Arquivo da categoria: Educação

Velhice: melancolia e obsessão ou serenidade e elevação?

2-silhouette-devant-la-mer-homme-assis-sur-un-banc-sylvie-bertrand-peintre-peinture-promenade-des-anglais-nice-tableau-galerie-art-gallery

Dedico esse texto a meu pai, que em grande parte está vivendo uma velhice bem vivida. Ainda tem que ajeitar algumas coisas, mas que não ajeite muito rápido, para não ir embora tão logo!

Na maturidade dos meus 53 anos, caminhando a passos largos para a minha própria velhice, já observei muita gente próxima e menos próxima envelhecer.

E penso poder fazer alguns relatos, tirar algumas conclusões, formular algumas hipóteses.

É fato que a velhice é o caminho natural e óbvio para a morte. Toda velhice termina em morte, embora nem toda morte venha na velhice, colhendo pessoas de qualquer idade.

Sendo esse caminho natural para a dita cuja, para a tão renegada, parece que seja muito natural também que a velhice guarde algumas afinidades com a morte. A morte é um enfrentamento de si, é o momento máximo em que estamos face a face com nós mesmos, sozinhos (porque o ato de morrer é um ato solitário, mesmo se acontecer simultaneamente com outras mortes). Tanto é verdade que muitos relatos de quase-morte e outros tantos pós-morte, via mediúnica, falam daquele filme que se apresenta à nossa percepção, com todos os atos e vivências da vida inteira.

Então, a morte é um momento de suprema introspecção e a velhice já começa a fazer um trabalho nesse sentido. Já pelo próprio fato de que o velho, por mais ativo que seja (e é saudável que permaneça ativo, dentro dos limites que a idade impõe), sempre estará atuando menos no mundo, do que alguém em pleno vigor da juventude ou da maturidade. Há uma diminuição gradativa das forças vitais, um retirar-se lentamente do cenário e por isso, a mente se volta para si própria. Lembranças recorrentes da infância, fatos esquecidos da vida, saudades dos que se foram… enquanto estamos na correria da sobrevivência, da vida dita produtiva, guardamos tudo isso no subsolo da memória; mas na velhice, relaxam-se as amarras e vem à tona muita coisa escondida de si ou que nem sabíamos que estava lá.

Há também um acúmulo de dores e alegrias que constituem a bagagem emocional que se foi amontoando no decorrer da existência: perdas, lutos, frustrações, mágoas, ingratidões; realizações, afetos, conquistas, produções…

Isso é o que é a velhice, que se apresenta de forma mais ou menos restritiva por doenças e incapacitações.

Mas como se vive essa velhice é algo pessoal de cada um. Depende, em primeiro lugar, de como se viveu a vida e do que se faz agora com o resto de vida que falta.

A ausência de remorsos graves é de início uma boa coisa. Mas se estiverem presentes, pequenos ou grandes arrependimentos, é hora de rever, refazer, pedir perdão e, sobretudo, perdoar-se, sabendo que foi o que foi possível ser feito e melhores ações ficarão para a próxima vida. (A certeza da reencarnação nesse ponto é altamente confortadora, afinal não precisamos aprender tudo de uma só vez, haverá outras oportunidades!). Mas como é bom durante a vida, a gente já ir resolvendo pendências, desculpando e pedindo desculpas…

A serenidade ou a melancolia crônica e até a depressão, levando à necessidade de antidepressivos, depende da capacidade de resiliência e superação de todo esse arsenal de mágoas e tristezas que fazem parte de todas as vidas… de como sabemos nos elevar ao alto da montanha e enxergar tudo com uma perspectiva de eternidade, com leveza, com compaixão, com perdão. De como soubermos transformar dores e frustrações em experiências de vida, em ensinamentos, que sejamos capazes de partilhar com os que amamos, de forma benevolente e sem imposição. De como tivermos aprendido (e se não aprendemos, corramos para aprender enquanto há vida física) a amar com desapego e compreensão.

O orgulho, no sentido positivo, que eu chamaria aqui de autoestima, de nunca se entregar, de não querer se tornar dependente e, portanto, fazer-se um esforço de se manter em pé é também um bom antídoto para uma velhice muito degradada. Entretanto, cuidado, para que isso não seja mais orgulho do que autoestima e a pessoa não acabe negando que a velhice é sim um período de limitações e que quando não há remédio, temos que aceitá-las com humildade e grandeza de alma, retirando disso o aprendizado possível.

Há outras três questões que ajudam numa velhice tranquila:

  • A espiritualidade, essa capaz de nos fazer conectar com Deus, com a natureza, com nossa essência divina… tudo o que é capaz de encher o coração de paz;
  • A sensação de continuar sendo útil – e a utilidade pode ser uma simples presença, uma referência, um afeto caloroso para filhos, netos, amigos e familiares (por isso considero um velho num asilo, isolado dos que ama, uma verdadeira tragédia);
  • A música – existem pesquisas que mostram, inclusive com pessoas com Alzheimer, o impacto produtivo dessa arte suprema nos neurônios, nas emoções, na qualidade de vida da pessoa.

E o Alzheimer nisso tudo?

Tenho para mim a hipótese, claro que algo que precisaria de pesquisas que juntassem evidências às simples observações que fiz no decorrer de contatos com pessoas que vivenciaram esse drama, de que o mal de Alzheimer é uma fuga radical da realidade. Própria de pessoas que sempre tiveram dificuldade de aceitar o mundo, as pessoas e as coisas como são. Pessoas que gostam de frase do tipo: “o mundo está perdido”, “a juventude não tem jeito”, “no meu tempo…”. Pessoas que se mostraram ao longo da vida um tanto fracas diante das dificuldades e simplesmente não querem mais brincar. Retiram-se para dentro de si.

É uma espécie de isolamento, um fechar-se na concha, regredindo lentamente ao útero da mãe, onde havia fusão, segurança e ausência de esforço e luta. Tanto que quando as pessoas de Alzheimer chegam ao fim do processo, podem ficar em posição fetal.

É claro que há causas orgânicas para essa e outras doenças que envolvem a mente, mas aqui estamos analisando as formatações psíquicas que podem facilitar tais processos.

Velhice, regressões e obsessões

 Quem lida com a velhice com a perspectiva da mediunidade pode acrescentar ainda outras observações, como as que fiz, quando presenciei o envelhecimento de pessoas próximas. Esse defrontar-se consigo, que a velhice proporciona, que pode levar à melancolia, à depressão e nos casos mais graves à demência senil e ao Alzheimer (como uma recusa de permanecer aqui e agora, enfrentando a dureza dos fatos e até as emoções com que não se soube lidar), traz também possíveis regressões ao passado espiritual (e não só ao passado dessa vida) e a presença de inimigos e companheiros de outras vidas, que não estejam ainda em boas condições espirituais. Por isso, como é bom também durante a vida toda, fazermos terapias, processos de autoanálise, participar de desobsessões… Se formos a fundo e conseguirmos resolver algumas coisas, evitamos um bocado de aborrecimento no final da reta e, sobretudo, no Além!

Vou aqui relembrar dois fatos que presenciei de maneira muito próxima e durante alguns anos. Como são pessoas que morreram há muitos anos, não tem problema esse relato aqui.

