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Diferença entre Educação e Autoajuda

“Como para toda a humanidade, o mundo é uma escola, desde o começo até o final dos tempos, assim para cada ser humano individualmente a vida inteira é uma escola, desde o berço até o túmulo. Não é suficiente dizer com Sêneca: para aprender nunca é tarde, devemos muito mais dizer: cada idade está destinada ao aprendizado, e nenhum outro sentido tem a vida humana e todo o seu esforço. Sim, nem mesmo a morte coloca um limite à vida e ao mundo. Qualquer um que nasceu como ser humano, deverá passar por tudo em direção à eternidade, como para uma academia celeste. Tudo o que se passa antes é assim apenas um caminho, uma preparação, uma oficina – uma escola inferior.” Jan Amos Comenius (1592-1670)

Uma querida amiga Carmen Correa, de Caxias do Sul, me pediu que escrevesse algo sobre a diferença entre Educação e autoajuda. Tenho algo a dizer sobre isso, mas espero que aqueles que escrevem autoajuda, incluindo amigos meus, não se sintam ofendidos com o que vou falar. Não é nada pessoal, mas não posso deixar de manifestar o que penso a respeito.

Começo por dizer que a Educação é tão antiga quanto a humanidade. A autoajuda nasceu no mundo contemporâneo, no sistema capitalista.

A Educação é um processo permanente, uma autoconstrução engajada, um despertar da alma para a evolução. A autoajuda é um alívio instantâneo e passageiro, uma brisa, não deixa marcas e nem engaja o indivíduo num esforço comprometido.

A Educação é deflagrada por influências de grandes mestres, de pais e mães, de educadores, que tocam a alma, transformam a vida, conferem sentido à existência. A autoajuda é vendida por escritores ralos, que estão interessados em exibir frases bonitas e bem arranjadas e por editores que querem ganhar dinheiro.

A Educação precisa estar embasada em profundo conhecimento, científico e filosófico, do ser humano: de seus aspectos biológicos, psicológicos, sociais, espirituais… A autoajuda não tem raízes teóricas, não tem fundamentos filosóficos e muito menos preocupação com rigor científico.

A Educação propõe mudanças e atitudes radicais no indivíduo e na sociedade; não é fácil educar e educar-se. A autoajuda está mais interessada em agradar os leitores do que provocar autocrítica e crítica social.

A Educação se faz sempre na relação entre os seres humanos, relação autêntica, afetiva, que pode ser despertada por livros e ideias, mas só se dá no diálogo entre dois ou mais indivíduos. A autoajuda promete melhorias individualistas, felicidade fácil, panaceias inócuas.

A Educação faz com que as pessoas se sintam responsáveis pelo outro, responsáveis pela sociedade, responsáveis pelo planeta. A autoajuda atende aos desejos de sucesso financeiro, de prazer sexual, de autocura ilusória – enfim, tudo o que o egoísmo quer, sem muito esforço e responsabilidade.

A Educação não dá receitas, propõe princípios; não lida com o sucesso a curto prazo, mas com a realização integral para a eternidade; não se compra em supermercado ou banca de jornal… A autoajuda, ao invés, é mercadoria em toda parte, está sempre ditando regrinhas tolas para uma realização pessoal rala, sem consistência.

Enfim, Educação é o nosso propósito existencial – fomos lançados no universo para nos fazermos a nós mesmos, através de múltiplas vidas e atingirmos a plenitude de virtude, ciência e capacidade criadora. A Educação é divina e é a coisa mais importante para os indivíduos, para a sociedade, para a humanidade.

E a autoajuda é um movimento editorial comercial, cujo interesse maior é distrair as mentes, agradar ao ego, sussurrar frases feitas e ganhar rios de dinheiro à custa de pessoas… – que não receberam uma boa Educação!


Retrocessos autoritários à vista

Dois fatos nessas últimas semanas deflagraram essa minha reflexão a respeito de uma tendência cada vez mais forte em nossa sociedade – eu a chamaria de tendência repressiva, autoritária, policialesca. A ideia de que tudo deve se resolver com punição, violência, coerção, sempre fez parte da história da humanidade. Vejam-se as prisões cruéis, as penas de morte, as torturas, as ameaças de inferno das religiões, as inquisições etc… Entretanto, nos últimos séculos, há muitos pensadores, defensores do direito, educadores, humanistas, que trabalharam com ideias mais elevadas, com propostas mais misericordiosas, com princípios mais humanos! Mas há momentos em que os partidários da “porrada” gritam mais alto que os defensores do humanismo, dos direitos humanos, do respeito à dignidade, do diálogo como forma de resolução de conflitos e como método de ação social. E considero que no Brasil estamos hoje atravessando uma fase dessas. Um retrocesso, portanto.

Duas cenas me impressionaram. A primeira foi a presença da polícia numa escola infantil, chamada por uma professora em Piracicaba, para uma criança de 3 anos, porque ela estava mordendo e chutando! E a outra, a repressão violenta da polícia em cima dos alunos da USP. O pior é que no caso de Piracicaba, a diretora da escola não disse nada, a polícia foi até a escola e a criança foi levada à delegacia. E o pior é que no caso da USP, centenas de pessoas no Facebook (inclusive muitas cristãs, espiritualistas e espíritas!!) gostaram, apoiaram e fizeram publicidade do método de “bater nos baderneiros, nos maconheiros” ou coisa que o valha!

Outra notícia grave que está percorrendo a internet (e com o apoio de muitos) é a proposta de  mudança do ECA (Estatuto da criança e do adolescente) para criminalizar as agressões e “desrespeito” dos alunos aos professores!

Esses sintomas revelam algo muito grave em nossa sociedade: acreditamos muito mais na polícia, na repressão, na punição – leia-se vingança social – do que na educação. Colocar a polícia em cena em locais onde se pretende fazer educação é declarar a falência da própria educação! Tratar crianças e estudantes como bandidos (por mais que estejam agredindo e se revoltando – então temos que descobrir as causas dessa revolta e tratá-las – a educação é justamente para isso!) é mostrar que não acreditamos na força do diálogo, da construção de personalidades autônomas e pensantes, que não damos o mínimo valor ao que uma boa educação – quando cultivada – consegue fazer: trazer à tona o divino que existe em todas as criaturas, para que elas sejam melhores…

A atribuição de responsabilidade criminal a crianças e adolescentes já acontece, embora não se assuma isso, porque comparecem em condição humilhante diante de juízes, quando deveriam ser orientadas em terapias, assistidas socialmente e trabalhadas afetivamente, para se recuperarem dos traumas que passaram nas ruas, com os abusos e violências recebidas, com o abandono dos familiares. Mas a sociedade não está satisfeita: quer a diminuição da maioridade, quer criminalizar agressões dentro da escola! E o que a sociedade faz pelas crianças? Que estímulos positivos dá? Que educação oferece em escolas públicas que mais parecem presídios que escolas? Aliás, deveria ser o contrário: os presídios deveriam mais parecer escolas e não escolas parecerem presídios. Isso revela o quão pouco fazemos pela educação. Quando pensarmos em  todos os níveis, mais em educação que punição, mais em investimento no que é positivo do que em repressão ao que é negativo, mais em oferecer alternativas de vida, de aprendizagem, de esperança e sonho, do que impor limites, regras, amarras… então estaremos de fato contribuindo para a melhoria da escola, das crianças, dos jovens, das universidades e da sociedade em geral.

