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Como não transformar indignação em ódio?

PM e Gandhi

Partilhei hoje na minha página do Face uma foto de um membro da polícia militar com a arma em punho diante de uma estudante desarmada, em posição pacífica, durante a guerra declarada pelo Governo do Estado aos alunos que reivindicam a manutenção de suas escolas, no movimento “Não fechem minha escola”. Ao partilhar essa foto e comentar brevemente minha indignação diante da cena, vi-me arrebatada numa discussão desenfreada na minha própria página. Mantive-me calada, mas tenho ficado amargada com o nível de agressividade, conservadorismo, analfabetismo político reinantes no momento presente. E toda vez que manifesto qualquer posição, vejo-me enredada numa trama de contenda, de vibrações desencontradas, que me afetam por dentro.

Por isso, a reflexão de hoje é sobre uma questão fundamental: como manter a paz íntima diante das gritantes injustiças do mundo? Como exercitar a indignação (necessária, pois até Jesus a manifestou diante dos fariseus que exploravam o povo) sem se deixar escorregar para a ódio e para o asco? Como manter o olhar lúcido e crítico diante das estruturas profundamente injustas da sociedade, diante da falta de ética, diante da negligência com o ser humano, sem afundar-se num desânimo existencial, que nos faça parar deprimidos à beira do caminho? Como, enfim, atuar no mundo, para transformá-lo, com suficiente amor no coração, mas sem a pieguice e a apatia dos que aceitam tudo de cabeça baixa?

Lembro-me aqui de três figuras que muito me inspiram na vida e que viveram momentos críticos nesse sentido. Um foi Pestalozzi. Condecorado pela Revolução Francesa, por suas ideias progressistas para a melhoria das condições do povo e de sua educação, ele escreveu um livro intitulado Sim ou Não?, que pretendia responder se ele era contra ou a favor daquela Revolução sangrenta. Ora, claramente, ele se manifesta contrário à violência, mas a favor das reivindicações populares, diante da opressão em que vivia o povo. Hoje, é verdade, a análise marxista da História considera a Revolução Francesa uma revolução burguesa, que usou as classes populares a seu favor. Na época, na compreensão de Pestalozzi, era algo que brotava sobretudo legitimamente das entranhas do povo. Ele não aprovava, nem justificava a violência, mas compreendia-a, como uma reação inevitável à opressão. Numa outra obra sua, Minhas Indagações sobre a marcha do desenvolvimento da espécie humana, Pestalozzi desenvolve toda uma teoria, que antecede em alguns aspectos a psicanálise, apontando a repressão dos instintos das massas como uma das causas de explosão de guerras e revoluções. De qualquer forma, ele considera que uma educação integral, como a que ele propunha, deveria despertar a divindade interior dos indivíduos, motivando-os a agir autonomamente, sem repressão, no sentido da fraternidade e do bem-estar de todos.

Kardec, no Livro dos Espíritos, na questão 783, da mesma forma que seu mestre Pestalozzi, admite a necessidade das revoluções sociais, olhando a História de uma perspectiva no tempo: 

“O homem não pode ficar eternamente na ignorância, porque deve chegar à meta marcada pela Providência: ele se esclarece pela força das coisas. As revoluções morais, como as revoluções sociais, se infiltram pouco a pouco nas ideias, elas germinam durante séculos, depois, de repente, estouram e fazem ruir o edifício carcomido do passado, que não está mais em harmonia com as necessidades e aspirações novas.

O homem muitas vezes vê nessas comoções apenas a desordem e a confusão momentânea que o atingem em seus interesses materiais; aquele que se eleva pelo pensamento além do pessoal, admira os desígnios da Providência, que do mal faz surgir o bem. É a tempestade que purifica a atmosfera, depois de tê-la agitado.” (Tradução minha)

Entretanto, foi no século XX, que um elevado espírito, aliás chamado Mahatma (grande alma), deu um exemplo maravilhoso de uma atuação política, para transformação social, na luta contra a injustiça, por caminhos da não-violência, comprometido ao mesmo tempo com seu próprio aperfeiçoamento espiritual e com a elevação moral do povo. Gandhi foi passo a passo, como conta em sua autobiografia, construindo uma forma de atuar no mundo, para mudá-lo, sem render-se ao ódio, ao desespero e sem a alienação, muitas vezes característica, de alguns líderes espirituais. Unindo fé e política, autoconhecimento com a trilha da não-violência, ele deixou a mensagem de que só conquistamos a devida força moral, social e mesmo política (num sentido muito amplo e não partidário) se conquistarmos ao mesmo tempo a nós mesmos. Mas ele também se deparou com o rugir das paixões, o estouro da violência, da guerra civil, de seus compatriotas, pagando com a vida o seu empenho de dialogar com todos e não odiar ninguém.

Fica porém esse aprendizado para nós: guardemos serenidade nas lutas justas em que nos empenhemos no mundo. A oração é uma força essencial para isso. Assim nos ensinaram Jesus e Gandhi. Cuidemos de nosso mundo íntimo, para não nos rendermos ao ódio, que é um grau degenerado de indignação. E enchamo-nos de compaixão para com todos. Porque todos precisam dela.

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Nunca desistir…

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Faixa inspiradora da manifestação de ontem na Avenida Paulista

Num mundo, onde tudo se tornou descartável, incluindo o ser humano, onde os valores se tornaram tão flexíveis, que quase se liquefazem, onde sonhos e utopias se esvaziaram, sou ainda alguém que acredita em amores eternos, em amizades inquebrantáveis, em valores como fidelidade e lealdade, em causas existenciais pelas quais há que se viver e, se preciso for, morrer…

Jamais desistir de um propósito elevado, de uma meta que faz sentido, de um sonho de justiça, de um projeto existencial. Jamais desistir de alguém que se ama, seja um filho, um amigo, um irmão, um marido ou uma esposa. Investir no próximo até o sacrifício, entregar-se ao outro com amor incondicional. Trabalhar por um ideal, sem medir a luta; servir a uma causa, com abnegação.

Tal persistência, que nunca desiste, que sempre acredita; que nunca foge, que sempre permanece – tece o caminho que nos faz atingir o coração do outro, faz o roteiro que nos faz deixar algo significativo no mundo.

As pessoas hoje, com o incentivo vigente de um individualismo feroz, não consideram que devam se sacrificar nem por nada, nem por ninguém. Não se trata, é claro, de procurar ou aceitar relações patológicas ou de descuidar-se de si. Mas, não há amor de fato, se não doamos coisas preciosas de nós: cuidado, paciência, abnegação, devotamento… Não há como realizar um projeto de vida significativo, dedicado ao bem, seja ela que qual for, se não nos empenharmos por ele com toda a nossa esperança, toda a nossa dedicação, toda a nossa vontade.

