Arquivo da categoria: Educação

De mulheres para outras mulheres (E para homens também…)

tumblr_l4t9uxoqUZ1qa944oo1_1280

Entre as inúmeras amizades virtuais que tenho Brasil afora, uma mulher, pessoa de muito valor, de muita garra e inteligência, me enviou esse texto abaixo. Tem a força da experiência vivida, tem a moral de quem superou as armadilhas do caminho. Assim, com sua autorização, retirei nomes, datas e locais, que pudessem identificá-la, e estou publicando aqui esse texto forte e verdadeiro.

Comento de minha parte que, como mulher, vivi exatamente o contrário dessa amiga. Mas o contrário, que revela a mesma coisa. Como na adolescência, comecei a engordar, (e era a “moby” para alguns meninos, inclusive familiares), como usava óculos (e minha mãe teimava em comprar os mais baratos e mais feios), como já aos 13 anos de idade, era precoce em leituras espíritas e filosóficas, como era estranha em gostos musicais, como ópera e música clássica, então sofri o completo desinteresse masculino. Porque em sua maioria, os homens não se interessam por meninas muito inteligentes e menos ainda por aquelas, cujas curvas não correspondem aos padrões mediáticos contemporâneos (por sinal, cada vez mais anoréxicos e menos femininos!), não era devorada com os olhos, como conta minha amiga, mas era enregelada nas paqueras.

Hoje, aos 52 anos, plenamente reconciliada com meus quatro olhos, com meus quilinhos a mais, com minha intelectualidade, que tem me ajudado a cumprir minha tarefa existencial, sem deixar meu lado feminino de lado, posso me juntar a esse texto abaixo, para protestar contra o machismo ainda reinante na sociedade.

Na semana passada mesmo, apanhei de relance um rapaz de um estacionamento, onde estava pegando meu carro em SP, comendo com os olhos uma menina que passava descuidada. A cena, que só eu percebi, me provocou asco e revolta. Isso é uma característica majoritária do gênero masculino, não importando a orientação sexual, pois os gays também devoram os bonitões com os olhos. Mulheres em geral não fazem isso.

Realmente, o desejo e a atração fazem parte integrante do instinto sexual e podem ser o primeiro impulso para o outro. Entretanto, se esse desejo e essa atração forem assim devastadores, invadindo o campo vibratório do outro, arrancando a roupa do outro com os olhos; quando não se enxerga, em suma, o outro em si, como pessoa, mas apenas como um pedaço de carne, então de fato, há um desrespeito, há um roubo da integridade alheia. E se isso resulta em ação (e se não se aprende a sublimar o desejo e a refiná-lo com o sentimento, é isso que acontece), então, pode-se resvalar para o crime, como o estupro, o assédio, o abuso…

A educação tem que começar a lidar com isso, tornando o gênero masculino menos bruto e o gênero feminino menos suscetível a essas investidas. Lembro-me que quando morava na Alemanha, em plena adolescência, e frequentava a escola em Berlim, havia professoras mulheres, que nos ensinavam que se algum homem nos abordasse na rua com intenções violentas, deveríamos acertar com um chute as suas partes íntimas. Eu, que vinha de uma cultura latina, achava esses conselhos por demasiado brutais. Mas, passados tantos anos, vemos no mundo todo, incluindo no Brasil, tantas violências ainda cometidas contra as mulheres, que chego a questionar se não seria, às vezes, bom muni-las de defesas até físicas contra isso. Embora considere que o melhor ainda será fazermos homens mais sensíveis (como os há hoje muitos nas novas gerações), o que não significa efeminados, mas pessoas mais equilibradas sexualmente, que saibam apreciar as qualidades femininas, com respeito, partilhando conosco a existência, em amor igualitário, amizade sincera e parceria mútua. Mas para os machistas, qualquer sensibilidade é sinal de bichice, termo usado sempre com muita ironia. Aliás, a identidade do machão se firma geralmente no desprezo ao que é feminino, num estranho paradoxo, de querer tomar posse daquilo que se odeia.

Mas, vamos, ao texto, que fala de uma experiência dura, felizmente superada. Hoje, essa amiga é casada com um cavalheiro, que a ama, a admira e a respeita, como ser humano e como mulher:

 “Só agora, mais próxima dos 50 que dos 40, me sinto à vontade para escrever as linhas que se seguem. Talvez, antes disso, me faltasse a consciência sobre diversos fatos ocorridos, seu sentido mais profundo, nesta minha trajetória de mulher. Aliás, provavelmente eu ainda sequer perceba algumas das sutilezas do destino, os mil e um porquês nos pequenos fatos que existem dentro de um cotidiano feminino, cheio de sonhos, lutas, medos e cansaços.

Tudo bem, pois não pretendo desvelar a totalidade, mas apenas pincelar alguns relatos, refletir sobre algumas questões.

Creio, ainda, que minha maior esperança no texto não se circunscreva tão somente a um desabafo cor-de-rosa, falando do quanto a música Maria Maria, do Milton Nascimento diz muito mais do que aparenta, num primeiro momento, mas [quem sabe?] um relato que venha deixar um pouco mais à mostra algumas das armadilhas soltas à margem dos caminhos da vida, prontas para abocanhar nossas pernas depiladas, tão ao gosto da publicidade contemporânea.

Aos 14 anos de idade, percebi o quanto meu corpo estava se alterando, com curvas mais acentuadas dentro do velho agasalho da escola. Era estranho tomar banho e olhar para a lateral do quadril sem conseguir enxergar a parte de cima da própria coxa, por conta do alargamento ósseo. Confesso que não achei isso bonito e já começava a sentir saudade do meu corpo de criança, tão conhecido e “normal”.

O problema é que outros também perceberam que eu já não era mais uma menina [no corpo, somente!], causando-me constrangimentos constantes. Nas ruas, alguns homens me assediavam, como se eu fosse um pedaço de carne fincado no espeto, pronto para ser devorado por qualquer esfomeado que aparecesse pela frente.

Como uma menina de quatorze anos que até então brincava na rua de lazer junto de outras meninas e meninos, descendo ladeiras com rolimãs e skates, confesso que não conseguia entender aquelas investidas, chegando em casa muitas s assustada, com medo de que alguém pudesse me sequestrar, violentar ou, quem sabe, assassinar. Embora nunca tivesse me preocupado com aquele assunto, precisei começar a prestar atenção no jeito dos homens que se aproximavam, sob risco de ser vítima de algum deles, em qualquer lugar que fosse.

Talvez os homens jamais saberão o que é sentir este terror diário, o medo de andar nas ruas, por conta destas torturas morais constantes, quando se tem apenas 14 anos de idade… Talvez eles até tentem imaginar, quem sabe…mas, o certo é que todos aqueles que se sentem no direito de ameaçar a paz de uma menina, dizendo ou fazendo gestos erotizados, são pessoas com desvios morais, alimentados por esta escória midiática, que torna o corpo da mulher um objeto qualquer, sem sentimentos, nem direitos ou fragilidades psíquicas.