Façam-se das escolas lugares com boa música, com flores, com natureza, com professores estimulados, bem renumerados, capacitados, amorosos… Façam-se escolas com teatro, poesia, com cores, com escolha livre de projetos interessantes e não com aulas mortas, em classes de 40 pessoas, diante de uma lousa… Façam-se escolas onde de fato se aprenda, com computadores, com midiatecas bem equipadas, com laboratórios, material didático farto e de ponta… Façam-se escolas com corais, orquestras, grupos de dança… E não haverá mais problemas de disciplina, evasão, agressão… Há diversas experiências no Brasil e no mundo que demonstram isso!

Façam-se universidades onde se recupere a espiritualidade e onde se discutam questões existenciais (vi várias pessoas dizendo que os maconheiros deveriam ser presos – mas o que se oferece em termos de sentido existencial, em estímulo de vida, a uma juventude que só vê nihilismo nas faculdades e consumismo na sociedade?)… Façam-se universidades, onde se aprenda a dialogar e a pensar, onde se pense mais socialmente… Façam-se universidades que deem perspectivas de trabalho, de transformação da sociedade e não se faça tudo apenas para encaixar o indivíduo robotizado num mercado desumano… E os jovens terão outros ideais do que esses que apoiam a polícia dentro da universidade e do que esses que se entopem de bebida e drogas!

Quando tivermos essas escolas e essas universidades, dispensaremos polícias, repressões e punições – porque quando bem estimulado, quando despertado para o melhor que traz dentro de si, pela arte, pela espiritualidade saudável (não pela religião fanática), pelo amor recebido de verdadeiros mestres,  o ser humano mostra a sua divindade e desenvolve suas potencialidades de maneira harmoniosa e útil, para si e para o mundo!

Entendamos que a violência, a punição, a repressão, humilham, causam mais revolta, pioram o ser humano, que se já está em crise, se torna um bicho acuado. Ao passo que o diálogo, o respeito, a confiança, a construção paciente e humana de um processo pedagógico restaura a integridade da pessoa e a torna melhor.

Lembro aqui da experiência maravilhosa de Padre Flanagan nos Estados Unidos, nas décadas de 30 e 40, com a construção da Cidade dos Meninos (Boys’ Town), até hoje existente (hoje Girls’ and Boys’ Town). Nos primeiros 10 anos, passaram por lá 4 mil meninos, considerados delinquentes, alguns já com crimes cometidos, e qual foi o índice de recuperação dessas crianças? 100%. O método usado: amor, liberdade, confiança. Os meninos geriam a cidade, elegendo prefeitos em assembleias; havia oficinas, música, religiosidade plural (estimulava-se que cada um praticasse a religião própria). Não havia muros, as portas ficavam abertas, não havia guardas, policiais, celas, punições… Havia a possibilidade de construir uma nova vida, sob a liderança de um padre amoroso, que dizia: “Não há meninos maus! Há má educação, maus estímulos, más companhias!”.

O problema fundamental dos repressores é que eles não acreditam na bondade humana. São amargos, pessimistas, não creem que o amor possa despertar o anjo que mora em nós, mas acham que a violência tem que reprimir o bicho que somos. No entanto, se essas pessoas, que assim pensam (e são muitas) se autodenominam cristãs, deveriam lembrar-se de algumas palavras de Jesus:

“O reino de Deus está dentro de vós!”  e  “Vós sois deuses” – isso significa que todos temos uma bondade essencial que precisa ser tocada e despertada.

“Perdoai setenta vezes sete!”  e “Misericórdia quero, não sacrifício!” – quanto mais isso se aplica com uma criança, um adolescente, que estão começando, que precisam de afeto, orientação e compreensão!

“Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o Reino dos Céus” – Jesus disse que era preciso nos fazermos como crianças para entrarmos no Reino, isso significa uma primazia da inocência, da pureza e da bondade natural da criança. Se ela agride, se está desajustada, ela está reagindo a uma situação negativa, está com um problema que tem que ser resolvido amorosamente. Ela não é má, não está endiabrada (como querem as professoras evangélicas, que andam fazendo exorcismo dentro das escolas públicas – isso será objeto de outro artigo), não é uma peste!!! Ela precisa de amor e ajuda.

“Amai os vossos inimigos e fazei bem aos que vos perseguem”. O que isso significa? Essa é a essência da mensagem de Jesus: combater o mal com o bem e não nos tornando piores que os agressores. Acender uma luz para dissolver as trevas e não nos tornando inquisidores dos que achamos que estão errados (e às vezes nem errados estão!).

Fica então essa mensagem, que é de Jesus, de Gandhi, de Buda, de Confúcio, de Francisco de Assis e dos grandes educadores, como Comenius, Pestalozzi, Eurípedes… O dia em que acreditarmos na força do amor, da bondade, do diálogo e da compaixão, deporemos nossas armas internas e vamos arar os corações com instrumentos de paz!


Por um mundo melhor para as crianças!

Há pouco mais de 300 anos que a civilização descobriu a infância. O que significa isso? A criança não valia nada durante toda a história – não era sujeito de direitos, não era lamentada, se morta; não havia literatura a ela direcionada, as escolas não tinham métodos adequados para desenvolver-lhe os talentos, a criança não tinha voz alguma e… não era considerada criança. Isso significa que não era vista como um ser em desenvolvimento, com necessidades especiais, merecedora de respeito em sua fase de amadurecimento. Não se condenava socialmente a pedofilia, o espancamento de crianças na escola e em casa era coisa corriqueira, o trabalho infantil era legal.

Depois de grandes educadores, como Comenius, Rousseau, Pestalozzi, Montessori, Janusz Korzcak, que trabalharam incansavelmente pela infância, demonstrando nos últimos séculos, que a criança é criança, e não um adulto em miniatura, tem que ser tratada e respeitada enquanto tal – uma nova cultura e até uma nova legislação passaram a vigorar em muitos países. A Declaração Universal dos Direitos das Crianças inspira legislações locais, como o nosso Estatuto da Criança e do Adolescente.