Uma delas era meu avô. Pessoa muito querida para mim e que no final da vida, começou a apresentar um fenômeno pouco comum: enquanto dormia, falava uma língua que desconhecíamos e com a qual ele nunca tinha tido contato em vida. Acordava cansado, como se tivesse caminhado longamente. Gravamos essas falas e mandamos para o consulado sírio – lá eles identificaram um antigo dialeto de beduínos do deserto e a narrativa era de uma interminável caminhada de dois homens pelo deserto…

Ocorre que não ficou nisso o fenômeno. Comunicou-se um espírito, que era um dos beduínos (o outro era meu avô), e que ainda estava fixado nesse momento, em que eles provavelmente morreram de inanição e sede. Meu avô nessa época estava impactado por diversas tristezas (entre elas de ter se aposentado e da esposa, minha avó, estar entrando no processo de progressão do Alzheimer). O Espírito foi atendido e encaminhado, mas meu avô, até morrer, embora tenha guardado a lucidez, estranhamente assumiu algumas coisas de uma personalidade muçulmana: por exemplo, dizia como queria ser enterrado (e fomos pesquisar era algo próprio da cultura islâmica), dizia que iria encontrar banquetes do lado de lá… só não falava das virgens! Durante a vida, ele não tivera nenhum contato mais próximo com essa religião e pouco a conhecia.

Outro caso foi uma grande amiga de minha mãe, D. Judith, mulher caridosíssima, que se tornou espírita depois de uma tuberculose na juventude e chegou a uma idade bem avançada. Antes de adoecer dos pulmões, ainda muito moça, ele havia sido carmelita descalça e teve que deixar o convento por causa da doença. Casou-se depois e fundou inclusive uma instituição espírita. Pois essa senhora, que morava ao lado do colégio onde eu estudava na adolescência, passou por uma cruel obsessão na velhice. E aqui poderia usar a palavra obsessão de duas maneiras: a da psicologia, que entende o comportamento obsessivo, como algo compulsivo, de que a pessoa não consegue se libertar; e a do espiritismo, que entende como a influência de espíritos em desequilíbrio sobre o encarnado.

Pois bem, durante os últimos anos de sua vida, depois da morte do marido, de quem era bastante dependente emocionalmente, D. Judith ouvia 24 horas por dia, cantos gregorianos – que, segundo ela, “a deixavam louca” e via padres e freiras caminhando pela casa. Eu era uma das pessoas que ia quase diariamente dar passes nela e sentia e via os Espíritos ali presentes. Então havia aí uma dupla regressão a meu ver: uma regressão à sua juventude (com certo temor por ter “deixado a igreja” e ela passou a comungar com um padre que alternava comigo suas visitas!) e a regressão ao seu passado espiritual, pois ela descrevia igrejas antigas e representantes do clero de séculos anteriores. As duas regressões eram obviamente estimuladas por espíritos credores e companheiros seus.

Com tudo isso, quero especular que, com a fragilidade física que se instala no idoso, se acompanhada por funda tristeza, por certas circunstâncias da própria velhice, e entrega a recordações amargas, a culpas e apegos, companheiros do passado podem ser atraídos ou se fazem mais notar (talvez estivessem ali antes, mas a vida ativa da pessoa os deixava ocultos). Se o velho não consegue desenvolver defesas de elevação mental, de perdão a si e aos outros, de serenidade existencial (se bem que esse é um cultivo da vida inteira) e de pensamentos otimistas e sadios, a obsessão pode se instalar irremediavelmente até a morte.

É verdade também que esse reencontro com o passado e com antigos amigos e inimigos pode muito bem significar uma espécie de acerto de contas consigo e com outros, para que quando a morte vier, ela se faça mais leve, sem muitos adversários, esperando atrás da porta. De qualquer modo, é preciso resolver a situação, ajudando os espíritos e, sobretudo, ajudando o velho e o velho ajudando-se a si mesmo para transcender tudo, fixar-se no bem e manter a paz!

 


Como não transformar indignação em ódio?

PM e Gandhi

Partilhei hoje na minha página do Face uma foto de um membro da polícia militar com a arma em punho diante de uma estudante desarmada, em posição pacífica, durante a guerra declarada pelo Governo do Estado aos alunos que reivindicam a manutenção de suas escolas, no movimento “Não fechem minha escola”. Ao partilhar essa foto e comentar brevemente minha indignação diante da cena, vi-me arrebatada numa discussão desenfreada na minha própria página. Mantive-me calada, mas tenho ficado amargada com o nível de agressividade, conservadorismo, analfabetismo político reinantes no momento presente. E toda vez que manifesto qualquer posição, vejo-me enredada numa trama de contenda, de vibrações desencontradas, que me afetam por dentro.

Por isso, a reflexão de hoje é sobre uma questão fundamental: como manter a paz íntima diante das gritantes injustiças do mundo? Como exercitar a indignação (necessária, pois até Jesus a manifestou diante dos fariseus que exploravam o povo) sem se deixar escorregar para a ódio e para o asco? Como manter o olhar lúcido e crítico diante das estruturas profundamente injustas da sociedade, diante da falta de ética, diante da negligência com o ser humano, sem afundar-se num desânimo existencial, que nos faça parar deprimidos à beira do caminho? Como, enfim, atuar no mundo, para transformá-lo, com suficiente amor no coração, mas sem a pieguice e a apatia dos que aceitam tudo de cabeça baixa?

Lembro-me aqui de três figuras que muito me inspiram na vida e que viveram momentos críticos nesse sentido. Um foi Pestalozzi. Condecorado pela Revolução Francesa, por suas ideias progressistas para a melhoria das condições do povo e de sua educação, ele escreveu um livro intitulado Sim ou Não?, que pretendia responder se ele era contra ou a favor daquela Revolução sangrenta. Ora, claramente, ele se manifesta contrário à violência, mas a favor das reivindicações populares, diante da opressão em que vivia o povo. Hoje, é verdade, a análise marxista da História considera a Revolução Francesa uma revolução burguesa, que usou as classes populares a seu favor. Na época, na compreensão de Pestalozzi, era algo que brotava sobretudo legitimamente das entranhas do povo. Ele não aprovava, nem justificava a violência, mas compreendia-a, como uma reação inevitável à opressão. Numa outra obra sua, Minhas Indagações sobre a marcha do desenvolvimento da espécie humana, Pestalozzi desenvolve toda uma teoria, que antecede em alguns aspectos a psicanálise, apontando a repressão dos instintos das massas como uma das causas de explosão de guerras e revoluções. De qualquer forma, ele considera que uma educação integral, como a que ele propunha, deveria despertar a divindade interior dos indivíduos, motivando-os a agir autonomamente, sem repressão, no sentido da fraternidade e do bem-estar de todos.

Kardec, no Livro dos Espíritos, na questão 783, da mesma forma que seu mestre Pestalozzi, admite a necessidade das revoluções sociais, olhando a História de uma perspectiva no tempo: 

“O homem não pode ficar eternamente na ignorância, porque deve chegar à meta marcada pela Providência: ele se esclarece pela força das coisas. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram pouco a pouco nas ideias, elas germinam durante séculos, depois, de repente, estouram e fazem ruir o edifício carcomido do passado, que não está mais em harmonia com as necessidades e aspirações novas.

O homem muitas vezes vê nessas comoções apenas a desordem e a confusão momentânea que o atingem em seus interesses materiais; aquele que se eleva pelo pensamento além do pessoal, admira os desígnios da Providência, que do mal faz surgir o bem. É a tempestade que purifica a atmosfera, depois de tê-la agitado.” (Tradução minha)

Entretanto, foi no século XX, que um elevado espírito, aliás chamado Mahatma (grande alma), deu um exemplo maravilhoso de uma atuação política, para transformação social, na luta contra a injustiça, por caminhos da não-violência, comprometido ao mesmo tempo com seu próprio aperfeiçoamento espiritual e com a elevação moral do povo. Gandhi foi passo a passo, como conta em sua autobiografia, construindo uma forma de atuar no mundo, para mudá-lo, sem render-se ao ódio, ao desespero e sem a alienação, muitas vezes característica, de alguns líderes espirituais. Unindo fé e política, autoconhecimento com a trilha da não-violência, ele deixou a mensagem de que só conquistamos a devida força moral, social e mesmo política (num sentido muito amplo e não partidário) se conquistarmos ao mesmo tempo a nós mesmos. Mas ele também se deparou com o rugir das paixões, o estouro da violência, da guerra civil, de seus compatriotas, pagando com a vida o seu empenho de dialogar com todos e não odiar ninguém.