E o que se seguiu a partir dali não foi melhor.

Então, com meus 15 anos, para chegar na escola, precisava usar metrô e ônibus na já atribulada São Paulo, chegando aos portões do colégio até, no máximo 7:15h. No inverno, esta saga tornava-se algo ainda mais perigoso, pois de casa até a estação Jabaquara do metrô, levava cerca de 10 minutos andando a pé, num final de madrugada escuro, sem o sol para iluminar minha ansiedade.

Só Deus sabe quantas preces eu fiz pelo caminho, implorando ao anjo da guarda me protegesse. Aliás, se estou aqui escrevendo esta história, deve ser por conta dessa ajuda silenciosa, porém, constante.

Neste período comecei a ser ameaçada por um homem, que disparava atrás de mim, falando palavras que eu nunca antes imaginei existir, mesmo sabendo o quanto eram baixas, tenebrosas e ameaçadoras.

Foram tantas corridas, largando cadernos pelo caminho, a fim de conseguir maior velocidade, que cheguei a desistir dos estudos naquele ano. Eu sabia que a qualquer momento poderia ser pega por algum maluco, sem conseguir voltar para casa.

Nesta época, meus pais moravam num sítio, no interior do Estado, então ficava com minha avó. Não tinha ninguém para me acompanhar pelo caminho.

Foi quando minha irmã, já casada, me convidou para ir morar numa pacata cidade do interior, com seus até então 20.000 habitantes. É verdade que os sons rotineiros de sapos e grilos de lá me eram entediantes, porém me sentia mais segura para andar pelas ruas, o que, por si só, já fazia tudo valer a pena.

Apesar das perdas doloridas, tais como o afastamento de amizades, escola e parentes, aceitei.

Lá completei meus 16 anos. Quantos sonhos numa mente juvenil! Queria conhecer um rapaz especial, do tipo príncipe encantado, namorar, poder viver em paz. Durante o dia, trabalhava no banco como auxiliar de aplicações, estudando à noite, numa escola não tão boa como a que estivera matriculada, anos antes. Sem problemas!

Foi quando conheci aquele que seria meu primeiro marido. Moço jovem, com seus vinte e dois anos, irmão de uma amiga. Logo percebi que ele tinha um temperamento forte, mas ainda assim me trazia flores, bombons e muitas juras de amor. Que mais eu poderia querer? Hoje sei que muito, muito mais, claro! Porém, lá ia eu enfiando a perna numa das arapucas abertas do caminho.

Comemoramos o terceiro mês de namoro e uma notícia bombástica chegou aos meus ouvidos: meus pais iriam se mudar para o Acre. E queriam que eu fosse junto com eles, lógico. Implorei, me deixassem morando com a minha irmã, porém, meu pai, homem tradicional, nascido na década de 20, com sua vida orientada pelo lema: “filha minha só sai da tutela do pai se for para a tutela do marido” – disse que eu só ficaria, se estivesse casada.

Não pensei duas vezes. Preparei o possível e me casei, em dois meses, apenas.

Realmente, saí da tutela de um homem, para a tutela de outro, só que bem pior.

Nos primeiros meses, engravidei da minha primeira filha. Depois disso, uma nova sentença masculina ecoava em mês ouvidos: “Mulher minha não trabalha nem estuda…Fica apenas em casa, cuidando das coisas e dos filhos!”

Num primeiro momento, não tive forças para mudar isso. Nem sabia que seria possível, aliás.

Na primeira grande discussão, um susto: sacou uma arma, apontou na minha direção, dizendo que se eu fosse embora, me mataria.

Foi quando, ainda grávida, apanhei dele pela primeira vez. Foram vários tapas, porque ousei dizer que ele não poderia falar mal dos meus pais. Na segunda vez, porque não quis manter relações sexuais no final da gravidez. Por último, com minha filha ainda pequena, pois o acordei no meio da noite. Estava roncando alto demais e minha filha tinha o sono muito leve.

Chorei “para dentro”, jurando ser aquela a última vez.

Fiquei com diversas marcas roxas, que me deram força para alterar os rumos.

Dois anos depois, com minha filha na escola em meio período, consegui convencê-lo de que iria trabalhar com a irmã dele, como sacoleira. Consegui algum dinheiro emprestado, peguei meu carro e segui para São Paulo. Comprei duas sacolas cheias de roupas e voltei, indo na casa das clientes, vendendo a mercadoria. Dali a dois anos já conseguia me sustentar. Saí de casa, e nunca mais voltei para lá. Deixei tudo para trás: casa, herança, objetos, tudo! Mas levei minha dignidade e minha filha. Era só do que precisava.

Hoje, olhando para trás, percebo a ação nem sempre positiva dos homens em minha vida, empurrando-me para situações incontroláveis, quando vistas sob a ótica de uma menina.

Já amadurecida pelos anos e experiências, hoje sei que só me tornei quem sou por causa do que vivi. Entretanto, também sei que não precisaria ser assim… Existem mil caminhos para a maturidade, mais leves e amorosos. Se consegui me livrar das arapucas armadas, foi porque existe e já existia em mim aquilo que hoje a Psicologia chama de resiliência. Muitas vezes vi minha mãe dando a volta por cima, com força, com garra impressionante! Isso deve ter me inspirado, para além do que ela possa imaginar.

Se existe algo ainda a comentar é que sim – o mundo continua machista. As mulheres ainda enfrentam diversos desafios apenas por serem mulheres. Ganham menos, trabalham mais, enfrentam preconceitos e perseguições. A mídia ainda produz psicopatas nas ruas e nos bares – Homens que veem as mulheres como simples objetos, pedaços de carne animada apenas para o sexo. Os homens ainda controlam as coisas por aí. São reconhecidos com maior rapidez no meio acadêmico e fora dele. Têm a palavra, o poder social.

E nós, mulheres, o que temos?

Muito mais que eles! Pena que ainda não nos demos conta disto!

Temos os filhos que formarão o mundo de amanhã. Temos o poder de ensiná-los que justiça se faz em todos os lugares, com todos os seres. Podemos ajudá-los a entender que a mulher tem direitos, muitos direitos, assim como eles, e que precisam ser respeitadas, cuidadas e honradas, como eles desejam ser.”

Anúncios

Entre a Caça e o Cuidado

O personagem dessa história é Gorki, meu gato branco

O personagem dessa história é Gorki, meu gato branco

Hoje se deu uma cena em nosso café da manhã, que me levou a tecer essas reflexões e voltar ao blog, de que andei distante alguns meses, por excesso de trabalho.