Entretanto, apesar desses avanços, ainda a criança está longe de ter a voz que merece, de ser respeitada em sua especificidade infantil, de ser tratada com o amor que faria com que ela desabrochasse plenamente suas potencialidades.

Apesar de condenada socialmente, a pedofilia é um fato por demais frequente em todo o mundo e, o que é pior, dentro das famílias de todas as classes sociais; a violência contra a criança, em casa ou na sociedade é algo por demais comum; a exploração do trabalho infantil toma proporções indecentes na China e acontece diante de nosso nariz, aqui mesmo no Brasil! Então, a militância para que as crianças tenham seus direitos, tenham voz, é uma necessidade constante, uma urgência humanitária. Acontece que todos os setores sociais têm sua representatividade, sua militância, sua voz: as mulheres, há 200 anos têm lutado por sua igualdade e suas conquistas são patentes; as minorias étnicas, sexuais – todos vão às ruas, reivindicam… mas e a criança? Ela é tutelada! Não pode denunciar o pai que a estrupa, a mãe que a massacra, a escola que a tortura psiquicamente e não cumpre seu papel… Não pode ir às ruas, ao Congresso Nacional, não têm sites, não aparece entrevistada na televisão, opinando sobre as condições em que vive. A criança não tem canais de manifestação e de reivindicação – quando ela pode falar, como adulta, o estrago já foi feito, o sofrimento já foi desmedido, a marca já se tornou irreversível. Então, cumpre-nos falar por ela, lutar pela criança e emprestar-lhe a nossa voz.

Mas se pensamos que a criança só é desrespeitada nesses casos extremos de abuso sexual, espancamento e trabalho infantil, estamos muito enganados. Digo sempre que a infância é o último reduto da tirania. Em nosso cotidiano, entre pessoas “normais” e “civilizadas”, que não admitiriam a pedofilia, a violência e a exploração, ainda aí a criança é desrespeitada em todas as situações. Vamos enumerar algumas:

• Na propaganda diária da TV, a que está exposta e de que os pais não reclamam, ou se reclamam, nada fazem ou acham que nada podem fazer. Aí as crianças são manipuladas para um consumismo desenfreado, para uma alimentação de lixo, para uma arte degenerada, para uma estimulação sexual precoce e para uma violência desmedida… e ninguém toma uma atitude.

• A escola, com lousa, nota, provas, aulas de desinteressantes de 50 minutos, dadas por professores arcaicos, despreparados, mal pagos, desestimulados … é uma prisão da criatividade infantil, um processo de morte lenta de seus talentos, de sua curiosidade, de seu impulso de desenvolvimento. Essa escola tradicional nunca atendeu às necessidades, curiosidades e capacidades da infância e, muito menos, da infância do século XXI!

• A negligência a que a criança hoje está exposta. Muitos pais (de todas as classes sociais) não colocam os filhos em primeiro lugar e a criança deveria ser sempre a prioridade na família, na escola e na sociedade. Pois a criança é a melhor parte da humanidade, ainda não corrompida, com promessas maravilhosas, que se não cumpridas, se tornam essa frustração dos adultos amargados. A criança é o futuro e quem não prioriza o futuro está se condenando ao retrocesso! As crianças estão com fome de atenção, de carinho, de diálogo, de olhos nos olhos!

• As relações com as crianças ainda padecem de muitos vícios imperdoáveis: gritamos o tempo todo com esses seres sensíveis; achamos normal mentir para essas pessoinhas tão sinceras e crédulas… Temos o hábito de desprezar suas opiniões e de não conversarmos com elas, de maneira respeitosa, serena e amorosa!

 Como se vê, ainda temos muito o que conquistar para que as crianças tenham uma vida feliz nesse planeta, recebam o amor que merecem e possam desabrochar como seres inteiros, para uma vida plena!

 Há muitos anos, num congresso em Curitiba, elaborei o que chamei de Decálogo do Educador Espírita (mas, se tirarmos o item da reencarnação, pode ser simplesmente o Decálogo do Educador):

1)    Prometo ajudar a extrair da criança seus germes divinos, reverenciando nela a presença do Criador.

2)    Prometo olhar a criança como um ser integral, individualidade livre, dotada de direitos.

3)    Prometo me dedicar à criança com amor e respeito.

4)    Prometo permitir a criança aprender por si mesma.

5)    Prometo aprender da criança a sua ternura, sinceridade e senso de justiça.

6)    Prometo ser exemplo à criança de integridade e de bom senso.

7)    Prometo ser para a criança o amigo que ouve, o pai que oferece segurança, a mãe que dá aconchego.

8)    Prometo enxergar na criança um ser reencarnado com uma herança a ser trabalhada.

9)    Prometo favorecer a criança para que descubra e cumpra sua tarefa existencial.

10) Prometo abrir à criança o caminho para um mundo mais fraterno e feliz.

 

Às crianças do mundo inteiro, o voto de que num breve futuro, todos os dias sejam das crianças!


Grandes pessoas para as crianças

Uma das ilustrações magníficas feitas por Anasor, para o livro "Pestalozzi e a Escola num Castelo"

Uma das propostas em que mais acredito para se trabalhar na formação ética das crianças e adolescentes é fazer com que eles conheçam biografias de personalidades que deram exemplos elevados. Por isso, em nossa coleção Todos os Jeitos de Crer, temos um volume inteiro com o título Vidas. Nele, há as histórias de Sócrates, Jesus, Buda, Gandhi, Francisco de Assis, Martin Luther King, entre outros… Por isso, também temos uma série de livros, da qual lançamos há 10 anos o primeiro volume: Francisco, o pobre rico de Assis. E só agora, por incrível que pareça, estamos publicando o segundo, Pestalozzi e a escola num castelo. São ambos pela Editora Comenius e não lançamos outros (já há mais de 10 volumes escritos por diferentes autores), por falta de recursos financeiros. (Bem-vindas parcerias!! Esse de Pestalozzi contou com o apoio da Fundação Pestalozzi de Franca.)

Por que considero importante esse trabalho? Ora, porque um dos caminhos essenciais para promovermos a bondade, a fraternidade, a virtude em geral neste mundo é estarmos convencidos de que o ser humano é capaz de ser bom, fraterno, virtuoso. Uma visão pessimista da alma humana nos leva à descrença em nossa própria capacidade de sermos melhores. A amargura é a raiz de todo mal.

Por outro lado, em nossa sociedade capitalista, os vencedores são louvados e exaltados como exemplos a serem seguidos. Que tipo de vencedores? Os que ganham guerras violentas, os que conquistam sucesso, fama e dinheiro, mesmo à custa de princípios morais, atropelando o próximo, calando a consciência.

