Crônica pessoal: cheguei aos 50!

Dora Blog

Alcançar meio século, o que isso significa? Não haverá na prática muita diferença entre 49, 50, 51, mas já que se trata de um número bonito, redondo, nada custa tecer algumas reflexões especiais, com cara de metade de um século. Por incrível que pareça, introspecções profundas têm me assaltado por conta dessa aproximação dos 50: avaliações internas, balanços existenciais, recordações dos trechos percorridos, saudades de tempos idos e de pessoas ausentes.

Sou da safra de 62, sagitariana bem assumida e feliz com meu dia 4 de dezembro. Dezembro é um mês que sempre me agradou, um mês festivo, natalino, de final de ciclo!

A primeira coisa que me vem ao coração, todas as vezes que avanço na idade, é que não sou mais a menina precoce, que fui na adolescência, não sou mais a jovem promissora…que provocava elogios. Agora sou eu que me entusiasmo com crianças vivas, com jovens idealistas e conscientes; agora sou eu que procuro esperança nas gerações que estão chegando.

E que sou eu então – aliás, que estou eu então? Nem remotos sinais em meu espírito de cansaço, velhice e desilusão. Se há algo que jamais perdi é a paixão, o ímpeto de agir, o idealismo agudo, que alguns consideram exagerado, porque é um idealismo duro, que não faz concessões. Às vezes, quando falo para jovens desse morno início de século XXI, me vejo mais entusiasmada e eloquente, confiante e otimista do que a maioria deles. O ardor de revoluções (pacíficas, claro) não me abandona jamais.

O que também não perdi em 50 anos é meu coração de criança. Por isso entendo as crianças tão bem, me dou tanto com elas e me sinto tão feliz quando estou com elas! É que não sei mentir, sou sincera ao extremo, sentimental sem limites. Sensibilidade à flor da pele, mediúnica até os ossos.  E lá vem sofrimento nesse mundo individualista, que se esfria cada vez mais, que considera todo sentimento brega, imaturo, tolo… que confunde desapego (virtude cultivada por todos os sábios e homens de espiritualidade) com indiferença individualista e descartabilidade das relações.

Desapego sim é renunciar a status, conforto, a dinheiro, a consumo, por conta de ideias e ideais… Desapego que anda junto de fidelidade a princípios em que acredito e com que jamais negocio. Disso tenho orgulho! Nunca fiz um trabalho que contrariasse a minha consciência, nunca fiz concessões no que considero justo, honesto, bom, elevado e belo.

Não endureci, mesmo com toda a adversidade que qualquer ser humano passa na vida. Não perdi a ternura. Mesmo que alguns zombem disso. Mas há muitos outros que se achegam, gostam de um afago, confortam-se com uma palavra de amor e um colo farto e materno.

Do que mais gosto: crianças, natureza, música, poesia e espiritualidade. Essa sempre foi forte em mim, desde quando fazia preces e já gostava de ouvir mensagens, desde os 5 anos de idade, nas orações em família. A conexão com Deus só aumenta com o tempo, só se depura, só se torna menos palavrosa e mais sentida; menos exterior e mais plena.

O maior patrimônio que acumulei nesses 50 anos de vida: a consciência limpíssima de estar cumprindo meu destino, fazendo o melhor que posso; muitos e profundos e duradouros afetos; muitos livros escritos (e ainda virão outros); muitos ideais erguidos à custa de suor e lágrimas; muitas flores e frutos das sementes semeadas…

A maior dor: as saudades dos que se foram, que aqui estão, mas que não posso tocar; as ingratidões colhidas de pessoas amadas, que se retiraram do meu caminho…

O que espero e quero para o futuro: mais trabalho, mais afetos, mais livros, mais ideais erguidos, semeados e frutificados. Meus amados brilhando, meus amigos à volta, meus alunos se multiplicando… e sempre maior serenidade, dessa que tenho acumulado aos poucos, caminhando para uma velhice de trabalho e paz e uma morte de reencontro, com todos os que me esperam na outra margem da vida.


Crônica familiar: meu avô faria 100 anos

Hoje, meu avô Chiquinho faria 100 anos. E eu resolvi homenageá-lo aqui, porque fazemos bem em homenagear os afetos autênticos, as pessoas que marcam nossas vidas, os homens e as mulheres comuns, mas especiais, que anônimos, deixam algo de bom no coração dos que conviveram com eles.

Meu avô, Francisco Beraldi, que carregava um nome ao mesmo tempo tão elevado e tão popular, era um homem simples. Filho de imigrantes italianos, saiu de casa aos 12 anos, para trabalhar.

Era pouquíssimo letrado, fez só até o segundo ano primário. Mas considerava muito a importância do estudo e da cultura. Gostava de ler, apoiava quem da família quisesse estudar, comprava livros para quem pedisse. Para mim, o incentivo que me deu foi determinante. Lembro aos 15 anos de idade, um presente mais do que precioso: as obras completas de Tolstoi em papel bíblia – os únicos livros em que minha avó escreveu a dedicatória e ele assinou. Qualquer livro que eu quisesse, ele me comprava. Não só, como desde os 13 anos de idade, eu era fanática por ópera, ele também me presenteava com os discos de vinil com óperas de Verdi e Puccini.

Depois, quando lancei meus primeiros livros, muito jovenzinha, entre 18 e 20 anos de idade, ainda em produção independente, sem editora, foi ele que financiou as edições. E não só: me levava de carro até o Belenzinho, para verificar as múltiplas provas. Naquela época, o livro ainda era feito com linotipo, não havia nada digital, nada de computador… Escrito em máquina de escrever, era preciso corrigir as provas muitas vezes, porque a gráfica consertava um erro e fazia outros no lugar. Isso era no comecinho dos anos 80.

Não que ele fosse um homem rico para financiar essas coisas. Longe disso. Tinha trabalhado muito e guardado algumas parcas economias. Mas isso nunca o impediu de ajudar um filho ou um neto que precisasse. Na cama, no final da vida, ainda se preocupava com alguma filha ou neta em dificuldade e mandava pagar isso ou aquilo, transferir dinheiro de sua conta ou socorrer alguma emergência.

Mas, contava minha mãe, que ele a vida inteira tinha sido assim, de ajudar todo mundo. Trazia sobrinho, filhos de amigos, para morar em casa; emprestava dinheiro se tivesse (e não era sempre que tinha)…

O mais incrível que hoje reconheço nele é que nunca eu ouvi de sua boca qualquer cobrança, qualquer crítica às pessoas a quem havia ajudado. (O que mais observo na vida é gente ajudando sempre com condições humilhantes, sempre jogando na cara o que fez, sempre exigindo coisas em troca).

Isso tudo não quer dizer que fosse santo. Tinha sangue calabrês e por isso era bravo. Mas dessa braveza inofensiva, que podia render um dia de cara feia, mas depois de se desanuviava. O seu maior problema era a relação com minha avó, que sofria daquelas patologias machistas da época. O homem podia tudo e a mulher nada. Muita briga, muita ciumeira. Mas depois dos 50 anos de idade, ele se aquietou e, apesar das brigas terem persistido sempre, cuidou dela até o fim – ela com Alzheimer.

O que de tudo ficou mais forte de herança em mim – hoje reconheço – é a sua relação italiana com a comida: dar importância ao ato de comer como um ato sagrado, em que a família deve se reunir em torno da mesa, para celebrar. E mais, que cozinhar para alguém é uma prova de amor. Chiquinho Beraldi era um cozinheiro de mão cheia: pães, massas, pastéis, berinjelas de todo o jeito – tudo fazia na mão, de forma artesanal. Levantava 6 horas da manhã para fazer o almoço em família. E eram travessas e mais travessas de delícias. E visita sempre levava alguma coisa para casa.

Esse cozinhar não era de receitinhas fechadas, mas de improvisação, de ter mão e nariz afinados, para a medida certa. Como italiano do sul, muito alho, muito azeite, muita alice (anchova). E muito prazer em fazer e em comer. Itália pura.

Sua relação com a espiritualidade era também muito interessante. Não tinha estudo, mas aceitava de forma natural, singela, os fenômenos espíritas. Contava sempre ter assistido a materializações do Padre Zabeu (sessões realizadas em São Paulo, na  década de 50) e via Espíritos corriqueiramente, sem medo, sem trauma, sem se impressionar muito.