Fica porém esse aprendizado para nós: guardemos serenidade nas lutas justas em que nos empenhemos no mundo. A oração é uma força essencial para isso. Assim nos ensinaram Jesus e Gandhi. Cuidemos de nosso mundo íntimo, para não nos rendermos ao ódio, que é um grau degenerado de indignação. E enchamo-nos de compaixão para com todos. Porque todos precisam dela.


Suicídio – a visão espírita revisitada

RMS_M_249 - Melankoli_1894-1896

Quadro A Melancolia de Edvard Munch

Há muito queria escrever algo sobre o suicídio e aproveito esse setembro amarelo, em que se faz uma campanha nacional de prevenção ao suicídio, para lançar ao público algumas das reflexões que tenho feito sobre esse tema de grande relevância. Pelo excelente documento preparado pela Associação Brasileira de Psiquiatria, com o título Suicídio, informando para prevenir (http://www.flip3d.com.br/web/pub/cfm/index9/?numero=14)  são 10 mil pessoas que se matam por ano no Brasil e quase um milhão no mundo! Temos, portanto, de falar sobre isso! E fazer algo a respeito.

A cena mais bela e forte de um filme que adoro – Lutero – é quando ele toma nos braços o corpo de um rapazinho que se suicidara e cava ele mesmo a terra, para enterrá-lo. Esse ato significava um gesto de empatia e compaixão para com o rapaz e para com a família e uma forma de resistência à inapelável condenação que a Igreja sempre lançou sobre os suicidas, nunca permitindo que fossem sepultados em “terra santa”.

Aliás, o suicídio é fortemente condenado pelas religiões em geral.

O Espiritismo, rompendo no século XIX com a ideia de condenação eterna e de inferno como um local de expiação, amenizou esse julgamento inapelável. Mas nem tanto. As reverberações atávicas da Igreja ainda ressoam hoje no movimento espírita, como veremos.

Examinemos primeiro Kardec. Em pleno século XIX, quando a Igreja católica ainda falava em inferno material, Kardec proclamou que céu e inferno são estados de consciência e não estão fora da alma humana. Hoje, o Catecismo oficial da Igreja também entende assim. Para mostrar o estado de consciência de Espíritos das mais diferentes categorias, com histórias de vida e de morte distintas, Kardec realizou em Céu e Inferno, entrevistas minuciosas com eles, através de diferentes médiuns, procurando perscrutar o que sentiam, o que viam, como estavam…

As entrevistas são sóbrias. Os suicidas se mostram em sofrimento sim, e afirma-se que o suicídio é uma infração às leis divinas. Aparece, segundo a linguagem da época, hoje para nós incômoda, como em várias obras de Kardec, a palavra castigo. Entretanto, sempre entendido como uma consequência natural dos atos praticados. Entre os motivos de suicídio dos entrevistados, havia a solidão e o abandono, o alcoolismo aliado à mendicância, a perda de entes queridos, a perda da fortuna, o amor não correspondido e o tédio existencial… esses motivos ainda estão presentes entre as causas de suicídio na atualidade. E as condições de consciência apresentadas pelos entrevistados eram de desapontamento, angústia, escuridão e alguns se viam junto ao corpo – mas isso não é regra.

O suicídio é tema recorrente na maioria dos 12 volumes da Revista Espírita, demonstrando que Kardec tinha uma grande preocupação com o assunto. Em julho de 1862, escreve um artigo intitulado Estatística dos Suicídios, fazendo uma análise sobre o aumento dos suicídios na França, e procurando apontar as causas, lamentando que não existam pesquisas a respeito. Hoje, há essas pesquisas em todo mundo. Entre as que Kardec reconhece em seu tempo estavam as doenças mentais, problemas sociais, e sobretudo, o avanço do materialismo e a falta de perspectiva existencial. O artigo continua muito atual e revela bem como Kardec procurava abordar as questões, abrangendo todos os seus aspectos e procurando soluções educativas e preventivas. Para ele, a maior prevenção possível para o suicídio seria o conhecimento seguro e com contornos mais precisos da vida pós-morte, que o Espiritismo nos dá. Demonstrada a imortalidade, de maneira clara e racional, o suicídio perde sua razão de ser.

No Brasil, como sabemos – e inclusive isso hoje é objeto de teses acadêmicas, feitas por pesquisadores não-espíritas, mas já era opinião de um Herculano Pires, por exemplo – o Espiritismo desenvolveu-se num caldo cultural eminentemente católico e por isso acentuou aquilo que já nos incomoda em Kardec – com palavras como castigo por exemplo, o que pode induzir a uma ideia antropomórfica de Deus – mas deixaou de lado aquela racionalidade sóbria e crítica e aquele espírito científico de observação, que fazem a originalidade e conservam a atualidade do mestre.

No caso do suicídio, temos o clássico da nossa querida Yvonne Pereira, Memórias de um Suicida, que estou relendo no momento, anos depois das primeiras leituras. E realmente o tom do livro em alguns aspectos parece-me hoje excessivo. Há coisas interessantes, como a própria Universidade que os personagens frequentam. Mas os suicidas são chamados o tempo inteiro de criminosos, réprobos, condenados… e causa espécie também a descrição pavorosa daquele vale nas trevas profundas, para onde foram arrastados e aprisionados – como se fosse uma espécie de campo de concentração de suicidas. Eu mesma, em meus 40 anos de mediunidade, já recebi inúmeros suicidas que não estavam em vale nenhum. Um caso de suicídio relatado por exemplo, no livro Missionários da Luz, de Chico Xavier, também não descreve o espírito no vale e muito menos os entrevistados de Kardec.

Outras narrativas por outros médiuns brasileiros seguem trilhas parecidas ao livro de Yvonne. Tudo muito pesado, determinista, condenatório. Não há as nuanças do pensamento de Kardec, que a toda hora avisa que cada caso é um caso, que há muitas atenuantes, que há causas psíquicas, sociais, filosóficas dos suicídios e que precisamos preveni-los.

Isso significa que esses vales não existem? Que são ilusões dos médiuns? Existem sim aglomerações no Plano Espiritual (embora Kardec não tenha tratado disso, há inúmeras narrativas a respeito e eu mesma já visitei algumas). Mas não são lugares necessários a que as pessoas irão. São espíritos reunidos na mesma afinidade de pensamentos, que projetam o ambiente consciente ou inconscientemente e vivem na mesma faixa vibratória e de lá podem sair na hora em que mudarem o vetor vibratório.

Há muitos espíritas que pensam que, ao desencarnarem, passarão um período no Umbral, como os católicos achavam que iriam passar necessariamente pelo purgatório. Isso é materializar e generalizar demais as circunstâncias espirituais de cada consciência. Kardec foi bem mais sutil.

A posição de Kardec em relação ao suicídio, mais analítica, mais preocupada com as causas e com prevenção do que em aterrorizar os vivos com os horrores do vale dos suicidas, é muito mais próxima da perspectiva contemporânea.

Hoje se sabe que a depressão (e outras doenças mentais) é a causa de muitos suicídios – ora, a depressão é uma doença psíquica que requer cuidados, amparo, terapias e, às vezes (penso que menos do que se dá) remédios. Aliás, os medicamentos devem justamente entrar, a meu ver, sobretudo quando a pessoa está correndo o risco de se matar. O próprio Kardec avisava no século XIX, quando a Psiquiatria estava apenas nascendo, que se o indivíduo estivesse doente mentalmente, isso lhe isentaria ou ao menos atenuaria muito sua responsabilidade no suicídio. Ora, hoje, considera-se que o suicídio quase nunca é praticado por pessoas que estão saudáveis psiquicamente. Isso já descriminaliza grande parte dos suicidas, nos critérios de Kardec.