Estávamos em família, na presença de meus sobrinhos, discutindo a questão do vegetarianismo e do veganismo, com prós, contras, dificuldades de adesão, perspectivas futuras etc. E então, bem nesse momento da conversa, adentrou na sala meu gato branco, Gorki, por quem sou apaixonada, e provocou uma gritaria generalizada e o choro do meu sobrinho pequeno. Triunfal e desafiador, Gorki carregava um filhote de passarinho agonizante. Um passarinho que víamos por aqui nos últimos dias, em cima do muro, alimentado pela mãe. Por alguns minutos, o bichinho se debateu entre os dentes de Gorki e depois morreu.

Grande comoção entre todos. Compaixão, repreensão ao gato, que apenas cumpria seu instinto de caça.

Mas, em cima da mesa, tínhamos peito de peru (que vem também de uma ave)…

Então pensei na distância evolutiva que nos separa do gato e considerei que de fato devemos superar rapidamente esse instinto de caça, que nos assemelha aos felinos, tão belos, mas que ainda vivem sob o jugo do determinismo biológico e não no plano da liberdade, como nós, humanos.

O que se dá é que o ato brutal da morte – e o que é pior, da tortura que envolve a vida inteira dos animais explorados pela indústria alimentícia – está distante dos nossos olhos. Não vemos, como vimos hoje no café da manhã, o bichinho se debatendo para morrer. O produto nos chega ao prato já disfarçado. Depois de ter passado por inúmeros processos, compramo-lo numa embalagem que em nada lembra um matadouro – o que nos impede muitas vezes de tomar consciência do que estamos comendo. Ninguém hoje ali no café da manhã poderia imaginar comer o passarinho agonizando aos nossos olhos. Todos nos vimos possuídos de compaixão e náusea. E no entanto, estávamos comendo um produto que veio da carne de centenas de aves abatidas, que passaram por uma agonia muito mais cruel e prolongada do que a experimentada ali pelo pássaro, caçado por Gorki.

Hoje, graças à internet, às redes sociais, aos vídeos no youtube, às campanhas virtuais, podemos diminuir essa distância que existe entre aquilo que comemos e a origem dessa comida. Matadouros, indústrias alimentícias frequentam aos montes nossas páginas, provocando a indignação de muitos. Assim, vemos que cada vez mais pessoas no mundo tem se comovido com o sofrimento dos animais e tem se engajado em movimentos de abolição da carne na dieta humana. Está crescendo essa consciência a olhos vistos. Mas há outros tantos que zombam, riem e se refugiam em bifes sangrentos, afirmando que a carne se alimenta da carne.

Se um dia foi necessário, mas não absolutamente imprescindível do ponto de vista biológico (porque nosso intestino longo indica que somos naturalmente herbívoros), que nos alimentássemos da matança de animais, hoje sabemos cientificamente que não temos precisão de carne para sobrevivermos fortes e saudáveis. Ao contrário, a carne – sobretudo a vermelha e sobretudo essa carne industrializada cheia de hormônios e antibióticos – é mesmo prejudicial à saúde.

Já estamos a milhares de anos de nossa entrada no reino humano e continuamos exercendo nosso instinto de caça. Mas é verdade que, nesses milhares de anos, aprendemos também a cuidar. E cuidamos (embora muitos ainda torturem, abandonem e até os comam) de gatos, cachorros, passarinhos, cavalos… Nossa atitude em relação aos animais revela bem nosso estado evolutivo. Caçadores brutais aprendendo pouco a pouco a cuidar dos outros seres vivos. Estamos no meio do caminho, mas urge avançar com mais afinco na direção de superar os instintos felinos, para assumirmos nossa posição de humanos cuidadores.

É verdade que o caminho é difícil: o atavismo da carne, o cheiro do sangue ainda atrai a muitos. Há ainda tantos nesse mundo que não se satisfazem apenas com o sague dos animais, mas ainda se embriagam com o sangue humano, nas guerras, nos massacres, nos assassinatos individuais ou em massa.

E o instinto de caça não se manifesta tampouco apenas na matança de animais: quando vemos homens estuprando mulheres ou pedófilos roubando a inocência da infância – todos esses gestos, que povoam fartamente nosso mundo, revelam o quanto de brutalidade existe ainda nos seres humanos.

O que poderia então nos levar a um mundo em que essa selvageria toda passasse a ser um pesadelo do passado? O que fazermos para caminhar firmemente na direção do cuidar, superando a fase da caça?

A resposta como sempre está na educação

A nossa educação é, como sempre costumo dizer, um processo de dessensibilização. As crianças que hoje presenciaram a morte do passarinho ficaram extremamente compadecidas e tocadas. O mais novo ficou mais chocado. O mais velho menos. Esse mais velho, anos atrás, me disse que eu não deveria nunca jogar chicletes nas ruas, porque os passarinhos poderiam se confundir, pensando que fosse algo realmente doce e enroscarem o bico no chiclete, morrendo de fome ou sufocados. Na semana passada, flagrei-o querendo jogar o chiclete no jardim e perguntei: você não me disse que não era para fazer isso? Resposta: “eu não estou ligando muito mais para isso”.

O que faz com que a criança “não ligue mais para as coisas” diante das quais ela costumava se mostrar sensível, indignada, curiosa, perguntadeira, engajada? É justamente esse processo de escolarização que mata a sensibilidade, embota a compaixão, cala a indagação e abafa a investigação.

Claro, de um lado o embotamento provocado pela escola, do outro a excitação dos instintos de caça, agressividade e posse, através de certos filmes, jogos, propagandas na TV… e de outro ainda, o despertar do atavismo milenar que todos trazemos de um passado de violência e dominação… e estão feitos o homem e a mulher (embora mais o homem) insensíveis, competitivos, caçadores, que tratam o outro – ser humano ou animal – como coisa a ser conquistada, destruída, devorada.

Há um lado divino em todos nós que se manifesta na primeira infância – são raras as crianças, que por um ímpeto do passado ou por uma violência sofrida agora, se mostram insensíveis. Esse lado divino, que chora com a morte de um passarinho, tem que ser mantido, estimulado… Esse lado divino não poderia sucumbir, e sucumbe, numa família negligente, apenas preocupada com valores materiais; numa escola seca, competitiva; numa sociedade de consumo em que a própria criança nada vale, porque nos interessa apenas fazer dela um consumidor obeso e desejante…

A criança que mantivesse a sua compaixão pelos animais, a criança que fosse estimulada em sua sensibilidade diante da natureza, a que fosse garantida uma formação sólida, crítica e consciente – essa criança será, sem nenhum sacrifício, vegetariana.

É para isso que esperamos caminhar!