Foi pena que perdemos as provas materiais de um fenômeno que se deu com ele na velhice, já no final da vida. Começamos a notar que quando ele dormia, fosse de noite ou tirava seus cochilos à tarde, ele falava em outra língua, que não conseguíamos identificar. Depois, ele acordava geralmente cansado e dizia ter sonhado que estava andando, andando…

Um dia, meu primo Paulo e eu resolvemos gravar o que ele falava durante o sonho (naquele tempo com fita cassete e gravadorzinho de mão). Pareceu-nos que era alguma língua árabe e conseguimos, através de alguns conhecidos, encaminhar a fita para o consulado sírio. Eles analisaram a gravação e o resultado foi que se tratava de um dialeto dos beduínos do deserto e o conteúdo era sobre uma longa viagem sobre as areias ardentes do deserto! O que havíamos gravado combinava com o conteúdo dos sonhos que meu avô contava!

Essas são algumas lembranças carinhosas do meu avô. Cada filho, cada neto, cada familiar terá as suas. Compartilho as minhas, para dizer o quanto é importante e bom o afeto familiar, a presença de pessoas marcantes, que se doam para nós, sem nada exigir. Que meu avô Chiquinho esteja bem do outro lado da vida e que toda criança, adolescente e jovem possam ter algum avô ou alguma avó assim.


Choremos por Belo Monte!

O choro de Raoni por Belo Monte

Milhões de anos construíram a tessitura delicada e forte da floresta. Bastarão algumas empreiteiras ávidas de dinheiro, para ferir a mata e atingir mais uma vez o pulmão do mundo, dizimando pássaros e peixes.

Centenas de povos e comunidades se alimentam há séculos da seiva fecunda do rio, tirando alimento pacífico da natureza e cuidando para que ela esteja lá, sempre bela e viva. Bastará um punhado de empresas nacionais e internacionais, sob a guarda de um governo (como todos os outros) rendido aos interesses econômicos desumanos, para desterrar as pessoas ribeirinhas e para acabar com o rio, que é fonte de vida.

Os donos antigos da terra, os indígenas, choram e clamam, ameaçam e lutam, vão para fora do Brasil e reivindicam, como o grande Raoni – mas nada acontece. Belo Monte avança, implacável. Filmes, documentários, entrevistas, estudos, militâncias de brasileiros e estrangeiros mostram a desgraça que se arma, o desrespeito à vida, à natureza, aos direitos fundamentais dos povos e das pessoas – mas o governo não escuta, os políticos da região, com faces boçais e frases de efeito, repetem discursos vazios de progresso para a região – como se essa noção de progresso, depredador da natureza e do ser humano já não estivesse sendo criticada, questionada e desqualificada há décadas, por ambientalistas, por pacifistas, por defensores dos direitos humanos!

O rio Xingu vai morrer, inundado, afogado pelas próprias águas, sufocado em alguns lugares, estrangulado pela ganância de empreiteiras. As pessoas que lutarem para defender a natureza e sua fonte de sobrevivência também morrerão, como morreram já tantos ambientalistas, defensores dos índios, missionários e militantes… A Amazônia vai pouco a pouco se extinguir, porque, como explicam os que entendem da coisa, a usina Belo Monte ficará parada pelo menos 4 meses ao ano (o que já não justificaria a sua construção) e então serão necessárias outras barragens, outras inundações, outras expulsões de povos à beira, outras perdas irreparáveis nas matas.

E as vozes do povo da terra, a vozes das pessoas sensíveis ao direito do outro e à natureza, mesmo se postas em várias línguas, em vários canais na rede, ficam perdidas, cobertas pelo som das escavadeiras, que já estão mutilando a terra.

O problema desse modelo econômico capitalista, predador, desumano, sem medida do bem e do mal, é que as pessoas são compradas. Os que poderiam se opor se vendem e apoiam. Os que se opõem sem nenhum poder, são calados ou mortos.

A democracia dos países que se dizem democráticos é uma farsa, um engodo em que a população participa como marionete, pensando que está decidindo algo, mas é apenas manipulada pelo sistema econômico, pela mídia e pelos governos eleitos. Neste ponto, não há diferença entre o governo militar que construiu Tucuruí e os governos petistas que estão construindo Jirau ou Belo Monte. De direita ou esquerda, militares ou ex-militantes contra a ditadura, todos têm a mesma concepção de progresso: predador da natureza, com desprezo pelos custos ambientais e sociais. Todos têm o mesmo comprometimento: atender aos interesses econômicos de investidores nacionais e internacionais. Porque qualquer governo no mundo só se conquista e se mantém se submetendo a esses interesses. Os governos eleitos nada mandam, apenas dançam miudinho diante das corporações, dos bancos, do sistema financeiro internacional. Lembro-me ainda da primeira grande decepção que tive com o Lula (embora não tenha votado nele e em nenhum outro): quando ele cedeu tudo o que podia para os interesses agressivos da Monsanto.

O sistema engole governos, ongs, passa por cima dos direitos fundamentais dos seres humanos, arrasa com a natureza e vai sufocar o pulmão do mundo, a Amazônia. Mas o sistema não é uma entidade abstrata: ele é feito de seres humanos, que o inventaram, que o servem, que colaboram com ele, que, sobretudo, se vendem para ele.

Então, se queremos ter alguma esperança de mudança, temos que ensinar às novas gerações, jamais se venderem, jamais cederem em princípios fundamentais, por interesse de ganho e ambição de poder. Como fazer isso através da educação é assunto para outro texto, mas podemos pelo menos dizer aqui que os mais velhos precisam exemplificar.

Mas até que novas gerações assumam a direção do mundo, esperemos que de uma forma mais humana, solidária e ecológica, a Amazônia terá morrido, dilacerada por plantações de extração de celulose, por usinas hidrelétricas, por pastos para gado…

Choremos pois, porque não acredito que a Dilma ou quem quer que seja, vá ouvir a voz do povo que clama e vá parar Belo Monte! Os índios prometem guerrear! Mas que podem eles contra o exército? Choremos!

Assistam ao filme abaixo e sintam toda a tragédia!


Liberte a Criança!

 

 

Mais do que encher as crianças de presentes e de balas, poderíamos aproveitar esse dia para uma reflexão profunda do lugar que a criança ocupa em nossa sociedade. Precisamos urgentemente promover a abolição da escravatura da criança.

Explico. A criança não tem voz, não tem querer, não tem direito a falar nada, a escolher nada. Sob a tutela do adulto, que ao invés de lhe estimular a autonomia, o crescimento, a vontade própria, só deseja dela uma única virtude: obediência.

A escola é um local de formatação obrigatória das mentes para a obediência em massa, para a sujeição do espírito a um programa medíocre, empobrecedor, em que todas as crianças devem se comportar da mesma maneira, aprendendo as mesmas coisas sem sentido para elas, da mesma forma, ao mesmo tempo, com o mesmo resultado. O principal que se ensina na escola é a competição entre os alunos, a necessidade de obedecer regras que não se sabe quem fez e para quê, a atitude de silêncio e não questionamento. Os conteúdos são esquecidos e passam. O comportamento imposto é para a vida.

As crianças são pessoas criativas, curiosas, sensíveis, amorosas, plenas de senso de justiça. Após o massacre sofrido por anos na escola, elas se tornam adolescentes apáticos, desinteressados, fechados e desiludidos com o aprender e o viver. A escola, coadjuvada pelos pais, mata a pessoa gradativamente; arranca-lhe toda capacidade perguntadeira, toda sensibilidade, e embota o raciocínio com um amontoado de conteúdos sem nexo, sem finalidade, que ao final do vestibular, a maioria de nós esqueceu completamente.

Esse processo tem começado cada vez mais cedo e cada vez de maneira mais feroz. Tenho uma amiga muito querida que trabalha na educação infantil em Santos e está enfrentando uma perseguição absurda porque se rebelou contra o fato das professoras colocarem crianças de 2, 3, 4 anos de castigo, infringindo aliás o Estatuto da Criança e do Adolescente – que proíbe que a criança sofra humilhação e constrangimento. Dizem as professoras – com o apoio da direção e da coordenação – que as crianças foram colocadas “para pensar”! Uma criança de 3 anos “pensando” num canto da sala!! E todo mundo acha que isso é normal, que faz bem, que “impõe limites”. De início, já estamos transformando o ato da reflexão num castigo. Segundo, estamos com isso arrancando a dignidade da criança, que sempre tem de estar em posição de submissão e obediência ao adulto. O caso dessa minha amiga foi levado para a Secretaria de Educação e ela não foi apoiada. Foi posta para fora da sala de aula, por tirar uma criança do castigo!

