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Diário da Mama 7 – Entre químios

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As pessoas que acompanham o Diário da Mama me perguntam por nova escrita, no justo desejo de saberem como estou passando. Nem relatei a segunda quimio e já estou às vésperas da terceira. O dia em que fiz a segunda, já duas semanas atrás, deslizou com suavidade e foi menos impactante do que a primeira. 

É algo palpável, quase concreto o quanto a oração nos carrega, para atraversarmos os mares bravios da vida. A nossa própria, a que fazemos do profundo de nossa fé e as que nos são endereçadas, nas asas de pensamentos amorosos, sinceros e potentes. Nessa segunda vez, fui acompanhada por minha outra Claudia amiga-irmã, a Gelernter. E nossas orações, ao som de Hildegard von Bingen, foram muito confortadoras durante o processo da químio. 

Nos dias que se sucederam, porém, embora de início me parecessem mais amenos, em relação à primeira, foram se mostrando cheios de novidades incômodas: a diabete destrambelhada (por causa da cortisona), taquicardia, episódios de pressão baixa, neuropatia nos pés, alteração de paladar, mas sobretudo, muito, muito cansaço. Um cansaço que não passa, descansando. Que me faz me arrastar entre o trabalho e a cama, entre o almoço e a rede, entre o trabalho e o sofá. Todo mundo com quem converso que já passou por isso, confirma a exaustão como sintoma incontornável da quimioterapia. 

O choque da químio nos tira de nós mesmos, de nossa energia vital, de nossa potência. É temporário, mas é estranho. Mais estranho para mim que sou um furacão de atividades… mas não será isso o necessário no momento, um repouso forçado, para algum tipo de aprofundamento da alma? 

Essa quinzena teve um ponto alto que não posso deixar de mencionar, porque revela o quanto a arte é terapêutica e vital: fui com todos os cuidados possíveis (para me prevenir de pegar Covid) a um concerto aqui em Bragança, em homenagem a Vinicius de Moraes, nosso poetinha querido. Orquestra Jovem de Bragança, a neta do Vinicius, Mariana, cantando, e ainda meus sobrinhos participando do coral infantil. Foi um deleite. Nesse dia, saí revigorada e o cansaço fugiu. Fui dormir às duas horas da manhã, depois de uma pizza com meu pai e amigos, e pulei da cama disposta, no dia seguinte. 

Hoje, estou me preparando para enfrentar a quimio de amanhã. É sempre imprevisível como será. Mas sempre posso contar com a música e com a prece, com os amigos desse lado e do outro lado da vida. 

 

A cada trecho da escalada 

Na montanha do tempo 

Uma fé esforçada 

Uma tênue mirada 

No topo da chegada. 

A cada dia, um dia 

A cada dor esguia 

Minha alma se recria… 


Diário da mama 6 – Acordando ao sol

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Arte de Erika Lourenço

Sábado de manhã, o sol entrando pleno pelas janelas da sala e eu me sinto eu mesma, como se tivesse acordado de um período sonambúlico, em que estava me procurando. Alívio, esperança nas luzes do dia.

Os dias que se sucederam à químio foram difíceis. Dores intensas de cabeça, tontura, enjoo (menos do que o esperado), cansaço extremo e uma intercorrência: uma gastrite aguda medicamentosa.

A sensação era de que tinham me jogado violentamente contra um muro e eu não conseguia voltar a mim, tomar prumo, saber o que estava acontecendo. Quase plenamente bem, só 8 dias depois. Mesmo assim, trabalhei, cozinhei (pelo menos duas vezes), fui a supermercado, farmácia… tive que levar meu pai ao hospital numa emergência (está tudo bem agora), mas repousei muito mais do que gostaria. O principal clamor de qualquer doença é esse: o corpo suplicando descanso, que em tempos normais ele não teria. Eis uma dura lição: não ouvimos nosso corpo. Eu às vezes finjo que ele não existe. E eis que que ele se impõe de maneira dolorosa. Vejam que falo do corpo em terceira pessoa, como se não fosse parte de mim. Faz parte. Mas penso de verdade que sou mais do que o corpo.

No meio do caminho desses dias pós químio, raspei a cabeça. Chamei o meu amigo cabeleireiro Marcus Wagner em casa (com medo do Covid voando pelo salão) e pedi a máquina 0. Por quê? Iria cair mesmo, não queria que meus fios já tão alquebrados escorressem pelas minhas mãos. Então me adiantei, pelo menos para manter o controle da situação. Comprei e desenterrei do armário lenços, boinas, turbantes… estou experimentando e fazendo disso um ensaio estético. Não se deve perder a classe, não se deve entregar os pontos – aprendi com minha avó, com minha mãe e meu pai.

Ao raspar a cabeça, senti-me irmanada com monjas e prisioneiras, e com outras tantas milhões de mulheres que passaram e passam por tratamento de câncer e não me senti nem só, nem entristecida. Uma etapa do processo, na esperança de que meus cabelos renasçam mais fortes, mais à frente. Como eu mesma.

Em toda a caminhada, estou sendo acompanhada por olhares amorosos, palavras acolhedoras, afetos profundos, ajudas inesperadas, presenças espirituais quase palpáveis… E constato como apesar dos pesares, há amor no universo, há empatia, há humanidade humana!