A história da árvore generosa

Imagem

Para os que acham a árvore masoquista

Ontem, em nossa oficina de educação para a vida e para a morte, com o tema A Criança diante da Morte, com Franklin Santana Santos e eu, no Espaço Pampédia, houve uma discussão fecunda sobre um livro famoso e belo: A Árvore Generosa, de Shel Silverstein (Editora Cosac Naify). Bons livros infantis são assim: têm múltiplos alcances, significados, atingem de 8 a 80 anos, porque falam de coisas essenciais e profundas. Houve intensa discordância quanto à mensagem dessa história, sobre a qual já queria escrever há muito.

Para situar o leitor que não leu (mas recomendo ler), repasso aqui a sinopse do livro:

“’A árvore generosa’ traz o clássico de 1964 que conta a história do amor entre uma árvore e um menino. A árvore é a amiga amorosa que dá tudo ao menino, suas folhas, seus frutos, sua sombra. O menino também ama a árvore, a grande companheira de todos os dias; sobe em seu tronco, se pendura nos galhos, brinca de esconde-esconde. Até que vai crescendo, se torna adolescente, depois adulto. E, pouco a pouco, deixa a amiga de lado. ‘Estou grande demais para brincar’, diz o menino, que então precisa de dinheiro para comprar ‘muitas coisas’. A árvore fornece suas maçãs, para o jovem vender. Depois seus galhos, para o homem construir sua casa. E a história acompanha o passar do tempo até a velhice do homem – que até o fim, já bem velho e cansado, é chamado de menino pela árvore.”

A história retrata uma relação de amor que, de início, quando o personagem é menino, é recíproca, mas depois, quando cresce, vai se tornando uma doação unilateral, pois a árvore dá, se dá, se doa, fica feliz de se oferecer e se sacrificar pelo seu menino, mas o menino, adulto, maduro, só tira, só recebe, sem lhe dar nada em troca. Mas sempre volta para sua árvore e lhe pede mais. Quando ela não tem mais nada para dar e se tornou apenas um toco e ele está velho e cansado, ainda ela lhe serve para ele se sentar e se confortar. E ela se sente sempre feliz em se doar para o seu menino.

O que ressalta à primeira vista na leitura é a oferta irrestrita da árvore (generosa) e o egoísmo depredatório e indiferente do menino, que cresceu, mas continua menino para sua árvore. Aliás, é sintomático que ele continue até o fim do livro, sendo chamado de menino, porque embora velho, ainda se comporta como um menino mimado, incapaz de assumir uma responsabilidade de amor com quem tanto lhe deu. Ela cuida e ele se descuida. Ela se oferece e ele vai embora. Ele volta e ela exulta, mas ele volta apenas para pedir mais. Ela quer vê-lo feliz e não mede sacrifícios para isso, ele se comporta de forma indiferente à dor que ela sente, ao vê-lo partir.

Claro que o comportamento do menino é revoltante, mas a atitude da árvore é divina. Uma atitude de amor pleno, de entrega total, de esquecimento de si, pelo ser que ama. Uma atitude aliás muito mal vista e mal compreendida no mundo atual, onde amor não pode incluir sacrifício e renúncia, mas apenas troca calculada e medida.

Existe, é verdade, um único tipo de amor que não comporta a entrega plena sem reciprocidade nenhuma: é o amor entre um casal. Nesse campo, é preciso haver um equilíbrio, embora possa um dos dois, que tiver maior maturidade espiritual, exercer uma doação maior. Mas se houver um descompasso muito grande, dá-se a anulação e a exploração, a desvalorização do outro. A reciprocidade do amor num casamento, numa relação a dois, é uma necessidade para a sua sobrevivência. Fora isso, o amor pode se libertar de qualquer espera de retorno, pode projetar a reciprocidade plena para a eternidade – o amor fraterno, o amor de amizade, o amor pedagógico e, sobretudo, o maior amor de todos, o materno (que não é exclusivo de uma mãe para com o filho, podemos experimentar o amor materno com qualquer outro ser humano), são amores que podem se soltar das amarras de cobrança e procurarem um status de divindade.

Não foi esse, por acaso, o amor de Jesus? Não é isso que propõe o cristianismo? Mais amar do que ser amado? Jesus, na cruz, dizendo: perdoai-lhes Pai, porque não sabem o que fazem não é igual à árvore entregando seus galhos para o menino egoísta? Qual o sentido desse amor? O amor que se sacrifica, que se devota, que se entrega plenamente é o amor que toca o outro, é o amor que fará um dia o menino crescer e amadurecer, sentir o quanto foi amado e aprender também a se devotar assim.

Essa árvore, ao contrário do que alguns podem pensar, não era masoquista, sobretudo porque a árvore ficava feliz em amar e se doar. Ela era sábia e sabia que seu menino ainda era mesmo um menino e teria muito o que aprender. Mas para ensiná-lo, não se nega, não recua, não repreende, não põe limites ao seu amor. Simplesmente exemplifica o que é de fato amar. Só se aprende o que é o amor pleno, recebendo esse amor de alguém. Por isso, as leis divinas fizeram as mães (embora muitas delas ainda não desenvolveram esse amor completo, e algumas até o renegam, mas ele está imanente até mesmo nos animais, porque é emanação de Deus): sem a entrega total de alguém que nos cuide e vele por nós nos primeiros anos de vida, não sobreviveríamos… Essa necessidade absoluta com que viemos ao mundo revela um momento na vida (poderá haver outros, em crises, doença, velhice e morte) em que precisamos exatamente de uma árvore generosa, que não meça sacrifícios por nós.

Mas o mundo contemporâneo tem grande dificuldade de entender e aceitar isso. Muitos, ao lerem essa história, se revoltam mais com a árvore, considerada tola, mole, masoquista, do que com o menino, egoísta e indiferente – vale dizer, imaturo. Porque nem mais as mães querem hoje ser árvores generosas! Estamos num mundo que despreza a entrega de si mesmo e prega que todos devemos exercitar o “pensar primeiro em si”. Ou seja, todo mundo tem é que se comportar como o menino. Mas se não houvesse árvores generosas, pessoas que se entregam ao próximo, que se sacrificam pelo bem e amam incondicionalmente, o mundo estaria ainda mais ressecado e vazio do que está.

Podemos ainda dizer que a árvore mais generosa do universo é Deus – amor infinito, irrestrito, pleno, o amor que cobre a multidão de pecados. Quando passarmos a entender e sentir mais Deus como amor pleno e não como um juiz punitivo, justiceiro, melhor compreenderemos e vivenciaremos esse amor divino em nós. Quem se comporta como a árvore generosa está aprendendo a ser mais perto de Deus. E os meninos mimados e egoístas crescerão. E só o amor das árvores generosas poderá curá-los e educá-los.


Como e por que sou anarquista – pequena cartilha política

Imagem

Em tempos de discussão política, de diferentes pautas e interesses, que se entrecruzam e se misturam, às vezes de maneira confusa e imprecisa, é bom pontuar algumas ideias e marcar uma posição mais clara.

