da Igreja Católica). Marcel Souto Maior conta a história de um ser humano. De um grande ser humano, mas um ser humano. Um homem de bem, que é o que O Evangelho segundo o Espiritismo propõe como padrão ético. E conta muito bem contado.

Seu estilo é leve, sem cair na banalidade. É espirituoso e às vezes oportunamente irreverente, justo para não assumir um tom laudatório demais, o que acabaria com a sua credibilidade de biógrafo e jornalista investigativo. É um texto saboroso, ágil e que nos dá vontade de ler sem parar.

Souto Maior soube tratar de um assunto delicado, sem ferir nenhum partido; de um assunto sério, sem cair numa doutrinação massacrante e antipática.

Acima de tudo, porém, é fiel aos fatos. E sendo fiel aos fatos, a grandeza do personagem se destaca naturalmente, sem a mínima necessidade de usar uma batelada de elogios melosos.

Aliás, o que se sobressai na biografia escrita por Souto Maior é o Kardec da Revista Espírita. Quem está familiarizado com os 12 volumes da Revista, conhece melhor a personalidade de Kardec, seus embates, seu contexto, seus diálogos e discussões com adversários e aliados, com admiradores e detratores. O autor soube compor não só a partir da Revista, mas de outros documentos, um mosaico bem montado de Kardec, seu trabalho e sua época, que nos permite nos sentirmos lá, na França do século XIX.

Talvez para alguns, que prefeririam uma hagiografia, o fato de Kardec na biografia se irritar, se cansar, se alegrar e usar de uma fina ironia (e usava mesmo com todo o requinte do esprit francês) pode parecer algo humano demais. Mas grandes homens também se irritam e se cansam. Com essa constatação óbvia, em absolutamente nada sai arranhada a personalidade de Kardec e o que ele propôs como Espiritismo.

É claro que não se trata de uma obra filosófica e por isso não discute a fundo alguns pontos que poderiam ser polêmicos e assim não é um livro que sai dos cânones do Espiritismo brasileiro atual. Mas a postura crítica, racional e vigilante que Kardec tinha em relação à mediunidade é muito bem retratada e, mesmo sem querer, serve de alerta para esse movimento, que perde muitas vezes qualquer critério de análise do que supostamente vem do Além.

Quando me refiro aos cânones do Espiritismo brasileiro atual, estou falando de coisas que já estão assentadas entre nós e não me parecem que sejam tão fiéis a Kardec. Por exemplo, o termo “codificador”, que eu mesma usava, criada que fui nesse movimento, mas que tenho criticado ultimamente, pois ele não aparece em nenhuma obra da Kardec. Aparentemente, trata-se de algo criado aqui no Brasil e que ressalta o caráter do mestre como mero organizador de uma revelação pronta ou mero secretário dos Espíritos. Tenho pontuado que, apesar de sua modéstia, o próprio Kardec reconhecia em si mesmo um papel mais ativo e criativo nessa relação com os Espíritos. Diz ele em Obras Póstumas:

“Conduzi-me, pois, com os Espíritos, como houvera feito com os homens. Para mim, eles foram, do menor ao maior, meios de me informar e não reveladores predestinados.”

E na Gênese:

“O homem concorre para a revelação com o seu raciocínio e o seu critério; desde que os Espíritos se limitam a pô-lo no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos fatos. Ora, as manifestações (…) são fatos que o homem estuda para lhes deduzir a lei, auxiliado nesse trabalho por Espíritos de todas as categorias, que, de tal modo, são mais colaboradores seus do que reveladores, no sentido usual do termo.”

Ou seja, como estudei em minha tese de doutorado na USP, que virou depois o livro Pedagogia Espírita, um projeto brasileiro e suas raízes, Kardec criou um novo paradigma para conhecermos o mundo, que inclui uma dimensão espiritual. E esse método de estudar os fenômenos que evidenciam a imortalidade de alma é algo criado por ele e não pelos Espíritos. O livro de Souto Maior não desmente isso, aliás chega perto de demonstrar através de sua narrativa essa proposição que fiz. Mas não é seu objetivo, e nem poderia ser, discutir altas questões epistemológicas.

Um único reparo histórico que tenho a fazer no livro, um descuido talvez: Victor Hugo, quando se interessou pelas mesas girantes e manteve diálogos com os Espíritos, inclusive o de sua filha morta num afogamento, não estava em Paris, como afirma Marcel. O grande escritor francês estava exilado na ilha de Jersey, por conta de sua oposição ao governo de Napoleão III, que ele chamava de Napoléon, le petit (Napoleão, o pequeno).