E hoje, nesse sábado ensolarado, em que me sinto muito bem, abastecida de amor, a poesia cabe mais do nunca.

Presenças

O sol é presença

Metáfora da luz

Escondida na vida.

É pertença na lida.

A vida, essa teia

Que se alteia

De afetos e trocas.

E quando a dor nos desloca

Nos provoca

Nos toca e retoca

Eis que o sol que ilumina

É a força divina

Que nos sublima.


Diário da mama 5 – O corpo em luta

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Arte de Camila Soato

São 5 horas da manhã, quando escrevo esse texto, em noite dividida entre horas de sono profundo e momentos de incômodos aflitivos. O corpo reage ante o veneno injetado para combater o câncer.

Ontem foi o dia da minha primeira quimioterapia, iniciando o que os médicos chamam de fase vermelha, dois meses de ataque com duas drogas pesadas. O dia transcorreu da melhor maneira possível. Saí de Bragança Paulista cedo, dia ensolarado – graças a Deus o frio intenso passou – estava disposta e animada.

Almocei em São Paulo, para ir alimentada, como me recomendaram. E parti para as longas horas no AC Camargo. Cheguei às 12:30 e saí às 18:15. Minha amiga-irmã materna, Claudia Mota, me acompanhou em cada segundo, cheia de cuidados, mimos e suporte amoroso.

Não tenho palavras para louvar a competência e o humanismo desse hospital, onde meu pai já tratou durante 20 anos de um câncer nas cordas vocais e sempre teve o mesmo acolhimento. (Hoje ele está curado, em remissão desde 2018).

Passei pela consulta da oncologista clínica, que me explicou longamente todo o processo, todos os cuidados necessários – até com marcas de cremes e pasta de dente (infantil!) a serem usadas, respondeu uma lista de perguntas que levei por escrito. No final, pedi a ela que retirasse um momento a máscara e retirei a minha, para podermos nos ver de fato, rosto inteiro, sorriso aberto, num momento de encontro humano: Dr.ª Milena Shizue Tariki.

Das mãos dela, passei para o corpo de um técnico e várias enfermeiras que me examinaram, me cuidaram e me tutoraram no processo da químio – todas de uma delicadeza exemplar.

Um espanto sempre presente, que eu já conhecia no caso do meu pai, os médicos sabem e nem ligam. Tanto meu pai quanto eu temos pressão muito boa, 12/8. Basta estar no hospital para algum procedimento, embora estejamos aparentemente calmos, bem-humorados e sem aflições, a pressão dispara: a minha ontem estava 15/9. O nome disso é síndrome do jaleco branco.

E o dia foi transcorrendo, numa sala privativa, com vista linda, contemplando o dia ensolarado, com a selva de São Paulo à frente e as montanhas ao fundo, ainda garantindo que existe algo da natureza… Passou entre explicações e aplicações de remédios: anti-enjoo, cortisona, e por fim as ditas cujas. A primeira foi suave. Levei minha caixinha de som, presente do meu irmão para essa fase, e estava flutuando em vibrações de amor e de paz. Centenas de mensagens recebidas, de afeto sincero e palpável e preces de todas as religiões, que me embalaram o dia. Na segunda droga, tivemos que interromper na metade, pois a náusea e a tontura vieram. Para-se a químio, 20 minutos de dramim na veia, alívio, término da segunda dose. Quando veio o mal-estar, desliguei a música e recorri à respiração.

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Antes de sair, pregaram um aparelhinho em minha barriga, que vai disparar depois de 27 horas, uma substância para ajudar a não deixar a imunidade cair. Nesses primeiros dois meses, todas as vezes que aplicar a químio (ao todo 4 vezes) terei esse aparelho armado em meu corpo, que depois de disparar o remédio automaticamente, devo descartá-lo numa caixa e levar ao AC Camargo para incinerar. Tive, claro, a curiosidade de ler toda a bula do dito cujo no Google, e saber o quanto custa: uma módica quantia de 5 mil reais cada um!!! O valor de um só é muito mais do que eu pago pelo meu convênio mensal.

Saí zonza do hospital, enfrentei (sem dirigir obviamente) 2 horas de trânsito até em casa e cheguei para a sopinha feita pela Nena, uma pessoa que trabalhou comigo 10 anos, muito amiga e querida, com mão santa na cozinha, que quando soube do meu câncer se dispôs a vir ajudar nos dias em que eu precisasse. Estou cercada de todo amor possível.

Agora sim, a palavra certa e válida é gratidão (já escrevi que ando achando essa palavra muito desgastada: a pessoa recebe uma pequena informação ou um favor corriqueiro e a outra já vem com a profunda e vasta gratidão).