Digo isto, porque embora tenha ficado a princípio muito satisfeita e entusiasmada com o despertar do povo, saindo às ruas e reivindicando direitos, logo fui ficando menos empolgada, ao verificar que a maioria tem insatisfações genéricas, que as reivindicações vão da esquerda à direita, misturadas, e muitas vezes, mostrando a mesma alienação de sempre. Ou seja, embora tenha notado com alegria que há muita gente mais conscientizada, ainda percebe-se que há muitos outros conservadores de plantão que se dividem em duas classes: a dos que têm interesses próprios no sistema vigente e a dos que simplesmente não têm consciência política (ou seja, são alienados), por falta de formação e de informação! Alguns padecem simultaneamente dos dois problemas.

Como esse não é um espaço para um tratado profundo sobre o assunto, apenas quero deixar algumas definições básicas, úteis para quem não está habituado a certas reflexões.

Em primeiro lugar, quero definir como conservadores (ou de direita) aqueles que não conseguem ou não querem elaborar uma crítica ao sistema econômico globalizado em que vivemos. Podem criticar a corrupção (e criticam de preferência e com mais ênfase a do PT), podem querer genericamente mais saúde e educação, podem estar conscientes de alguns absurdos crônicos do cenário da política brasileira. Mas não vão além. Não percebem que por trás de políticos corruptos no Brasil e mesmo por trás de alguns possíveis bem intencionados, há as corporações e os bancos, que comandam o sistema mundial, diante de quem os governos nada podem. Mesmo um Obama é um marionete do sistema, sem muito o que fazer diante dos lobies econômicos, da força das indústrias de armas, dos banqueiros internacionais… Entre esses conservadores, pode haver os que acreditam nas instituições democráticas e não gostariam de uma ditadura (ditadura explícita, porque já vivemos numa ditadura econômica). Mas há também os radicais, que sentem saudades do militarismo (e agora soubemos da formação de um partido militar no Brasil!!!), que querem o fechamento do Congresso e coisas assim… Esses naturalmente não dão a mínima para aqueles que foram torturados, assassinados e desaparecidos nos tempos da repressão e ainda acham que comunistas comem criancinhas!

Em seguida, vamos apalpar um pouco o outro lado, que também junta muitas posições: a esquerda. Direita e esquerda são distinções que nasceram na Revolução Francesa e têm mostrado diferentes agendas nos últimos dois séculos. Por exemplo, aquela esquerda dos tempos da Guerra Fria, simplesmente não existe mais, porque ela era polarizada pela União Soviética. Hoje, a esquerda pode representar posições bem mais sofisticadas e variadas. Mas em todas as esquerdas, existe a consciência de que vivemos numa sociedade estruturalmente injusta, de que o capitalismo é excludente, perverso, porque centrado no lucro, na exploração, onde o ser humano nada vale, como objeto descartável do mercado. De algumas décadas para cá, a esquerda também se acresceu de uma consciência ecológica, porque além de massacrante em relação ao ser humano, o sistema capitalista é predatório da natureza, esgotando os recursos naturais da Terra (consciência, por exemplo, que uma esquerda marxista da década de 50 não tinha).

Entre as esquerdas marxista ou socialista, distinguem-se as revolucionárias, (em claro desuso atualmente) que pregam ou praticam o uso das armas para derrubar esse sistema e as reformistas, que pela eleição pensam chegar ao poder e transformar as coisas. É o que o PT prometia.

Entre as esquerdas, está o anarquismo, posição que adoto desde jovem.

 O que é o anarquismo?

O anarquismo partilha com todas as outras posições de esquerda a ojeriza ao sistema econômico capitalista, em que somos escravos do mercado de consumo, com uma doutrinação maciça da imprensa (que também é feita de corporações interessadas no lucro e não na verdade e no bem coletivo), num mundo globalizado em que a suposta liberdade econômica é sim o domínio de uns poucos sobre povos inteiros.

Mas, ao contrário de socialistas e comunistas, os anarquistas não acreditam que o Estado possa ajudar a reverter esse sistema econômico injusto, porque o Estado já nasceu e sempre esteve a serviço dele. Um dos grandes anarquistas (e nesse caso anarquista cristão, partidário da não-violência) cujas ideias esposo e admiro, Lev Nikolaievitch Tolstoi, mostrava que o Estado é assentado na violência, porque ele precisa de exército e polícia para funcionar – ora, essa violência pode ser a toda hora voltada contra o cidadão (vimos isso fartamente nas manifestações havidas recentemente), porque o poder quer sempre se manter do poder, e, para manter-se, usa de violência. Para Tolstoi, a própria existência do Estado é contra a mensagem de Jesus, se a entendermos como uma mensagem de amor e não-violência, na medida em que o Estado é naturalmente bélico e repressor. Mesmo a suposta justiça, promovida pelo Estado, segundo Tolstoi, longe de ser uma proposta educativa, é uma vingança social. (Ele escreveu um livro belíssimo sobre o assunto: Ressurreição.)

O anarquismo propõe que o ser humano é capaz de gerir a si mesmo, em cooperativas, associações livres, em relações igualitárias e fraternas. A parafernália do Estado, com seu cortejo de políticos vivendo às custas da nação, com seus exércitos, com suas polícias repressoras, com os impostos que todos são obrigados a pagar (e isso no Brasil ainda é pior que em alguns outros países), tudo isso são coisas perfeitamente dispensáveis, quando poderíamos viver nos organizando fraternalmente.

Já vejo o muxoxo de desprezo de muitos, dizendo que a ideia pode ser muito bonita; mas utópica, irrealizável.

Pessoalmente, só acho que ela seja realizável através da educação, formando gerações que cresçam com autonomia, confiantes em si mesmas, praticantes desde cedo da cooperação e da fraternidade, ao invés da competição que o sistema atual estimula.

É óbvio que a concepção anarquista se baseia numa visão otimista do ser humano, em que o mal e o crime são muito mais produtos de uma sociedade injusta, mal organizada e de uma educação deformante, do que algo intrínseco ao ser.

Como acredito na perfectibilidade humana e sei que uma educação libertadora e crítica, estimuladora de bons sentimentos e de valores humanos, pode acelerar essa capacidade de autonomia e bondade, sou anarquista agora, por ética pessoal, na medida do possível e do factível, e a médio e longo prazo, acredito que o anarquismo é o antissistema a ser alcançado num futuro não muito distante.