Gostei particularmente dos dois últimos capítulos do livro, que estão muito bem articulados. O penúltimo trata do processo dos espíritas (aliás, num erro de digitação ou num engano de tradução aparece como “processo dos espíritos”), em que o juiz Millet destrata Amélie, já idosa, e lança de uma ironia agressiva e injusta contra a personalidade de Kardec. E Souto Maior nada responde. Mas insere no último capítulo a resposta final: um texto do mestre, que considero um dos mais bonitos, porque revela algo de sua intimidade e que só apareceu em Obras Póstumas, em que ele descreve a si mesmo, fazendo um balanço de sua vida de homem de bem. Essa é a melhor resposta para o Juiz furioso e para todos aqueles que ainda denigrem Kardec. Um texto em que o mestre se analisa com toda a simplicidade como um pessoa interessada em fazer o bem e promover a felicidade alheia. E foi isso o que fez com o Espiritismo.


A Páscoa de Jesus

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A morte de Jesus pode ser vista e interpretada de diversas maneiras. Na ortodoxia do cristianismo tradicional, é artigo de fé de que Jesus morreu para selar com o sangue a salvação da humanidade. Na teologia estabelecida por Paulo de Tarso, o  homem pecou com Adão e redimiu-se com o Cristo. Não procuremos entender a racionalidade dessa doutrina: por um, todos caem; por um, todos se salvam… parece injusto e desproporcional. Carregamos todos o pecado de Adão e podemos ser salvos se acreditarmos em Cristo. Mas os artigos de fé das religiões em geral não pretendem ser racionais; aliás, a obscuridade e o mistério é que constituem o seu atrativo.

Para uma visão mais politizada, podemos dizer que Jesus foi um subversivo, pois era um crítico do clero judaico e alguém que emancipava consciências e por isso, como em todas as épocas e em todas culturas, não agradou a nenhum representante do poder. Judeus e romanos; Kaifás, Herodes e Pilatos se deram as mãos (ou lavaram-nas), para entregar Jesus à morte.

Numa perspectiva espírita, Jesus, que não é Deus, mas um Espírito que já alcançou um status de perfeição ainda distante de nós, sua morte representa o testemunho de um mártir, que nos deixou um modo de ser e estar no mundo – um modo amoroso, não-violento, cheio de compaixão e bondade. E coerente até o fim com essa ética, entregou-se à injustiça dos homens, para neles despertar o senso de justiça; aceitou a morte violenta, para demonstrar a não-violência e o perdão. É aquele que toma sobre si amorosamente o ônus da ignorância humana, para mostrar-nos um caminho melhor. Nesse sentido, simbolicamente, pode-se até concordar que ele é o Cordeiro de Deus, que toma sobre si os pecados do mundo. Não num sentido salvacionista, mas numa dimensão pedagógica, para ensinar como mestre, algumas lições tão inesquecíveis, que só poderiam ser seladas com o sacrifício de si e com a morte.

A morte de Jesus também é uma mensagem sobre a própria morte. Em todos os tempos, a finitude do homem o tem assustado. Por causa do medo da morte, criam-se as dominações religiosas; por sentir-se mortal, o ser humano se fragiliza, muitas vezes infantilizando-se diante de deuses opressores, de sacerdócios que lhe exploram o boa-fé ou aliena-se em doutrinas fanáticas e irracionais. Mais uma vez, lembrando Paulo, Jesus venceu a morte – não no sentido que os cristãos tradicionais entendem (como uma derrogação da lei natural, ressurgindo em corpo carnal) – mas no sentido de demonstrar praticamente que a morte é uma passagem natural, um atravessar simples e rápido para uma outra dimensão da existência e que não há nada a temer – muito menos devemos temer o nada! A naturalidade com que Jesus aparece para conversar com Madalena, com os apóstolos, com os viajantes de Emaús – é um testemunho histórico de que morto o corpo, o Espírito sopra onde quer e se manifesta com seu corpo espiritual, fazendo-se ver e tocar, deixando uma mensagem de eternidade.

Depois da tragédia da cruz, os açoites, o abandono dos mais queridos – que serviu para que o Mestre demonstrasse a força do perdão, da compaixão e da coragem – Jesus aparece aqui e ali e mostra-se imortal, inteiro, luminoso.

Essas são as minhas meditações de Páscoa, com os votos de que possamos meditar no exemplo ético de Jesus, seu amor universal, dirigido a toda a humanidade e a mensagem que nos deixou para sempre: a morte não existe, mas em toda parte há vida eterna, amor em abundância e misericórdia sem limites!


Crônica pessoal: cheguei aos 50!