Hoje se estudam os fatores de risco do suicídio e além das doenças mentais, há os abusos sofridos na infância, a falta de sentido existencial, tipo de personalidade impulsiva etc. Em todos os casos, identificados os riscos, acompanhando-se de perto a pessoa que os apresente, com atenção, cuidados psíquicos e médicos, o suicídio pode ser evitado. Logo, algo que pode ser prevenido não é apenas um problema individual, mas uma questão social, coletiva. Somos todos responsáveis.

Lembro-me de um livro fantástico, escrito por Pestalozzi, no virar do século XVIII para o século XIX. Chama-se Legislação e Infanticídio e é considerado o primeiro livro de sociologia escrito antes mesmo do advento dessa ciência. Nessa obra, Pestalozzi examina uma grave questão criminal que estava ocorrendo na Suíça do seu tempo. Mulheres eram condenadas à prisão por terem assassinado seus filhos recém-nascidos. Qualquer pessoa diria na época e ainda hoje: mulheres monstruosas, criminosas, que mereciam toda punição. Pois Pestalozzi não se contentou com essa resposta simplória, já que matar o seu próprio rebento não é algo tão natural assim… (assim como o suicídio, que contraria o instinto de sobrevivência, também não é!) Foi se debruçar sobre os processos de julgamento dessas mulheres, para saber da história delas e constatou que a sociedade era culpada, sobretudo os homens. Eram todas mulheres que vinham do campo para a cidade e ao chegarem eram seduzidas por homens (sim, isso existia 200 anos atrás!), que depois as abandonavam. Grávidas solteiras, não havia escolha para elas. Ao contrário das sociedades católicas, que sempre deram um jeito de remediar o pecado, com Casas de Misericórdia, Conventos, ou mesmo prostituição, o universo protestante, calvinista, não tinha válvulas de escape. As mulheres ou se matavam ou matavam seus filhos. Ninguém iria se casar com uma mãe solteira, mulheres não podiam ter profissão e independência e no caso da velha Suíça calvinista, nem putas ou freiras elas poderiam ser… Pestalozzi então responsabiliza a moral rígida, a sociedade intransigente e os homens que abusavam e se desresponsabilizavam…

Esse é um exemplo para mostrar o quanto aquilo que consideramos crimes monstruosos sempre têm que ser analisados dentro de seus contextos, com olhos abrangentes e de preferência seguindo-se aquelas recomendações de Jesus: “não julgueis para não serdes julgados” e “quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra”.

Nossa visão contemporânea de compreender o suicídio como uma questão de saúde pública é muito mais cristã do que esses arroubos condenatórios, implacáveis, inapeláveis. O suicida é um espírito em sofrimento, sim. Mas ele já estava em sofrimento na terra. E não foi suficientemente visto, socorrido, amparado. Quando ele pratica esse ato, ele está se ferindo a si mesmo. Agora, que espécie de Pai seria Deus se ainda punisse esse ato, se nós, pais terrenos, imperfeitos, ao vermos uma criança se machucar a si mesma, seja por descuido, teimosia ou inexperiência, corremos a socorrer a criança, trazendo remédio, enxugando as lágrimas, cercando de consolo? Não consideraríamos abaixo de qualquer crítica um pai ou uma mãe que ainda espancassem a criança machucada ou a deixassem chorar sem socorro, ou se sentissem pessoalmente ofendidos com a queda do pequeno?

Ora, há gente que advoga que o suicídio é uma ofensa a Deus!! E Deus lá pode se ofender? O suicídio é o ato de um espírito imaturo, inconsciente, desesperado ou mesmo teimoso, de se ferir a si próprio. Ele terá de curar a ferida que fez em si. Mas a misericórdia de Deus é infinita.

Nesse caso, gosto bastante da ideia presente no livro Memórias de um Suicida, em que se conta que Maria de Nazaré é um Espírito que dirige uma falange de almas que socorre os suicidas. Porque é bem isso: o suicida é uma criança machucada, que precisa de um colo materno.

Faz parte da nossa evolução psíquica, social, espiritual, deixarmos de lado essas visões tão trágicas de culpa e castigo e avançarmos para uma visão de que tudo no universo é educativo. Sofrimento há, mas é transitório. E cabe-nos trabalhar para minimizá-lo e até extingui-lo, como propunha Buda. Para isso, cabe-nos sempre perdoar a nós mesmos, perdoar o outro e saber que Deus nem precisa nos perdoar, porque sabe que estamos aprendendo.

Numa das mais impressionantes manifestações de um Espírito suicida, que já tive, observei que ele estava num lugar bonito, amparado por almas amigas, mas sofria intensamente: não conseguia se perdoar por ter feito o que fez, ter ferido a si mesmo e a família. Então, assim podemos ler um relato como o de Camilo Castelo Branco no livro de Yvonne: ele próprio se qualificava de criminoso, réprobo etc. Isso é da consciência acostumada a agir com o próximo e consigo mesma de maneira dura e implacável. Precisamos superar isso e caminhar no sentido da misericórdia, do perdão e sobretudo do amor, que cobre a multidão de pecados, como dizia Jesus.

E o que podemos fazer concretamente para evitar o suicídio à nossa volta?

Não poderia deixar de mencionar a educação, como a mais eficaz prevenção em relação ao suicídio. Mas que educação? Não é certamente essa que é dada nas escolas, que nem a função de instruir faz bem feita.

Mas sim uma educação que procure cercar o indivíduo de fortes e sólidos afetos, de modo que ele nunca se sinta sozinho.

Uma educação que trabalhe sentido existencial, resiliência diante da dor, projeto de vida…

E sobretudo, uma educação que cuide desde cedo da espiritualidade e que abra uma perspectiva de eternidade e transcendência.

Quadro A Melancolia de Edvard Munch


A vitimização da incompetência

Candle flame in light breeze, wind, wax curling right side, cute

Brilhe a vossa luz!

Jesus

Quando Sócrates disse há 2500 anos que ele era o mais sábio de todos, porque era o único sábio que sabia que nada sabia, não estava adotando uma postura de humildade postiça, de autoflagelação… Ao contrário, estava nos dando uma lição milenar de uma atitude existencial que é a única que nos leva à superação de nossas limitações e à transcendência de nós mesmos.

Sua fala queria indicar que o verdadeiro sábio (e para ele o sábio era sereno e feliz, porque sua sabedoria não poderia lhe ser tirada) é aquele que se põe em permanente disponibilidade para aprender. Que considera natural não saber tudo. Que indagar, procurar, dispor-se a achar a verdade, é um movimento natural, saudável e nunca humilhante. Ao contrário, aquele que se jacta de já saber tudo ou estaciona à beira da própria ignorância está fazendo ridículo de si mesmo.

Essas reflexões me vêm à mente quando sou defrontada com o discurso que chamarei aqui de “vitimização da incompetência” ou da “desculpa da incapacidade”. O que é isso?

O indivíduo percebe que não desenvolveu determinado conhecimento ou não aperfeiçoou certa habilidade (seja cognitiva, técnica, artística ou mesmo moral). Ao invés de fazer coro com o maior filósofo de todos os tempos e dizer bem-humorado: só sei que nada sei, e portanto vou me colocar ao encalço da sabedoria… vou me esforçar por desenvolver esta ou aquela habilidade…, revolta-se contra si, contra a vida e contra outros, esperneando como criança mimada e arranjando inúmeros desculpismos. “Não tive a mesma oportunidade que outros, não sou capaz, não consigo, está além de mim!” Na mesma onda de revolta e lamentação, pode partir para o ataque até mesmo dos que ama, dizendo que o outro consegue porque tem vantagens que ele não tem. O outro teve tais ou tais privilégios, recebeu tal ou qual educação, possui este ou aquele dom inato ou, simplesmente “nasceu com a bunda virada para a lua”!