Assim, numa sociedade em que a lei do mais forte é cultuada, em que o homem é visto como bicho competitivo, cujos instintos de domínio, agressividade e posse devem ser estimulados – é preciso encontrar a rota da cooperação, da não-violência, da solidariedade e mesmo do sacrifício.

Não podemos esperar fazer um mundo justo e fraterno, sem criaturas justas e fraternas e não podemos formar criaturas justas e fraternas, se não acreditamos que a natureza humana permite essa ascensão, se não descartarmos a inexorabilidade do “homem como lobo do homem”.

Pois uma das coisas que mais nos convencem a respeito dessa positiva natureza humana é sermos informados de que houve homens e mulheres no decorrer da história que viveram virtudes, deram exemplos, fizeram por merecer o título de apóstolos, mártires e heróis. Histórias verdadeiras dessas pessoas nos inspiram, nos estimulam, nos comovem, despertam em nós o desejo de sermos bons.

Isso ainda é mais verdadeiro com as crianças, que naturalmente torcem pelos personagens do bem em qualquer narrativa.

Mostrarmos personagens do bem que viveram de verdade e que não usaram violência para vencer batalhas na Terra ou nas estrelas, mas foram supostos fracassados no mundo, deixando mensagens eternas de amor e perdão – eis o que é necessário, inspirador, benéfico para as novas gerações. As crianças precisam aprender que o sucesso do bem quase nunca é o sucesso do mundo (dinheiro, fama, poder). Ao invés, a vitória do bem muitas vezes é a semeadura do sacrifício, da luta pela verdade.

Não é esse o exemplo máximo de Jesus? Aos olhos dos partidários nieztscheanos  da lei do mais forte, Jesus é um fracasso: morreu na cruz, entre ladrões, foi abandonado, traído, era pobre, não possuía cátedra ou poder… Mas aos olhos dos partidários dos bens espirituais, ele é o maior dos exemplos: semeou ideias e ensinos, sentimentos de amor e compaixão, que atravessaram os milênios e tocaram o coração de multidões, transformando a humanidade.

Não se trata de pregar às novas gerações a autoflagelação e o martírio, formando pessoas fanáticas, masoquistas e suicidas! É, ao invés, trazer vidas inspiradoras de alegria no bem, de serviço à humanidade, de compaixão para com os seres vivos. Os verdadeiros mestres da virtude, embora possam enfrentar dificuldades, resistências, fracassos e até a morte, não são seres carrancudos, que se cobrem de cinzas ou vivem se martirizando e lamentando. Ao contrário, os evoluídos, os santos, os iluminados, como um Buda, um Francisco de Assis, um Gandhi são pessoas que irradiam paz, alegria, bem-estar, equilíbrio. São dessas irradiações, que podemos impregnar as crianças. Mesmo porque, além da inspiração de vida que esses grandes seres humanos podem nos dar, há ainda a sintonia mental que estabelecemos com eles, quando nos conectamos com a narrativa de suas vidas. Essa ligação vibratória já nos faz bem, nos eleva e nos aproxima do clima espiritual dessas grandes almas.

Uma objeção comum a essa proposta de trabalho com pessoas de qualidades morais elevadas é a de que não devemos favorecer a idolatria e de que isso seria anular o espírito crítico necessário à visão histórica. Essa ponderação é pertinente e devemos tomá-la em consideração, primeiro porque a educação, para ser libertadora,  não pode em hipótese alguma favorecer a negação do espírito crítico, formando pessoas crédulas, ingênuas e sem discernimento. Assim, não podemos perder de vista os seguintes senões:

• Não existem de fato criaturas humanas perfeitas e mesmo aquelas que atingiram níveis elevados de virtude podem apresentar alguma fraqueza. Isso não as desmerece.

• Não devemos idolatrar as figuras do bem, mas amá-las e seguir seus exemplos.

• É preciso distinguir os bons de fato dos falsos profetas, dos hipócritas que pululam em todas as comunidades religiosas (sobretudo).

A questão toda é que não podemos colocar seres humanos em pedestais inacessíveis, para adorarmos de joelhos. Ao contrário, a proposta que estamos trabalhando é justamente a de mostrar que a virtude é acessível a todos e de qualquer um de nós é capaz de se iluminar! O problema da divinização de Jesus foi esse: tornando-o Deus, afastamos a possibilidade de sermos iguais a ele, de seguirmos seus passos, pois quem se atreveria a querer imitar Deus? (Ver a esse respeito a crítica nesse blog ao filme Ágora.)

Abramos pois a possibilidade às novas gerações de conhecerem mestres de verdade, vencedores do espírito e iluminados de alma. Para isso também temos que preferir que nossos filhos sejam pessoas de bem, sobretudo, e não necessariamente grandes competidores do mercado de trabalho, homens e mulheres de grande sucesso profissional e de grande vazio existencial. Projetarmos seres humanos melhores é o mais necessário para um mundo melhor.


Ser pai no século XXI

As crianças aprendem com os pais a serem futuros pais e mães

Cristóvão Colombo, o navegador, com suas grandezas e suas pequenezas, é considerado pelos seus biógrafos como um bom pai. Quando escrevia a seus filhos Diego e Hernando, costumava assinar assim: “Tu padre que te ama más que a si!” Acho bem interessante essa maneira de caracterizar a paternidade (e, sem dúvida, também a maternidade), porque ser pai e ser mãe significa exatamente ter a maior oportunidade de remover o egoísmo. Naturalmente, quem assume os filhos, e cumpre sua missão, sai de si mesmo, de sua zona de conforto e tem que doar-se inteiro, em cansaço, lutas, ideais, afeto, preocupações… mas, por outro lado, que colheita farta de amor, alegria, conforto na alma, de ver filhos crescendo, se fazendo, se tornando pessoas grandes e de bem!

A civilização contemporânea, com seu individualismo assumido, pregado aos quatro ventos, se põe contrária a essa tarefa (tanto paterna quanto materna), porque exige-se que pais e mães atuais primeiro têm de pensar na empresa, no emprego, vestir a camisa, não ter horário, não desobedecer ordens de viagens, horas-extras, transferências… não importa a vida familiar para o empregador anônimo capitalista. Em minhas viagens Brasil afora, eu como solteira (e saudosa dos sobrinhos), vejo nos aviões muitos pais e mães tristonhos, saudosos do lar, vejo outros enregelados, que assumiram esse discurso como bom e necessário e já deixaram para lá, e encontro muitos também que  não pensam em ter filhos, porque acham não poderem coadunar família e trabalho.