Reflexões do dia:

Apesar da intensa vivência emocional, física e espiritual do dia todo, não consigo e nem quero me desligar das questões sociais. Faço parte de um pequeno grupo privilegiado no Brasil, que terá acesso a esse centro de referência em oncologia. E as mulheres espalhadas pelo país afora que não terão esse mesmo tratamento? Durante anos, minha maior tensão financeira tem sido pagar o convênio, muitas vezes fiquei com ele suspenso, quase o perdi, lutei como leoa para continuar, porque ele salvou a vida de uma filha espiritual amada e porque precisava continuar o tratamento do câncer do meu pai. Muitas vezes pedi empréstimo em banco, para amigos, doações de familiares, que continuam me ajudando. Algumas vezes, aconteceram verdadeiros milagres de entrada de dinheiro em meses que estava a ponto do convênio ser cancelado. Num certo momento, em que não conseguia mais pagar, tentei transferir meu pai para o tratamento dele para o SUS no AC Camargo e tive o pedido negado.

Nos longos em que acompanhava meu pai no AC Camargo, muitas vezes me confortei pelo fato de que encontrava nas salas de espera, pessoas que estavam ali por convênios e pessoas que estavam pelo SUS, recebendo o mesmo tratamento.

Isso acabou. Pelo que ouvi dizer, o SUS praticamente não tem mais nada no AC Camargo. Nos últimos anos, com o avanço dos desgovernos neoliberais, as poucas conquistas que tínhamos (era preciso avançar muito mais) estão escorrendo como água entre os dedos do povo empobrecido e esquecido. E isso me dói nesse momento. Ainda mais numa semana em que recebemos a notícia de um projeto repulsivo de um grupo de militares de permanecerem no poder até 2035 e dois itens dos mais revoltantes é a extinção do SUS e da educação pública gratuita. Tenho o privilégio (esse convênio é a continuidade de algo que meu pai pagava há 30 anos quando trabalhava no mundo corporativo), mas não fico confortável em ter, sem que tantos não tenham.

Sinto gratidão por todas as circunstâncias e pessoas que me ajudaram a chegar até aqui e até um certo alívio por ter sido teimosa em lutar por isso, e sinto indignação, incômodo e mal-estar porque a maioria não terá o que estou tendo – e todos merecem ter.

* * *

Já são 6 horas da manhã: dor de cabeça, palpitação, glicemia alta, uma sensação de que engoli um cabo de guarda-chuva, em paz de espírito e reflexiva, eis meu relato do dia. Restará um espaço para um pouco de poesia?

Meu corpo se rebela

Em incômodos inquietos.

Mas abro a janela

Da alma tranquila.

E ao longe cintila

O amor de tantos afetos

De cuidados repletos.

O que apenas me revela

Que Deus é sempre por perto.


Diário da mama 4 – Anúncio do Calvário

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Será excessivo chamar de calvário a previsão de 5 meses de quimioterapia, depois cirurgia e depois rádio? Sei que há muita gente que passa por calvários mais longos, mais torturantes e que parecem sem fim, mas para mim, esse prenúncio me fez tremer nas bases. Assim foi a orientação da equipe do AC Camargo, depois da análise do meu caso.

Nessa semana, passei longas horas no hospital, entre consultas, exames e orientações. Saí carregada de papeis, com um calendário cheio para os próximos dois meses, não só para as aplicações de químio, mas também para profissionais da equipe multidisciplinar: nutricionista, psicólogo (apesar de já estar fazendo terapia por conta própria), endócrino, a enfermagem que acompanha a químio… tudo muito organizado, assertivo, acolhedor.

Mas também desanimador. Quando lemos e ouvimos sobre os efeitos colaterais da droga, agressiva, avassaladora, que vai fazer cair o cabelo, descamar a pele, abaixar a imunidade, que pode mexer com o intestino e o estômago, que pode causar neuropatia e até atacar o coração… meu Jesus Cristinho, é muito veneno sendo injetado em nosso corpo! E não há alternativa, à esperança de que esse ataque diminua o tumor e a operação possa ser menos invasiva e causar menos danos.

Mas o chão parece faltar. Racionalmente sabemos que nem todos os efeitos estarão presentes, que cada pessoa é uma pessoa (embora eu tenha o fator complicador da diabete), mas sempre nos perguntamos: e se eu for aquela pequena parte da estatística que teve a sequela mais grave?

E o chão parece faltar também em relação ao trabalho: será que darei conta de me cuidar, de descansar, de realizar tudo o que é inadiável e necessário para a minha sobrevivência?

Então é a hora da entrega, da confiança, da oração e do colo dos que nos amam. A onda de desânimo vem e depois se esvai. Vamos enfrentar no plural, porque tenho muita gente comigo, desse lado e do outro lado da vida.

O calvário se inicia dia 26 de maio e se até Jesus disse do Horto: “Pai, afasta de mim esse cálice, mas faça-se a tua vontade e não a minha”, então também posso me mostrar hesitante e vulnerável, lembrando que Ele está comigo e que milhões de mulheres, como eu, já passaram ou estão passando por isso… Estamos juntas.

Um instante

Um trecho da estrada escureceu

E assombra-me que a lua se escondeu.

Parece que a poesia se faz rala

E uma nesga de fel me avassala…

Que será que Deus quer comigo

Nesse instante fugaz de desabrigo?

Que há de certo num poema

Que na garganta se entala?

Fecho os olhos, respiro,

Procuro no alto da montanha

Um fôlego, um retiro

Que me acuda nessa dor tamanha…

E aí estás, coração divino,

Em que doce, me reclino…

Coração que se espraia no universo inteiro

Que é sólido, fagueiro,

Infinito luzeiro

Para inundar de paz

O minuto passageiro…


Diário da mama 2 – É câncer!