Esse atestado de incompetência assumida pode à primeira vista parecer um sintoma de baixa autoestima. E poderia ser. Mas o que se esconde de fato atrás de uma explosão destas, que acaba por imobilizar aquele que a faz e ainda faz respingar agressão para o outro que está seguindo seu caminho, tranquilamente, desenvolvendo suas competências do jeito que sabe, que pode e que quer?

Em minha opinião, falta exatamente aquela atitude socrática, bem-humorada, leve e graciosa, que faz com que a pessoa se meça com honestidade e naturalidade, avaliando a si mesma e procurando com afinco, perseverança e… humildade, o que lhe falta em habilidades intelectuais ou morais. Ou seja, o problema talvez não seja baixa autoestima, mas na verdade, orgulho…

Dói sair da zona de conforto, dói reconhecer que aquilo que somos só devemos a nós mesmos e que não podemos nos considerar vítimas do universo, imobilizando-nos nesse papel. Sim, sim, temos influência da educação, temos limites herdados de infâncias mal vividas, temos traumas passados, temos bloqueios inconscientes em relação a certas coisas – mas só depende de nós a vontade férrea de nos libertarmos, de avançar, de buscar com sofreguidão e empenho o desenvolvimento integral de nossos espíritos.

Se contemplamos alguém que está à frente de nós nesse ou naquele quesito, tenhamos a humildade de aprender com ele, admirando-lhe a capacidade, que certamente conquistou com esforço e sacrifício, e ofereçamos algo em troca que ele talvez não possua. Não nos sintamos humilhados se o outro nos exceder em alguma competência, ao invés, esforcemo-nos por adquiri-la! Senão, poderemos ser contaminados pelo orgulho ferido ou, pior, pela inveja do talento alheio!

Existe ainda outra atitude que pode ser um disfarce negativo para essa confissão de incapacidade. É quando a pessoa passa a querer competir com o outro que lhe é superior numa determinada competência: a competição pode vir acompanhada de um esforço real de melhoria (o que já é menos mal) ou simplesmente de desfazer o que o outro está fazendo e tentar sobrepor-se ou insinuar-se sem ter de fato desenvolvido a mesma habilidade que o outro. Estamos aí diante da inveja assumida.

Diga-se de passagem que qualquer pessoa que sabe fazer algo – por exemplo, cantar, escrever, desenhar, cozinhar, tocar um instrumento, falar uma língua ou no plano moral, ser generoso, exercer liderança, ser ativo – ou seja o que for – ela só será verdadeiramente sábia se também continuar exercendo aquela máxima de Sócrates. Não se importará de submeter seus talentos, seus trabalhos, suas atitudes, a uma crítica construtiva e permanente, procurando aperfeiçoar os talentos adquiridos, buscando ainda desenvolver outros!

Ou seja, basta entendermos, com elegância e naturalidade, que todos somos aprendizes da evolução e que podemos e devemos nos ajudar mutuamente nesse caminho, sem nos jactarmos do que já conquistamos e sem nos incomodarmos com a conquista do outro – e tudo irá bem. Todos poderão encontrar os próprios caminhos para o burilamento de si.

Toda essa discussão se enraíza perfeitamente na concepção socrática de ser humano. Para Sócrates, todos nós somos seres divinos e podemos realizar o parto de darmos à luz a nós mesmos. Portanto, partimos aqui do pressuposto de que todos podem, todos têm infinitas potencialidades a serem desenvolvidas…

Há que se fazer ainda um pequeno parêntese reencarnatório: é que, embora, sejamos todos divinos, trazendo sementes a serem desenvolvidas, e até árvores já crescidas de outras épocas, pode acontecer que numa dada vida, não nos seja permitido desabrochar algum talento específico (que às vezes até podemos tê-lo já altamente desenvolvido), justamente para termos a oportunidade de trabalhar outros setores de nossa personalidade. Então, também aí nos cabe reconhecer que podemos ter tesouros ocultos guardados mas que, por ora, ficarão apenas como intuições…

Por isso também é tão essencial a pessoa descobrir qual o seu projeto de vida, qual sua missão aqui e agora, para que o sentido de cumprir essa tarefa lhe traga bem-estar e satisfação. E trabalhar com afinco e dedicação para fazer desabrochar os talentos, as capacidades, relacionadas a essa missão. E tudo fica mais coerente, mais límpido, menos dolorido e mais certeiro!


De mulheres para outras mulheres (E para homens também…)

tumblr_l4t9uxoqUZ1qa944oo1_1280

Entre as inúmeras amizades virtuais que tenho Brasil afora, uma mulher, pessoa de muito valor, de muita garra e inteligência, me enviou esse texto abaixo. Tem a força da experiência vivida, tem a moral de quem superou as armadilhas do caminho. Assim, com sua autorização, retirei nomes, datas e locais, que pudessem identificá-la, e estou publicando aqui esse texto forte e verdadeiro.

Comento de minha parte que, como mulher, vivi exatamente o contrário dessa amiga. Mas o contrário, que revela a mesma coisa. Como na adolescência, comecei a engordar, (e era a “moby” para alguns meninos, inclusive familiares), como usava óculos (e minha mãe teimava em comprar os mais baratos e mais feios), como já aos 13 anos de idade, era precoce em leituras espíritas e filosóficas, como era estranha em gostos musicais, como ópera e música clássica, então sofri o completo desinteresse masculino. Porque em sua maioria, os homens não se interessam por meninas muito inteligentes e menos ainda por aquelas, cujas curvas não correspondem aos padrões mediáticos contemporâneos (por sinal, cada vez mais anoréxicos e menos femininos!), não era devorada com os olhos, como conta minha amiga, mas era enregelada nas paqueras.

Hoje, aos 52 anos, plenamente reconciliada com meus quatro olhos, com meus quilinhos a mais, com minha intelectualidade, que tem me ajudado a cumprir minha tarefa existencial, sem deixar meu lado feminino de lado, posso me juntar a esse texto abaixo, para protestar contra o machismo ainda reinante na sociedade.

Na semana passada mesmo, apanhei de relance um rapaz de um estacionamento, onde estava pegando meu carro em SP, comendo com os olhos uma menina que passava descuidada. A cena, que só eu percebi, me provocou asco e revolta. Isso é uma característica majoritária do gênero masculino, não importando a orientação sexual, pois os gays também devoram os bonitões com os olhos. Mulheres em geral não fazem isso.

Realmente, o desejo e a atração fazem parte integrante do instinto sexual e podem ser o primeiro impulso para o outro. Entretanto, se esse desejo e essa atração forem assim devastadores, invadindo o campo vibratório do outro, arrancando a roupa do outro com os olhos; quando não se enxerga, em suma, o outro em si, como pessoa, mas apenas como um pedaço de carne, então de fato, há um desrespeito, há um roubo da integridade alheia. E se isso resulta em ação (e se não se aprende a sublimar o desejo e a refiná-lo com o sentimento, é isso que acontece), então, pode-se resvalar para o crime, como o estupro, o assédio, o abuso…

A educação tem que começar a lidar com isso, tornando o gênero masculino menos bruto e o gênero feminino menos suscetível a essas investidas. Lembro-me que quando morava na Alemanha, em plena adolescência, e frequentava a escola em Berlim, havia professoras mulheres, que nos ensinavam que se algum homem nos abordasse na rua com intenções violentas, deveríamos acertar com um chute as suas partes íntimas. Eu, que vinha de uma cultura latina, achava esses conselhos por demasiado brutais. Mas, passados tantos anos, vemos no mundo todo, incluindo no Brasil, tantas violências ainda cometidas contra as mulheres, que chego a questionar se não seria, às vezes, bom muni-las de defesas até físicas contra isso. Embora considere que o melhor ainda será fazermos homens mais sensíveis (como os há hoje muitos nas novas gerações), o que não significa efeminados, mas pessoas mais equilibradas sexualmente, que saibam apreciar as qualidades femininas, com respeito, partilhando conosco a existência, em amor igualitário, amizade sincera e parceria mútua. Mas para os machistas, qualquer sensibilidade é sinal de bichice, termo usado sempre com muita ironia. Aliás, a identidade do machão se firma geralmente no desprezo ao que é feminino, num estranho paradoxo, de querer tomar posse daquilo que se odeia.