É preciso, portanto, hoje, para haver pais e mães presentes (e não adianta falar que o que importa é a qualidade da convivência e não a quantidade, porque ninguém pode educar de fim de semana), nadar contra a maré, fazer resistência ao sistema, arranjar trabalhos alternativos, ou dividir os horários de trabalho entre pai e mãe, ou ainda, por um tempo, a mãe ficar em casa mesmo… enfim, é preciso encontrar atalhos e não se deixar engolir pelo sistema, para não acontecer depois que se descubra que os filhos cresceram, a infância com seus beijos e encantos se perdeu, e não há mais diálogo… ou pior, quando se descobre que a droga ou as más companhias já tomaram o lugar do afeto familiar.

Não é só o mercado de trabalho que disputa o espaço de convivência que os filhos precisam ter com os pais. Também o mercado sexual. A fidelidade, a relação harmoniosa e amorosa entre pai e mãe é o maior presente, a maior segurança, a maior fonte de estabilidade emocional, que se pode oferecer a uma criança. E é aí que o bicho pega. Novidades mil, estímulos de roldão, apelos desencontrados, homens e mulheres se atirando sobre mulheres e homens casados, o discurso predominante do prazer acima de tudo, mesmo acima do amor e da responsabilidade – esse é o cenário a que também se tem que resistir, pensando nos sorrisos maravilhosos que serão colhidos ao chegar em casa… A fidelidade não é algo que se entrega só ao cônjuge, é algo que se faz por toda a família, pelos filhos também. As crianças merecem que os pais ajam, correspondendo à confiança que neles depositam. Não mentir, não fingir, não enganar, não ter vida dupla, não sonegar presença integral – é fundamental para que haja um firme laço de afeto entre pais e filhos, sobre o qual se constrói a educação.

Mas não falemos apenas dos problemas, falemos das conquistas das últimas décadas, em relação ao exercício da paternidade. Hoje não é mais vergonha o pai se encantar com os filhos, chorar por eles, cuidar, trocar fraldas… isso tudo não é considerado mais apenas coisa de mulher. Há muitos pais participativos, sensíveis, presentes, que aproveitam intensamente a maravilha de serem pais. Já se sabe e se proclama que os pais não devem ser apenas provedores, mas precisam ser gente, amigos, companheiros… Hoje, em famílias esclarecidas, não se recorre mais ao pai para castigar e atuar como a autoridade autoritária, que violenta e se mantém distante afetivamente dos filhos. Infelizmente, não são todos os pais que cumprem sua paternidade, há ainda muitos que a abandonam. Mas, os que cumprem têm mais consciência de como cumpri-la, tem mais espaço para serem afetivos e podem ser pais mais plenamente.

Entre avanços e desafios, entre obstáculos e conquistas, estamos pois nesse processo complicado, mas rico, que é a evolução humana, que passa pela evolução social, cultural e individual.

Esperemos construir um milênio em que a família seja revalorizada – e pessoalmente considero que essa revalorização inclui o quesito da longevidade e não da descartabilidade – e onde se possam semear os frutos de uma educação mais equilibrada, mais empenhada e sempre mais amorosa, porque só o amor educa de fato.


A Filosofia que não filosofa

Estudo Filosofia desde os 12 anos de idade, quando li pela primeira vez a Apologia de Sócrates de Platão. Ainda costumo me dedicar à leitura e reflexão dos filósofos. Na Universidade, fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado na área de Filosofia da Educação. E nos últimos anos, tenho me dedicado a projetos interdisciplinares de Filosofia na escola, no ensino fundamental e médio, inclusive com a publicação com Alessandro Cesar Bigheto do livro Filosofia: Construindo o pensar.

Estou convencida do poder fecundante da Filosofia, para formar pessoas críticas, agentes transformadores da sociedade e por isso penso que ela pode ser trabalhada com pessoas de qualquer idade, de qualquer condição. O que importa principalmente  é aprender a pensar, a se questionar. É claro que para melhor pensar, com mais acuidade e profundidade, há que se conhecer como outros pensaram, há que se apropriar de uma racionalidade, que é própria da história da Filosofia ocidental.

Em contato, porém, com acadêmicos da área da chamada Filosofia pura, tenho constatado um fato triste, de que ninguém se dá conta: nas faculdades de Filosofia, é proibido pensar. O que quero dizer com isso? A Filosofia é apreendida em sistemas fechados e incomunicáveis entre si. Cada pensador e cada escola são estudados de maneira estanque, por especialistas que só entendem daquele filósofo ou daquela corrente e só reproduzem o que já foi dito e o que já foi escrito. O espaço para comparações, analogias, buscas pessoais, interpretações, é praticamente nulo. Até mesmo um viés inédito de leitura de um autor consagrado é totalmente desencorajado.

Ou seja, só podemos falar de Heidegger a partir do próprio Heidegger ou das leituras já aceitas sobre a sua obra. Os estudantes e os professores de filosofia são meros dissecadores do pensamento alheio, sem nenhuma possibilidade de… filosofar!

É verdade que isso também faz parte do colonialismo cultural em que ainda nos mergulhamos e que se instala na área das ciências humanas, com as escolas de pensamento importadas: temos os guetos marxistas, os guetos pós-modernos, os guetos kantianos e assim por diante. Temos cartilhas ideológicas e sistemas prontos a serem adotados, mas não temos pensadores originais, não permitimos que eles surjam, porque se alguém ousa pensar, se manifestar, comparar, interpretar… é tido como superficial, como eclético, como pretensioso, como não habilitado à filosofia.

Em geral, nas faculdades de humanidades no Brasil é proibido afirmar, indagar, criticar, discordar – é permitido apenas repetir o que já foi dito. Mesmo o pensamento crítico é a crítica já feita, a leitura de mundo já formulada por outros. (Um sintoma disso são os professores de Filosofia que leem suas aulas ou palestras: o medo de assumir uma posição pessoal, a insegurança de usar uma palavra que não esteja dentro do jargão daquela escola, daquele autor  – leva-os a ler blocos monolíticos, sem possibilidade de questionamento.)

Não estou aqui defendendo o achismo pessoal, a mistura de conceitos, a irresponsabilidade científica. O rigor da conceituação, a pesquisa profunda, a consistência teórica são obviamente necessários ao pensamento acadêmico. Mas a interdição do debate, por excesso de preciosismo; o impedimento de novas visões, por dogmatismos de escolas; o exílio do pensamento original, pelo cerceamento da busca pessoal – tudo isso faz com que a Universidade se torne um museu de ideias mortas, que nenhuma influência exercem sobre a sociedade. Temos assim uma filosofia que não serve para nada, a não ser para meia dúzia de teóricos se dedicarem a discussões fechadas e esotéricas. Mesmo entre esses não há diálogo entre estudiosos de diferentes escolas: kantianos não conversam com marxistas, que não conversam com heideggerianos, que não conversam com seguidores de Wittgenstein… Pelo simples fato de que cada qual fica escravo das ideias, dos termos específicos, da linha de argumentação, do autor que estudam e não podem se mexer em outra direção.