 

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A notícia veio por uma pessoa muito querida, alguém que conheço desde criança e está se formando em medicina: Vitor Dal Poggetto. Eu havia dado o login e senha para ele ver os primeiros exames e ele, por conta própria, preocupado, entrou e viu primeiro que o resultado da biópsia já estava lá. Ligou para mim e contou-me com muito amor e delicadeza. Mas a notícia é dura. Cai com uma pedra no estômago. Eu, que sou tão articulada, fiquei sem fala.

Não prolonguei a conversa. Precisei contar para outras pessoas, precisei chorar, precisei orar.

A gente sente como se o tempo tivesse parado, não sabemos o que pensar e o que sentir.

Não, em nenhum momento pensei na morte (apesar do poema sobre morte no primeiro episódio dessa série da mama), porque sei que câncer de mama tem cura, está no começo e não pretendo morrer tão já.

Mas mil ideias perpassam a mente e atormentam o coração. O sofrimento em vista, a possível perda da mama (coisa que sempre me assombrou), o trabalho, os recursos, as reponsabilidades.

Depois de ser acolhida e confortada por alguns mais amados, que garantiram presença, cuidado, acompanhamento, prece e todo o amor do mundo, senti-me melhor.

E quando escrevo isso, ainda no mesmo dia da notícia, estou serena. Respiro fundo, concentro-me, elevo-me e sei que estou amparada, sei que tenho recursos psíquicos e espirituais para enfrentar toda dor, sei que tenho rede de apoio para atravessar o processo, seja ele qual for – do qual ainda não sei os passos, porque só conversei com o médico por telefone e ainda faltam alguns exames.

E o que pensar até agora desse evento inesperado e incômodo? Por que, para que, como me apareceu isso de repente, contrariando todas as expectativas de não ter justamente o câncer de mama? Preciso encontrar todos os sentidos, preciso procurar todas as aprendizagens.

Entre as primeiras impressões está o fato de nesses poucos dias ter recebido inúmeros testemunhos de casos de outras mulheres que já tiveram o mesmo câncer. Sensação de sororidade, sabendo que estou sendo apoiada por irmãs que já experimentaram ouvir essa má notícia e atravessar a jornada da cura. Sensação de pertencimento igualitário e fraterno.

Um dos motivos principais que não queria nada na mama é porque para mim é o maior símbolo do feminino, um lugar sagrado do corpo, impensável extirpá-lo. E ouvi de algumas mulheres: você vai suportar a dor, porque nós mulheres temos um limiar de dor mais alto. Então o sagrado da mulher está além do corpo: está na resiliência, na resistência, na alma feminina.

A outra impressão é o quanto de transbordamento de amor estou percebendo à minha volta e isso abastece o coração e asserena a aflição.

Então vou. Estou preparada (será?) para peregrinar pela via sacra, com estoicismo, com espiritualidade e com tantos amores.

E… sem jamais deixar a poesia.

 

Nessa vida

Não dei de mamar

Mas nunca deixei de amar

E oferecer o colo

Aos que estavam no mesmo solo

Do meu amplo lar.

 

E agora vai sangrar-me o seio

E vem-me o receio

De quebrar-me ao meio

O sangue guerreiro.

 

Mas não, logo poeto e me levanto

Seco depressa meu pranto.

Porque há tanto acalanto

De todo canto…

Logo me domino,

Pois não há espaço

Para titubeio.

Para o meu seio

Só há regaço

Humano e divino.


Diário da mama 1 (Será câncer?)

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Eu já havia conversado com os meus guias, com Deus, com Jesus ou com qualquer um acima de direito, que não queria duas coisas na vida: nenhum problema nos olhos, de que tenho aflição extrema e nenhum problema na mama. Para o segundo caso, tomei todas as precauções possíveis: nunca fiz reposição hormonal, sempre evitei desodorantes spray, nunca usei sutiã apertado e me consolava dizendo que não há um caso de câncer de mama na família, apesar de casos de outros tipos câncer de todos os lados: pai, mãe, avós…

Meses atrás, porém, apalpei um nódulo no banho. Fiquei um pouco preocupada, mas não pude ir ver logo e não me esforcei para contornar os obstáculos – COVID ainda atuando, o carro estava ruim e não estava licenciado para ir a SP, não tinha com quem deixar meu pai… desculpas?

Passaram-se alguns meses. E eu sempre me confortando: não temos câncer de mama na família. Processo de negação?

Num dia, na semana passada, vi que o nódulo estava maior e doendo, e fiquei a noite em claro, já além de preocupada, aflita.

No dia seguinte, marquei os exames numa das melhores referências em câncer no Brasil, o hospital AC Camargo, em São Paulo, onde aliás meu pai trata há 20 anos de um câncer nas cordas vocais, agora em remissão. Felizmente o meu convênio cobre totalmente qualquer procedimento neste hospital – convênio pelo qual me mato para pagar. Minha conta mais alta.

