Arquivo do mês: agosto 2011

Ser pai no século XXI

As crianças aprendem com os pais a serem futuros pais e mães

Cristóvão Colombo, o navegador, com suas grandezas e suas pequenezas, é considerado pelos seus biógrafos como um bom pai. Quando escrevia a seus filhos Diego e Hernando, costumava assinar assim: “Tu padre que te ama más que a si!” Acho bem interessante essa maneira de caracterizar a paternidade (e, sem dúvida, também a maternidade), porque ser pai e ser mãe significa exatamente ter a maior oportunidade de remover o egoísmo. Naturalmente, quem assume os filhos, e cumpre sua missão, sai de si mesmo, de sua zona de conforto e tem que doar-se inteiro, em cansaço, lutas, ideais, afeto, preocupações… mas, por outro lado, que colheita farta de amor, alegria, conforto na alma, de ver filhos crescendo, se fazendo, se tornando pessoas grandes e de bem!

A civilização contemporânea, com seu individualismo assumido, pregado aos quatro ventos, se põe contrária a essa tarefa (tanto paterna quanto materna), porque exige-se que pais e mães atuais primeiro têm de pensar na empresa, no emprego, vestir a camisa, não ter horário, não desobedecer ordens de viagens, horas-extras, transferências… não importa a vida familiar para o empregador anônimo capitalista. Em minhas viagens Brasil afora, eu como solteira (e saudosa dos sobrinhos), vejo nos aviões muitos pais e mães tristonhos, saudosos do lar, vejo outros enregelados, que assumiram esse discurso como bom e necessário e já deixaram para lá, e encontro muitos também que  não pensam em ter filhos, porque acham não poderem coadunar família e trabalho.

É preciso, portanto, hoje, para haver pais e mães presentes (e não adianta falar que o que importa é a qualidade da convivência e não a quantidade, porque ninguém pode educar de fim de semana), nadar contra a maré, fazer resistência ao sistema, arranjar trabalhos alternativos, ou dividir os horários de trabalho entre pai e mãe, ou ainda, por um tempo, a mãe ficar em casa mesmo… enfim, é preciso encontrar atalhos e não se deixar engolir pelo sistema, para não acontecer depois que se descubra que os filhos cresceram, a infância com seus beijos e encantos se perdeu, e não há mais diálogo… ou pior, quando se descobre que a droga ou as más companhias já tomaram o lugar do afeto familiar.

Não é só o mercado de trabalho que disputa o espaço de convivência que os filhos precisam ter com os pais. Também o mercado sexual. A fidelidade, a relação harmoniosa e amorosa entre pai e mãe é o maior presente, a maior segurança, a maior fonte de estabilidade emocional, que se pode oferecer a uma criança. E é aí que o bicho pega. Novidades mil, estímulos de roldão, apelos desencontrados, homens e mulheres se atirando sobre mulheres e homens casados, o discurso predominante do prazer acima de tudo, mesmo acima do amor e da responsabilidade – esse é o cenário a que também se tem que resistir, pensando nos sorrisos maravilhosos que serão colhidos ao chegar em casa… A fidelidade não é algo que se entrega só ao cônjuge, é algo que se faz por toda a família, pelos filhos também. As crianças merecem que os pais ajam, correspondendo à confiança que neles depositam. Não mentir, não fingir, não enganar, não ter vida dupla, não sonegar presença integral – é fundamental para que haja um firme laço de afeto entre pais e filhos, sobre o qual se constrói a educação.

Mas não falemos apenas dos problemas, falemos das conquistas das últimas décadas, em relação ao exercício da paternidade. Hoje não é mais vergonha o pai se encantar com os filhos, chorar por eles, cuidar, trocar fraldas… isso tudo não é considerado mais apenas coisa de mulher. Há muitos pais participativos, sensíveis, presentes, que aproveitam intensamente a maravilha de serem pais. Já se sabe e se proclama que os pais não devem ser apenas provedores, mas precisam ser gente, amigos, companheiros… Hoje, em famílias esclarecidas, não se recorre mais ao pai para castigar e atuar como a autoridade autoritária, que violenta e se mantém distante afetivamente dos filhos. Infelizmente, não são todos os pais que cumprem sua paternidade, há ainda muitos que a abandonam. Mas, os que cumprem têm mais consciência de como cumpri-la, tem mais espaço para serem afetivos e podem ser pais mais plenamente.

Entre avanços e desafios, entre obstáculos e conquistas, estamos pois nesse processo complicado, mas rico, que é a evolução humana, que passa pela evolução social, cultural e individual.

Esperemos construir um milênio em que a família seja revalorizada – e pessoalmente considero que essa revalorização inclui o quesito da longevidade e não da descartabilidade – e onde se possam semear os frutos de uma educação mais equilibrada, mais empenhada e sempre mais amorosa, porque só o amor educa de fato.

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