Sempre observei essas coisas e tenho tido algumas experiências pessoais desagradáveis por ser uma intelectual que gosta de pensar por si mesma e formular novas trilhas de investigação. Recentemente, tornou-se minha aluna na pós-graduação Yara Zélia, uma egressa de uma faculdade de Filosofia em São Paulo. Pessoa mais madura, percebeu de maneira precisa o que descrevo acima. Transcrevo seu angustiado testemunho, que me parece muito a propósito:

Em uma vida inteira contemplada tantos por conhecimentos formais como informais, resolvi ingressar em uma faculdade de Filosofia aos 58 anos de idade. A meu ver, seria a oportunidade de construir em mim um pensamento filosófico de acordo com as academias e poder formar meu próprio conceito, questionando os demais, recebendo uma base para tanto. Teria alcançado esse objetivo?

A resposta é não. Nunca pensei que o próprio academicismo podaria o meu livre pensar e o meu livre expressar. O meu conceito sobre uma faculdade de Filosofia seria o de obter bases e explicações, ou seja, ter subsídios suficientes para abarcar todo conhecimento cristão que havia adquirido durante o meu caminho. Qual não foi minha surpresa quando os pensamentos e os conceitos começaram a se confrontar e nada disso poder ser mencionado ou debatido no âmbito acadêmico. Houve uma frustração e uma angústia, pois constatei algo que muito me abalou: a Filosofia nunca pode ser questionada, somente apreendida e estudada, servindo de fundamentos para outras filosofias. Eu, antes uma pessoa com pensamento direto e objetivo, tornei-me profundamente prolixa. A Filosofia ensinou-me a consultar sempre as bases filosóficas para responder a um questionamento, mas não como uma proposta autônoma para a elaboração da resposta, mas sim me espelhando no conhecimento dos pensadores.

Este fato me fez relembrar algo que minha filha, hoje professora de Língua Portuguesa, disse-me quando cursava sua faculdade de Letras: “Nenhum texto é original. Todo autor possui um conhecimento prévio e se baseia no conceito de outros para poder escrever. Isso é conhecimento de mundo.” Na Filosofia, isso não é diferente. Os filósofos se baseiam em conceitos anteriores para estruturar seu próprio pensamento filosófico. Sócrates, que havia teoricamente estudado em uma escola sofista, só desejava mostrar o caminho da ética e da virtude aos que o seguiam. Em seguida, Platão honra seu mestre, que nada deixou por escrito, criando uma pedagogia encantadora em que o bem deveria a tudo permear. O filósofo também fala da alma e da reencarnação dessa mesma alma. Minha reflexão durante as aulas sobre ele era a seguinte: “Mas, isso me remete a Kardec, com seus ensinamentos sobre a doutrina espírita…”. Ao questionar minha professora sobre minhas constatações, a resposta: “Não é nada disso, não é tão simples assim!”. Portanto, não podia falar, não podia questionar, não podia me expressar e nem sequer discordar. Esse é um dentre tantos episódios pelos quais passei durante os quatro anos da faculdade: adquirir conhecimento e não poder questioná-lo e nem utilizá-lo.

Neste momento, surge a seguinte indagação: para mim, qual a utilidade de faculdade de Filosofia? Um curso completo somente para a aquisição de um diploma de Bacharel em Filosofia?

Certa vez, perguntaram-me: “Como é chamado alguém que se forma nessa faculdade? É filósofo?”. Nós não podemos ser alcunhados de filósofos, pois não formamos a nossa filosofia, somente estudamos e tentamos compreender o pensamento dos filósofos. No meu entendimento, a falta de questionamento não pode gerar novos pensamentos e, consequentemente, novos filósofos.

Por fim, o curso de Filosofia não calou somente a minha voz… Calou também a minha alma. Filosofia, portanto, é só para se ler.


Música, uma necessidade pedagógica

A música está em desuso no mundo atual, pois o que se ouve em geral é um arremedo de música, imposto pela mídia, mercadejado por gravadoras que desejam lucro fácil e rápido. O povo está deseducado para o ouvir. Sertanojo, funk, pagodão e outros tons empobrecidos poluem aos ouvidos. A maioria dos jovens desconhece que somos a terra de Caymmi e Tom Jobim. Mozart e Beethoven, nem pensar. A não ser que alguma canção daqueles (como foi Pela luz dos olhos teus de Jobim) vire tema de novela da Globo. Então, salva-se algo da ignorância e do esquecimento.

Entretanto, a música não é um apetrecho postiço na vida humana, é respiro vital da alma, é canal de expressão de sentimento e sensibilidade, sem o qual o espírito se embota e perde em altura cultural e espiritual. A música é patrimônio de um povo, da humanidade toda e precisa ser passada, reconhecida, cultivada para as novas gerações, sob pena de regressarmos à barbárie.

Mas é preciso saber apreciar o que é bom, o que tem complexidade harmônica, ritmo rico, poesia bem feita… e só se pode aprender isso através da educação. Por isso é inconcebível uma escola sem música.

Assim, é digno de celebração o fato de que a partir desse ano de 2011, as escolas públicas brasileiras estão obrigadas a inserir a música em seu currículo, pela lei nº 11.769, de 2008, sancionada pelo presidente Lula (eis uma coisa bem feita por ele).

A música deveria entrar pela porta da frente da escola e ocupar um lugar de destaque e não ser entendida como um detalhe postiço do currículo.

Como acreditamos numa educação interdisciplinar, que mexa simultaneamente com todas as áreas do conhecimento, toque ao mesmo tempo todos os sentidos e desperte o interesse de crianças com diferentes tipos de inteligência e vocação – a música ocupa aí um lugar central, pois ela pode ser o ponto de partida e o ponto de chegada de um bom projeto interdisciplinar.

A música pode ser o eixo de congregação e intercâmbio de toda a escola, em corais, recitais, concertos, bailados… mas não essa coisa morna de dançazinhas ensaiadas e comandadas por professoras de má vontade, para pais e mães tirarem fotinhos (como são as festas juninas, as festas das nações e que tais!). É preciso professores que tenham cultura musical, que saibam quem é Pixinguinha e Louis Armstrong, Bach e Villa-Lobos. Que saibam como levar isso para as crianças, mostrando um trecho da Flauta Mágica de Mozart, um Singing in the Rain com Gene Kelly ou o velho Caymmi cantando Minha Jangada vai sair pro mar. Há métodos próprios para introduzir as crianças no que é bom e belo. Deve ser feito em doses homeopáticas, com as canções mais acessíveis. Não devemos começar a mostrar o que é ópera com um Richard Wagner ou introduzir música orquestral com uma peça atonal. Mas também não se deve vulgarizar e mostrar clássicos com ritmo de rock ou a  Rainha da Noite com Edson Cordeiro.