Dora Blog

Alcançar meio século, o que isso significa? Não haverá na prática muita diferença entre 49, 50, 51, mas já que se trata de um número bonito, redondo, nada custa tecer algumas reflexões especiais, com cara de metade de um século. Por incrível que pareça, introspecções profundas têm me assaltado por conta dessa aproximação dos 50: avaliações internas, balanços existenciais, recordações dos trechos percorridos, saudades de tempos idos e de pessoas ausentes.

Sou da safra de 62, sagitariana bem assumida e feliz com meu dia 4 de dezembro. Dezembro é um mês que sempre me agradou, um mês festivo, natalino, de final de ciclo!

A primeira coisa que me vem ao coração, todas as vezes que avanço na idade, é que não sou mais a menina precoce, que fui na adolescência, não sou mais a jovem promissora…que provocava elogios. Agora sou eu que me entusiasmo com crianças vivas, com jovens idealistas e conscientes; agora sou eu que procuro esperança nas gerações que estão chegando.

E que sou eu então – aliás, que estou eu então? Nem remotos sinais em meu espírito de cansaço, velhice e desilusão. Se há algo que jamais perdi é a paixão, o ímpeto de agir, o idealismo agudo, que alguns consideram exagerado, porque é um idealismo duro, que não faz concessões. Às vezes, quando falo para jovens desse morno início de século XXI, me vejo mais entusiasmada e eloquente, confiante e otimista do que a maioria deles. O ardor de revoluções (pacíficas, claro) não me abandona jamais.

O que também não perdi em 50 anos é meu coração de criança. Por isso entendo as crianças tão bem, me dou tanto com elas e me sinto tão feliz quando estou com elas! É que não sei mentir, sou sincera ao extremo, sentimental sem limites. Sensibilidade à flor da pele, mediúnica até os ossos.  E lá vem sofrimento nesse mundo individualista, que se esfria cada vez mais, que considera todo sentimento brega, imaturo, tolo… que confunde desapego (virtude cultivada por todos os sábios e homens de espiritualidade) com indiferença individualista e descartabilidade das relações.

Desapego sim é renunciar a status, conforto, a dinheiro, a consumo, por conta de ideias e ideais… Desapego que anda junto de fidelidade a princípios em que acredito e com que jamais negocio. Disso tenho orgulho! Nunca fiz um trabalho que contrariasse a minha consciência, nunca fiz concessões no que considero justo, honesto, bom, elevado e belo.

Não endureci, mesmo com toda a adversidade que qualquer ser humano passa na vida. Não perdi a ternura. Mesmo que alguns zombem disso. Mas há muitos outros que se achegam, gostam de um afago, confortam-se com uma palavra de amor e um colo farto e materno.

Do que mais gosto: crianças, natureza, música, poesia e espiritualidade. Essa sempre foi forte em mim, desde quando fazia preces e já gostava de ouvir mensagens, desde os 5 anos de idade, nas orações em família. A conexão com Deus só aumenta com o tempo, só se depura, só se torna menos palavrosa e mais sentida; menos exterior e mais plena.

O maior patrimônio que acumulei nesses 50 anos de vida: a consciência limpíssima de estar cumprindo meu destino, fazendo o melhor que posso; muitos e profundos e duradouros afetos; muitos livros escritos (e ainda virão outros); muitos ideais erguidos à custa de suor e lágrimas; muitas flores e frutos das sementes semeadas…

A maior dor: as saudades dos que se foram, que aqui estão, mas que não posso tocar; as ingratidões colhidas de pessoas amadas, que se retiraram do meu caminho…

O que espero e quero para o futuro: mais trabalho, mais afetos, mais livros, mais ideais erguidos, semeados e frutificados. Meus amados brilhando, meus amigos à volta, meus alunos se multiplicando… e sempre maior serenidade, dessa que tenho acumulado aos poucos, caminhando para uma velhice de trabalho e paz e uma morte de reencontro, com todos os que me esperam na outra margem da vida.


Crônica familiar: meu avô faria 100 anos

Hoje, meu avô Chiquinho faria 100 anos. E eu resolvi homenageá-lo aqui, porque fazemos bem em homenagear os afetos autênticos, as pessoas que marcam nossas vidas, os homens e as mulheres comuns, mas especiais, que anônimos, deixam algo de bom no coração dos que conviveram com eles.

Meu avô, Francisco Beraldi, que carregava um nome ao mesmo tempo tão elevado e tão popular, era um homem simples. Filho de imigrantes italianos, saiu de casa aos 12 anos, para trabalhar.