E fui para a mamografia e para o ultrassom de mamas. Já tinha um pedido que minha endócrino – Glaucia Duarte, com quem também já falei durante o sufoco dos últimos dias – havia feito ainda durante a pandemia. Não fazia esses exames de rotina desde antes do pesadelo pandêmico. E o outro pedido, minha querida vizinha médica, Leni, preencheu para mim.

O primeiro susto: o médico do ultrassom chamou o outro e os dois examinaram longamente e avisaram que eu precisaria ver aquilo com urgência, que havia um nódulo suspeito no seio e um linfonodo na axila.

O olhar de preocupação e o longo silêncio dos dois já me abalaram.

E aí as coisas se sucederam. Passei numa médica do mesmo hospital e ela (coisa por mim nunca vista) ao me dar a notícia de que tinha muita chance de ser câncer, pegou nas minhas mãos e olhou nos meus olhos – depois soube que se trata de um protocolo – Spikes – para dar notícias ruins. Mas nunca havia visto tal protocolo posto  em prática por qualquer médico.

E ontem foi o dia da biópsia e enquanto escrevo isso, ainda não sei o resultado – só sei por enquanto, que a classificação do nódulo é BI – RADS 4c – o que significa uma enorme chance de ser maligno.

Fiquei mal… não tenho o mínimo medo da morte, embora não tenha o mínimo desejo de morrer agora. Ainda tenho muita coisa a fazer e algumas pessoas de quem cuidar, sobretudo minha responsabilidade direta, meu pai de 85 anos. Mas uma série de assombrações me tiraram o chão: como vou trabalhar – e dependo do trabalho de cada dia para comer, pagar as contas e o convênio? Quem vai cuidar do meu pai, que ainda tem autonomia, mas está bastante dependente de mim? E meus cursos, meus pacientes, meus livros, minhas lives e toda a multidão de coisas que faço?

“Slow down, Doris” – me disse uma pessoa amada, Franklin, que me chama por esse apelido.

“Ah, minha amiga! Sei que o susto é grande, mas abandona todas as tuas inseguranças, inclusive as financeiras, porque tu e teu pai não estão em perigo. Haverá sempre aqueles que inspiraremos, e que estarão ao teu lado para, se preciso for, amparar-te, enquanto completas as lições que a Vida – outro nome para Deus – quer te ensinar” – disse um espírito amigo pela psicografia do amigo Rodrigo.

Ante o susto e a aflição, procurei familiares e amigos deste e do outro lado da vida. Mensagens, telefonemas, orações, evocações, reuniões mediúnicas… e recebi uma avalanche de amor! Muitos me oferecendo ajuda financeira, preces, companhia, hospedagem em São Paulo….

Na noite de quinta, um dia antes da biópsia, reuni-me presencialmente com nosso grupo mediúnico. Durante as orações e entre as mensagens que recebi, apresentou-se D.Addy, uma alma muito querida, que foi médium de cura em vida, com quem convivi e trabalhei durante mais de 30 anos. E ela me disse: “vou te acompanhar em todo processo”.

No dia seguinte, ontem, era o dia para mim já aflitivo, pois implicava em dois desafios: enfrentar a ressonância magnética porque tenho claustrofobia, e saber e sentir que estavam enfiando uma agulha no meu seio – meu maior medo, porque sempre considerei muito aflitivo. Fui acompanhada pela Claudia Mota, uma das minhas mais próximas amigas-irmãs maternas.

Pois não é que tirei de letra? Durante a ressonância, meditei, orei e até cheguei a me soltar do corpo, mesmo com todo aquele barulho infernal.

E durante a biópsia, bem quando estavam enfiando a agulha da anestesia – procedimento aliás feito por uma delicadíssima médica nascida em Montes Claros (é claro que falamos de Darcy Ribeiro), ouvi D. Addy me dizendo: “nunca iria deixar de acompanhar você nesse momento, você sempre acompanhou minha filha quando ela teve câncer de mama…” E então me lembrei do que não lembrava mais. De fato, estive sempre com a filha da D.Addy, a Neyde, que mais tarde teria metástase e viria a falecer antes da mãe, indo fazer orações, dando passes, prescrevendo receitas mediúnicas homeopáticas para diminuir os efeitos da químio ( durante muitos anos fiz receituário mediúnico e depois deixei por falta de tempo). E ali estava a Addy em espírito, me confortando. Quase nem senti a agulha no meu seio.

À espera do resultado da biópsia, agora estou calma, preenchida de amor e aceitando o que vier, para enfrentar com coragem e fé, claro que, preferindo que o resultado seja negativo.

Primeiras lições colhidas nesses poucos dias:

  • Por mais queiramos ter controle de tudo, a vida flui além da nossa vontade e nos apresenta desafios inesperados.
  • O bem que se planta, por mais singelo e despretensioso, sempre é fecundado por Deus e vamos colhê-lo mais adiante, quando menos esperamos.
  • O universo tem amor em abundância, basta precisarmos e nos abrirmos para ele, que nos sentimos fartos e amparados.
  • “O senhor é meu pastor, nada me faltará!” Salmo que me acompanha diariamente e que ganhou novos sentidos nesses últimos dias.