O individualismo contemporâneo, ao invés, estimula o egoísmo, o prazer sensorial, a busca de recompensas materiais, o uso e o abuso do outro (e portanto também de si mesmo). Por isso, tudo se terceiriza: o cuidado com as crianças, o cuidado com os idosos, o cuidado com os doentes. Quem há de sacrificar horas de sono, dias de trabalho “produtivo” (leia-se remunerado), para cuidar de alguém? Por isso, relações são frágeis. Quem há de se dispor ao perdão, à compreensão, à empatia?

O nihilismo contemporâneo também tudo relativiza, tudo esvazia. Assim, não vale perseguir altos ideais, porque a vida não tem sentido, além daquele de preenchê-la de consumo, correria e sensações. Assim, ideais generosos podem até brotar aqui e ali, mas poucas vezes criam raízes, poucas vezes crescem e dão frutos suculentos. Afinal, eles logo são comprados por uma empresa, pela segurança de um trabalho sem sentido, por uma moradia de luxo, por um carro do ano… Não é que não deveríamos ter uma casa, um carro, um trabalho… o problema é pisotear convicções, desistir de projetos existenciais, abandonar ideais, para apenas ter…

E as relações então? Zygmunt Bauman fala de relações líquidas. Pode-se desistir de qualquer ser humano com a maior facilidade do mundo. Expulsa-se o aluno da escola, manda-se o pai ou a mãe para o asilo, fecha-se a porta para o filho ou para o irmão problema, rompe-se friamente com o amigo antigo, despede-se rapidamente, com um e-mail, o funcionário com anos de casa. O outro não tem valor intrínseco. Não há vínculos confiáveis para sempre!

Essa ausência de sentido, essa instabilidade dos afetos, essa ausência de âncoras sólidas, tanto no amor do outro, quanto em valores que não se vendem – isso é que causa a angústia do século, a depressão vigente, que alimenta as indústrias farmacêuticas.

Quem vive um ideal com força, persistência e fé e quem tem raízes afetivas fortes, construídas aliás desde a infância, tem menores possibilidades de se deprimir, de adoecer psiquicamente, de mergulhar nessa solidão existencial em que tantos se perdem hoje.

Sim, eu acredito que não devemos desistir nem de entes queridos, nem de ideais nobres, nem da confiança na humanidade, nem da busca do amor universal!

Acredito que quando nos entregamos sem reservas, o amor cobre a multidão de pecados; quando nos devotamos até o sacrifício a um projeto do bem, as sementes que deixarmos brotarão algum dia.

Acredito que se vivermos nesse diapasão de perseverança no bem, de experiência profunda de afeto, podemos sim sofrer, nos entristecermos, nos depararmos com mil obstáculos – sobretudo os das resistências dos que ainda não descobriram esse caminho – mas encontraremos um recanto de paz dentro de nós.

Não é um caminho fácil, porque ele é tão diferente do caminho da maioria! Tantos conselhos ouviremos para desistirmos, para não sermos idiotas, para retribuirmos desentendimentos, deserções e agressões com gelo, vingança ou indiferença. Tantas pessoas nos dirão que nossos ideais são utópicos, que nossas esperanças são tolas, que nossos sonhos são irrealizáveis! Haverá momentos de desânimo, porque quase acreditaremos que somos loucos ou desajustados. Haverá dias de tristeza, porque quase teremos certeza de que a pessoa que mais amamos nunca vai nos compreender ou que a mudança que esperamos no mundo nunca vai se concretizar…

A questão é que esse nunca desistir só pode persistir, com a visão da eternidade. Com a perspectiva de um futuro que nunca acaba, no qual também habitaremos, com nossa alma imortal.

Algumas tímidas flores, veremos despontar à beira do caminho de nossa persistência. Algumas retribuições, colheremos de pessoas queridas. Alguns despertares, veremos à nossa volta com a semeadura de nosso amor. Mas apenas a eternidade, o futuro imenso, os séculos vindouros na Terra, poderão se preencher plenamente de nosso amor, de nossos ideais.

Nunca desistir é saber-se imortal. Nunca desistir é saber o outro imortal. Nunca desistir é estar concectado com a dimensão do sem tempo, onde só o amor habita.


De mulheres para outras mulheres (E para homens também…)

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Entre as inúmeras amizades virtuais que tenho Brasil afora, uma mulher, pessoa de muito valor, de muita garra e inteligência, me enviou esse texto abaixo. Tem a força da experiência vivida, tem a moral de quem superou as armadilhas do caminho. Assim, com sua autorização, retirei nomes, datas e locais, que pudessem identificá-la, e estou publicando aqui esse texto forte e verdadeiro.

Comento de minha parte que, como mulher, vivi exatamente o contrário dessa amiga. Mas o contrário, que revela a mesma coisa. Como na adolescência, comecei a engordar, (e era a “moby” para alguns meninos, inclusive familiares), como usava óculos (e minha mãe teimava em comprar os mais baratos e mais feios), como já aos 13 anos de idade, era precoce em leituras espíritas e filosóficas, como era estranha em gostos musicais, como ópera e música clássica, então sofri o completo desinteresse masculino. Porque em sua maioria, os homens não se interessam por meninas muito inteligentes e menos ainda por aquelas, cujas curvas não correspondem aos padrões mediáticos contemporâneos (por sinal, cada vez mais anoréxicos e menos femininos!), não era devorada com os olhos, como conta minha amiga, mas era enregelada nas paqueras.

Hoje, aos 52 anos, plenamente reconciliada com meus quatro olhos, com meus quilinhos a mais, com minha intelectualidade, que tem me ajudado a cumprir minha tarefa existencial, sem deixar meu lado feminino de lado, posso me juntar a esse texto abaixo, para protestar contra o machismo ainda reinante na sociedade.

Na semana passada mesmo, apanhei de relance um rapaz de um estacionamento, onde estava pegando meu carro em SP, comendo com os olhos uma menina que passava descuidada. A cena, que só eu percebi, me provocou asco e revolta. Isso é uma característica majoritária do gênero masculino, não importando a orientação sexual, pois os gays também devoram os bonitões com os olhos. Mulheres em geral não fazem isso.