E o que querem as crianças? Correr, brincar, explorar, fazer fluir sua intensa energia. E o que querem os professores, a escola, o governo, os pais? Fazer com que elas fiquem quietinhas, caladinhas, em fila, obedientes, fazendo atividades que os adultos planejaram, geralmente pobres e desinteressantes.

O que querem as crianças? Perguntar, saber, apalpar a vida, beber a existência, abrir-se para o mundo… O que querem os adultos? Que elas se enquadrem, quanto mais cedo melhor, num sistema de vida em que ficar calado, não questionar, não criticar, não ser livre é a única opção.

A consequência disso já estamos assistindo: para submeter as novas gerações, cada vez mais inquietas e não sujeitas a esse tipo de domesticação, é preciso usar de meios mais poderosos de contenção – mais autoritarismo e agora temos os remédios que ajudam a manter a criança submissa. Outra amiga minha, que trabalha numa Ong, recebe encaminhamento de professoras da educação infantil para médicos e psicólogos porque “elas só querem brincar”, “não param quietas”… Que coisa! Crianças querendo brincar! Isso é um crime ou uma doença! Temos de reprimi-las rapidamente!

No final da educação infantil, agora temos a provinha Brasil, mais um instrumento de enquadramento da infância e um empenho em tornar já a educação infantil um processo de escolarização massacrante, que antes só começava mais fortemente aos 7 anos. Terem passado o primeiro ano para 6 anos é outro sintoma de enquadramento cada vez mais precoce da infância nos parâmetros formatadores da escola. Tenho um sobrinho de 6 anos que já está fazendo “provas”, para meu desgosto absoluto.

Depois disso tudo, vemos alunos querendo bater em professores e as pessoas se espantam, querem chamar a polícia (aliás já chamaram até para crianças de 3 anos)… quando o que acontece e vai acontecer cada vez mais é que este modelo de imposição promovido pela escola gera apenas duas atitudes possíveis: apatia ou revolta. O estado que se estabelece na escola tradicional é um estado de guerra permanente: os professores tentando conter, disciplinar, submeter, obter estudo entediante e compulsório. Os alunos tentando escapar pela divagação, pelo sonho, pela revolta – mais tarde, pode até ser pela droga e pela violência (dependendo das condições familiares e sociais).

Quem assistiu ao maravilhoso filme “Educación Prohibida” poderá constatar que crianças que vão a escolas livres, onde são respeitadas, estimuladas, tratadas como seres pensantes e sensíveis e não como números submissos, têm um desenvolvimento harmonioso, bonito, rápido. Não há violência, guerra, escapismo, onde há liberdade, amor, escolha, estímulo. Onde educadores e educandos têm cumplicidade, amizade, não há risco de violência, conflitos e desrespeito. Eu trabalhei 15 anos em escolas particulares e públicas, em São Paulo e no interior, com crianças desde 2 anos até adolescentes. Nunca um aluno me desrespeitou. Só recebi entusiástico afeto, porque só semeei intenso afeto por elas e respeito como pessoas com vontade e pensamento próprio. Nunca fiquei nas salas dos professores, falando mal dos alunos e escolhendo alguns para serem os bodes expiatórios da escola: os tais alunos-problemas, rotulados, com diagnóstico inapelável de “sem solução”. Ao invés, esses foram sempre os que mais me interessaram e com quem criei mais profundo vínculo. Porque geralmente são os que mais se rebelam contra o sistema.

É claro que teremos assim professores frustrados, doentes, esgotados. É um esforço hercúleo tentar submeter o tempo inteiro a energia vital, a ânsia de autonomia das novas gerações e impor-lhes o remédio amargo de conteúdos prontos, pasteurizados, desinteressantes, de uma lousa sem graça, de um prédio cinza. (Outra amiga minha que dá aula numa escola de periferia em São Paulo no Ensino Fundamental chorou ao me contar que um dia um aluno, que tinha um pai preso, lhe disse olhando em volta da sala: “Prô, você já viu que a nossa escola é igual a uma prisão?”)

 Alguns professores se rebelam, querem outra coisa, mas são tragados pelo sistema, como essa minha amiga acima. Outros sucumbem à depressão, têm que sair fora, para poderem se tratar. Mas muitos estão convencidos de que deve ser assim mesmo – são instrumentos inconscientes da opressão da infância e do adolescente. Adotam o discurso do autoritarismo, sem perceber que também eles se tornam uma peça de um sistema, em que eles próprios não têm querer, não tem respeito, não são valorizados. Esses são aqueles que vão passar esses e-mails irritantes, querendo criminalizar o “desrespeito” dos alunos aos professores ou admirando o sistema oriental de “educação”, onde o indivíduo vale menos ainda e está sendo treinado para a obediência absoluta ao sistema.

Enfim, estou aqui transbordando minha extrema indignação com o que a sociedade, a escola, a família, fazem com as crianças. Elas precisam de espaço vital, de espaço para brincarem, aprenderem por si mesmas, explorarem a vida! Precisam de espaço mental, para pensarem, discordarem, perguntarem, serem elas mesmas – cada uma com sua riqueza singular!

A criança é um ser subversivo ao sistema estabelecido. Ela questiona, ela inquieta, ela pergunta, ela tem uma energia transbordante, ela não se enquadra em parâmetros. Por isso, querem matá-la o quanto antes e transformá-la num adultozinho bem comportado e estudioso, calado e obediente. Assim, será mais fácil fazer desse ser humano uma peça descartável num sistema político, social e econômico que não valoriza a pessoa, mas apenas o lucro, o poder e o consumo.

Semear a escola de lírios e jasmins,
Caramanchões de flores,
Caminhos perfumados…
E árvores, muitas árvores,
Dessas sob as quais podemos nos abrigar do sol,
Daquelas que podemos subir e comer os frutos,
E ainda as que podemos abraçar e sentir a seiva da vida.
 
Semear a escola de crianças correndo
De crianças sorrindo
De crianças perguntadeiras, de olhos brilhantes,
De crianças inventadeiras, dessas que inventam moda,
Dessas que querem sempre mais,
Que nunca param, que nunca se conformam….
 
Semear a escola de pessoas felizes,
De educadores amorosos, entusiastas, carismáticos,
Desses que gostam de se sentar no chão,
De contar histórias, de tocar violão,
De brincar na terra e de plantar no coração.
Daqueles que têm ainda nos olhos uma criança perguntadeira,
Daqueles que querem saber de tudo e nunca acham que sabem tudo.
 
Quando a escola for esse jardim,
Me chamem para nela habitar
E o mundo terá virado um lugar
Semeado de paz.

 

 


Psicologia da Ingratidão

Todas as vezes que testemunho ou sofro alguma ingratidão, lembro-me da passagem do Evangelho – aquela em que Jesus curou os dez leprosos e só um voltou para agradecer. E ele perguntou: onde estão os outros nove? Essa história nos indica que a ingratidão é algo comum, majoritário, no comportamento humano. Estatisticamente, 90% daqueles que Jesus curou, não mostraram gratidão.

Observando esse fenômeno, proponho-me aqui a examinar as motivações psicológicas da ingratidão.

Quando alguém está precisando de ajuda – seja porque está doente, com dificuldades financeiras, solitário, deprimido, em qualquer situação de crise ou mesmo que essa crise seja um status permanente, desde a infância – é um momento, uma fase, ou até uma existência inteira, até então, de fragilidade e de carência. Para o orgulho humano, precisar do outro, tem algo de humilhante – ainda que aquele que ajude (como o caso incontestável de Jesus) esteja ajudando com total desprendimento e sem nenhum desejo de recompensa. Obviamente que este estado de desprendimento e desapego dos resultados é algo bastante raro no mundo, tão raro quanto a gratidão.

Ora, quando a pessoa que recebeu a ajuda, seja em forma de dinheiro, apoio, solidariedade, incentivo, colo… – se vê numa situação melhor, de maior segurança, de retomada de sua autonomia, até de euforia, porque conquistou posições e patamares antes impensáveis (muitas vezes com o próprio esforço sim, mas a partir da ajuda recebida) – então, a pessoa não quer mais se lembrar daquele instante de fragilidade, quer negar para si mesma que precisou um dia de apoio, quer atribuir todas as suas conquistas apenas a si mesma, aos próprios méritos. Não quer dividir o sabor da vitória, relembrando um momento em que estava “por baixo”. Então, nega o benfeitor, esquece-o, até pode agredi-lo e eliminá-lo simbolicamente, porque é humilhante para o seu status atual, fazer referências a um estado anterior de carência. Então, faz aquilo que o ditado popular tão pitorescamente expressa: “cospe no prato que comeu”.