Resolvi escrever esse diário, porque a escrita pode ser sempre terapêutica, como me ensinou o querido amigo e terapeuta, Julio Peres, e porque pode ajudar outras pessoas.  E já como resultado das meditações desse primeiro impacto, fiz hoje a poesia abaixo:

Irmã morte

A morte sempre aparece

Como um sinal de vida

Anda à espreita, escondida

Atrás de qualquer assombro

Caminha no ombro a ombro

De nossa jornada cumprida

De nossa saudade mais linda

De nossa pendência perdida!

É preciso estar sempre pronto

Colando os pedaços esparsos

Desconfrontando o confronto

Retomando silêncios e abraços

Usando com muita fartura

Todo perdão que cura

E toda união que costura…

Assim, a morte é uma irmã

Bem vinda quando vier,

Na hora que Deus quiser

Na fresta de nova manhã

Com gosto de aurora e romã,

Com gosto de casa, agasalho e avelã!


A salvação da poesia

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Na semana passada, dia 4 de dezembro, completei 58 anos e lancei meu 45º livro. Isso contando com os livros de minha inteira autoria, e ainda os organizados, os traduzidos, os psicografados. Esse último lançamento é de poesia – Luas vermelhas, poemas de outono– entre outros sobre educação, espiritismo, espiritualidade, infanto-juvenis, didáticos e paradidáticos. De tudo um pouco. Não estão entre esses 45 títulos, os tantos outros editados por mim, pela Editora Comenius.

Queria comentar sobre lançar livros de poesia – o primeiro que publiquei, aos 19 anos, Chamas de Paz, foi de poesia, o lançamento desses últimos dias também. E no meio dos dois, um outro de 2014, A Hora de Dora. Poderia ter lançado muitos outros, porque poemas feitos não faltam.

Quando decidi que iria ser escritora aos 13 anos de idade, já escrevia poesias e talvez, entre todas as coisas que produzo, é o que me dá mais prazer escrever, declamar e publicar.

Mas a poesia parece um artigo de luxo em nossa sociedade corrida, pragmática, tecnológica. Pode ser até que muita gente goste, mas poucos se importam em adquirir um livro de poemas, e ainda menos dedicarem um tempo a uma leitura poética.

E no entanto, poesia é alívio da alma, fruição do coração, estímulo ao cérebro, catarse da dor – tudo isso para quem faz (e todo mundo pode fazer) e para quem lê.

Desde a minha primeira adolescência, eu era dessas que na volta da escola, sempre que me sobrava um dinheirinho da mesada, passava numa livraria que havia no caminho entre o colégio e minha casa, e comprava um livrinho da Edições de Ouro, que fosse de Castro Alves, Casimiro de Abreu, Mário de Andrade, Cecília Meirelles, Fernando Pessoa. E vinha lendo até em casa.

Depois que mergulhei fartamente em toda a literatura luso brasileira, passei a ler em outras línguas. Poetas alemães, franceses, espanhóis. Os russos também me apeteciam, mas esses só podia ler traduzidos. Lembro-me que aos 15 anos, comprei várias obras de Victor Hugo em francês (que ainda não havia estudado) e procurava palavra por palavra no dicionário, para decifrar os longos e épicos ou líricos poemas do gênio francês. Já aos 16, lia poetas em alemão, como Goethe e Schiller, depois de ter vivido em Berlim e estudado em escolas de lá.

A poesia me encharcava de deleite e imaginar ser poeta, publicar livros, era um sonho fagueiro (para usar uma expressão dos meus românticos prediletos).

A realidade, porém, não é assim tão dourada. Imprimir um livro custa dinheiro. E para mim, até hoje, livro só publicado em e-book, não está publicado. Editoras não se interessam por quem já não é renomado. Para escrever poesia, nunca fui muito incentivada em família, mas por alguns poucos professores e amigos, e sempre senti que muita gente acha que a poesia é supérflua. Que não vende, que não dá dinheiro, que é perda de tempo.

Mas a poesia é uma necessidade, sim. Nessa pandemia, vimos o quanto todas as artes são essenciais, incluindo a sagrada poesia de cada dia.

Por tudo isso, encorajo-me, apesar dos pesares, a publicar livros de poesia, a declamar meus poemas e de outros autores em vídeos diários, que tenho feito na pandemia – o Boas palavras para um bom dia – porque semear poesia é algo que sustenta a força de viver – minha e de outros que se sintonizam no mesmo élan poético.

A poesia também é arma de luta, a palavra que denuncia as mazelas do mundo e anuncia as esperanças que vêm.

Até mesmo nessa coluna (do Jornal GGN), quando não consigo articular a prosa crítica, pelo peso do momento e pelos temas sombrios, me valho do verso cortante, para deixar a rebelião necessária.

Aqui abaixo, um dos poemas desse meu novo livro, Luas Vermelhas, que está disponível no site da Editora Comenius!

 

A salvação da poesia
 
Depois de uma guerra
Sobra poesia?
E enquanto se atura
Uma pandemia?
Sobrevive a poesia?
Mas em tempos de paz suposta
De normalidade torta
Onde se esconde a poesia
No meio da noite fria
Com o irmão da rua?
Como se canta a lua
Com a chacina na favela?
A poesia, onde se esgueira
Ante a criança abusada
Ante o pobre sem beira
E a mulher espancada?
Onde se acha a poesia
Quando a natureza anda abatida?
  