Realmente, o desejo e a atração fazem parte integrante do instinto sexual e podem ser o primeiro impulso para o outro. Entretanto, se esse desejo e essa atração forem assim devastadores, invadindo o campo vibratório do outro, arrancando a roupa do outro com os olhos; quando não se enxerga, em suma, o outro em si, como pessoa, mas apenas como um pedaço de carne, então de fato, há um desrespeito, há um roubo da integridade alheia. E se isso resulta em ação (e se não se aprende a sublimar o desejo e a refiná-lo com o sentimento, é isso que acontece), então, pode-se resvalar para o crime, como o estupro, o assédio, o abuso…

A educação tem que começar a lidar com isso, tornando o gênero masculino menos bruto e o gênero feminino menos suscetível a essas investidas. Lembro-me que quando morava na Alemanha, em plena adolescência, e frequentava a escola em Berlim, havia professoras mulheres, que nos ensinavam que se algum homem nos abordasse na rua com intenções violentas, deveríamos acertar com um chute as suas partes íntimas. Eu, que vinha de uma cultura latina, achava esses conselhos por demasiado brutais. Mas, passados tantos anos, vemos no mundo todo, incluindo no Brasil, tantas violências ainda cometidas contra as mulheres, que chego a questionar se não seria, às vezes, bom muni-las de defesas até físicas contra isso. Embora considere que o melhor ainda será fazermos homens mais sensíveis (como os há hoje muitos nas novas gerações), o que não significa efeminados, mas pessoas mais equilibradas sexualmente, que saibam apreciar as qualidades femininas, com respeito, partilhando conosco a existência, em amor igualitário, amizade sincera e parceria mútua. Mas para os machistas, qualquer sensibilidade é sinal de bichice, termo usado sempre com muita ironia. Aliás, a identidade do machão se firma geralmente no desprezo ao que é feminino, num estranho paradoxo, de querer tomar posse daquilo que se odeia.

Mas, vamos, ao texto, que fala de uma experiência dura, felizmente superada. Hoje, essa amiga é casada com um cavalheiro, que a ama, a admira e a respeita, como ser humano e como mulher:

 “Só agora, mais próxima dos 50 que dos 40, me sinto à vontade para escrever as linhas que se seguem. Talvez, antes disso, me faltasse a consciência sobre diversos fatos ocorridos, seu sentido mais profundo, nesta minha trajetória de mulher. Aliás, provavelmente eu ainda sequer perceba algumas das sutilezas do destino, os mil e um porquês nos pequenos fatos que existem dentro de um cotidiano feminino, cheio de sonhos, lutas, medos e cansaços.

Tudo bem, pois não pretendo desvelar a totalidade, mas apenas pincelar alguns relatos, refletir sobre algumas questões.

Creio, ainda, que minha maior esperança no texto não se circunscreva tão somente a um desabafo cor-de-rosa, falando do quanto a música Maria Maria, do Milton Nascimento diz muito mais do que aparenta, num primeiro momento, mas [quem sabe?] um relato que venha deixar um pouco mais à mostra algumas das armadilhas soltas à margem dos caminhos da vida, prontas para abocanhar nossas pernas depiladas, tão ao gosto da publicidade contemporânea.

Aos 14 anos de idade, percebi o quanto meu corpo estava se alterando, com curvas mais acentuadas dentro do velho agasalho da escola. Era estranho tomar banho e olhar para a lateral do quadril sem conseguir enxergar a parte de cima da própria coxa, por conta do alargamento ósseo. Confesso que não achei isso bonito e já começava a sentir saudade do meu corpo de criança, tão conhecido e “normal”.

O problema é que outros também perceberam que eu já não era mais uma menina [no corpo, somente!], causando-me constrangimentos constantes. Nas ruas, alguns homens me assediavam, como se eu fosse um pedaço de carne fincado no espeto, pronto para ser devorado por qualquer esfomeado que aparecesse pela frente.

Como uma menina de quatorze anos que até então brincava na rua de lazer junto de outras meninas e meninos, descendo ladeiras com rolimãs e skates, confesso que não conseguia entender aquelas investidas, chegando em casa muitas s assustada, com medo de que alguém pudesse me sequestrar, violentar ou, quem sabe, assassinar. Embora nunca tivesse me preocupado com aquele assunto, precisei começar a prestar atenção no jeito dos homens que se aproximavam, sob risco de ser vítima de algum deles, em qualquer lugar que fosse.

Talvez os homens jamais saberão o que é sentir este terror diário, o medo de andar nas ruas, por conta destas torturas morais constantes, quando se tem apenas 14 anos de idade… Talvez eles até tentem imaginar, quem sabe…mas, o certo é que todos aqueles que se sentem no direito de ameaçar a paz de uma menina, dizendo ou fazendo gestos erotizados, são pessoas com desvios morais, alimentados por esta escória midiática, que torna o corpo da mulher um objeto qualquer, sem sentimentos, nem direitos ou fragilidades psíquicas.

E o que se seguiu a partir dali não foi melhor.

Então, com meus 15 anos, para chegar na escola, precisava usar metrô e ônibus na já atribulada São Paulo, chegando aos portões do colégio até, no máximo 7:15h. No inverno, esta saga tornava-se algo ainda mais perigoso, pois de casa até a estação Jabaquara do metrô, levava cerca de 10 minutos andando a pé, num final de madrugada escuro, sem o sol para iluminar minha ansiedade.

Só Deus sabe quantas preces eu fiz pelo caminho, implorando ao anjo da guarda me protegesse. Aliás, se estou aqui escrevendo esta história, deve ser por conta dessa ajuda silenciosa, porém, constante.

Neste período comecei a ser ameaçada por um homem, que disparava atrás de mim, falando palavras que eu nunca antes imaginei existir, mesmo sabendo o quanto eram baixas, tenebrosas e ameaçadoras.

Foram tantas corridas, largando cadernos pelo caminho, a fim de conseguir maior velocidade, que cheguei a desistir dos estudos naquele ano. Eu sabia que a qualquer momento poderia ser pega por algum maluco, sem conseguir voltar para casa.

Nesta época, meus pais moravam num sítio, no interior do Estado, então ficava com minha avó. Não tinha ninguém para me acompanhar pelo caminho.

Foi quando minha irmã, já casada, me convidou para ir morar numa pacata cidade do interior, com seus até então 20.000 habitantes. É verdade que os sons rotineiros de sapos e grilos de lá me eram entediantes, porém me sentia mais segura para andar pelas ruas, o que, por si só, já fazia tudo valer a pena.

Apesar das perdas doloridas, tais como o afastamento de amizades, escola e parentes, aceitei.