O que chamo de anarquismo por ética pessoal é o seguinte: mesmo vivendo numa sociedade altamente dominada por poderes econômicos e políticos, repressores da liberdade humana, viver de forma contrária a esse sistema. Por exemplo, não assisto à TV, não sou manipulada pela mídia, não estabeleço relações de hierarquia com ninguém. Nunca trabalhei em algo e por algo que contrariasse meus princípios (atitude que Tolstoi e Gandhi chamavam de não-colaboração com o mal), orgulho-me de ter recusado duas vezes um emprego na Veja, e isso mesmo quando estive em necessidade financeira. Procuro na medida do possível resistir na alimentação, no consumo, no cotidiano às imposições do mercado. Na família, no trabalho, nas relações pessoais procuro formas horizontais de troca e respeito, recusando posições de mando, o que não quer dizer recusar liderança. Há grande diferença entre ser chefe e ser líder. O comando se impõe e se faz valer por meios coercitivos, a liderança se conquista por mérito em alguma área ou por algum carisma pessoal e são os outros que lhe dão. O comando se quer a qualquer custo, a liderança se ganha espontaneamente.

E sobretudo, milito o tempo todo para acordar consciências e através da educação, de crianças, jovens, adultos, restituir ao ser humano a crença em si mesmo, em sua capacidade de se autogerir, de criticar, de questionar, derrubando gurus que manietam o livre pensar, denunciando mercadores de ideias e de ideologias, mostrando como as instituições (mesmo as espíritas, cito porque me considero espírita sempre) acabam por se cristalizar em poderes e disputa de poderes, massacrando a espontaneidade do ser humano e a espiritualidade despojada e simples, que é a única que nos eleva.

Gosto do anarquismo, porque ele é multifacetado, livre, não tem cartilhas fechadas, é aberto a experiências pessoais e coletivas, como considero que é nosso processo de maturação espiritual no decorrer das vidas. Acho mesmo que para ser anarquista é preciso, como Tolstoi propunha, ser cristão na essência do termo. Não o cristianismo institucionalizado, dogmático, igrejeiro. Mas o cristianismo de fraternidade real, em que o ser humano se despoje do seu desejo de dominar, explorar e ferir o outro, para entregar-se a vivências de ajuda mútua, cooperação e… o que afinal propunha Jesus: amor ao próximo como a si mesmo. Só isso!


Armadilhas da fé

Imagem

Fiz nesses dias um breve passeio pela rede, em algumas línguas, para colher pessoas, ideias e informações sobre o tema Educação e Espiritualidade, de que faremos um congresso internacional no ano que vem. E depois de medir um pouco a temperatura do que anda acontecendo nesse campo, na prática, nas universidades, no mundo editorial, inspirei-me a escrever algumas reflexões sobre a espiritualidade nesse nebuloso, mas estimulante início de milênio. Considere-se aqui espiritualidade qualquer ligação com o divino, com a dimensão espiritual do ser. A espiritualidade pode ou não estar vinculada a uma religião específica. Pode-se viver a espiritualidade dentro ou fora de uma determinada corrente religiosa.

A notícia animadora é que há muita gente no mundo trabalhando pelo diálogo, pelo encontro, pela convivência respeitosa e pacífica entre as pessoas de diferentes credos, etnias, origens… Há muita gente se propondo a uma espiritualidade aberta, questionadora, crítica, que permita a busca pessoal e o respeito à consciência de cada um. Há igualmente muitos estudos sérios, acadêmicos, que demonstram que a espiritualidade pode fazer bem à saúde, trazer resiliência, aumentar a qualidade de vida, melhorar a imunidade, produzir efeitos benéficos nas relações, promover valores solidários e pacificadores. Há pessoas propondo práticas educacionais que levem em conta a diversidade de crenças e cultivem a espiritualidade das novas gerações dentro de um pluralismo saudável.

Há também uma possibilidade, antes nunca experimentada em nenhuma época histórica, do ser humano ter acesso facilmente, rapidamente, às mais antigas ou mais recentes religiões, movimentos, tradições. Está tudo on-line, em todas as línguas. Está tudo publicado, em livro impresso ou eletrônico. Em poucos segundos, podemos achar uma maravilha da poesia sufi, diversas traduções do Baghavad Gita, salmos bíblicos, preceitos da Torá, ensinamentos das mais diferentes linhas do Budismo, vídeos de líderes das mais diversas correntes… Ou seja, há fartos alimentos espirituais em toda parte, disponíveis, acessíveis.

O problema começa no fato de que no meio de toda essa oferta há muita coisa misturada, de baixa qualidade e as pessoas não têm referência e ignoram como escolher as fontes confiáveis, o alimento mais saudável para a alma, assim como não sabem muitas vezes escolher o alimento mais saudável para o corpo. Da mesma forma que temos fast foods a cada esquina, que intoxicam e provocam câncer de cólon – temos espiritualidades enganosas, que induzem à alienação e ao anestesiamento do espírito.

O que há de preocupante no cenário religioso e espiritual em praticamente todas as nações? Em primeiro lugar, o fundamentalismo cada vez mais eloquente, retrógrado e agressivo que se manifesta como um câncer dentro de todas as religiões. Em todas elas, há pessoas e movimentos abertos e progressistas e há setores que se apegam à letra, que manifestam um fanatismo perigoso e que se fecham ao diálogo e à tolerância. Essa é uma ameaça que nunca será demais denunciar – mesmo porque ela está se fazendo cada vez mais forte no Brasil com os evangélicos mais radicais – e porque está instalada em vários pontos do mundo.

Mas o outro fenômeno, talvez não tão claro para muitos, é o esgarçamento, a diluição da espiritualidade num aluvião de livrinhos, pregações, símbolos que não têm nada de espiritual, mas apenas de comercial. Ideias, apelos, movimentos inteiros que são atrativos para os olhos, sedutores para as mentes superficiais da atualidade, mas sem nenhuma consistência. Isso que eu chamo de espiritualidade light, que mistura cristais com autoajuda, que faz de padres pop stars que vendem milhões de CDs, que torna monges budistas instrutores de executivos bem-sucedidos, que promove médiuns medíocres e espalhafatosos em produtores de best-sellers… essa espiritualidade é que nas prateleiras das livrarias está misturada com livros sérios de um Leonardo Boff, com belezas de uma poesia sufi, com a profundidade de uma obra de Teresa d’Ávila!

Num mundo em que a moeda mais valiosa é a  própria moeda, a lógica da oferta da fé é uma lógica comercial. E os consumidores, como estão acostumados a consumir lixo como comida, lixo como arte, também consomem lixo como fé… A maior parte da população perdeu, ou nunca chegou a ter, por falta de uma educação que proporcione isso, a sensibilidade e o discernimento para enxergar os falsos gurus, para distinguir as tradições genuinamente enraizadas dos modismos comerciais…

Mas assim como a rede, o mercado, os livros, os vídeos oferecem todo esse alimento espiritual verdadeiramente rico, misturado a grãos apodrecidos, também nela podemos achar polêmicas, denúncias, discussões históricas sobre todas as grandes tradições. Ao mesmo tempo em que podemos nos alimentar espiritualmente de várias origens ou escolher com mais conhecimento de causa o que mais fala ao nosso coração, podemos encontrar antídotos bastante relevantes contra mistificações, charlatanismos, falsidades históricas e assim por diante. Está tudo aí, o verdadeiro e o falso, o elevado e o abusivo, o sincero e o hipócrita, o que é fruto de pesquisa séria e o que é enganação deslavada.