A coisa se agrava mais quando existe uma forte relação afetiva entre aquele que ajudou e aquele que foi ajudado – seja este um filho, um irmão, um amigo íntimo, um parente distante ou próximo. Porque então, a ajuda pode ter sido carregada de forte dose de afetividade, preocupação com o outro, desejo profundo de felicidade e superação das dificuldades do ser amado. Nesse caso, o ingrato precisa esquecer duplamente do benfeitor – o benefício prestado e a afetividade entregue. E é então que a ingratidão pode doer mais profundamente, porque se tratou não apenas de um benefício, mas de uma entrega de si. Episódios assim também se encontram na vida de Jesus, como a traição de Judas, a negação de Pedro e o abandono dos mais próximos, no momento da crucificação. No caso dos leprosos, Jesus não tinha uma intimidade com eles. Com os discípulos, eram amigos queridos. Nessa configuração, a pessoa não quer apenas esquecer do benfeitor, para não lembrar de um momento de fragilidade, ela quer se desobrigar de qualquer retribuição concreta ou afetiva com a pessoa que foi determinante para suas realizações, superações e conquistas – sejam elas de ordem material, intelectual ou moral. Quer se sentir livre de compromissos com quem ficou para trás, porque tais compromissos, que implicariam muito mais do que simplesmente reconhecer o benefício, mas também num cuidado com o outro (como o caso de pais, irmãos, amigos), são uma quebra na fruição de suas conquistas. Por exemplo, o indivíduo recebeu toda a formação dos pais, todo o empenho pelas suas realizações, todo o carinho doado (claro, com os limites e defeitos possíveis de todas as relações humanas) e quando ele se vê numa situação de bem-estar, conquista e euforia, não deseja ver o estorvo da fragilidade alheia – agora no caso, dos pais –que estarão por sua vez num momento de carência. Voltar atrás e olhar para os benfeitores, amá-los, cuidar deles, ter compromissos, é turvar o momento de segurança presente, é abrir brechas para o afeto fluir, no meio da vaidade das conquistas.

Assim, podemos concluir que o que atrapalha a gratidão em todos os casos é o orgulho – de não se admitir que se esteve já em situação difícil – e o egoísmo – de não querer interromper o gosto da conquista, com a preocupação, o cuidado e a dedicação ao outro.

Agora, analisemos toda a questão do ponto de vista daquele que ajuda. Que motivações podem levar a pessoa a fazer um bem a quem esteja em situação de carência ou precisão? São motivações sempre nobres, puras e elevadas? Até que ponto podem também estar contaminadas de orgulho e egoísmo? E pode essa possível contaminação na atitude do benfeitor provocar ou reforçar a ingratidão?

O ideal de um ato moral – como também aponta o Evangelho e a interpretação espírita da ética cristã – é o desinteresse. Esse desinteresse deve ser financeiro, pessoal, afetivo. Ou seja, é preciso fazer o bem, sem nada querer, esperar ou desejar de volta. A coisa porém não é tão simples. Primeiro, porque ao fazer o bem, experimenta-se naturalmente um bem-estar interno (hoje comprovado até através de pesquisas que mostram que dar, doar, ajudar libera sensações agradáveis para quem faz). Então, ao fazermos o bem, queremos nos sentir bem? Sem dúvida que sim! E isso eu chamaria – repetindo uma definição que ouvi do meu terapeuta – de um egoísmo saudável. Afinal, Jesus disse que deveríamos amar ao próximo como a nós mesmos. Ou seja, todos os seres humanos buscam prazer, felicidade, bem-estar e isso é natural. Ora, muito melhor que esse bem-estar seja provocado por um fazer bem do que por um fazer mal ou por qualquer tipo de vício autodestrutivo.

Apesar disso, considero que num nível mais elevado de doação, o indivíduo dá apenas e somente pelo bem do outro, sem pensar na própria felicidade. É certamente o caso de Jesus, ao morrer na cruz, como oferecimento de um exemplo para a humanidade.

Mas a questão não fica nesse ponto. Quando nos encontramos diante de alguém que está em situação de necessidade, os nossos sentimentos de empatia e compaixão podem ser ativados e nos lançamos a uma ação benéfica para o outro. Até aí, ótimo.  Mas podem surgir também sentimentos (às vezes inconscientes) de superioridade e de prazer por estarmos numa posição de generosidade, de vaidade por “sermos tão bons”! Então, o ato de ajuda carrega algo de humilhante para o outro, sim. Porque podemos nos situar num patamar de cima, onde o outro que recebe, se sente de fato esmagado pela nossa oferta. Se a pessoa não tiver alternativa nesse momento, isso poderá depois gerar uma forte repulsa pelo benfeitor. E tudo isso está muito bem descrito no Evangelho. O problema é que bons impulsos podem ser manchados por esses sentimentos negativos – então há de fato um bem praticado, houve um momento de solidariedade sincera, mas depois o orgulho apareceu para estragar as coisas.

Outra forma de contaminar o gesto de ajuda está na cobrança de retorno, que pode ser uma cobrança sutil ou explícita, pode aparecer na forma de expectativa silenciosa ou de um “jogar na cara” ofensivo. A forma não explícita gera mal-estar no beneficiário e a explícita provoca justa revolta. Há inclusive pais e mães que praticam fartamente essa forma explícita, humilhando filhos, por terem cumprido o que pais e mães devem fazer – doarem-se inteiramente. Então, o ato do bem ou o amor doado estão claramente aprisionados nas garras do egoísmo.

Essas manchas no ato de doar não eximem aquele que recebe do sentimento de gratidão, sobretudo se há um vínculo amoroso envolvido no processo; assim como a ingratidão não exime o benfeitor de continuar fazendo o bem; porque é preciso compreender que estamos em processo de aprendizagem evolutiva e ainda quando queremos praticar o certo e queremos elevar nossos sentimentos, eles ainda se deixam macular por nossos atavismos milenares. Há que se ter maturidade e compreensão mútua para entendermos as nossas fraquezas e as do outro. Há também que se considerar que nossos papéis de benfeitores e beneficiados se alternam no decorrer da vida. Todos temos fases, momentos de fragilidade (basta lembrar de como chegamos e como partimos no mundo). Todos temos oportunidade de ajudar alguém em outros momentos. Ora somos necessariamente carentes, ora podemos ser generosos. Refletindo sobre tudo isso, haverá mais oportunidades de superação e de caminharmos para formas superiores de sentir e fazer.

Há porém algo mais sutil ainda, quando se trata de um benefício e uma ingratidão entre dois seres que se amam intensamente – e não posso deixar de imaginar que foi o que Jesus sentiu ao perguntar pelos outros nove leprosos que não voltaram, que embora não tivessem intimidade com Jesus, o Mestre não lhes era alheio em seu amor por todas as criaturas. A sua pergunta revela que ele não ficou indiferente ao fato. É que quando se pratica um bem ou muitos bens a um ser amado e a pessoa incorpora esse bem em sua vida e depois rejeita asperamente o irmão, a mãe, o amigo que lhe foi alicerce de ascensão e realização, o que se pode experimentar é uma profunda dor pelo outro. Jesus lamenta a ingratidão dos leprosos, como se entristece pela fraqueza de Judas e de Pedro. Mesmo se o nosso eu estiver já desprendido de toda mágoa e suscetibilidade – o que requer obviamente um trabalho bastante cuidadoso – podemos nos entristecer porque o ser amado está agindo de maneira tão acintosa e ingrata, por ele mesmo. Esse sentimento será entremeado de compaixão, sem falsa superioridade. Pode-se entretanto ainda misturar tais impulsos, enquanto estamos a caminho: mágoa com compaixão, tristeza pelo outro, com esperança de recompensa…

Enfim, tudo isso são aprendizados que nos competem assumir em nossa jornada evolutiva. E, tinha Kardec razão ao dizer que as duas únicas e maiores chagas da humanidade são o orgulho e o egoísmo. Estejamos atentos a isso!