A poesia corre enlouquecida
Ávida de flores e de delicadezas.
A poesia grita proezas
Para reclamar justiça e humanidade,
Para ensaiar beleza e sanidade!
  
Apesar dos pesares
A poesia persiste
Avista estrelas
Na noite triste.
Abre-se em mares
De pranto reparador.
A poesia pode gemer de dor
Mas ainda nos salva do destempero
Abranda o desespero
E nos faz tecer
A cada dia, um caminho
De certo alvorecer...

NOTA: Esse texto foi originalmente publicado no Jornal GGN, em minha coluna Espiritismo Progressista


Ode às mortes inocentes e indecentes (Crianças da Síria e Marielle Franco – presentes!)

Marielle

Será que vale poetar

A morte de um inocente?

Será a poesia um alívio

À revolta que se sente?

 

Quantos milhares de versos

Há que se tecer no mundo

Para explodir em poesia

Um grito de horror profundo?

 

Numa Síria em convulsão

São crianças massacradas,

E nas escolas da América

São crianças fuziladas.

 

São mulheres violentadas,

São negros que morrem mais,

Em toda parte a injustiça

Despedaça a nossa paz!

 

É Marielle que morre!

Nove tiros sem piedade!

Extinta uma voz de luta

Pela paz, pela igualdade!

 

Apesar de meus irmãos,

Os homens que querem paz,

De Jesus, Francisco, Gandhi

Mostrarem como se faz,

 

Preciso dizer que a guerra,

A violência e a injustiça

São obras do homem macho

Que o sangue no mundo atiça.

 

Os exércitos que matam?

A polícia que tortura?

Os governos em confronto?

Corrupção, ditadura?

 

Tudo ou quase tudo é obra

Da virilidade bruta,

Que quer trucidar veados,

E trata a mulher por puta.

 

O mundo ainda se move

Por estruturas brutais!

Foi a história que se fez

Em milênios patriarcais.

 

Eduquemos pois meninas

Delicadas e guerreiras,

Maternas e lutadoras,

Filósofas e parteiras!

 

Mas eduquemos meninos

Convictos na compaixão,

Sem vergonha de pensar

Também com o coração!

 

Meninos que se recusem

A fabricar armamentos,

A lucrar com a desgraça

E a reprimir sentimentos.

 

Homens que jamais aceitem

Bombardear um país,

Atirar numa criança,

Fazendo o mundo infeliz!

 

Homens que saibam enfim

Que tem em si luz divina!

E que em seu ser imortal,

Há uma parte feminina!

 

Saibam todos que Deus pai

É também Deusa materna,

E devemos caminhar

Para uma irmandade eterna!

 

Homens, mulheres do mundo!

Sejamos todos mais ternos,

Abrindo a trilha ao futuro

Com humanos mais fraternos!

 

Não deixemos que essas mortes

Tenham todas sido em vão!

Semeemos nesse mundo

Um pouco de coração!

 


À musa estuprada

The_Rape_of_the_Sabine_Women

O rapto das Sabinas, pintura de Nicolas Poussin

Há indignações tão profundas, que só podem ser expressas em poesia, pelo  menos para mim. Nos últimos meses, no meio do espetáculo constrangedor e bizarro em que o país mergulhou, a mulher brasileira foi alvo das mais absurdas violências: uma presidenta que não cometeu nenhum crime afastada do poder por um bando de criminosos, depois de ter sido xingada por uma parte da população, com as maiores baixarias e depois de ter sido ofendida por um Bolsonaro, que invocou seu torturador, num gesto de fascismo e supremo desrespeito humano; a primeira dama do presidente golpista posta como modelo de “beleza, do lar e recato”; um ministério inteiro só de homens (a maioria envolvidos com corrupção); um fundamentalismo religioso avançando no Estado, ameaçando os direitos da mulher; a visita de um ator machista, de filmes pornô, que nada tem a ver com Educação e que se ufana de ter estuprado uma mulher, no ministério da Educação e, por fim, esse estupro coletivo de uma menina de 16 anos, com direito a espetáculo e aplausos na internet! Onde estamos? Retrocedemos séculos? Ou essas camadas obscuras, nauseantes da sociedade não estavam tão visíveis?

Se uma brasileira é estuprada a cada 11 minutos, isso está aí há muito tempo. Mas de repente, com a ascensão política de uma grande maioria de homens que representam justamente esse tipo de macho cafajeste, opressor e sem respeito pelas mulheres (veja-se o que fizeram com a presidenta, que pode ter os defeitos que tiver como política, mas é um ser humano, uma mulher, mãe, avó), temos todos esses homens medievais saindo das cavernas, para mostrar suas caras.

Para eles e para todos os homens que não são como eles (graças a Deus, há muitos); para as mulheres, as que lutam por dias melhores e para aquelas que assumem o discurso do opressor (infelizmente, há muitas), dedico a poesia abaixo:

À musa estuprada

(Versos sáficos)

 

Na favela, ou presidenta,

No congresso, ou no lar…

Há uma ferida nojenta

Há uma mulher a sangrar!

 

A mulher torturada,

Depois impedida.

A mulher estuprada,

Depois esquecida.