Lá completei meus 16 anos. Quantos sonhos numa mente juvenil! Queria conhecer um rapaz especial, do tipo príncipe encantado, namorar, poder viver em paz. Durante o dia, trabalhava no banco como auxiliar de aplicações, estudando à noite, numa escola não tão boa como a que estivera matriculada, anos antes. Sem problemas!

Foi quando conheci aquele que seria meu primeiro marido. Moço jovem, com seus vinte e dois anos, irmão de uma amiga. Logo percebi que ele tinha um temperamento forte, mas ainda assim me trazia flores, bombons e muitas juras de amor. Que mais eu poderia querer? Hoje sei que muito, muito mais, claro! Porém, lá ia eu enfiando a perna numa das arapucas abertas do caminho.

Comemoramos o terceiro mês de namoro e uma notícia bombástica chegou aos meus ouvidos: meus pais iriam se mudar para o Acre. E queriam que eu fosse junto com eles, lógico. Implorei, me deixassem morando com a minha irmã, porém, meu pai, homem tradicional, nascido na década de 20, com sua vida orientada pelo lema: “filha minha só sai da tutela do pai se for para a tutela do marido” – disse que eu só ficaria, se estivesse casada.

Não pensei duas vezes. Preparei o possível e me casei, em dois meses, apenas.

Realmente, saí da tutela de um homem, para a tutela de outro, só que bem pior.

Nos primeiros meses, engravidei da minha primeira filha. Depois disso, uma nova sentença masculina ecoava em mês ouvidos: “Mulher minha não trabalha nem estuda…Fica apenas em casa, cuidando das coisas e dos filhos!”

Num primeiro momento, não tive forças para mudar isso. Nem sabia que seria possível, aliás.

Na primeira grande discussão, um susto: sacou uma arma, apontou na minha direção, dizendo que se eu fosse embora, me mataria.

Foi quando, ainda grávida, apanhei dele pela primeira vez. Foram vários tapas, porque ousei dizer que ele não poderia falar mal dos meus pais. Na segunda vez, porque não quis manter relações sexuais no final da gravidez. Por último, com minha filha ainda pequena, pois o acordei no meio da noite. Estava roncando alto demais e minha filha tinha o sono muito leve.

Chorei “para dentro”, jurando ser aquela a última vez.

Fiquei com diversas marcas roxas, que me deram força para alterar os rumos.

Dois anos depois, com minha filha na escola em meio período, consegui convencê-lo de que iria trabalhar com a irmã dele, como sacoleira. Consegui algum dinheiro emprestado, peguei meu carro e segui para São Paulo. Comprei duas sacolas cheias de roupas e voltei, indo na casa das clientes, vendendo a mercadoria. Dali a dois anos já conseguia me sustentar. Saí de casa, e nunca mais voltei para lá. Deixei tudo para trás: casa, herança, objetos, tudo! Mas levei minha dignidade e minha filha. Era só do que precisava.

Hoje, olhando para trás, percebo a ação nem sempre positiva dos homens em minha vida, empurrando-me para situações incontroláveis, quando vistas sob a ótica de uma menina.

Já amadurecida pelos anos e experiências, hoje sei que só me tornei quem sou por causa do que vivi. Entretanto, também sei que não precisaria ser assim… Existem mil caminhos para a maturidade, mais leves e amorosos. Se consegui me livrar das arapucas armadas, foi porque existe e já existia em mim aquilo que hoje a Psicologia chama de resiliência. Muitas vezes vi minha mãe dando a volta por cima, com força, com garra impressionante! Isso deve ter me inspirado, para além do que ela possa imaginar.

Se existe algo ainda a comentar é que sim – o mundo continua machista. As mulheres ainda enfrentam diversos desafios apenas por serem mulheres. Ganham menos, trabalham mais, enfrentam preconceitos e perseguições. A mídia ainda produz psicopatas nas ruas e nos bares – Homens que veem as mulheres como simples objetos, pedaços de carne animada apenas para o sexo. Os homens ainda controlam as coisas por aí. São reconhecidos com maior rapidez no meio acadêmico e fora dele. Têm a palavra, o poder social.

E nós, mulheres, o que temos?

Muito mais que eles! Pena que ainda não nos demos conta disto!

Temos os filhos que formarão o mundo de amanhã. Temos o poder de ensiná-los que justiça se faz em todos os lugares, com todos os seres. Podemos ajudá-los a entender que a mulher tem direitos, muitos direitos, assim como eles, e que precisam ser respeitadas, cuidadas e honradas, como eles desejam ser.”


Manifesto nessa hora grave das eleições!

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Difícil decisão a de escrever esse manifesto que agora assino. Como é público e notório, sou anarquista e faz 30 anos que anulo meu voto ou simplesmente não compareço às urnas e justifico. Nunca votei no PT e nem em nenhum outro partido. No primeiro turno, estava viajando e não fui às urnas.

Mas diante das graves e extremadas manifestações que tenho observado por parte do candidato Aécio Neves, sou obrigada a me posicionar a favor de um voto de repúdio a tudo o que ele representa: nepotismo, envolvimento com a droga, posição repressora e extremista, como os projetos de redução da maioridade penal e privatização das prisões, (onde as empresas lucram com os presos, o interesse é ter o maior número de pessoas presas, que é o caso dos Estados Unidos, que possui a maior população carcerária no mundo). E como militante da Educação, não poderia deixar de repudiar um candidato que levou a Educação pública de Minas, uma das menos piores que havia no país, a uma bancarrota total, reduzindo drasticamente o salário dos professores.

Considero que a subida de Aécio à presidência do país pode representar um retrocesso em nossa democracia, um acirramento das posições de repressão e censura e a um descomprometimento total com as causas que realmente importam: as questões sociais, a Educação e a saúde.

Não defendo o PT no que ele errou (e errou muito) mas durante todos os anos do governo de Dilma, enxerguei-a como pessoa bem intencionada, que fez o que pôde, dadas as restrições do próprio sistema e as concessões que todo governante é obrigado a fazer para ascender e se manter no poder (por isso sou anarquista!) e dadas as próprias confusões do partido. Acho esse ódio à Dilma exagerado, desproporcional – pois nunca vi um ódio desses a um Sarney, por exemplo, que pertence à oligarquia que efetivamente manda no Brasil! Quando das ofensas que foram a ela dirigidas durante a Copa (embora eu não concordasse em nada com a Copa e tudo o que foi feito), senti-me ofendida como cidadã e como mulher, pois achei que não era tratamento a se dispensar a uma chefe de Estado, eleita democraticamente e aliás não é tratamento a se dispensar a nenhum ser humano.

