Arquivo do mês: setembro 2011

Grandes pessoas para as crianças

Uma das ilustrações magníficas feitas por Anasor, para o livro "Pestalozzi e a Escola num Castelo"

Uma das propostas em que mais acredito para se trabalhar na formação ética das crianças e adolescentes é fazer com que eles conheçam biografias de personalidades que deram exemplos elevados. Por isso, em nossa coleção Todos os Jeitos de Crer, temos um volume inteiro com o título Vidas. Nele, há as histórias de Sócrates, Jesus, Buda, Gandhi, Francisco de Assis, Martin Luther King, entre outros… Por isso, também temos uma série de livros, da qual lançamos há 10 anos o primeiro volume: Francisco, o pobre rico de Assis. E só agora, por incrível que pareça, estamos publicando o segundo, Pestalozzi e a escola num castelo. São ambos pela Editora Comenius e não lançamos outros (já há mais de 10 volumes escritos por diferentes autores), por falta de recursos financeiros. (Bem-vindas parcerias!! Esse de Pestalozzi contou com o apoio da Fundação Pestalozzi de Franca.)

Por que considero importante esse trabalho? Ora, porque um dos caminhos essenciais para promovermos a bondade, a fraternidade, a virtude em geral neste mundo é estarmos convencidos de que o ser humano é capaz de ser bom, fraterno, virtuoso. Uma visão pessimista da alma humana nos leva à descrença em nossa própria capacidade de sermos melhores. A amargura é a raiz de todo mal.

Por outro lado, em nossa sociedade capitalista, os vencedores são louvados e exaltados como exemplos a serem seguidos. Que tipo de vencedores? Os que ganham guerras violentas, os que conquistam sucesso, fama e dinheiro, mesmo à custa de princípios morais, atropelando o próximo, calando a consciência.

Assim, numa sociedade em que a lei do mais forte é cultuada, em que o homem é visto como bicho competitivo, cujos instintos de domínio, agressividade e posse devem ser estimulados – é preciso encontrar a rota da cooperação, da não-violência, da solidariedade e mesmo do sacrifício.

Não podemos esperar fazer um mundo justo e fraterno, sem criaturas justas e fraternas e não podemos formar criaturas justas e fraternas, se não acreditamos que a natureza humana permite essa ascensão, se não descartarmos a inexorabilidade do “homem como lobo do homem”.

Pois uma das coisas que mais nos convencem a respeito dessa positiva natureza humana é sermos informados de que houve homens e mulheres no decorrer da história que viveram virtudes, deram exemplos, fizeram por merecer o título de apóstolos, mártires e heróis. Histórias verdadeiras dessas pessoas nos inspiram, nos estimulam, nos comovem, despertam em nós o desejo de sermos bons.

Isso ainda é mais verdadeiro com as crianças, que naturalmente torcem pelos personagens do bem em qualquer narrativa.

Mostrarmos personagens do bem que viveram de verdade e que não usaram violência para vencer batalhas na Terra ou nas estrelas, mas foram supostos fracassados no mundo, deixando mensagens eternas de amor e perdão – eis o que é necessário, inspirador, benéfico para as novas gerações. As crianças precisam aprender que o sucesso do bem quase nunca é o sucesso do mundo (dinheiro, fama, poder). Ao invés, a vitória do bem muitas vezes é a semeadura do sacrifício, da luta pela verdade.

Não é esse o exemplo máximo de Jesus? Aos olhos dos partidários nieztscheanos  da lei do mais forte, Jesus é um fracasso: morreu na cruz, entre ladrões, foi abandonado, traído, era pobre, não possuía cátedra ou poder… Mas aos olhos dos partidários dos bens espirituais, ele é o maior dos exemplos: semeou ideias e ensinos, sentimentos de amor e compaixão, que atravessaram os milênios e tocaram o coração de multidões, transformando a humanidade.

Não se trata de pregar às novas gerações a autoflagelação e o martírio, formando pessoas fanáticas, masoquistas e suicidas! É, ao invés, trazer vidas inspiradoras de alegria no bem, de serviço à humanidade, de compaixão para com os seres vivos. Os verdadeiros mestres da virtude, embora possam enfrentar dificuldades, resistências, fracassos e até a morte, não são seres carrancudos, que se cobrem de cinzas ou vivem se martirizando e lamentando. Ao contrário, os evoluídos, os santos, os iluminados, como um Buda, um Francisco de Assis, um Gandhi são pessoas que irradiam paz, alegria, bem-estar, equilíbrio. São dessas irradiações, que podemos impregnar as crianças. Mesmo porque, além da inspiração de vida que esses grandes seres humanos podem nos dar, há ainda a sintonia mental que estabelecemos com eles, quando nos conectamos com a narrativa de suas vidas. Essa ligação vibratória já nos faz bem, nos eleva e nos aproxima do clima espiritual dessas grandes almas.

Uma objeção comum a essa proposta de trabalho com pessoas de qualidades morais elevadas é a de que não devemos favorecer a idolatria e de que isso seria anular o espírito crítico necessário à visão histórica. Essa ponderação é pertinente e devemos tomá-la em consideração, primeiro porque a educação, para ser libertadora,  não pode em hipótese alguma favorecer a negação do espírito crítico, formando pessoas crédulas, ingênuas e sem discernimento. Assim, não podemos perder de vista os seguintes senões:

• Não existem de fato criaturas humanas perfeitas e mesmo aquelas que atingiram níveis elevados de virtude podem apresentar alguma fraqueza. Isso não as desmerece.

• Não devemos idolatrar as figuras do bem, mas amá-las e seguir seus exemplos.

• É preciso distinguir os bons de fato dos falsos profetas, dos hipócritas que pululam em todas as comunidades religiosas (sobretudo).

A questão toda é que não podemos colocar seres humanos em pedestais inacessíveis, para adorarmos de joelhos. Ao contrário, a proposta que estamos trabalhando é justamente a de mostrar que a virtude é acessível a todos e de qualquer um de nós é capaz de se iluminar! O problema da divinização de Jesus foi esse: tornando-o Deus, afastamos a possibilidade de sermos iguais a ele, de seguirmos seus passos, pois quem se atreveria a querer imitar Deus? (Ver a esse respeito a crítica nesse blog ao filme Ágora.)

Abramos pois a possibilidade às novas gerações de conhecerem mestres de verdade, vencedores do espírito e iluminados de alma. Para isso também temos que preferir que nossos filhos sejam pessoas de bem, sobretudo, e não necessariamente grandes competidores do mercado de trabalho, homens e mulheres de grande sucesso profissional e de grande vazio existencial. Projetarmos seres humanos melhores é o mais necessário para um mundo melhor.

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