 

A mulher excluída,

Se não for recatada.

A mulher ofendida,

Se não for calada.

 

A mulher minha mãe,

A mulher minha irmã,

A mulher é culpada

Porque ela se expõe.

 

A mulher sufocada

De vestido na igreja,

De saia comprida,

Na burca escondida.

 

A mulher violentada,

Estendida na rua,

Porque é despudorada

Porque é puta e está nua!

 

É sempre a culpada,

É sempre a acusada,

É sempre a julgada,

É sempre a safada!

 

É sempre a piranha,

Que não se acanha

Nunca é culpa do senhor,

Do macho predador!

 

Do poder, exilada,

Se honesta, impedida.

Se esbofeteada,

Porque merecida.

 

É sempre a vadia,

É sempre a que traía!

Mas onde o traidor?

Onde o estuprador?

 

A mulher que trabalha,

Que sempre batalha,

Que raro se ausenta,

Dos seus que amamenta…

 

É a mulher que sustenta

Que tudo já aguenta

Por ela que a vida

Se faz e se alenta.

 

Ó terna guerreira,

Eterna na lida,

Não mais quero à beira,

Calada, escondida!

 

Não mais de olhos roxos

Não mais ensanguentada

Não mais enlameada

Não mais acuada.

 

Homens, sois filhos

Sois pais, sois irmãos

Por que não limpais

Enfim vossas mãos?

Por que não partilhais

Iguais condições?

Por que não espalhais

Honestos corações!

 

Mulheres, não rompamos

Nossas mãos unidas

E sempre as estendamos

Às irmãs mais feridas!

 

Homens e mulheres,

Um mundo mais igual

O respeito natural

E a liberdade afinal!


Quando chega o Natal…

Jesus Children-09

O Natal sempre me pega pelo coração. Seja pela tristeza e pelas saudades por ausentes, mortos e vivos. Seja para me alegrar com a alegria das crianças que amo. Seja porque me lembro (e tenho boas lembranças) de Natais de outras vidas, sobretudo na Alemanha e na Áustria. Seja para me conectar mais fortemente com o homenageado da data.

Já dezembro é um mês que anuncia emoções e balanços. Para mim, especialmente, que é o mês de meu aniversário. Para muitos, que se embebem do espírito natalino, para outros que realmente param par fazer reflexões de fechamento de um ciclo, que é o ano que se vai.

Dezembro, sempre acho um mês leve, festivo, apesar das possíveis nostalgias que nos possam assaltar nas datas de celebração. Apesar do comercialismo abusivo. Mas se permanecermos em nosso eixo de paz e equilíbrio, promovendo pequenas ou grandes alegrias para próximos ou estranhos; se estivermos em sintonia com o Mestre que nasceu e renasce sempre para os homens e as mulheres de boa vontade, o dezembro nevado do norte ou o dezembro ensolarado do sul, será sim um mês de beleza e elevação. Cabe a cada um fazê-lo assim.

Como, para mim, a melhor maneira de celebrar é através da arte, aqui ficam dois poemas meus, feitos por esses dias (e há outros aqui no blog e no meu livro de poesia, recém-lançado, A Hora de Dora,) e uma música chamada “Ich will von Gottes Güte singen” (“Quero cantar a bondade de Deus”) da compositora judia alemã, da primeira metade século XIX, Fanny Mendelssohn Hensel, irmã de Felix Mendelssohn.

 

O Natal que quero

 

Tocam sinos invisíveis

Porque os sinos reais

Nas praças já não se ouvem mais…

 

Cantam anjos que ninguém escuta

Porque há muito barulho no ar

E as crianças não sabem mais cantar…

 

O Natal chega de novo

Mas Jesus quase não é lembrado

Só Papai Noel está na alma do povo…

 

Quero um Natal com sonhos suaves

Com carícias no olhar…

Quero um Natal em que anjos e aves

Nos venham a paz anunciar…

 

Quero um Natal de aconchego

De mãos nas mãos

De corações com corações

E preces ao luar…

 

Quero um Natal de paz na terra

Com a presença de um anjo tutelar

Que venha contar daquela noite

De Jesus menino, em seu primeiro lar…

 

E assim um Natal que se espraie

Pelo mundo, pelo ano, pelo tempo afora

Um Natal que anuncie um amor sem limites

E um Jesus pequenino sempre agora!

 

Quando chegas no Natal

 

E assim nos chegas novamente

Chegas todos os anos, todos os dias

Com teu olhar azulado e paciente…

Esperando nos doar tuas alegrias!

 

Visitas-nos descalço, pés tão mansos,

Com tua túnica azul, resplandecente,

Na voz tens cânticos, remansos,

De braços abertos, complacente!

 

Cochichas doces preces às crianças,

Distribuis sementes e esperanças…

 

Incansável e sereno, altíssimo e brando,

Menino, homem, mestre e irmão,

Vens nas mãos abertas carregando

O próprio coração!

 

Que aprendamos receber-te em nós,

Que saibamos repetir tua voz

De ternura, compaixão, fraternidade

E façamos enfim como tu queres

Uma nova e feliz humanidade!

 

Ich will von Gottes Güte singen

https://www.youtube.com/watch?v=UrRjZD1AcXA