No afã de se livrar do PT, muita gente acha que votar em Aécio é uma opção válida e sensata. Pois estou aqui afirmando publicamente minha posição de que votar em Aécio é jogar o país na via do retrocesso, do autoritarismo. Aécio é um Collor renovado. E eu me honro de ter participado nas ruas das manifestações pelo empeachment de Collor. Lamentável é ele ter sido eleito senador com tantos votos! Lamentável será se tivermos um novo Collor no poder.


A conspiração do silêncio em torno do Espiritismo

Mesa inter-religiosa no V Congresso Brasileiro de Pedagogia Espírita e II Congresso Internacional de Educação e Espiritualidade, promovido pela Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (abril de 2014)

Mesa inter-religiosa no V Congresso Brasileiro de Pedagogia Espírita e II Congresso Internacional de Educação e Espiritualidade, promovido pela Associação Brasileira de Pedagogia Espírita (abril de 2014)

Resolvi escrever no meu blog esse desabafo porque é necessário pelo menos que aqui, num terreno meu, e livre, eu possa dizer tudo o que penso e me seja garantida uma escuta honesta.

Há uma conspiração do silêncio de 150 anos em torno do Espiritismo e eu, como militante da ideia emancipadora da Pedagogia Espírita, sofro na pele diariamente esse silenciamento em forma de censura, de boicote, de patrulhamento ideológico, de que aliás, os próprios espíritas, muitas vezes fazem parte, por medo, covardia e por falta de entendimento do que o Espiritismo representa.

Kardec foi banido da cultura do século XIX, juntamente com todos os que o sucederam em pesquisas sérias a respeito dos fenômenos espíritas, como Crookes, Geley, Lodge, Zöllner, Lombroso, Conan Doyle e tantos outros. Se estes continuam a ser respeitados nos domínios do conhecimento cientifico em que se destacaram – as biografias, os artigos científicos, a divulgação de seus nomes omitem sutilmente que eles tenham se envolvido com esse modismo ultrapassado do século XIX e início do século XX.

É evidente que se entendermos o Espiritismo como mais uma religião, piegas, retrógrada, desatualizada em relação aos avanços do pensamento contemporâneo, enfim uma ideia ultrapassada do século XIX, não há como não manter um desprezo em relação a essa corrente de pensamento, a Kardec e a tudo o que vem com o qualificativo de espírita. E quando se silenciam os cientistas que pesquisaram e os pensadores que filosofaram é o que vai ficar mesmo do Espiritismo. Porque é verdade que o movimento espírita no Brasil muitas vezes apresenta exatamente esse perfil, movido por um mercado editorial altamente comercial, que publica majoritariamente hoje livrinhos de autoajuda e romances sem nenhuma consistência literária ou filosófica.

Então, para as pessoas que guardam essa imagem do Espiritismo, não adianta eu falar que fiz minha tese sobre Pedagogia Espírita na USP, patrocinada pelo CNPq; não adianta explicar que temos uma proposta de inter-religiosidade; não adianta fazer 5 magníficos congressos brasileiros de Pedagogia Espírita e dois inesquecíveis congressos internacionais de Educação e Espiritualidade, colocando a Pedagogia Espírita em pé de igualdade com outras pedagogias, em diálogo com elas, como a Waldorf, a de Paulo Freire, a de Montessori, a anarquista e tantas outras, que foram representadas nesses congressos!

Não adianta um trabalho sacrificial de 10 anos de ABPE e 16 de Editora Comenius justamente tentando resgatar o próprio Espiritismo como uma proposta cultural, como uma espiritualidade universalista, como um pensamento progressista e atual, filosófica e cientificamente consistente!

O que acontece? Tivemos eu e o Alessandro Cesar Bigheto um livro de Filosofia para o ensino médio avaliado duas vezes por ineletctualóides patrulheiros de uma universidade pública, para entrar como livro a ser adotado pelo governo para as escolas públicas. E qual a primeira objeção feita ao livro (o que dá para perceber que o restante é procura de pelo em ovo!)? É que em 400 páginas, mencionamos uma vez o nome de Kardec, como um pensador do século XIX. Mas mencionamos também Dalai Lama, Leonardo Boff, Confúcio, Lao Tsé, Madre Teresa de Calcutá – porque o livro é interdisciplinar e plural e pretende dialogar com várias árias e correntes. Mas como mencionamos uma vez Kardec, é proselitista! E estamos fora do programa do governo.

Essa postura vem de fora, dos não-espíritas, acadêmicos, que vivem em seus feudos dogmáticos (marxistas, freudianos, lacanianos, piagetianos……) que sentem um absoluto desprezo pelo pensamento espírita e nem sequer se dão ao trabalho de pesquisar e ver que existem intelectuais dignos que defendem essa corrente. Podem aceitar um Leonardo Boff, que nunca deixou de ser católico. Aceitam um Rubem Alves, que tem suas raízes protestantes. Mas torcem o nariz para um Herculano Pires ou para uma Dora Incontri.

Eu já presenciei uma banca da Unicamp brigar na minha frente se eu deveria ser aceita ou não num concurso de professores, pelo fato de eu ter como um dos meus objetos de pesquisa o Espiritismo. E eu já era doutora e pós-doutora pela USP. Obviamente não passei no concurso e em nenhum outro. Mas claro que, como em todo processo de discriminação, seja com negros, mulheres, homossexuais, a coisa é velada. Se forem indagados, os examinadores dirão que havia melhores candidatos, etc.

E quando vamos divulgar nossos eventos? Já o tema de espiritualidade encontra resistência! Mas se sabem que é a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita que está promovendo um evento, mesmo que não tenha nada a ver com o Espiritismo, qualquer divulgação nos meios de comunicação nos é vedada. Mas não ocorre o mesmo se há um evento na PUC (que é católica) ou na Universidade Mackenzie (que é presbiteriana).

Para esse patrulhamento ideológico, para que os espíritas não tenham uma voz na sociedade – digo uma voz consistente e respeitada, no pensamento acadêmico, nos meios de comunicação e não aparecer com ideias chinfrins que nem espíritas são, como crianças índigo em novela da Globo – unem-se ateus, marxistas, evangélicos, católicos… todos excluem o espiritismo e se negam terminantemente a nos dar uma voz.

Mas o pior não é isso! Os próprios espíritas assumem esse papel, de calar outros espíritas que estejam trabalhando para marcar um espaço de atuação do Espiritismo na sociedade, a partir de uma visão progressista, plugada no mundo.