Era pouquíssimo letrado, fez só até o segundo ano primário. Mas considerava muito a importância do estudo e da cultura. Gostava de ler, apoiava quem da família quisesse estudar, comprava livros para quem pedisse. Para mim, o incentivo que me deu foi determinante. Lembro aos 15 anos de idade, um presente mais do que precioso: as obras completas de Tolstoi em papel bíblia – os únicos livros em que minha avó escreveu a dedicatória e ele assinou. Qualquer livro que eu quisesse, ele me comprava. Não só, como desde os 13 anos de idade, eu era fanática por ópera, ele também me presenteava com os discos de vinil com óperas de Verdi e Puccini.

Depois, quando lancei meus primeiros livros, muito jovenzinha, entre 18 e 20 anos de idade, ainda em produção independente, sem editora, foi ele que financiou as edições. E não só: me levava de carro até o Belenzinho, para verificar as múltiplas provas. Naquela época, o livro ainda era feito com linotipo, não havia nada digital, nada de computador… Escrito em máquina de escrever, era preciso corrigir as provas muitas vezes, porque a gráfica consertava um erro e fazia outros no lugar. Isso era no comecinho dos anos 80.

Não que ele fosse um homem rico para financiar essas coisas. Longe disso. Tinha trabalhado muito e guardado algumas parcas economias. Mas isso nunca o impediu de ajudar um filho ou um neto que precisasse. Na cama, no final da vida, ainda se preocupava com alguma filha ou neta em dificuldade e mandava pagar isso ou aquilo, transferir dinheiro de sua conta ou socorrer alguma emergência.

Mas, contava minha mãe, que ele a vida inteira tinha sido assim, de ajudar todo mundo. Trazia sobrinho, filhos de amigos, para morar em casa; emprestava dinheiro se tivesse (e não era sempre que tinha)…

O mais incrível que hoje reconheço nele é que nunca eu ouvi de sua boca qualquer cobrança, qualquer crítica às pessoas a quem havia ajudado. (O que mais observo na vida é gente ajudando sempre com condições humilhantes, sempre jogando na cara o que fez, sempre exigindo coisas em troca).

Isso tudo não quer dizer que fosse santo. Tinha sangue calabrês e por isso era bravo. Mas dessa braveza inofensiva, que podia render um dia de cara feia, mas depois de se desanuviava. O seu maior problema era a relação com minha avó, que sofria daquelas patologias machistas da época. O homem podia tudo e a mulher nada. Muita briga, muita ciumeira. Mas depois dos 50 anos de idade, ele se aquietou e, apesar das brigas terem persistido sempre, cuidou dela até o fim – ela com Alzheimer.

O que de tudo ficou mais forte de herança em mim – hoje reconheço – é a sua relação italiana com a comida: dar importância ao ato de comer como um ato sagrado, em que a família deve se reunir em torno da mesa, para celebrar. E mais, que cozinhar para alguém é uma prova de amor. Chiquinho Beraldi era um cozinheiro de mão cheia: pães, massas, pastéis, berinjelas de todo o jeito – tudo fazia na mão, de forma artesanal. Levantava 6 horas da manhã para fazer o almoço em família. E eram travessas e mais travessas de delícias. E visita sempre levava alguma coisa para casa.

Esse cozinhar não era de receitinhas fechadas, mas de improvisação, de ter mão e nariz afinados, para a medida certa. Como italiano do sul, muito alho, muito azeite, muita alice (anchova). E muito prazer em fazer e em comer. Itália pura.

Sua relação com a espiritualidade era também muito interessante. Não tinha estudo, mas aceitava de forma natural, singela, os fenômenos espíritas. Contava sempre ter assistido a materializações do Padre Zabeu (sessões realizadas em São Paulo, na  década de 50) e via Espíritos corriqueiramente, sem medo, sem trauma, sem se impressionar muito.

Foi pena que perdemos as provas materiais de um fenômeno que se deu com ele na velhice, já no final da vida. Começamos a notar que quando ele dormia, fosse de noite ou tirava seus cochilos à tarde, ele falava em outra língua, que não conseguíamos identificar. Depois, ele acordava geralmente cansado e dizia ter sonhado que estava andando, andando…

Um dia, meu primo Paulo e eu resolvemos gravar o que ele falava durante o sonho (naquele tempo com fita cassete e gravadorzinho de mão). Pareceu-nos que era alguma língua árabe e conseguimos, através de alguns conhecidos, encaminhar a fita para o consulado sírio. Eles analisaram a gravação e o resultado foi que se tratava de um dialeto dos beduínos do deserto e o conteúdo era sobre uma longa viagem sobre as areias ardentes do deserto! O que havíamos gravado combinava com o conteúdo dos sonhos que meu avô contava!