Mas, vamos, ao texto, que fala de uma experiência dura, felizmente superada. Hoje, essa amiga é casada com um cavalheiro, que a ama, a admira e a respeita, como ser humano e como mulher:

 “Só agora, mais próxima dos 50 que dos 40, me sinto à vontade para escrever as linhas que se seguem. Talvez, antes disso, me faltasse a consciência sobre diversos fatos ocorridos, seu sentido mais profundo, nesta minha trajetória de mulher. Aliás, provavelmente eu ainda sequer perceba algumas das sutilezas do destino, os mil e um porquês nos pequenos fatos que existem dentro de um cotidiano feminino, cheio de sonhos, lutas, medos e cansaços.

Tudo bem, pois não pretendo desvelar a totalidade, mas apenas pincelar alguns relatos, refletir sobre algumas questões.

Creio, ainda, que minha maior esperança no texto não se circunscreva tão somente a um desabafo cor-de-rosa, falando do quanto a música Maria Maria, do Milton Nascimento diz muito mais do que aparenta, num primeiro momento, mas [quem sabe?] um relato que venha deixar um pouco mais à mostra algumas das armadilhas soltas à margem dos caminhos da vida, prontas para abocanhar nossas pernas depiladas, tão ao gosto da publicidade contemporânea.

Aos 14 anos de idade, percebi o quanto meu corpo estava se alterando, com curvas mais acentuadas dentro do velho agasalho da escola. Era estranho tomar banho e olhar para a lateral do quadril sem conseguir enxergar a parte de cima da própria coxa, por conta do alargamento ósseo. Confesso que não achei isso bonito e já começava a sentir saudade do meu corpo de criança, tão conhecido e “normal”.

O problema é que outros também perceberam que eu já não era mais uma menina [no corpo, somente!], causando-me constrangimentos constantes. Nas ruas, alguns homens me assediavam, como se eu fosse um pedaço de carne fincado no espeto, pronto para ser devorado por qualquer esfomeado que aparecesse pela frente.

Como uma menina de quatorze anos que até então brincava na rua de lazer junto de outras meninas e meninos, descendo ladeiras com rolimãs e skates, confesso que não conseguia entender aquelas investidas, chegando em casa muitas s assustada, com medo de que alguém pudesse me sequestrar, violentar ou, quem sabe, assassinar. Embora nunca tivesse me preocupado com aquele assunto, precisei começar a prestar atenção no jeito dos homens que se aproximavam, sob risco de ser vítima de algum deles, em qualquer lugar que fosse.

Talvez os homens jamais saberão o que é sentir este terror diário, o medo de andar nas ruas, por conta destas torturas morais constantes, quando se tem apenas 14 anos de idade… Talvez eles até tentem imaginar, quem sabe…mas, o certo é que todos aqueles que se sentem no direito de ameaçar a paz de uma menina, dizendo ou fazendo gestos erotizados, são pessoas com desvios morais, alimentados por esta escória midiática, que torna o corpo da mulher um objeto qualquer, sem sentimentos, nem direitos ou fragilidades psíquicas.

E o que se seguiu a partir dali não foi melhor.

Então, com meus 15 anos, para chegar na escola, precisava usar metrô e ônibus na já atribulada São Paulo, chegando aos portões do colégio até, no máximo 7:15h. No inverno, esta saga tornava-se algo ainda mais perigoso, pois de casa até a estação Jabaquara do metrô, levava cerca de 10 minutos andando a pé, num final de madrugada escuro, sem o sol para iluminar minha ansiedade.

Só Deus sabe quantas preces eu fiz pelo caminho, implorando ao anjo da guarda me protegesse. Aliás, se estou aqui escrevendo esta história, deve ser por conta dessa ajuda silenciosa, porém, constante.

Neste período comecei a ser ameaçada por um homem, que disparava atrás de mim, falando palavras que eu nunca antes imaginei existir, mesmo sabendo o quanto eram baixas, tenebrosas e ameaçadoras.

Foram tantas corridas, largando cadernos pelo caminho, a fim de conseguir maior velocidade, que cheguei a desistir dos estudos naquele ano. Eu sabia que a qualquer momento poderia ser pega por algum maluco, sem conseguir voltar para casa.

Nesta época, meus pais moravam num sítio, no interior do Estado, então ficava com minha avó. Não tinha ninguém para me acompanhar pelo caminho.

Foi quando minha irmã, já casada, me convidou para ir morar numa pacata cidade do interior, com seus até então 20.000 habitantes. É verdade que os sons rotineiros de sapos e grilos de lá me eram entediantes, porém me sentia mais segura para andar pelas ruas, o que, por si só, já fazia tudo valer a pena.

Apesar das perdas doloridas, tais como o afastamento de amizades, escola e parentes, aceitei.

Lá completei meus 16 anos. Quantos sonhos numa mente juvenil! Queria conhecer um rapaz especial, do tipo príncipe encantado, namorar, poder viver em paz. Durante o dia, trabalhava no banco como auxiliar de aplicações, estudando à noite, numa escola não tão boa como a que estivera matriculada, anos antes. Sem problemas!

Foi quando conheci aquele que seria meu primeiro marido. Moço jovem, com seus vinte e dois anos, irmão de uma amiga. Logo percebi que ele tinha um temperamento forte, mas ainda assim me trazia flores, bombons e muitas juras de amor. Que mais eu poderia querer? Hoje sei que muito, muito mais, claro! Porém, lá ia eu enfiando a perna numa das arapucas abertas do caminho.

Comemoramos o terceiro mês de namoro e uma notícia bombástica chegou aos meus ouvidos: meus pais iriam se mudar para o Acre. E queriam que eu fosse junto com eles, lógico. Implorei, me deixassem morando com a minha irmã, porém, meu pai, homem tradicional, nascido na década de 20, com sua vida orientada pelo lema: “filha minha só sai da tutela do pai se for para a tutela do marido” – disse que eu só ficaria, se estivesse casada.

Não pensei duas vezes. Preparei o possível e me casei, em dois meses, apenas.

Realmente, saí da tutela de um homem, para a tutela de outro, só que bem pior.

Nos primeiros meses, engravidei da minha primeira filha. Depois disso, uma nova sentença masculina ecoava em mês ouvidos: “Mulher minha não trabalha nem estuda…Fica apenas em casa, cuidando das coisas e dos filhos!”

Num primeiro momento, não tive forças para mudar isso. Nem sabia que seria possível, aliás.

Na primeira grande discussão, um susto: sacou uma arma, apontou na minha direção, dizendo que se eu fosse embora, me mataria.

Foi quando, ainda grávida, apanhei dele pela primeira vez. Foram vários tapas, porque ousei dizer que ele não poderia falar mal dos meus pais. Na segunda vez, porque não quis manter relações sexuais no final da gravidez. Por último, com minha filha ainda pequena, pois o acordei no meio da noite. Estava roncando alto demais e minha filha tinha o sono muito leve.

Chorei “para dentro”, jurando ser aquela a última vez.

Fiquei com diversas marcas roxas, que me deram força para alterar os rumos.