Quando entrei com minha tese sobre Pedagogia Espírita na USP, depois de 5 anos de tentativas, quem me ajudou foi um católico e uma judia. Professores titulares espíritas, a quem eu havia pedido para serem meus orientadores, fugiram da raia. Felizmente, honrei a confiança com que esses professores me ajudaram e minha pesquisa foi financiada pelo CNPq, tendo todos os relatórios aprovados, sem nenhum reparo. Não estou dizendo isso para me gabar, mas apenas para pontuar que o trabalho tinha respaldo e coerência.

Veja-se outra experiência nossa: pessoas amigas, espíritas, que frequentam nossos eventos, e nos elogiam e usam nossos materiais, promovem eventos grandes e pequenos de educação e não nos convidam. Outros fazem projetos, diálogos, reportagens, que contam com nosso apoio, e não nos mencionam.

E o que eu já tive de ouvir de inúmeras pessoas, inclusive próximas, amigas, parceiras, que me aconselharam a não usar o nome espírita na Pedagogia que propomos! Então, em vez de vencer o preconceito e quebrar o boicote, devemos ceder? Esconder a nossa identidade? Ou estão os próprios espíritas convencidos de que o Espiritismo é um discurso atrasado, um positivismo do século XIX ou uma ingenuidade filosófica?

Isso para não mencionar o movimento institucional espírita que também nos discrimina. Aí não é por sermos espíritas, mas por sermos críticos de um espiritismo excessivamente religioso, que perdeu a sua identidade cultural e filosófica. Ou porque adotamos posturas questionadoras e emancipadas, embora justamente por isso sejamos leais a Kardec e à sua proposta. Mas não somos chamados para o diálogo. A conspiração do silêncio também se manifesta aí.

Todo esse silenciamento e esse boicote tem consequências práticas muito óbvias: a dificuldade de nos mantermos financeiramente e levarmos adiante a proposta. Hoje, mata-se uma ideia, deixando-a à míngua de recursos financeiros. E a conspiração do silêncio têm essa função. Mas vamos resistindo com a ajuda dos que nos compreendem.

Será que estamos falando grego, perguntou uma querida amiga minha? Será que não dá para entender que estamos falando a partir de um lugar? O lugar é o Espiritismo compreendido como um projeto cultural, filosófico e sobretudo pedagógico, que tem direito à cidadania acadêmica, que tem representatividade social para aparecer na mídia, que tem consistência teórica para dialogar com outras correntes de ideias! Que a Pedagogia Espírita caminha em diálogo com as pedagogias mais avançadas da atualidade (quem promoveu um congresso para mostrar isso fomos nós mesmos, mas os que participaram e gostaram e se beneficiaram dessa participação, nem sempre reconhecem nosso valor)! Não dá para notar que não queremos doutrinar ninguém no Espiritismo, tanto que em nossos congressos falam pessoas de todas as religiões, budistas, islâmicas, judeus, afro-brasileiros e também marxistas e ateus?… E ao fazer isso, estamos justamente seguindo a proposta de Kardec, que dizia que a verdade está em toda parte? Quem tem essa postura plural em nossa sociedade? As universidades não têm! As religiões não têm. E nós temos e não somos respeitados e valorizados por isso! Obviamente que há pessoas e grupos que reconhecem nosso trabalho e nos apoiam! Não quero parecer ingrata com esses. Mas o boicote é grande.

Enfim, desabafo aqui, apenas para desabafar, porque o silêncio provavelmente deve continuar. Por isso, grito: Temos o direito de ser, de existir e de marcar um território de influência na sociedade.


Entre a Caça e o Cuidado

O personagem dessa história é Gorki, meu gato branco

O personagem dessa história é Gorki, meu gato branco

Hoje se deu uma cena em nosso café da manhã, que me levou a tecer essas reflexões e voltar ao blog, de que andei distante alguns meses, por excesso de trabalho.

Estávamos em família, na presença de meus sobrinhos, discutindo a questão do vegetarianismo e do veganismo, com prós, contras, dificuldades de adesão, perspectivas futuras etc. E então, bem nesse momento da conversa, adentrou na sala meu gato branco, Gorki, por quem sou apaixonada, e provocou uma gritaria generalizada e o choro do meu sobrinho pequeno. Triunfal e desafiador, Gorki carregava um filhote de passarinho agonizante. Um passarinho que víamos por aqui nos últimos dias, em cima do muro, alimentado pela mãe. Por alguns minutos, o bichinho se debateu entre os dentes de Gorki e depois morreu.

Grande comoção entre todos. Compaixão, repreensão ao gato, que apenas cumpria seu instinto de caça.

Mas, em cima da mesa, tínhamos peito de peru (que vem também de uma ave)…

Então pensei na distância evolutiva que nos separa do gato e considerei que de fato devemos superar rapidamente esse instinto de caça, que nos assemelha aos felinos, tão belos, mas que ainda vivem sob o jugo do determinismo biológico e não no plano da liberdade, como nós, humanos.

O que se dá é que o ato brutal da morte – e o que é pior, da tortura que envolve a vida inteira dos animais explorados pela indústria alimentícia – está distante dos nossos olhos. Não vemos, como vimos hoje no café da manhã, o bichinho se debatendo para morrer. O produto nos chega ao prato já disfarçado. Depois de ter passado por inúmeros processos, compramo-lo numa embalagem que em nada lembra um matadouro – o que nos impede muitas vezes de tomar consciência do que estamos comendo. Ninguém hoje ali no café da manhã poderia imaginar comer o passarinho agonizando aos nossos olhos. Todos nos vimos possuídos de compaixão e náusea. E no entanto, estávamos comendo um produto que veio da carne de centenas de aves abatidas, que passaram por uma agonia muito mais cruel e prolongada do que a experimentada ali pelo pássaro, caçado por Gorki.

Hoje, graças à internet, às redes sociais, aos vídeos no youtube, às campanhas virtuais, podemos diminuir essa distância que existe entre aquilo que comemos e a origem dessa comida. Matadouros, indústrias alimentícias frequentam aos montes nossas páginas, provocando a indignação de muitos. Assim, vemos que cada vez mais pessoas no mundo tem se comovido com o sofrimento dos animais e tem se engajado em movimentos de abolição da carne na dieta humana. Está crescendo essa consciência a olhos vistos. Mas há outros tantos que zombam, riem e se refugiam em bifes sangrentos, afirmando que a carne se alimenta da carne.