Como viver de fato a espiritualidade 

Mas como nos conduzirmos nesse emaranhado de ideias, ofertas e caminhos? É possível não sermos enganados? Esses enganos podem ser mais inofensivos – como achar que um livro como Código da Vinci tem respaldo histórico – ou mais graves, como entrar para alguma seita que nos faça lavagem cerebral e nos aliene da própria razão!

Aqui, algumas dicas, que considero essenciais para podermos viver uma espiritualidade construtiva, autônoma e saudável!

1) Ouçamos os ateus e os antirreligiosos: eles têm críticas que podem ser úteis para nos imunizarmos contra os que abusam da religião para explorar o próximo e para ganhar poder e dinheiro. Um pouco de ceticismo faz bem à nossa espiritualidade.

2) Desconfiemos de líderes e gurus que aceitam ser reverenciados, que ditam regras de cima, que vivem muito distanciados das pessoas comuns. As pessoas que realmente vivem numa dimensão espiritual elevada são simples, despojadas, não permitem que ninguém se humilhe diante delas…vivem próximas às outras pessoas.

3) Desconfiemos de movimentos, instituições, líderes que têm muito dinheiro. Em nosso mundo, quem luta por ideais nobres e se alinha no bem, pode usar o dinheiro de maneira saudável e construtiva, mas encontra dificuldades sempre, porque no sistema capitalista, só faz fortuna quem age dentro da lógica do sistema – ora fazer fortuna com a espiritualidade é tratá-la como mercadoria.

4) Acima de tudo, enraizemos nossa espiritualidade em nós mesmos e não no outro. Para isso, é preciso ter tempo para vivenciá-la: tempo para orar, tempo para sentir a natureza, tempo para amar ao próximo e estar junto de quem precisa… ou seja, a vida contemporânea se opõe a esse vagar, a esse respirar da alma e justamente por isso, pretende vender espiritualidade em pastilhas, para serem tomadas entre um programa e outro de televisão! Quem tem experiências espirituais profundas, verdadeiras e legítimas não vai se iludir com falsos gurus!

A experiência espiritual pressupõe silêncio – dos ouvidos físicos e da alma. Um silêncio que permita o aflorar do divino em nós, que nos faça sentir a conexão com todas as coisas e nos permita saborear a paz. Por isso, a espiritualidade requer uma mudança de atitude de vida – sem excessos de trabalho, prazeres, informações, correrias. Uma vida de equilíbrio, em que nos permitamos a pausa para um respiro da alma, para nos sustentarmos com o alimento do céu, que sacia muito mais dos que os alimentos perecíveis do comércio da fé.


Pela maioridade do Bem (Invocação a Castro Alves)

Imagem

Às vezes, argumentos não bastam. Números, fatos, dados objetivos não conseguem abrir caminho na opinião obstinada, que se cristalizou num dogma. Há uma multidão de pessoas, que estão gritando pela redução da maioridade penal. Já argumentei, já mostrei números, artigos interessantes e as pessoas simplesmente não ouvem. Então, estou lançando mão da poesia. Fiz um apelo ao grande poeta Castro Alves, inflamado pelas causas sociais, sobretudo a do escravo. Muitas das crianças e adolescentes, que hoje estão na criminalidade – marginalizadas socialmente, que não tiveram acesso à educação e aos direitos fundamentais do ser humano – são remanescentes históricos da escravidão. Para clamar contra a injustiça, poetemos à Castro Alves!

Que ouço? Reclamam vozes

Rigores e punição

Ventam palavras ferozes                             

Endurece-se a nação!

 

Que a cadeia irrevogável

Encarcere o vil bandido

Nada seja perdoável

Brada o povo em alarido!

 

A mídia esse coro orquestra

Moldando as opiniões!

A demagógica mestra

Que põe na praça os vilões!

 

Mas quem são os acusados

Por tantos dedos hostis?

Onde estão acobertados

Nesses múltiplos Brasis?

 

Será aquele que trata

Como escravo um boliviano?

Ou o que infesta de mamata

O Congresso de ano a ano?

 

Será o que expulsa e que mata

Famílias do Pinheirinho?

Será o que não se retrata

Por torturar num cantinho?

 

Será talvez o assassino

Da missionária caída?

Ou o que violou um menino

Despedaçando-lhe a vida?

 

Serão os grandes senhores

De feudos descomunais

De escravidões e de horrores

De tempos coloniais?

 

Não! Nenhum destes, ó Musa!

Persegue a mídia e a nação!

Nenhum destes que se acusa

Com tanto rigor e agressão!

 

Querem justiça implacável

Com quem sem justiça nasceu!

Nenhuma lei maleável

A quem nada tem de seu!

  

Pobre, negro, quem na rua

Teve por casa a calçada,

E sem mãe, de vida nua,

Teve sua alma estuprada!

 

Aos meninos delinquentes

A punição exemplar!

Eles que ainda sem dentes

Só sabiam apanhar…

 

Pois apanhem de um padrasto,

Que o pai está na prisão!

Menino, siga o seu rastro,

É o que deseja a nação!

 

Perpetua-se a violência

Com mais violência e rancor!

Poderá haver decência

Numa nação sem amor?

 

Meninos querem afeto

Mesmo de armas na mão,

Foi a vida num deserto

Que pôs suas almas no chão!

 

Ó Musa, chama o poeta

Que cantou a abolição!

E faz que sua voz dileta

Diga por mim: compaixão!

 

Ao invés de mais cadeias

Que são escolas de crime

Semeemos a mancheias

A educação que redime!

 

Escolas de liberdade

Em militância no bem!

Justiça, paz, igualdade

Que nada falte a ninguém!

 

Musas, Deuses, Mestres, Guias!

Poetas de hoje e de além!

Calem-se as vozes sombrias

Cantemos vozes do Bem!

 


O mundo precisa de mães!

Imagem

Vou começar a minha reflexão do dia das mães, sobre maternidade e maternagem, relembrando a minha própria mãe. Quando ela se foi, eu tinha 34 anos. Ela era uma grande parceira intelectual, uma mãe presentíssima. Compartilhávamos conversas, ideias, ideais, livros lidos, projetos a realizar. Apesar dessa ligação muito “cabeça” que tínhamos, quero lembrar de um fato aqui que me introduz no tema de hoje. Até um mês antes de ir para o hospital, onde faleceu dois meses depois, com câncer de pâncreas, ela diariamente arrumava minha cama. Não que fosse uma mãe essencialmente doméstica: fazíamos os serviços de casa em parceria, tínhamos uma pessoa que nos ajudava, a Maria, que depois veio a se tornar para mim uma segunda mãe. Minha mãe estudava, trabalhava, mas sabia que eu detestava arrumar a cama (coisa de que até hoje não gosto) e ela nunca falhava em me oferecer esse gesto de carinho diário.