Dois anos depois, com minha filha na escola em meio período, consegui convencê-lo de que iria trabalhar com a irmã dele, como sacoleira. Consegui algum dinheiro emprestado, peguei meu carro e segui para São Paulo. Comprei duas sacolas cheias de roupas e voltei, indo na casa das clientes, vendendo a mercadoria. Dali a dois anos já conseguia me sustentar. Saí de casa, e nunca mais voltei para lá. Deixei tudo para trás: casa, herança, objetos, tudo! Mas levei minha dignidade e minha filha. Era só do que precisava.

Hoje, olhando para trás, percebo a ação nem sempre positiva dos homens em minha vida, empurrando-me para situações incontroláveis, quando vistas sob a ótica de uma menina.

Já amadurecida pelos anos e experiências, hoje sei que só me tornei quem sou por causa do que vivi. Entretanto, também sei que não precisaria ser assim… Existem mil caminhos para a maturidade, mais leves e amorosos. Se consegui me livrar das arapucas armadas, foi porque existe e já existia em mim aquilo que hoje a Psicologia chama de resiliência. Muitas vezes vi minha mãe dando a volta por cima, com força, com garra impressionante! Isso deve ter me inspirado, para além do que ela possa imaginar.

Se existe algo ainda a comentar é que sim – o mundo continua machista. As mulheres ainda enfrentam diversos desafios apenas por serem mulheres. Ganham menos, trabalham mais, enfrentam preconceitos e perseguições. A mídia ainda produz psicopatas nas ruas e nos bares – Homens que veem as mulheres como simples objetos, pedaços de carne animada apenas para o sexo. Os homens ainda controlam as coisas por aí. São reconhecidos com maior rapidez no meio acadêmico e fora dele. Têm a palavra, o poder social.

E nós, mulheres, o que temos?

Muito mais que eles! Pena que ainda não nos demos conta disto!

Temos os filhos que formarão o mundo de amanhã. Temos o poder de ensiná-los que justiça se faz em todos os lugares, com todos os seres. Podemos ajudá-los a entender que a mulher tem direitos, muitos direitos, assim como eles, e que precisam ser respeitadas, cuidadas e honradas, como eles desejam ser.”


Entre a Caça e o Cuidado

O personagem dessa história é Gorki, meu gato branco

O personagem dessa história é Gorki, meu gato branco

Hoje se deu uma cena em nosso café da manhã, que me levou a tecer essas reflexões e voltar ao blog, de que andei distante alguns meses, por excesso de trabalho.

Estávamos em família, na presença de meus sobrinhos, discutindo a questão do vegetarianismo e do veganismo, com prós, contras, dificuldades de adesão, perspectivas futuras etc. E então, bem nesse momento da conversa, adentrou na sala meu gato branco, Gorki, por quem sou apaixonada, e provocou uma gritaria generalizada e o choro do meu sobrinho pequeno. Triunfal e desafiador, Gorki carregava um filhote de passarinho agonizante. Um passarinho que víamos por aqui nos últimos dias, em cima do muro, alimentado pela mãe. Por alguns minutos, o bichinho se debateu entre os dentes de Gorki e depois morreu.

Grande comoção entre todos. Compaixão, repreensão ao gato, que apenas cumpria seu instinto de caça.

Mas, em cima da mesa, tínhamos peito de peru (que vem também de uma ave)…

Então pensei na distância evolutiva que nos separa do gato e considerei que de fato devemos superar rapidamente esse instinto de caça, que nos assemelha aos felinos, tão belos, mas que ainda vivem sob o jugo do determinismo biológico e não no plano da liberdade, como nós, humanos.

O que se dá é que o ato brutal da morte – e o que é pior, da tortura que envolve a vida inteira dos animais explorados pela indústria alimentícia – está distante dos nossos olhos. Não vemos, como vimos hoje no café da manhã, o bichinho se debatendo para morrer. O produto nos chega ao prato já disfarçado. Depois de ter passado por inúmeros processos, compramo-lo numa embalagem que em nada lembra um matadouro – o que nos impede muitas vezes de tomar consciência do que estamos comendo. Ninguém hoje ali no café da manhã poderia imaginar comer o passarinho agonizando aos nossos olhos. Todos nos vimos possuídos de compaixão e náusea. E no entanto, estávamos comendo um produto que veio da carne de centenas de aves abatidas, que passaram por uma agonia muito mais cruel e prolongada do que a experimentada ali pelo pássaro, caçado por Gorki.

Hoje, graças à internet, às redes sociais, aos vídeos no youtube, às campanhas virtuais, podemos diminuir essa distância que existe entre aquilo que comemos e a origem dessa comida. Matadouros, indústrias alimentícias frequentam aos montes nossas páginas, provocando a indignação de muitos. Assim, vemos que cada vez mais pessoas no mundo tem se comovido com o sofrimento dos animais e tem se engajado em movimentos de abolição da carne na dieta humana. Está crescendo essa consciência a olhos vistos. Mas há outros tantos que zombam, riem e se refugiam em bifes sangrentos, afirmando que a carne se alimenta da carne.

Se um dia foi necessário, mas não absolutamente imprescindível do ponto de vista biológico (porque nosso intestino longo indica que somos naturalmente herbívoros), que nos alimentássemos da matança de animais, hoje sabemos cientificamente que não temos precisão de carne para sobrevivermos fortes e saudáveis. Ao contrário, a carne – sobretudo a vermelha e sobretudo essa carne industrializada cheia de hormônios e antibióticos – é mesmo prejudicial à saúde.

Já estamos a milhares de anos de nossa entrada no reino humano e continuamos exercendo nosso instinto de caça. Mas é verdade que, nesses milhares de anos, aprendemos também a cuidar. E cuidamos (embora muitos ainda torturem, abandonem e até os comam) de gatos, cachorros, passarinhos, cavalos… Nossa atitude em relação aos animais revela bem nosso estado evolutivo. Caçadores brutais aprendendo pouco a pouco a cuidar dos outros seres vivos. Estamos no meio do caminho, mas urge avançar com mais afinco na direção de superar os instintos felinos, para assumirmos nossa posição de humanos cuidadores.

É verdade que o caminho é difícil: o atavismo da carne, o cheiro do sangue ainda atrai a muitos. Há ainda tantos nesse mundo que não se satisfazem apenas com o sague dos animais, mas ainda se embriagam com o sangue humano, nas guerras, nos massacres, nos assassinatos individuais ou em massa.

E o instinto de caça não se manifesta tampouco apenas na matança de animais: quando vemos homens estuprando mulheres ou pedófilos roubando a inocência da infância – todos esses gestos, que povoam fartamente nosso mundo, revelam o quanto de brutalidade existe ainda nos seres humanos.

O que poderia então nos levar a um mundo em que essa selvageria toda passasse a ser um pesadelo do passado? O que fazermos para caminhar firmemente na direção do cuidar, superando a fase da caça?

A resposta como sempre está na educação

A nossa educação é, como sempre costumo dizer, um processo de dessensibilização. As crianças que hoje presenciaram a morte do passarinho ficaram extremamente compadecidas e tocadas. O mais novo ficou mais chocado. O mais velho menos. Esse mais velho, anos atrás, me disse que eu não deveria nunca jogar chicletes nas ruas, porque os passarinhos poderiam se confundir, pensando que fosse algo realmente doce e enroscarem o bico no chiclete, morrendo de fome ou sufocados. Na semana passada, flagrei-o querendo jogar o chiclete no jardim e perguntei: você não me disse que não era para fazer isso? Resposta: “eu não estou ligando muito mais para isso”.

O que faz com que a criança “não ligue mais para as coisas” diante das quais ela costumava se mostrar sensível, indignada, curiosa, perguntadeira, engajada? É justamente esse processo de escolarização que mata a sensibilidade, embota a compaixão, cala a indagação e abafa a investigação.