Se um dia foi necessário, mas não absolutamente imprescindível do ponto de vista biológico (porque nosso intestino longo indica que somos naturalmente herbívoros), que nos alimentássemos da matança de animais, hoje sabemos cientificamente que não temos precisão de carne para sobrevivermos fortes e saudáveis. Ao contrário, a carne – sobretudo a vermelha e sobretudo essa carne industrializada cheia de hormônios e antibióticos – é mesmo prejudicial à saúde.

Já estamos a milhares de anos de nossa entrada no reino humano e continuamos exercendo nosso instinto de caça. Mas é verdade que, nesses milhares de anos, aprendemos também a cuidar. E cuidamos (embora muitos ainda torturem, abandonem e até os comam) de gatos, cachorros, passarinhos, cavalos… Nossa atitude em relação aos animais revela bem nosso estado evolutivo. Caçadores brutais aprendendo pouco a pouco a cuidar dos outros seres vivos. Estamos no meio do caminho, mas urge avançar com mais afinco na direção de superar os instintos felinos, para assumirmos nossa posição de humanos cuidadores.

É verdade que o caminho é difícil: o atavismo da carne, o cheiro do sangue ainda atrai a muitos. Há ainda tantos nesse mundo que não se satisfazem apenas com o sague dos animais, mas ainda se embriagam com o sangue humano, nas guerras, nos massacres, nos assassinatos individuais ou em massa.

E o instinto de caça não se manifesta tampouco apenas na matança de animais: quando vemos homens estuprando mulheres ou pedófilos roubando a inocência da infância – todos esses gestos, que povoam fartamente nosso mundo, revelam o quanto de brutalidade existe ainda nos seres humanos.

O que poderia então nos levar a um mundo em que essa selvageria toda passasse a ser um pesadelo do passado? O que fazermos para caminhar firmemente na direção do cuidar, superando a fase da caça?

A resposta como sempre está na educação

A nossa educação é, como sempre costumo dizer, um processo de dessensibilização. As crianças que hoje presenciaram a morte do passarinho ficaram extremamente compadecidas e tocadas. O mais novo ficou mais chocado. O mais velho menos. Esse mais velho, anos atrás, me disse que eu não deveria nunca jogar chicletes nas ruas, porque os passarinhos poderiam se confundir, pensando que fosse algo realmente doce e enroscarem o bico no chiclete, morrendo de fome ou sufocados. Na semana passada, flagrei-o querendo jogar o chiclete no jardim e perguntei: você não me disse que não era para fazer isso? Resposta: “eu não estou ligando muito mais para isso”.

O que faz com que a criança “não ligue mais para as coisas” diante das quais ela costumava se mostrar sensível, indignada, curiosa, perguntadeira, engajada? É justamente esse processo de escolarização que mata a sensibilidade, embota a compaixão, cala a indagação e abafa a investigação.

Claro, de um lado o embotamento provocado pela escola, do outro a excitação dos instintos de caça, agressividade e posse, através de certos filmes, jogos, propagandas na TV… e de outro ainda, o despertar do atavismo milenar que todos trazemos de um passado de violência e dominação… e estão feitos o homem e a mulher (embora mais o homem) insensíveis, competitivos, caçadores, que tratam o outro – ser humano ou animal – como coisa a ser conquistada, destruída, devorada.

Há um lado divino em todos nós que se manifesta na primeira infância – são raras as crianças, que por um ímpeto do passado ou por uma violência sofrida agora, se mostram insensíveis. Esse lado divino, que chora com a morte de um passarinho, tem que ser mantido, estimulado… Esse lado divino não poderia sucumbir, e sucumbe, numa família negligente, apenas preocupada com valores materiais; numa escola seca, competitiva; numa sociedade de consumo em que a própria criança nada vale, porque nos interessa apenas fazer dela um consumidor obeso e desejante…

A criança que mantivesse a sua compaixão pelos animais, a criança que fosse estimulada em sua sensibilidade diante da natureza, a que fosse garantida uma formação sólida, crítica e consciente – essa criança será, sem nenhum sacrifício, vegetariana.

É para isso que esperamos caminhar!


Como e por que sou anarquista – pequena cartilha política

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Em tempos de discussão política, de diferentes pautas e interesses, que se entrecruzam e se misturam, às vezes de maneira confusa e imprecisa, é bom pontuar algumas ideias e marcar uma posição mais clara.

Digo isto, porque embora tenha ficado a princípio muito satisfeita e entusiasmada com o despertar do povo, saindo às ruas e reivindicando direitos, logo fui ficando menos empolgada, ao verificar que a maioria tem insatisfações genéricas, que as reivindicações vão da esquerda à direita, misturadas, e muitas vezes, mostrando a mesma alienação de sempre. Ou seja, embora tenha notado com alegria que há muita gente mais conscientizada, ainda percebe-se que há muitos outros conservadores de plantão que se dividem em duas classes: a dos que têm interesses próprios no sistema vigente e a dos que simplesmente não têm consciência política (ou seja, são alienados), por falta de formação e de informação! Alguns padecem simultaneamente dos dois problemas.

Como esse não é um espaço para um tratado profundo sobre o assunto, apenas quero deixar algumas definições básicas, úteis para quem não está habituado a certas reflexões.

Em primeiro lugar, quero definir como conservadores (ou de direita) aqueles que não conseguem ou não querem elaborar uma crítica ao sistema econômico globalizado em que vivemos. Podem criticar a corrupção (e criticam de preferência e com mais ênfase a do PT), podem querer genericamente mais saúde e educação, podem estar conscientes de alguns absurdos crônicos do cenário da política brasileira. Mas não vão além. Não percebem que por trás de políticos corruptos no Brasil e mesmo por trás de alguns possíveis bem intencionados, há as corporações e os bancos, que comandam o sistema mundial, diante de quem os governos nada podem. Mesmo um Obama é um marionete do sistema, sem muito o que fazer diante dos lobies econômicos, da força das indústrias de armas, dos banqueiros internacionais… Entre esses conservadores, pode haver os que acreditam nas instituições democráticas e não gostariam de uma ditadura (ditadura explícita, porque já vivemos numa ditadura econômica). Mas há também os radicais, que sentem saudades do militarismo (e agora soubemos da formação de um partido militar no Brasil!!!), que querem o fechamento do Congresso e coisas assim… Esses naturalmente não dão a mínima para aqueles que foram torturados, assassinados e desaparecidos nos tempos da repressão e ainda acham que comunistas comem criancinhas!