Essas são algumas lembranças carinhosas do meu avô. Cada filho, cada neto, cada familiar terá as suas. Compartilho as minhas, para dizer o quanto é importante e bom o afeto familiar, a presença de pessoas marcantes, que se doam para nós, sem nada exigir. Que meu avô Chiquinho esteja bem do outro lado da vida e que toda criança, adolescente e jovem possam ter algum avô ou alguma avó assim.


Grandes pessoas para as crianças

Uma das ilustrações magníficas feitas por Anasor, para o livro "Pestalozzi e a Escola num Castelo"

Uma das propostas em que mais acredito para se trabalhar na formação ética das crianças e adolescentes é fazer com que eles conheçam biografias de personalidades que deram exemplos elevados. Por isso, em nossa coleção Todos os Jeitos de Crer, temos um volume inteiro com o título Vidas. Nele, há as histórias de Sócrates, Jesus, Buda, Gandhi, Francisco de Assis, Martin Luther King, entre outros… Por isso, também temos uma série de livros, da qual lançamos há 10 anos o primeiro volume: Francisco, o pobre rico de Assis. E só agora, por incrível que pareça, estamos publicando o segundo, Pestalozzi e a escola num castelo. São ambos pela Editora Comenius e não lançamos outros (já há mais de 10 volumes escritos por diferentes autores), por falta de recursos financeiros. (Bem-vindas parcerias!! Esse de Pestalozzi contou com o apoio da Fundação Pestalozzi de Franca.)

Por que considero importante esse trabalho? Ora, porque um dos caminhos essenciais para promovermos a bondade, a fraternidade, a virtude em geral neste mundo é estarmos convencidos de que o ser humano é capaz de ser bom, fraterno, virtuoso. Uma visão pessimista da alma humana nos leva à descrença em nossa própria capacidade de sermos melhores. A amargura é a raiz de todo mal.

Por outro lado, em nossa sociedade capitalista, os vencedores são louvados e exaltados como exemplos a serem seguidos. Que tipo de vencedores? Os que ganham guerras violentas, os que conquistam sucesso, fama e dinheiro, mesmo à custa de princípios morais, atropelando o próximo, calando a consciência.

Assim, numa sociedade em que a lei do mais forte é cultuada, em que o homem é visto como bicho competitivo, cujos instintos de domínio, agressividade e posse devem ser estimulados – é preciso encontrar a rota da cooperação, da não-violência, da solidariedade e mesmo do sacrifício.

Não podemos esperar fazer um mundo justo e fraterno, sem criaturas justas e fraternas e não podemos formar criaturas justas e fraternas, se não acreditamos que a natureza humana permite essa ascensão, se não descartarmos a inexorabilidade do “homem como lobo do homem”.

Pois uma das coisas que mais nos convencem a respeito dessa positiva natureza humana é sermos informados de que houve homens e mulheres no decorrer da história que viveram virtudes, deram exemplos, fizeram por merecer o título de apóstolos, mártires e heróis. Histórias verdadeiras dessas pessoas nos inspiram, nos estimulam, nos comovem, despertam em nós o desejo de sermos bons.

Isso ainda é mais verdadeiro com as crianças, que naturalmente torcem pelos personagens do bem em qualquer narrativa.

Mostrarmos personagens do bem que viveram de verdade e que não usaram violência para vencer batalhas na Terra ou nas estrelas, mas foram supostos fracassados no mundo, deixando mensagens eternas de amor e perdão – eis o que é necessário, inspirador, benéfico para as novas gerações. As crianças precisam aprender que o sucesso do bem quase nunca é o sucesso do mundo (dinheiro, fama, poder). Ao invés, a vitória do bem muitas vezes é a semeadura do sacrifício, da luta pela verdade.

Não é esse o exemplo máximo de Jesus? Aos olhos dos partidários nieztscheanos  da lei do mais forte, Jesus é um fracasso: morreu na cruz, entre ladrões, foi abandonado, traído, era pobre, não possuía cátedra ou poder… Mas aos olhos dos partidários dos bens espirituais, ele é o maior dos exemplos: semeou ideias e ensinos, sentimentos de amor e compaixão, que atravessaram os milênios e tocaram o coração de multidões, transformando a humanidade.

Não se trata de pregar às novas gerações a autoflagelação e o martírio, formando pessoas fanáticas, masoquistas e suicidas! É, ao invés, trazer vidas inspiradoras de alegria no bem, de serviço à humanidade, de compaixão para com os seres vivos. Os verdadeiros mestres da virtude, embora possam enfrentar dificuldades, resistências, fracassos e até a morte, não são seres carrancudos, que se cobrem de cinzas ou vivem se martirizando e lamentando. Ao contrário, os evoluídos, os santos, os iluminados, como um Buda, um Francisco de Assis, um Gandhi são pessoas que irradiam paz, alegria, bem-estar, equilíbrio. São dessas irradiações, que podemos impregnar as crianças. Mesmo porque, além da inspiração de vida que esses grandes seres humanos podem nos dar, há ainda a sintonia mental que estabelecemos com eles, quando nos conectamos com a narrativa de suas vidas. Essa ligação vibratória já nos faz bem, nos eleva e nos aproxima do clima espiritual dessas grandes almas.