Hoje tenho ouvido relatos de educadores e diretores, de escolas públicas e particulares, de crianças pequenas que chegam pela manhã na creche ou jardim da infância de período integral, com a mesma fralda com que foram para casa, no dia anterior.

Um documentário, como Muito além do peso (disponível gratuitamente no Youtube) mostra mães (e pais) totalmente impotentes e perplexos diante de filhos pequenos com hipertensão, diabetes, triglicérides e colesterol alto, por uma alimentação de nuggets, salgadinhos, batatas fritas e toneladas de açúcar… Crianças que não sabem o nome de nenhum legume e nenhuma fruta, que são viciadas em coca-cola e bolachas recheadas.

Esses são apenas algumas citações (cada uma das quais mereceria um artigo específico), para demonstrar como a nossa sociedade está negligente, incompetente e omissa em relação às crianças. E depois querem puni-las por desrespeito, querem reduzir a maioridade penal, querem impor limites e castigos…

O que está faltando hoje em muitos lares (de todas as classes sociais) é o que Winnicott chamou de “maternagem”, aqueles cuidados básicos, essenciais, necessários, que toda criança tem que receber. A criança, principalmente nos seus primeiros anos de vida, tem necessidade de total devotamento, cuidados plenos, amor incondicional. Depois desse primeiro período, que vai até pelo menos 2 anos, ela ainda precisa continuar a receber cuidados, ternura, presença atenta, embora já inicie seu processo de separação da mãe, de autonomia e de construção de sua identidade.

Embora a Psicologia nos ensine que se a maternagem não ceder à independência da criança no momento certo, o amor materno pode se tornar opressivo e prejudicial ao desenvolvimento do ser humano, ela também nos mostra que a negligência, o abandono e o não-preenchimento desses cuidados básicos, que incluem afetividade e acolhimento, colo e carinho, podem gerar lacunas psíquicas, que mais tarde poderão gerar graves distúrbios mentais.

O termo maternagem – que são esses cuidados maternos que toda mãe deveria dar, mas nem sempre dá, e que outra pessoa, que não seja a mãe, também pode oferecer – na Psicanálise, refere-se também aos cuidados que o terapeuta pode prestar ao seu paciente, de certa forma resgatando a maternagem que o indivíduo deveria ter recebido na infância.

Podemos ampliar ainda mais essa palavra e afirmar que todos nós em alguns momentos na vida, precisaremos de maternagem, mesmo quando já nos sentimos adultos e maduros. A nossa criança interna, carente e frágil, pode vir à tona e precisar de um colo materno e fraterno, para nos acalentar. Por outro lado, todos podemos também oferecer maternagem aos que estão à nossa volta, preocupando-nos com o bem-estar físico, psíquico e emocional do outro.

Quando a sociedade desnatura a mãe

A maternidade é um dado biológico, uma vinculação dada pela gestação, que pode continuar a se manifestar ou não em forma de maternagem. Uma mãe que abandona o filho não pratica a maternagem. Ela pode transferi-la para outra pessoa, no caso de uma adoção, ou emprestá-la ou ainda partilhá-la, no caso de entregar o filho a uma babá ou a uma creche (onde atualmente quase que se proíbe a maternagem, como se professoras de crianças pequenas tivessem de ser apenas “professoras”, quando toda criança pequena precisa o tempo todo de cuidados maternos). O pai também pode e até deve exercer a maternagem.

O que se dá é que em nossa sociedade, esfriada, individualista, competitiva, desumanizada, as pessoas estão desaprendendo de serem maternas. Porque todos devem ser “produtivos” no sentido econômico do termo. Não podemos nos dar ao luxo de cuidar de alguém, seja uma criança, seja um doente, seja um idoso. Temos todos, homens e mulheres, de trabalhar o tempo inteiro para “ganharmos a vida” e assim vamos perdendo a vida, esvaziando-a de carinho, de afeto e de cuidados mútuos.

Está certo que a Psicanálise desencantou as mães, mostrando-as como possíveis responsáveis por neuroses e psicoses, devido ao apego excessivo, ao devotamento doentio; é certo que a mulher saiu para o mercado de trabalho e não pode recuar da vida no mundo, dando sua contribuição para a sociedade; é certo que não podemos mais idealizar a mãe como sendo sempre um modelo de renúncia e abnegação – mas precisamos sim de sentimentos maternos para vivermos em sociedade de forma saudável, amorosa e plena.

Lembro aqui do amorosíssimo Francisco de Assis, que dizia aos seus companheiros, que eles se cuidassem mutuamente como mães… Lembro de Pestalozzi, o grande educador que tratou pela primeira vez da necessidade do afeto na educação e seus biógrafos reconheceram nele “um grande coração maternal”. Lembro de todas as mães, do decorrer dos milênios e ainda hoje, perdidas na multidão, que não saem nas matérias da Revista Veja, sobre executivas bem-sucedidas, que parecem mulheres despersonalizadas de seu estatuto feminino – lembro de todas as mulheres – dizia – que abriram caminhos para que seus filhos crescessem fortes, saudáveis e pessoas de bem, pelo amor com que se dedicaram a eles, pelo devotamento de sua presença… e lembro de minha mãe, que intelectualizada, parceira de livros e ideias, e que não suportava a idealização de uma “santa mãezinha”, não deixava de arrumar minha cama e de cuidar de nosso bem-estar psíquico e físico, de que, sabemos, as verdadeiras mães continuam a cuidar, mesmo do outro lado da vida…

O toque materno, a ternura, a preocupação com o outro é que arranca a vida da aridez e do vazio. Quem teve o privilégio de receber esses cuidados de sua mãe biológica, tanto melhor. Quem teve a sorte de ser “maternado” por outras pessoas, em sua infância, adolescência ou encontrar compensações maternas em suas relações atuais, ótimo. O que não podemos é passarmos a vida sem nenhum tipo de doçura materna, sem nenhum colo que nos aconchegue a alma.

Não é à toa que Maria, mãe de Jesus, é venerada em todos os cantos do planeta. Ela representa espiritualmente esse colo sagrado, acolhedor e pleno, no qual nos sentimos crianças de novo e seguros de uma proteção confortadora.

Mas também devemos ter consciência de que amadurecer, crescer, emancipar-se psiquicamente e espiritualmente, é sermos capazes por nossa vez de oferecer colos, de ofertar cuidados maternos e de sermos ternura no caminho de alguém.