Em seguida, vamos apalpar um pouco o outro lado, que também junta muitas posições: a esquerda. Direita e esquerda são distinções que nasceram na Revolução Francesa e têm mostrado diferentes agendas nos últimos dois séculos. Por exemplo, aquela esquerda dos tempos da Guerra Fria, simplesmente não existe mais, porque ela era polarizada pela União Soviética. Hoje, a esquerda pode representar posições bem mais sofisticadas e variadas. Mas em todas as esquerdas, existe a consciência de que vivemos numa sociedade estruturalmente injusta, de que o capitalismo é excludente, perverso, porque centrado no lucro, na exploração, onde o ser humano nada vale, como objeto descartável do mercado. De algumas décadas para cá, a esquerda também se acresceu de uma consciência ecológica, porque além de massacrante em relação ao ser humano, o sistema capitalista é predatório da natureza, esgotando os recursos naturais da Terra (consciência, por exemplo, que uma esquerda marxista da década de 50 não tinha).

Entre as esquerdas marxista ou socialista, distinguem-se as revolucionárias, (em claro desuso atualmente) que pregam ou praticam o uso das armas para derrubar esse sistema e as reformistas, que pela eleição pensam chegar ao poder e transformar as coisas. É o que o PT prometia.

Entre as esquerdas, está o anarquismo, posição que adoto desde jovem.

 O que é o anarquismo?

O anarquismo partilha com todas as outras posições de esquerda a ojeriza ao sistema econômico capitalista, em que somos escravos do mercado de consumo, com uma doutrinação maciça da imprensa (que também é feita de corporações interessadas no lucro e não na verdade e no bem coletivo), num mundo globalizado em que a suposta liberdade econômica é sim o domínio de uns poucos sobre povos inteiros.

Mas, ao contrário de socialistas e comunistas, os anarquistas não acreditam que o Estado possa ajudar a reverter esse sistema econômico injusto, porque o Estado já nasceu e sempre esteve a serviço dele. Um dos grandes anarquistas (e nesse caso anarquista cristão, partidário da não-violência) cujas ideias esposo e admiro, Lev Nikolaievitch Tolstoi, mostrava que o Estado é assentado na violência, porque ele precisa de exército e polícia para funcionar – ora, essa violência pode ser a toda hora voltada contra o cidadão (vimos isso fartamente nas manifestações havidas recentemente), porque o poder quer sempre se manter do poder, e, para manter-se, usa de violência. Para Tolstoi, a própria existência do Estado é contra a mensagem de Jesus, se a entendermos como uma mensagem de amor e não-violência, na medida em que o Estado é naturalmente bélico e repressor. Mesmo a suposta justiça, promovida pelo Estado, segundo Tolstoi, longe de ser uma proposta educativa, é uma vingança social. (Ele escreveu um livro belíssimo sobre o assunto: Ressurreição.)

O anarquismo propõe que o ser humano é capaz de gerir a si mesmo, em cooperativas, associações livres, em relações igualitárias e fraternas. A parafernália do Estado, com seu cortejo de políticos vivendo às custas da nação, com seus exércitos, com suas polícias repressoras, com os impostos que todos são obrigados a pagar (e isso no Brasil ainda é pior que em alguns outros países), tudo isso são coisas perfeitamente dispensáveis, quando poderíamos viver nos organizando fraternalmente.

Já vejo o muxoxo de desprezo de muitos, dizendo que a ideia pode ser muito bonita; mas utópica, irrealizável.

Pessoalmente, só acho que ela seja realizável através da educação, formando gerações que cresçam com autonomia, confiantes em si mesmas, praticantes desde cedo da cooperação e da fraternidade, ao invés da competição que o sistema atual estimula.

É óbvio que a concepção anarquista se baseia numa visão otimista do ser humano, em que o mal e o crime são muito mais produtos de uma sociedade injusta, mal organizada e de uma educação deformante, do que algo intrínseco ao ser.

Como acredito na perfectibilidade humana e sei que uma educação libertadora e crítica, estimuladora de bons sentimentos e de valores humanos, pode acelerar essa capacidade de autonomia e bondade, sou anarquista agora, por ética pessoal, na medida do possível e do factível, e a médio e longo prazo, acredito que o anarquismo é o antissistema a ser alcançado num futuro não muito distante.

O que chamo de anarquismo por ética pessoal é o seguinte: mesmo vivendo numa sociedade altamente dominada por poderes econômicos e políticos, repressores da liberdade humana, viver de forma contrária a esse sistema. Por exemplo, não assisto à TV, não sou manipulada pela mídia, não estabeleço relações de hierarquia com ninguém. Nunca trabalhei em algo e por algo que contrariasse meus princípios (atitude que Tolstoi e Gandhi chamavam de não-colaboração com o mal), orgulho-me de ter recusado duas vezes um emprego na Veja, e isso mesmo quando estive em necessidade financeira. Procuro na medida do possível resistir na alimentação, no consumo, no cotidiano às imposições do mercado. Na família, no trabalho, nas relações pessoais procuro formas horizontais de troca e respeito, recusando posições de mando, o que não quer dizer recusar liderança. Há grande diferença entre ser chefe e ser líder. O comando se impõe e se faz valer por meios coercitivos, a liderança se conquista por mérito em alguma área ou por algum carisma pessoal e são os outros que lhe dão. O comando se quer a qualquer custo, a liderança se ganha espontaneamente.

E sobretudo, milito o tempo todo para acordar consciências e através da educação, de crianças, jovens, adultos, restituir ao ser humano a crença em si mesmo, em sua capacidade de se autogerir, de criticar, de questionar, derrubando gurus que manietam o livre pensar, denunciando mercadores de ideias e de ideologias, mostrando como as instituições (mesmo as espíritas, cito porque me considero espírita sempre) acabam por se cristalizar em poderes e disputa de poderes, massacrando a espontaneidade do ser humano e a espiritualidade despojada e simples, que é a única que nos eleva.

Gosto do anarquismo, porque ele é multifacetado, livre, não tem cartilhas fechadas, é aberto a experiências pessoais e coletivas, como considero que é nosso processo de maturação espiritual no decorrer das vidas. Acho mesmo que para ser anarquista é preciso, como Tolstoi propunha, ser cristão na essência do termo. Não o cristianismo institucionalizado, dogmático, igrejeiro. Mas o cristianismo de fraternidade real, em que o ser humano se despoje do seu desejo de dominar, explorar e ferir o outro, para entregar-se a vivências de ajuda mútua, cooperação e… o que afinal propunha Jesus: amor ao próximo como a si mesmo. Só isso!