Sensibilidade, sutileza, sensatez e bom gosto – eis o que é desejável, para que a criança entre no mundo da boa música, com gosto e prazer, e queira mais. O objetivo dessa introdução da música na escola não é que todos saiam músicos (embora é bom que se descubram e se incentivem os talentos), mas que todos se tornem apreciadores da música, sensíveis, cultos e com isso dilatem a alma, sejam mais criativos e tenham um recanto de canto onde repousar.

Em outros países do mundo, na Europa e nos Estados Unidos, há uma cultura de se cantar em conjunto. Quase todo mundo na vida já participou de algum coral e quando se juntam amigos e famílias, canta-se e canta-se afinado. Isso faz bem ao espírito. Apesar de sermos um povo tão criativo e musical, perdemos essa dimensão, acachapados pela incultura da televisão, que não só tirou das famílias a conversa, mas também a música. Desliguemos a rede Globo e ouçamos música em casa. Cumpramos a lei e coloquemos música na escola e vai haver uma melhora geral na inteligência, na cultura, uma queda de violência e uma elevação dos espíritos.

* * * * * *

Abaixo um exemplo de algo delicado: uma Lied de Mozart, para crianças, de que fiz uma versão para o português. (Lied significa canção em alemão; é um gênero musical erudito geralmente para voz e piano, feito com poemas tirados da literatura, onde canto e instrumento interagem de maneira rica. O piano não é mero acompanhamento da voz, mas entretece a música junto com a linha melódica feita pela canto.)

SAUDADES DA PRIMAVERA

 

Vem logo, primavera

e traz um novo frescor!

E faz brotar na terra

perfumes, cores e flor!

Eu quero olhar de mansinho

miosótis e manacás

e ver pelo caminho

a relva bordada de paz!

Verdade é que na terra

em que por bem eu nasci

eterna primavera

vigora e brilha aqui!

Mas quando foge o inverno

Assopram ares tão bons!

Setembro amigo e terno

traz novas nuanças e tons!

Saudades da Primavera

Música: Wolfgang Amadeus Mozart • Versão para o português: Dora Incontri • Arranjo: Luciano Vazzoler & Moacyr Camargo• Voz: Dora Incontri • Piano: Luciano Vazzoler • Vozes das crianças: Beatriz Gross Barboza, Julia Fidelis Oriola, Letícia Barbosa Magalhães,  Luísa Carvalho Grossi de Almeida e Paola de Angelis • Regente do coro infantil: Bia de Luca


Comenius

Jan Amos Comenius (1592-1670)

“Nosso primeiro desejo é que todos os homens sejam educados plenamente em sua plena humanidade, não apenas um indivíduo, não alguns poucos, nem mesmo muitos, mas todos os homens, reunidos e individualmente, jovens e velhos, ricos e pobres, de nascimento elevado e humilde — numa palavra, qualquer um cujo destino é ter nascido ser humano: de forma que afinal toda a espécie humana seja educada, homens de todas as idades, todas as condições, de ambos os sexos e de todas as nações. Nosso segundo desejo é que todo homem seja educado integralmente, formado corretamente, não num objeto particular ou em alguns objetos ou mesmo em muitos, mas em tudo o que aperfeiçoa a espécie humana; para que ele seja capaz de saber a verdade e não seja iludido pelo que é falso; para amar o bem e não ser seduzido pelo mal; para fazer o que deve ser feito e não permitir o que deve ser evitado; para falar sabiamente sobre tudo, com qualquer um, quando necessário e não ser estúpido em nenhum assunto e finalmente para lidar com as coisas, com os homens e com Deus, em todos os sentidos, racionalmente e não precipitadamente e assim nunca se afastando da meta da felicidade. E educado em todos os aspectos: não para pompa e exibição, mas para a verdade; quer dizer, para tornar os homens o mais possível a imagem de Deus, na qual foram criados: verdadeiramente racionais e sábios, verdadeiramente ativos e espirituais, verdadeiramente morais e honrados, verdadeiramente pios e santos e assim verdadeiramente felizes e abençoados tanto aqui, quanto na eternidade. Em suma, para iluminar todos os homens com a verdadeira sabedoria, para ordenarem suas vidas com verdadeiros governos e para uni-los a Deus com verdadeira religião, de modo que ninguém se equivoque em sua missão neste mundo.” (Pampædia)

“todos os homens… devem desenvolver o pensar, o falar e o agir, de modo que esses três dons se harmonizem entre si.” (Pampædia)

“Como para toda a humanidade, o mundo é uma escola, desde o começo até o final dos tempos, assim para cada ser humano individualmente a vida inteira é uma escola, desde o berço até o túmulo. Não é suficiente dizer com Sêneca: para aprender nunca é tarde, devemos muito mais dizer: cada idade está destinada ao aprendizado, e nenhum outro sentido tem a vida humana e todo o seu esforço. Sim, nem mesmo a morte coloca um limite à vida e ao mundo. Qualquer um que nasceu como ser humano, deverá passar por tudo em direção à eternidade, como para uma academia celeste. Tudo o que se passa antes é assim apenas um caminho, uma preparação, uma oficina – uma escola inferior.” (Pampædia)

“Em cada escola pública, deve-se empregar todo empenho em exemplos e demonstrações práticas. …” (Pampædia)

“a infância é a primavera da vida. Não se pode aí perder nenhuma oportunidade de preparar o engenho do seu espírito. Quem deseja uma colheita farta, precisa reservar um campo inteiro, não pode deixar nada sem cultivo.” (Pampædia)

O ensino deve ser…

“Amistoso e de forma infantil” “…as crianças devem aprender sobre coisas com as quais os adultos se relacionam, mas de forma infantil. Se Timóteo já aprendia em sua infância sobre as escrituras sagradas, isto é, sobre Teologia. Porque não podem as crianças também aprender também filosofia, direito, medicina, tudo naturalmente à sua maneira?” (Pampædia)

“1. As crianças são seres humanos – assim devemos levá-a para a humanidade. 2. São crianças – assim devemos tratá-las como crianças, segundo as capacidades de sua idade. 3. Elas serão homens – assim precisamos atraí-las para aquilo que é importante para o homem.” (Pampædia)