Claro, de um lado o embotamento provocado pela escola, do outro a excitação dos instintos de caça, agressividade e posse, através de certos filmes, jogos, propagandas na TV… e de outro ainda, o despertar do atavismo milenar que todos trazemos de um passado de violência e dominação… e estão feitos o homem e a mulher (embora mais o homem) insensíveis, competitivos, caçadores, que tratam o outro – ser humano ou animal – como coisa a ser conquistada, destruída, devorada.

Há um lado divino em todos nós que se manifesta na primeira infância – são raras as crianças, que por um ímpeto do passado ou por uma violência sofrida agora, se mostram insensíveis. Esse lado divino, que chora com a morte de um passarinho, tem que ser mantido, estimulado… Esse lado divino não poderia sucumbir, e sucumbe, numa família negligente, apenas preocupada com valores materiais; numa escola seca, competitiva; numa sociedade de consumo em que a própria criança nada vale, porque nos interessa apenas fazer dela um consumidor obeso e desejante…

A criança que mantivesse a sua compaixão pelos animais, a criança que fosse estimulada em sua sensibilidade diante da natureza, a que fosse garantida uma formação sólida, crítica e consciente – essa criança será, sem nenhum sacrifício, vegetariana.

É para isso que esperamos caminhar!


A história da árvore generosa

Imagem

Para os que acham a árvore masoquista

Ontem, em nossa oficina de educação para a vida e para a morte, com o tema A Criança diante da Morte, com Franklin Santana Santos e eu, no Espaço Pampédia, houve uma discussão fecunda sobre um livro famoso e belo: A Árvore Generosa, de Shel Silverstein (Editora Cosac Naify). Bons livros infantis são assim: têm múltiplos alcances, significados, atingem de 8 a 80 anos, porque falam de coisas essenciais e profundas. Houve intensa discordância quanto à mensagem dessa história, sobre a qual já queria escrever há muito.

Para situar o leitor que não leu (mas recomendo ler), repasso aqui a sinopse do livro:

“’A árvore generosa’ traz o clássico de 1964 que conta a história do amor entre uma árvore e um menino. A árvore é a amiga amorosa que dá tudo ao menino, suas folhas, seus frutos, sua sombra. O menino também ama a árvore, a grande companheira de todos os dias; sobe em seu tronco, se pendura nos galhos, brinca de esconde-esconde. Até que vai crescendo, se torna adolescente, depois adulto. E, pouco a pouco, deixa a amiga de lado. ‘Estou grande demais para brincar’, diz o menino, que então precisa de dinheiro para comprar ‘muitas coisas’. A árvore fornece suas maçãs, para o jovem vender. Depois seus galhos, para o homem construir sua casa. E a história acompanha o passar do tempo até a velhice do homem – que até o fim, já bem velho e cansado, é chamado de menino pela árvore.”

A história retrata uma relação de amor que, de início, quando o personagem é menino, é recíproca, mas depois, quando cresce, vai se tornando uma doação unilateral, pois a árvore dá, se dá, se doa, fica feliz de se oferecer e se sacrificar pelo seu menino, mas o menino, adulto, maduro, só tira, só recebe, sem lhe dar nada em troca. Mas sempre volta para sua árvore e lhe pede mais. Quando ela não tem mais nada para dar e se tornou apenas um toco e ele está velho e cansado, ainda ela lhe serve para ele se sentar e se confortar. E ela se sente sempre feliz em se doar para o seu menino.

O que ressalta à primeira vista na leitura é a oferta irrestrita da árvore (generosa) e o egoísmo depredatório e indiferente do menino, que cresceu, mas continua menino para sua árvore. Aliás, é sintomático que ele continue até o fim do livro, sendo chamado de menino, porque embora velho, ainda se comporta como um menino mimado, incapaz de assumir uma responsabilidade de amor com quem tanto lhe deu. Ela cuida e ele se descuida. Ela se oferece e ele vai embora. Ele volta e ela exulta, mas ele volta apenas para pedir mais. Ela quer vê-lo feliz e não mede sacrifícios para isso, ele se comporta de forma indiferente à dor que ela sente, ao vê-lo partir.

Claro que o comportamento do menino é revoltante, mas a atitude da árvore é divina. Uma atitude de amor pleno, de entrega total, de esquecimento de si, pelo ser que ama. Uma atitude aliás muito mal vista e mal compreendida no mundo atual, onde amor não pode incluir sacrifício e renúncia, mas apenas troca calculada e medida.

Existe, é verdade, um único tipo de amor que não comporta a entrega plena sem reciprocidade nenhuma: é o amor entre um casal. Nesse campo, é preciso haver um equilíbrio, embora possa um dos dois, que tiver maior maturidade espiritual, exercer uma doação maior. Mas se houver um descompasso muito grande, dá-se a anulação e a exploração, a desvalorização do outro. A reciprocidade do amor num casamento, numa relação a dois, é uma necessidade para a sua sobrevivência. Fora isso, o amor pode se libertar de qualquer espera de retorno, pode projetar a reciprocidade plena para a eternidade – o amor fraterno, o amor de amizade, o amor pedagógico e, sobretudo, o maior amor de todos, o materno (que não é exclusivo de uma mãe para com o filho, podemos experimentar o amor materno com qualquer outro ser humano), são amores que podem se soltar das amarras de cobrança e procurarem um status de divindade.

Não foi esse, por acaso, o amor de Jesus? Não é isso que propõe o cristianismo? Mais amar do que ser amado? Jesus, na cruz, dizendo: perdoai-lhes Pai, porque não sabem o que fazem não é igual à árvore entregando seus galhos para o menino egoísta? Qual o sentido desse amor? O amor que se sacrifica, que se devota, que se entrega plenamente é o amor que toca o outro, é o amor que fará um dia o menino crescer e amadurecer, sentir o quanto foi amado e aprender também a se devotar assim.

Essa árvore, ao contrário do que alguns podem pensar, não era masoquista, sobretudo porque a árvore ficava feliz em amar e se doar. Ela era sábia e sabia que seu menino ainda era mesmo um menino e teria muito o que aprender. Mas para ensiná-lo, não se nega, não recua, não repreende, não põe limites ao seu amor. Simplesmente exemplifica o que é de fato amar. Só se aprende o que é o amor pleno, recebendo esse amor de alguém. Por isso, as leis divinas fizeram as mães (embora muitas delas ainda não desenvolveram esse amor completo, e algumas até o renegam, mas ele está imanente até mesmo nos animais, porque é emanação de Deus): sem a entrega total de alguém que nos cuide e vele por nós nos primeiros anos de vida, não sobreviveríamos… Essa necessidade absoluta com que viemos ao mundo revela um momento na vida (poderá haver outros, em crises, doença, velhice e morte) em que precisamos exatamente de uma árvore generosa, que não meça sacrifícios por nós.

Mas o mundo contemporâneo tem grande dificuldade de entender e aceitar isso. Muitos, ao lerem essa história, se revoltam mais com a árvore, considerada tola, mole, masoquista, do que com o menino, egoísta e indiferente – vale dizer, imaturo. Porque nem mais as mães querem hoje ser árvores generosas! Estamos num mundo que despreza a entrega de si mesmo e prega que todos devemos exercitar o “pensar primeiro em si”. Ou seja, todo mundo tem é que se comportar como o menino. Mas se não houvesse árvores generosas, pessoas que se entregam ao próximo, que se sacrificam pelo bem e amam incondicionalmente, o mundo estaria ainda mais ressecado e vazio do que está.

Podemos ainda dizer que a árvore mais generosa do universo é Deus – amor infinito, irrestrito, pleno, o amor que cobre a multidão de pecados. Quando passarmos a entender e sentir mais Deus como amor pleno e não como um juiz punitivo, justiceiro, melhor compreenderemos e vivenciaremos esse amor divino em nós. Quem se comporta como a árvore generosa está aprendendo a ser mais perto de Deus. E os meninos mimados e egoístas crescerão. E só o amor das árvores generosas poderá curá-los e educá-los.