Uma objeção comum a essa proposta de trabalho com pessoas de qualidades morais elevadas é a de que não devemos favorecer a idolatria e de que isso seria anular o espírito crítico necessário à visão histórica. Essa ponderação é pertinente e devemos tomá-la em consideração, primeiro porque a educação, para ser libertadora,  não pode em hipótese alguma favorecer a negação do espírito crítico, formando pessoas crédulas, ingênuas e sem discernimento. Assim, não podemos perder de vista os seguintes senões:

• Não existem de fato criaturas humanas perfeitas e mesmo aquelas que atingiram níveis elevados de virtude podem apresentar alguma fraqueza. Isso não as desmerece.

• Não devemos idolatrar as figuras do bem, mas amá-las e seguir seus exemplos.

• É preciso distinguir os bons de fato dos falsos profetas, dos hipócritas que pululam em todas as comunidades religiosas (sobretudo).

A questão toda é que não podemos colocar seres humanos em pedestais inacessíveis, para adorarmos de joelhos. Ao contrário, a proposta que estamos trabalhando é justamente a de mostrar que a virtude é acessível a todos e de qualquer um de nós é capaz de se iluminar! O problema da divinização de Jesus foi esse: tornando-o Deus, afastamos a possibilidade de sermos iguais a ele, de seguirmos seus passos, pois quem se atreveria a querer imitar Deus? (Ver a esse respeito a crítica nesse blog ao filme Ágora.)

Abramos pois a possibilidade às novas gerações de conhecerem mestres de verdade, vencedores do espírito e iluminados de alma. Para isso também temos que preferir que nossos filhos sejam pessoas de bem, sobretudo, e não necessariamente grandes competidores do mercado de trabalho, homens e mulheres de grande sucesso profissional e de grande vazio existencial. Projetarmos seres humanos melhores é o mais necessário para um mundo melhor.


O mestre Herculano

Fotos de José Herculano Pires (1914-1979)

Lembranças da adolescência

Escrever sobre o mestre Herculano é para mim um dever e um deleite, pois o despertar de minhas pro­postas existenciais nesta vida se deu sob a sua influên­cia. Eu o admirava com fervor durante minha infância e adolescência, a ponto de ficar horas prestando aten­ção nas conversas que mantinha com a multidão de pessoas que frequentava sua casa, bebericando o café de D. Virgínia. Esta, sempre muito preocupada, queria me arranjar outras crianças para brincar, queria me dar alguma tarefa mais de acordo com minha idade… mas eu teimava em ficar na sala, embora fosse grande amiga da neta Regina, com quem costumava me en­treter.

Desde os 11, comecei a receber poemas psicogra­fados. Herculano os escutava, me estimulava e orien­tava. Aos 13 anos, já estava decidida a me tornar es­critora como ele. E ele me indicava livros, discutia po­etas de que gostávamos. Lembro-me de ele dizer o quanto apreciava Cecília Meirelles. Falávamos dos escritores russos – outra paixão – sobretudo Tolstoi, de quem ele tinha um retrato no escritório. Para fazer par, eu mandei enquadrar um de Dostoievski, que lhe dei de presente de aniversário. Atento à minha sede de aprender, o mestre me fazia dedicatórias esperançosas nos livros que me dava. Aos 14 anos, fez-me um fan­tástico poema, A Hora de Dora. Uma resposta a uma incipiente poesia que eu fizera em sua homenagem, cheia daquele ardente amor filial. Nele, Herculano procurava me trazer para a realidade presente, pois eu era muito fixada em recordações espontâneas de vidas passadas:

Dora cisma à luz da aurora
Musas cantam céu em fora.
Dora, Dora, por que chora?
Na distância a lua agora
Fria e trêmula descora,
Baço espelho a Dora enflora
Tempo antigo a Dora adora,
Dora sonha, rememora…
Ora às musas Dora ora
Morre a lua em cada aurora,
Toda aurora é cor de amora.
Canta agora, Dora, Dora,
Da poesia a voz sonora
Canta e exalta a nova Dora
Céu em fora terra em flora
Na pletora de outra hora.
 
Dora é Dora em cada hora,
Integrada tempo em fora
Na hora de Dora – ora!