 


Medicina, Neurociências, Pedagogia: Encontros e desencontros

Reflexões depois de um congresso

Participei na semana passada (dessa vez apenas como observadora) do IX Congresso Brasileiro de Psicopedagogia e I Simpósio Internacional de Neurociências, Saúde Mental e Educação, realizado em São Paulo, na Unip, numa parceria entre a Sociedade Brasileira de Psicopedagogia e a Unifesp (Projeto Cuca Legal) e mais apoios e patrocínios outros. O evento pretendeu enfatizar o possível diálogo entre Neurociências, Saúde Mental e Educação. Como esse era o foco principal e foi também o que mais me chamou atenção, farei aqui algumas reflexões a respeito. Depois, pretendo escrever algum artigo científico que trate das questões epistemológicas, que envolvem esse possível diálogo. Esse texto portanto é mais jornalístico, embora não possa, ao tecê-lo, deixar de lado minha formação e bagagem na área da Filosofia da Educação e minhas incursões pela Filosofia da Ciência.

Não é de hoje que as áreas de Saúde e Educação procuram alianças e debatem entre si. Já Santo Agostinho, em torno do ano 300, lembrando Platão (300 A.C.) refletia que “a ciência que cuida do corpo é chamada medicina. A que cuida da alma, educação. Dado que o cuidado do corpo está intimamente ligado ao da alma, a medicina é um aspecto da educação. Dado, por outro lado, que o cuidado da alma exige certa perícia médica, à educação se chama, com razão, medicina da alma”. Observe-se que o link usado por Agostinho entre as duas, era o conceito de alma, que na tradição ocidental (desde Sócrates e Platão), foi concebida como a sede da identidade humana.

Não por acaso, no diálogo proposto nesse congresso e a proposição que observamos em vários espaços acadêmicos de uma Neuroeducação, as Neurociências aparecem como o link entre as áreas e a concepção corrente é de que a identidade humana é o cérebro, que apresenta seus determinismos genéticos e sua estrutura neural plástica em constante interação com o meio. Quando falo em identidade, falo de singularidade, de individualidade, de uma consciência que é capaz de pensar sobre si mesma.

Contrapondo uma ideia à outra, estamos diante de dois paradigmas, duas abordagens diferentes – uma dualista (que considera o ser humano composto de corpo e alma) e a outra monista materialista (que considera o ser humano apenas um processo bioquímico e a mente um subproduto do cérebro). Pode-se chamar também essa concepção de organicista.

O primeiro problema se dá quando se considera esse segundo modelo como resultante de uma “ciência baseada em evidências” e o primeiro, como mera especulação filosófica, metafísica, e portanto, ultrapassada.

O discurso sólido, brilhante, lógico, apresentado por todos os médicos (psiquiatras) no evento em foco, se agiganta pela demonstração de evidências observadas no estudo do cérebro, inclusive com o uso de neuroimagens, o que nos coloca muito mais próximos de compreender como funcionam os processos cognitivos, emocionais… os desenvolvimentos, as mutações, as disfunções dessa fantástica rede neural.

Tudo muito bonito e com grande dose de objetividade e verdade. Conhecemos melhor como se dá a aprendizagem? Sim. Sabemos mais sobre o processo de interação genética-meio ambiente? Sim. Podemos montar estratégias de intervenções pedagógicas, sociais, familiares que atendam melhor ao desenvolvimento saudável e eficaz do indivíduo? Sim. Isso tudo pode e deve causar um impacto transformador na escola? Sem dúvida alguma.

Entretanto, Educação não se reduz a isso. Educação envolve questões éticas, estéticas, humanas que não se deixam apalpar por evidências científicas, estatísticas, materiais. Mas só podemos argumentar que a Educação não é só um debruçar-se sobre o cérebro da criança e um saber como moldá-lo, a partir de um outro paradigma de conhecimento e ação. Um paradigma que pelo menos não considere o conhecimento como algo apenas baseado em evidências, sem nenhuma articulação filosófica, ou ainda, que sabe que a ciência não é neutra, nem desinteressada, nem absoluta, mas também sujeita à crítica. Crítica não apenas feita por outros cientistas, mas também por pensadores (cientistas ou não) que questionam os métodos, os pressupostos, os caminhos de se fazer ciência.

Para explicar melhor o que estou dizendo, quero pontuar algumas questões totalmente esquecidas (ou ignoradas) pelos brilhantes médicos e entusiastas neurocientistas, mas infelizmente também esquecidas (ou ignoradas) pelos educadores perplexos e seduzidos pelo discurso cientificista. Esses educadores em geral não têm nenhum treinamento em ciência baseada em evidência (coisa que não é quase nunca praticada nas áreas de humanas – o que considero um problema), mas também não têm repertório filosófico e cultural para fazer uma leitura crítica ao modelo proposto, pois as faculdades de pedagogia e as especializações em psicopedagogia não oferecem esses recursos. Os médicos, por sua vez, não conhecem filosofia, não recebem formação em humanidades. Assim, não há um diálogo entre as áreas, mas uma superposição da área de saúde sobre a área da educação. E qualquer crítica vinda do lado da área de humanas é desqualificada pelos médicos como “ideológica”. E é verdade que muitas críticas, feitas sem argumentações lógicas e sem conhecimento de causa, são mesmo ideológicas. Mas isso não quer dizer que a simples “tomada” da Educação pela Neurociências não apresente riscos e não esteja sujeita a críticas.

Não é de hoje que a medicina avança na área da educação, trazendo grandes contribuições, mas provocando igualmente alguns riscos. No início do século XX, tivemos inúmeros médicos-educadores atuando, pesquisando e propondo ações. Citemos Decroly, Claparède, Montessori, Korzcak, Vygotski e o próprio Piaget, que não era médico, mas como biólogo, tinha uma visão organicista semelhante à que as Neurociências propõem.

Mas o que se viu nas primeiras décadas do século passado é o uso de critérios de quantificação de inteligência, de testes, de medições cranianas… para classificações discriminatórias e até práticas eugênicas, que não tiveram lugar apenas na Alemanha nazista, mas foram exercitadas em países como o Brasil e os Estados Unidos.

Não que esses médicos-educadores acima citados tivessem responsabilidade nisso – tendo aliás cada um deles, diferentes perspectivas pedagógicas. Mas o entusiasmo organicista, o pressuposto de que podemos modelar, prever, manejar de maneira “científica” a aprendizagem e a formação das mentes humanas (à moda de Skinner) sempre podem provocar uma diminuição da liberdade, da autonomia do sujeito e do que essa autonomia representa de inventividade, imprevisibilidade e espontaneidade.

Então, é preciso que essa articulação entre Neurociências e Educação seja muito bem amparada pela Ética, balizada por reflexões críticas e uma Filosofia da Ciência, alerta para os riscos da empreitada.

As Neurociências e os clássicos da Educação

O que pouca gente sabe, pelo menos no Brasil, é que esses educadores citados acima – todos eles – tiveram influência dos grandes clássicos da Educação, como Comenius, Rousseau e Pestalozzi – totalmente ignorados entre nós. Piaget, por exemplo, comenta numa introdução a uma obra de Comenius, editada pela Unesco, que o educador checo teria sido um precursor de sua Psicologia genética.

Esses autores antigos não só intuíram, anunciaram e abriram caminho para seus herdeiros dos séculos XIX e XX, como também previram as descobertas atuais das Neurociências. Talvez possamos traçar o seguinte roteiro histórico: os clássicos intuíram, os médicos-educadores, os psicólogos do desenvolvimento infantil, os militantes da escola-nova observaram e as Neurociências fornecem evidências… Prometo fazer um trabalho aprofundado sobre isso, mas lá vão algumas amostras dessas intuições-observações-evidências:

• A aprendizagem se dá pela interação com o meio e os sentidos exercem um papel fundamental, portanto a Educação tem que ser sensorialmente estimulante;

• As emoções e a afetividade estão conectadas à aprendizagem;

• Há estruturas inatas que permitem o desenvolvimento cognitivo do ser humano  e essas estruturas se referem, entre outras, à aquisição da linguagem e à possibilidade de cálculos (Pestalozzi dizia isso!);

• O indivíduo aprende por motivação (lembro do conceito de “interesse” de Dewey);

•  A aprendizagem se dá na ação e é autônoma. (Educação ativa já era proposta por Comenius no século XVII e por Rousseau no século XVIII.)

E, no entanto… eis a grande tristeza! Vieram os clássicos da Educação, vieram os psicólogos do desenvolvimento, estão aí as Neurociências…  e a escola continua a mesma: sem ação, sem autonomia, sem afetividade, sem emoção, sem motivação! A escola da lousa, do professor falando, do aluno sentado e entediado, da classe enfileirada e dos muros cinzentos! A educação bancária, como dizia Paulo Freire – as cabeças dos alunos como depósitos. Uma escola em que nem a alma, nem o cérebro se desenvolvem. Parece que há sempre abismos entre as belas teorias e as paupérrimas práticas.