Rousseau

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

“Na ordem natural, sendo todos os homens iguais, sua vocação comum é o es­tado de homem e todo aquele que for bem educado para este estado não pode preencher mal os outros que têm relação com ele. Que se destine meu aluno à espada, à igreja, ao tribunal, pouco importa. Antes da vocação dos pais, a natureza o chama à vida humana. Viver é a função que lhe quero ensinar. Saindo das minhas mãos ele não será, confesso-o, nem magistrado, nem soldado, nem padre: ele será primeiramente homem; tudo o que um homem deve ser ele saberá sê-lo segundo as necessidades, e a fortuna poderá muito bem trocá-lo de lugar, ele estará sempre no seu.” (Emílio)

 (…) a verdadeira educação consiste menos em preceitos do que em exercícios. Começamos a nos instruir, começando a viver. (…) Viver não é respirar, é agir; é fazer uso de nossos órgãos, de nossos sentidos, de nossas facul­dades, de todas as partes de nós mesmos, que nos dão o sentimento de nossa existência.” (Emílio)

“Que o aluno não saiba nada porque lhe te­nhais dito, mas porque ele o compreen­deu por si mesmo, que ele não aprenda a ciên­cia, que ele a invente. Se substituis no seu espírito a razão pela autoridade, ele não ra­ciocinará mais, será apenas o joguete da opinião alheia.” (Emílio)

“A retidão do coração, quando solidificada pelo raciocínio, é a fonte da exatidão do Espírito” (Emílio)

“Qual o objetivo da educação de um jovem? É o de torná-lo feliz.” (Emílio)

“A natureza – quer que as crianças sejam crianças antes de serem homens. Se quisermos perturbar essa ordem, produziremos frutos prematuros que não terão nem madureza nem sabor, e não tardarão a se corromper; teremos doutores infantis e crianças velhas. A infância tem maneiras de ver, de pensar, de sentir que lhe são próprias.” (Nova Heloísa)

“Chamo educação positiva aquela que tende a formar o espírito antes da idade e a dar à criança o conhecimento dos deveres do homem. Chamo educação negativa aquela que tende a aperfeiçoar os órgãos, instrumentos de nossos conhecimentos, antes de nos dar esses conhecimentos e que prepara a razão pelo exercício dos sentidos. A educação negativa não é ociosa, longe disso. Ela não dá as virtudes, mas previne os vícios; ela não ensina a verdade, mas preserva do erro. Ela dispõe a criança a tudo o que pode levá-la ao verdadeiro  que ela está em condições de entendê-lo, e ao bem quando está em condições de amá-lo. (Carta a Christophe  de Beaumont)

“Parece certo, entretanto, eu o confesso, que se o homem é feito para a sociedade, a Religião mais verdadeira é, também,  a mais social e a mais humana, porque Deus quer que sejamos tais como ele nos fez, e se fosse verdade que ele nos tivesse feito maus, seria desobedecer-lhe querer deixar de sê-lo. Além do mais a Religião conside-rada como uma relação entre Deus e o homem, não pode chegar à glória de Deus senão pelo bem-estar do homem, pois que o outro termo da relação que é Deus, está, por sua natureza, acima de tudo o que pode o homem a favor ou contra ele. (Carta a Christophe  de Beaumont)


Pestalozzi

Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827)

“Não se pode esconder: escolas e institutos de educação estão de muitas maneiras distantes da vivacidade da influência natural do meio doméstico para o despertar de um estado de ânimo positivo e de uma participação ativa em tudo o que é educativo.” (Ein Wort über Schulen und Erziehungshäuser – Band 27)

“A educação moral não deve ser trazida de fora para dentro da criança, mas deve ser uma conseqüência natural de uma vivência moral.” (Ein Wort über Schulen und Erziehungshäuser)

“A meta para o qual o método tende constantemente e em todas as coisas, é de atingir, vivificar e fortificar o que há de verdadeiramente humano, espiritual e moral na criança. Em outros termos, ele considera e trata a criança, desde o primeiro momento, como uma natureza humana, espiritual e moral e reconhece nele principalmente esta existência e esta atividade. O fundamento de sua confiança na criança é a primeira revelação divina a respeito do homem, que é na realidade uma imagem de Deus. Longe de considerá-la como uma tábula rasa, sobre a qual é preciso escrever, como um vaso vazio que deve ser preenchido, ela o vê ao contrário como uma força real, viva, ativa por si mesma, que desde o primeiro momento de sua existência, opera, organizando, como um corpo orgânico sobre seu próprio desenvolvimento e extensão…(…) A natureza externa, os cuidados maternos, o entorno doméstico despertam e determinam, regulam e dirigem entretanto, por sua influência, a atividade dessa força, mas eles nada podem sobre a sua natureza.” (Méthode théorique et pratique)

“A educação moral nada mais é que o desenvolvimento da vontade humana pelos sentimentos mais elevados do amor, do reconhecimento e da confiança; desenvolvimento que se funda sobre a perfeição na qual esses sentimentos se manifestam, desde sua primeira aparição, nas relações que se estabelecem entre mãe e filho.” (Méthode théorique et pratique)

“Embora a força da Natureza conduza irresistivel­mente à verdade, não há cons­trangimento nessa condução. O som do rouxinol que ecoa na escuridão e assim todas as coisas da natureza flutuam em refrescante liberdade, sem a mínima sombra de uma inopor­tuna ordem em série. Se houvesse uma ordem em série, constrangedora e forçada, no modo de ensi­nar da natureza, também ela for­maria de modo parcial, e a verdade não preencheria doce e livremente a plenitude do ser humano.” “O homem perde o equilíbrio de seu poder, a força da verdade, se o seu espírito for conduzido com violência e par­cialidade para um objeto. Por isso, o modo de ensinar da na­tureza não é violento.” (Die Abendstunde eines Einsiedlers)

“A criança não é como uma tabula rasa, um recipiente vazio, que deve ser preenchido com matéria estranha, mas sim uma força real, viva e autônoma, que já no primeiro instante da sua existência age coordenando organicamente sobre seu próprio desenvolvimento e expansão… A Educação deve recorrer espontaneamente à vontade da criança, ao seu impulso para a Verdade, ao seu gosto pelo Belo e à sua ânsia pelo Bem. A Educação não deve caminhar no sentido negativo de entravar o mal, mas no sentido positivo de vivificar o Bem.” (Lenzburger Rede)

“O verdadeiro educador, cheio de humildade, sentindo as fraquezas e as limitações de sua própria personalidade, não ousa intervir violentamente no desenvolvimento do aluno, para determinar arbitrariamente o seu rumo, e satisfazer seus próprios conceitos, metas e opiniões. Com santo pudor, ele alimenta e cuida daquilo que existe na criança, como de uma planta que o Pai celestial plantou.” (Lenzburger Rede)

“No íntimo da nossa natureza, há um santo ser divino, cuja formação e cuidado, pode elevar o homem para a dignidade interior da sua natureza, e só através disso ele se torna homem.”