 

Aos 15, inaugurei minha mediunidade de psicofo­nia, numa reunião mediúnica dirigida por ele. Como eu era novata, fez questão ele próprio de conversar com os três Espíritos que recebi logo na primeira vez. De­pois do terceiro, mandou que eu saísse da mesa, por­que já bastava para começo. Não me esqueço da do­çura firme com que falava com os Espíritos mais difí­ceis, nem da vibração de amor, com que suas palavras vinham carregadas.

A participação nas reuniões mediúnicas, dirigidas por Herculano, durou muito pouco. Logo em seguida, fui morar na Alemanha, com minha família, pela se­gunda vez. Então, em janeiro de 1979, meu irmão mais novo, Luis, ficou com hepatite em pleno inverno euro­peu. Apavorados com a possibilidade de os médicos alemães, como era de praxe, isolarem o menino num hospital de doenças infecto-contagiosas, viemos às pressas para o Brasil, para que ele fosse tratado em casa. Foi a oportunidade de nos despedirmos de Her­culano.

No início de março, no dia 4, fomos lhe fazer uma visita, meus pais, meu irmão, já curado, que Herculano chamava de Luigino, e eu. Ele estava com muita difi­culdade de enxergar, com uma catarata avançada. Nas dedicatórias que nos fez, os emes tinham muitas per­nas. A serenidade de sempre, o acolhimento de cos­tume mataram nossas saudades.

Na noite do dia 9 de março, meus pais haviam saído e eu fiquei sozinha, em meu quarto, na casa da minha avó. Senti uma inexplicável vontade de chorar. Não sabia por que a sensação de melancolia. Entendi no dia seguinte, quando de manhã, recebemos o telefo­nema com a notícia de que Herculano se fora na vés­pera.

A imagem que guardo dele, de seu rosto, de seus gestos, de seu olhar é a da figura paterna, benevolente, bem humorada. Ao mesmo tempo, lembro de sua ines­gotável erudição, de sua paciência em ensinar, de sua despretensão ao abordar os temas mais difíceis e trans­cendentes.

Tinha eu 16 anos, quando acabou essa relação na terra, mas iniciou-se a leitura aprofundada e a crescente identifi­cação com seu pensamento. Ao mesmo tempo, em Es­pírito, sua inspiração nunca me falta, seu olhar nunca se afasta.

Das mãos de Herculano, recebi a compreensão da genialidade de Kardec e a veneração pelo mestre; re­cebi também o ideal da Pedagogia Espírita. Seguindo seus passos, fui estudar jornalismo e adotei a filosofia como objeto permanente de estudo. Obedeço ao seu conselho, em uma dedicatória que me fez, tentando “viver a poesia em ritmo existencial” e procuro dar minha contribuição para “aclarar os nevoeiros do mundo”. E ainda me integrando “no tempo de Dora”, ajustada ao tempo de agora, para melhor atuar no presente.

Esse testemunho pessoal parece-me  re­levante para o entendimento do pensador. É que existe uma coerência vital entre o homem e a obra. Não havia contradição entre o que escrevia, o que falava, o que fazia e a vibração que irradiava. Herculano era um homem reto, bom, generoso, sobretudo sincero. Nele não havia dissimulações, meias palavras, mas pesso­almente não havia também agressividade. A exaltação que revelava às vezes nos escritos era indignação justa, era ardor na batalha das ideias. Não era ódio, violência ou qualquer sentimento antagônico que fosse – porque não havia nada disso em Herculano. Era essencial­mente sereno. Mas como ele mesmo explicou em sua obra O Ser e a Serenidade, a serenidade existencial não exclui a defesa viril de uma ideia ou a luta enga­jada por uma causa.

Lembro-me certa vez de uma conversa em família. D. Virgínia, como defensora natural do marido, refe­ria-se a certa liderança do movimento espírita de São Paulo que (como outras tantas) havia traído a confi­ança de Herculano e que, de amigo, passara a adversá­rio… Herculano, então, com palavras mansas, relatou um encontro que tivera com essa pessoa na rua e como lhe estendera a mão, como se compadecera de seu es­tado físico aparentemente doentio. Mas não dizia isso com nenhum laivo de pretensão à santidade, nenhum exibicionismo de parecer superior. Era fraternidade autêntica, era benevolência pura.

Era evidente que lutava por ideias, apaixonada­mente, mas não se deixava atingir por nenhum ressen­timento ou revolta contra as pessoas que pensavam diferentemente dele.

Jamais vi Herculano alterar a voz. Mas nunca senti algo de excessivamente açucarado, que pudesse ensejar qualquer desconfiança quanto à sinceridade absoluta do que dizia. Se tivesse que caracterizá-lo com poucas palavras, escolheria estas três: coerência, serenidade e benevolência.