Em busca do ser integral

Bem – dirão – se os clássicos intuíram, outros observaram e as Neurociências dão evidências, podemos muito bem só ficar com essas últimas. As intuições passam a verdades reconhecidas e não precisamos mais desses pioneiros geniais!

Aí é que os distintos estão muitíssimo enganados (lembrando uma canção de Vinicius de Morais)! É que nesse processo histórico, houve uma perda no decorrer dos tempos. Alguns conseguiram reter algo a mais dos precursores, como é o caso de Maria Montessori (provavelmente por ser mulher e há um componente mais sensível no conhecimento produzido por mulheres – lembro que a Tanatologia e os Cuidados Paliativos nasceram na Medicina, graças a duas mulheres, Elisabeth Kübler-Ross e Cicely Saunders). Mas a maioria afunilou os conceitos, dentro do paradigma reducionista da ciência materialista, herdeira do positivismo.

O que havia de essencial nos clássicos é que eles mantinham uma visão integral do ser humano: não perdiam de vista, o biológico (na medida dos conhecimentos da época, claro) o político, o social, o afetivo, o cognitivo e… o espiritual!

O que os ilustres e brilhantes palestrantes médicos do congresso em pauta parecem desprezar é que a ciência dos últimos dois séculos representa um paradigma possível, mas não único de fazer ciência, baseada em evidências. Não se pode ignorar a intensa crítica a que esta ciência foi submetida na segunda metade do século XX, por autores como Kuhn, Lakatos e, mais ainda, Foucault e Feyerabend. Estou longe de defender um relativismo epistemológico que considera todo conhecimento humano como mero discurso. Em minha tese de doutorado, fiz dura crítica ao pensamento anticientífico do pós-modernismo.

Mas não se pode ignorar que a ciência sim, participa de interesses, está submetida a determinados pressupostos iniciais, escolhe alguns fenômenos, em vez de outros, para serem estudados, e fecha os olhos quando se lhe apresentam fatos ou evidências que possam contrariar o paradigma vigente.

Pois, muito bem… se há evidências que vêm corroborar as intuições dos clássicos em relação aos processos da cognição e do desenvolvimento infantil, há outras que vêm dar solidez à visão que eles propunham de que o ser humano tem uma dimensão espiritual. Em relação ao nosso conceito de criança (que não é apenas um cérebro em desenvolvimento), temos, por exemplo, as exaustivas pesquisas de mais de 40 anos de Ian Stevenson, Erlendur Haraldson, Jim Tucker e outros, sobre memórias espontâneas de vidas passadas, incluindo uma fartíssima coleta e análise de dados, feitas por Stevenson, em relação a marcas de nascença, conectadas com memórias de outras vidas (isso está publicado no livro Reincarnation and Biology). Essas evidências não anulam em nada aquelas das Neurociências, mas acrescentam, além do cérebro, uma alma que tem identidade, que já viveu antes em outro corpo, e traz lembranças dessa vida – lembranças que podem ser demonstradas pela pesquisa “baseada em evidências”, com todos os cuidados metodológicos. Aliás, diga-se de passagem, Stevenson, como seus colegas acima, também era médico psiquiatra. Por que ele via fenômenos, que outros não querem sequer tomar em consideração? Porque os cientistas agem, levados por pressupostos filosóficos, por influências culturais do seu meio, por inclinações subjetivas também… e não apenas pela Ciência pura, como bem demonstrou Thomas Kuhn.

No dia em que tivermos todas essas evidências, de todos os lados, articuladas por uma reflexão filosófica e por uma elevada concepção ética, estaremos mais próximos de compreender o ser humano e, portanto, a criança, de maneira mais integral.


Manifesto pelo colo

Para os tecnicistas desumanizados de plantão, para os que medicalizam a educação, para os que não querem ter trabalho ao cuidar das crianças, para os que temem se envolver emocionalmente com bebês e crianças (como se isso fosse possível e desejável!), para os que colocam as regras institucionais acima das carências humanas, para os que não entendem nada do sentimento humano de aconchego… para esses que negam ou acham que devem negar ou mandam que outros neguem o sagrado dom do colo para as crianças, vai esse manifesto poético.

Bebês precisam de colo, crianças precisam de toque e carinho, suavidade e afeto. Todos precisamos. Mas a criança precisa disso para se desenvolver bem, saudável, confiante, tranquila. Não se acostuma mal a criança por se dar colo. Ao contrário, acostuma-se mal quando não se dá. Ela experimenta a sensação de abandono, frieza, desconforto. Não se sente amada e protegida. Como nos comunicamos com um bebê? Em primeiro lugar através do toque, do abraço, do afago; depois da tonalidade amável e doce da voz… Precisamos recuperar essa sensibilidade instintiva que a nossa civilização tecnocrata abafou e proibiu.

Sim, bebês e crianças pequenas querem, pedem e precisam de COLO! Vamos oferecer o nosso e isso nos fará muito bem!

A semente que será
Árvore vinda do solo,
O que é que a terra lhe faz?
Acolhe-a e lhe dá colo!
 
As aves que vão e vêm
No mundo de polo a polo,
Nos ninhos sob suas asas
Aos seus filhotes dão colo…
 
A cadela vigorosa
Com que no jardim eu rolo,
Como mãe se transfigura,
Lambendo a cria, dá colo!
 
O pinguim na fria neve,
A águia em seu voo solo,
A leoa na campina,
Aos seus rebentos dão colo!
 
E eu como humano adulto
Se em sofrimento me esfolo
Que mais queria ganhar
Que um quente e materno colo?
 
Filhotes, crianças, homens,
Tudo o que vive e respira,
Quer aconchego e carinho
E não dureza que fira!
 
O bebezinho quer colo
E a criança, ser tocada
Porque é só no pele a pele
Que se saberá amada!
 
Não há choro, não há dor
Nem birra, nem gritaria,
Que um toque suave e terno
Não transforme em calmaria!
 
A criança respeitada
Acalentada, cuidada,
Acolhida o tempo todo,
É criança equilibrada!
 
Nada de teses frias
E os adultos no embaraço!
A criança quer afeto
Com toque, beijo e abraço!
 
Para fazermos do mundo
Um lugar acolhedor,
Saibamos dar às crianças
O nosso colo de amor!

Nova Idade Média? O retrocesso cultural no ciberespaço

Tenho uma tese que ainda vou desenvolver melhor num livro ou em alguns artigos mais profundos: é a de que corremos o risco de mergulhar numa nova Idade Média, claro, diferente da que foi. Mas há sinais fortes e semelhantes à chamada Alta Idade Média que vai do século V até mais ou menos o ano mil, período da desagregação do Império Romano e do retrocesso da cultura, da civilização… Depois, a Baixa Idade Média não pode mais ser considerada como um período de trevas, pois houve o nascimento das Universidades, a retomada gradativa das cidades e do comércio, as catedrais góticas, as línguas europeias, nascentes em poesia… e assim por diante.

O que indica esse risco de novo mergulho medieval? A onda fundamentalista das religiões, deflagrando irracionalidade e fanatismo; a desagregação da linguagem, da música, da arte em geral; o desaparecimento da infância (veja-se o livro de Philippe Ariès, História Social da Criança e da Família, demonstrando que na Idade Média, as crianças eram adultas em miniatura e não eram vistas e tratadas como crianças, que é o que está acontecendo hoje, quando a mídia e a propaganda fazem da criança um pequeno, sensualizado e obeso consumidor!). Outro sinal de retrocesso é o brotar do misticismo fácil, das seitas irracionais e de uma espiritualidade light, indicando falta de consistência e conhecimento filosófico, podendo nos levar a superstições já cientificamente superadas.

As circunstâncias são outras, as características são outras, mas estamos caminhando a passos largos para o eclipse da cultura, da razão, das conquistas civilizatórias dos últimos séculos. É verdade que um pouco disso pode ser decorrência de um processo de resistência e desagrado com a civilização predatória, instalada pelo capitalismo. Mas o que se observa em grande escala (e não é só no Brasil, mas no mundo todo) é um recrudescimento da ignorância, um analfabetismo filosófico, literário, político, espiritual. A mediocridade está tomando conta.

Um dos sinais evidentes que observo diariamente na internet é a circulação crescente de frases soltas, de powerpoints coloridos, ralos e de autoajuda brega, de citações – que revelam uma pseudocultura: superficial, falsa e emprestada. Fico impressionada de ver quanta gente produz e reproduz fartamente frases que são atribuídas a Gandhi, Platão, Pitágoras, Confúcio, Buda, Dalai Lama, Clarice Lispector, Carlos Drummond, Saramago… e assim vai. Ou seja, líderes espirituais antigos e contemporâneos, filósofos, literatos – todos originais, inteligentes e que deram suas contribuições importantes à história, são colocados no mesmo saco de superficialidade e besteirol. Quase nenhuma das frases que lhes são atribuídas na internet é deles mesmos!! Mas ninguém consulta um livro, ninguém lê uma obra de fato sobre a vida ou sobre o pensamento de nenhum deles. Todo mundo repete frases prontas, pobres, vazias, como papagaios, sem nenhum compromisso com os autores, sem nenhum espírito crítico, sem nenhum cuidado de veracidade! Ou seja, estamos criando uma pseudocultura virtual, que consiste em repetir pensamentos ralos, que não formulamos e que atribuímos a pessoas inteligentes, que nunca disseram tais coisas. Nem pensamos e nem recorremos a quem de fato pensou, para aprendermos a pensar. Vamos papagaiando frivolidades. Isso vale para o Facebook, para os e-mails, para os blogs, para as apresentações que circulam por aí!

É tudo rápido, descartável, superficial, vazio…

Outro aspecto que revela a decadência da cultura é o aviltamento da linguagem, a degeneração dos idiomas (mais uma vez, o fenômeno não é só no Brasil). Neste texto mesmo haverá muitas palavras que algumas pessoas nunca viram, porque seu vocabulário é cada vez mais reduzido. Isso vale principalmente para os mais jovens. A língua é um instrumento delicado, harmonioso, embora vivo e dinâmico, que se estrutura a partir da expressão de um povo. Mas antes, essa expressão era tomada por cima. Ou seja, a linguagem culta, literária era o padrão a servir de medida. Hoje, dá-se o contrário. Ninguém mais conhece o padrão culto. As palavras são truncadas nas mensagens, nos e-mails, nos textos; a correção gramatical ausentou-se completamente – mesmo professores de português escrevem errado, não sabem onde colocar uma crase, cometem deselegâncias na concordância! O vocabulário está cada vez mais restrito, pobre, desgastado. O que isso significa? Quanto menos palavras temos para nos expressar e quanto menos regras conhecemos e seguimos para estruturar a linguagem, mais nosso pensamento se torna pobre, por falta de capacidade de expressão; mais se torna feio, desajeitado, por falta de correção na escrita. Ou seja, estaremos caminhando para os grunhidos da caverna?

Conhecer as fontes do que se cita, certificar-se da autoria de um texto, expressar-se bem, elegantemente, com um vocabulário farto – tudo isso faz parte de uma educação bem cuidada. E o problema é justamente esse. Não temos educação: temos manipulação da TV, dispersão na internet, excesso de jogos e msn e falta de livros, falta de conversas, falta de conhecimento em geral.

Mas nem tudo está perdido! Não penso que a internet seja um lugar demoníaco, que deva ser abandonado. Há sites, blogs, escritos inteligentes, bem feitos. Basta saber buscar, escolher, selecionar. Há ciência, filosofia, livros inteiros antigos e contemporâneos, já disponíveis no universo virtual. E é fantástico poder entrar numa biblioteca internacional e achar livros do século XVIII, XIX, XX, e baixá-los gratuitamente… poder entrar num museu virtual e ver obras de arte antigas… poder se associar a um site como Classics Online e ter acesso a 40 mil músicas de todos os gêneros! Poder folhear pela manhã no I Phone, jornais do mundo inteiro!

Por outro lado, poder escrever um poema, um bom texto, uma crônica e no mesmo instante colocá-los à disposição de milhares de pessoas, num blog, num site, divulgando no Facebook, no Twiter…

Os recursos tecnológicos são fantásticos, as possibilidades são infinitas! Nós é que temos de ter cuidado para não mediocrizá-los, não torná-los uma distração tola e às vezes viciante!

Podemos e devemos fazer conscientemente nossa resistência cultural e só divulgar coisas realmente consistentes, procurando também fazermos algo pessoal, original e não apenas copiar o que outros dizem que alguém disse! E mais do que tudo, não devemos abandonar os livros, porque eles são ainda (embora nem sempre) a fonte da cultura mais profunda e mais saudável a nosso dispor.


Ateísmos, teísmos e fanatismos

Um documentário feito por alunos de Comunicação Social numa Universidade do Rio Grande do Sul, defende o direito dos ateus e fala sobre a discriminação sofrida por eles. Abaixo, uma reflexão que fiz a partir desse vídeo!

A mais recente vitimização social é  a dos ateus – declaram-se perseguidos, incompreendidos e discriminados. Em primeiro lugar, quero deixar claro, que reconheço a legitimidade do ateísmo e obviamente advogo o direito de cada um crer ou descrer, da maneira que lhe aprouver, pois nada há de mais sagrado do que a liberdade de pensamento.

Entretanto, um dos trabalhos a que me dedico é o do diálogo inter-religioso e, poderia então acrescentar, o diálogo entre religiosos e não-religiosos… Afinal, o eixo para uma sociedade mais justa, plural e fraterna, está na convivência pacífica e respeitosa entre diversos pontos de vista. Nesse sentido, portanto, temos que analisar o que nos afasta e o que nos aproxima do diálogo, e isso deve ser feito por todos os interlocutores.

Antes de mais nada, um diálogo tem que ser honesto – o que chamo de honesto inclui não fazer generalizações simplistas. Por exemplo: religiosos dizerem que ateus não têm moral. Ou, do outro lado, ateus se referirem a Deus numa generalização pobre de seu conceito.

Explico-me: o que esses ateus do vídeo acima estão combatendo (ou dizem descrer) é um deusinho bem vulgar, antropomórfico, que anda pulando na boca de pastores fanáticos. Não é de jeito nenhum o Deus de Platão, Aristóteles – que eram pagãos. Não é o Deus de Avicena – que era islâmico, nem de Maimonides, judeu. Não é nem mesmo o Deus de São Tomás de Aquino, cuja doutrina é oficial da Igreja Católica. É o deus dos inquisidores, mas não é o Deus de Giordano Bruno, que foi queimado pela Inquisição, mas aceitava um Deus cósmico, infinito.

O primeiro grande engano é considerar que Deus é apenas um assunto de religião. Desde antes do advento do cristianismo, e mesmo muito tempo depois da laicização da sociedade, Deus sempre foi um tema recorrente na filosofia. Descartes, Spinoza, Leibniz – mais recentemente, Bergson, Buber ou Scheler, têm concepções de Deus diferentes entre si e muito distantes desse deusinho punitivo, vingador, que manda os ateus para o inferno, esse deusinho que pregam os seguidores de um Edir Macedo da vida.

O outro grande engano é dizer que a ciência é ateia. A ciência não pode se pronunciar – e nem se pronuncia – nem contra, nem a favor de Deus, pois Deus nunca foi seu objeto de estudo e pesquisa. O que há são concepções de universo e de mundo que se afinam ou não com uma dada concepção de Deus. E o que há são cientistas ateus e cientistas não-ateus.  Eis tudo.  E a ciência moderna, nascida justamente com os grandes astrônomos, Copérnico, Galileu, Kepler, Giornado Bruno, não nasceu ateia, porque esses pensadores consideravam que conhecer o cosmos, estudar as constelações, enxergar a ordem matemática imanente no universo, era uma forma de decifrar Deus, seu projeto cosmológico inteligente e articulado. Há cientistas contemporâneos célebres que também são teístas – veja-se Albert Einstein e Max Planck.

Portanto, não dá para discutir Deus honestamente de forma maniqueísta:

De um lado: cientistas, filósofos, pensadores progressistas, defensores da liberdade, personalidades “fortes” que não precisam de apoio “sobrenatural” – ATEUS.

Do outro lado: religiosos, fanáticos, conservadores, inquisidores, ingênuos, que precisam de uma muleta, que se assemelha ao Papai Noel e ao coelhinho da Páscoa – TEÍSTAS (considerando-se teísta qualquer um que tenha uma concepção de Deus).

Assim como não dá para fazer o inverso, demonizar os ateus e santificar os religiosos!