O reencontro na maturidade

Apenas mais tarde, porém, pude compreender a pujança intelectual de Herculano Pires. Quando me aprofundei em suas obras e nas de Kardec é que pude aquilatar a contribuição única que Herculano dera ao desenvolvimento do espiritismo.

A primeira dessas contribuições está na própria compreensão da ideia espírita. Tratando-se de uma re­volução conceitual, uma quebra de paradigma, um passo inédito na história do conhecimento – a sua di­mensão e o impacto renovador de suas propostas ainda não foram entendidos pelos seus adeptos mesmos, que o tocam apenas superficialmente, carregados dos vícios religiosos do passado, incapazes de singrarem nos ma­res abertos, descortinados por Kardec.

A maioria dos espíritas no Brasil aceita o espiri­tismo como mais uma religião apenas, embora mante­nham o discurso do tríplice aspecto. Herculano soube sondar as profundidades da obra de Kardec, enten­dendo-a como uma revolução cultural, como uma pro­posta pedagógica, como ciência nova, como filosofia inédita, sem negar seu aspecto religioso.

Muitos espíritas – ouvia eu desde pequena mur­múrios neste sentido – o consideravam fanático por Kardec, mas Herculano não tinha nenhum laivo de fa­natismo, era aliás uma pessoa avessa às idolatrias. O caso é que ele entendeu como ninguém o papel de Kardec no espiritismo. Ainda hoje, a maioria dos espí­ritas tem a ideia equivocada de que Kardec teria apenas organizado (por isso a ênfase na palavra codificador) uma revelação pronta, dada pelos Espíritos. Entretanto, apesar de ter havido sim uma revelação, a estruturação da filosofia espírita e a criação de uma metodologia de abordagem científica foram do homem Kardec. Her­culano colocou em relevo esta contribuição de mestre.

Fez isso, não de maneira histórica, inserindo-o no seu contexto, mas na contemporaneidade, com que tra­vou permanente diálogo. Como jornalista-filósofo, Herculano esteve sempre ligado à realidade, ao turbi­lhão de ideias do seu tempo e procurou mostrar a co­nexão do pensamento espírita com o processo evolu­tivo da filosofia, das pesquisas e da história humana. Temos assim não um mero divulgador de ideias espí­ritas do século XIX, mas um pensador que pensou es­piritamente o século XX.

Essa é a função de todo conhecimento vivo. O es­piritismo não pode se tornar letra morta, bíblica, que adotamos de forma postiça, como um credo fechado. É uma nova maneira de ver, pensar e sentir o mundo e assim pode iluminar o progresso do pensamento hu­mano, interagindo com as ciências, as filosofias, as correntes pedagógicas.

Isso, porém, não é ecletismo. Certa vez, muitos anos atrás, ainda no início da minha jornada intelec­tual, travei conhecimento em Portugal com uma pessoa formada em Filosofia e ela me dizia indignada que Herculano era eclético. Como se sabe, tal adjetivo é altamente pejorativo no meio acadêmico, porque signi­fica colocar diferentes elementos, díspares, numa pro­posta de pensamento ­– o que revelaria superficiali­dade e falta de conhecimento aprofundado das nuanças das diversas correntes. Uma salada mista, em suma. Essa crítica na época me irritou sobremaneira, mas foi ex­celente desafio, porque mergulhei com mais afinco do pensamento de Herculano, para desmentir a acusa­ção. Nunca mais encontrei essa pessoa, mas depois de mais de 20 anos de estudo das obras de Herculano e tendo percorrido os bancos acadêmicos da graduação ao pós-doutorado, posso afirmar com toda certeza que não há o mínimo ecletismo em Herculano.

O filósofo de Avaré nunca perde a identidade do pensamento espírita, mas compreende que faz parte dessa identidade o enxergar os elos com outras formas de pensamento e entender a história das ideias huma­nas como uma construção coletiva de conhecimento e descoberta da verdade. Assim, dialogar e integrar evita o dogmatismo e a estagnação, mas o eixo da racionali­dade metodológica, proposta por Kardec, é o que dá sentido e nos faz ver as possíveis conexões.

Podemos portanto dizer que o pensamento de Herculano Pires é amplo e aberto e por isso mesmo fiel aos princípios lançados por Kardec.

Foi essa leitura estimulante que me levou ao tra­balho que tenho procurado realizar de encarar o espiri­tismo como proposta cultural abrangente, estabele­cendo um diálogo com o conhecimento acadêmico, para que ele não se feche nos guetos dos centros espí­ritas, apenas como forma de manifestação religiosa, e ainda muito carregada de misticismo.