O caso é que a intolerância, o dogmatismo, o patrulhamento ideológico são males humanos, e vicejam nos teísmos, nos ateísmos, em todos os ismos do mundo. Citemos o exemplo de dois autores mencionados no vídeo em questão: Freud e Marx. Os dois, que deram contribuições históricas importantes e algumas delas ainda atuais, eram campeões da intolerância. Freud costumava excomungar violentamente os que se afastavam algum milímetro da ortodoxia psicanalítica. Veja-se o caso de Jung. Marx não era menos autoritário. Bakunin (ateu como Marx, mas um dos líderes do pensamento anarquista) reclama do patrulhamento ideológico a que os anarquistas foram submetidos durante a 2º Internacional. E não podemos nos esquecer o que aconteceu com eles (os anarquistas) na Revolução Soviética – massacrados todos pela intolerância bolchevique.

Com tudo isso, estou apenas querendo demonstrar que se há religiosos fanáticos e intolerantes, há também ateus que agem do mesmo modo. Basta estar no poder.

E por falar em poder, devo mencionar a seguir o reduto da intolerância ateia no mundo contemporâneo: o mundo acadêmico. Se na mídia, temos pastores vociferando contra “pessoas sem Deus no coração”, nas universidades, intelectuais que ousam pensar Deus, mesmo de forma filosófica, são estigmatizados e congelados. Eu mesma teria uma série de episódios a narrar, mas não interessa aqui citar nomes e instituições. Poderia falar de concursos, análise de publicações, pareceres sobre livros etc… em que minha posição de espiritualista, teísta, espírita, foram razões explícitas ou implícitas de discriminação e exclusão. Ou seja, se entre a população que ovaciona  Padre Marcelo e Edir Macedo, há um discurso demonizando ateus, entre a população acadêmica – sobretudo na área de Filosofia (a despeito de filósofos de todos os tempos terem discutido Deus), há uma atitude de ridicularização em relação aos que propõem um conceito teísta de vida. É tão desrespeitoso e dogmático, alguém se arrogar o direito de dizer que outra pessoa vai para o inferno, porque pensa diferente, quanto considerar uma argumentação filosófica séria e honesta a favor da existência de Deus, como uma patacoada imbecil sobre o coelhinho da Páscoa!

Aliás, mencionei a intolerância de Marx e Freud e poderia citar a de Nietzsche e de Heidegger, dentro dessa mesma linha de raciocínio. O problema de todos esses autores foi justamente esse (e seu pensamento é ainda predominante na academia): eles não se limitaram a propor uma visão de mundo sem Deus, matar Deus, arrancar Deus da sociedade e do coração humano. Eles pretenderam desqualificar qualquer pessoa que tenha uma visão teísta do universo: para Marx, os que acreditam seriam alienados; para Freud, seriam neuróticos (a religião é uma espécie de patologia psíquica); para Nietzsche e Heidegger, seriam seres fracos, que não têm a coragem suficiente de assumir que a vida não tem sentido, que o universo não tem causa… Convenhamos que não é nada favorável ao diálogo e à convivência pacífica com o outro, qualificar-se a sua posição filosófica ou religiosa, como alienação, insanidade, fraqueza de caráter – em suma, burrice!

Outro aspecto mencionado no vídeo é a Ética: é possível uma Ética sem Deus? Obviamente que sim. Qualquer pessoa que conheça um pouco de Filosofia sabe que há diversas proposições éticas que não se ancoram num conceito de Absoluto – por exemplo, a ética marxista, a ética utilitarista, o humanismo ateu etc…

Mas, daí a dizer que os princípios que esses cidadãos estão defendendo – como fraternidade, igualdade, respeito à vida ou coisa que o valha – não estejam vinculados a nenhuma religião… é um desconhecimento completo de História. Tomemos o conceito de igualdade, por exemplo, esse mesmo defendido pelo marxismo e por todo o ideário dos Direitos Humanos e das Constituições: antes de Jesus, que, para mim não é Deus, mas por acaso também não era ateu, não havia em nenhuma sociedade, em nenhuma filosofia, em nenhuma corrente religiosa, a ideia explícita de igualdade entre todos os seres humanos, independente de religião, casta, raça… Essa igualdade proposta pelo cristianismo (apesar de não praticada por muitos cristãos) deriva de um conceito de filiação divina. Embora no decorrer dos séculos, a ideia tenha sido secularizada e até usada na bandeira da Revolução Francesa, não se pode negar sua raiz cristã. Aliás, um ateu honesto como André Comte-Sponville admite que, embora ateu convicto, há uma impossibilidade histórica para ele, de pensar fora da civilização cristã, na qual cresceu e foi educado, e de que carrega os valores intrinsecamente. Então, embora os ateus digam que não, eles podem adotar e praticar valores que estão enraizados sim numa tradição religiosa, de que descendem. É impossível negar a própria origem. Então, melhor é respeitá-la, assim como eles pedem respeito pela sua posição.

Nota: Quem quiser conhecer mais profundamente minha posição a respeito de Deus, recomendo meu livrinho  de bolso: Deus e deus, recentemente reeditado pela Editora Comenius.


Diferença entre Educação e Autoajuda

“Como para toda a humanidade, o mundo é uma escola, desde o começo até o final dos tempos, assim para cada ser humano individualmente a vida inteira é uma escola, desde o berço até o túmulo. Não é suficiente dizer com Sêneca: para aprender nunca é tarde, devemos muito mais dizer: cada idade está destinada ao aprendizado, e nenhum outro sentido tem a vida humana e todo o seu esforço. Sim, nem mesmo a morte coloca um limite à vida e ao mundo. Qualquer um que nasceu como ser humano, deverá passar por tudo em direção à eternidade, como para uma academia celeste. Tudo o que se passa antes é assim apenas um caminho, uma preparação, uma oficina – uma escola inferior.” Jan Amos Comenius (1592-1670)

Uma querida amiga Carmen Correa, de Caxias do Sul, me pediu que escrevesse algo sobre a diferença entre Educação e autoajuda. Tenho algo a dizer sobre isso, mas espero que aqueles que escrevem autoajuda, incluindo amigos meus, não se sintam ofendidos com o que vou falar. Não é nada pessoal, mas não posso deixar de manifestar o que penso a respeito.

Começo por dizer que a Educação é tão antiga quanto a humanidade. A autoajuda nasceu no mundo contemporâneo, no sistema capitalista.

A Educação é um processo permanente, uma autoconstrução engajada, um despertar da alma para a evolução. A autoajuda é um alívio instantâneo e passageiro, uma brisa, não deixa marcas e nem engaja o indivíduo num esforço comprometido.

A Educação é deflagrada por influências de grandes mestres, de pais e mães, de educadores, que tocam a alma, transformam a vida, conferem sentido à existência. A autoajuda é vendida por escritores ralos, que estão interessados em exibir frases bonitas e bem arranjadas e por editores que querem ganhar dinheiro.

A Educação precisa estar embasada em profundo conhecimento, científico e filosófico, do ser humano: de seus aspectos biológicos, psicológicos, sociais, espirituais… A autoajuda não tem raízes teóricas, não tem fundamentos filosóficos e muito menos preocupação com rigor científico.

A Educação propõe mudanças e atitudes radicais no indivíduo e na sociedade; não é fácil educar e educar-se. A autoajuda está mais interessada em agradar os leitores do que provocar autocrítica e crítica social.

A Educação se faz sempre na relação entre os seres humanos, relação autêntica, afetiva, que pode ser despertada por livros e ideias, mas só se dá no diálogo entre dois ou mais indivíduos. A autoajuda promete melhorias individualistas, felicidade fácil, panaceias inócuas.

A Educação faz com que as pessoas se sintam responsáveis pelo outro, responsáveis pela sociedade, responsáveis pelo planeta. A autoajuda atende aos desejos de sucesso financeiro, de prazer sexual, de autocura ilusória – enfim, tudo o que o egoísmo quer, sem muito esforço e responsabilidade.

A Educação não dá receitas, propõe princípios; não lida com o sucesso a curto prazo, mas com a realização integral para a eternidade; não se compra em supermercado ou banca de jornal… A autoajuda, ao invés, é mercadoria em toda parte, está sempre ditando regrinhas tolas para uma realização pessoal rala, sem consistência.

Enfim, Educação é o nosso propósito existencial – fomos lançados no universo para nos fazermos a nós mesmos, através de múltiplas vidas e atingirmos a plenitude de virtude, ciência e capacidade criadora. A Educação é divina e é a coisa mais importante para os indivíduos, para a sociedade, para a humanidade.

E a autoajuda é um movimento editorial comercial, cujo interesse maior é distrair as mentes, agradar ao ego, sussurrar frases feitas e ganhar rios de dinheiro à custa de pessoas… – que não receberam uma boa Educação!