A história da árvore generosa

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Para os que acham a árvore masoquista

Ontem, em nossa oficina de educação para a vida e para a morte, com o tema A Criança diante da Morte, com Franklin Santana Santos e eu, no Espaço Pampédia, houve uma discussão fecunda sobre um livro famoso e belo: A Árvore Generosa, de Shel Silverstein (Editora Cosac Naify). Bons livros infantis são assim: têm múltiplos alcances, significados, atingem de 8 a 80 anos, porque falam de coisas essenciais e profundas. Houve intensa discordância quanto à mensagem dessa história, sobre a qual já queria escrever há muito.

Para situar o leitor que não leu (mas recomendo ler), repasso aqui a sinopse do livro:

“’A árvore generosa’ traz o clássico de 1964 que conta a história do amor entre uma árvore e um menino. A árvore é a amiga amorosa que dá tudo ao menino, suas folhas, seus frutos, sua sombra. O menino também ama a árvore, a grande companheira de todos os dias; sobe em seu tronco, se pendura nos galhos, brinca de esconde-esconde. Até que vai crescendo, se torna adolescente, depois adulto. E, pouco a pouco, deixa a amiga de lado. ‘Estou grande demais para brincar’, diz o menino, que então precisa de dinheiro para comprar ‘muitas coisas’. A árvore fornece suas maçãs, para o jovem vender. Depois seus galhos, para o homem construir sua casa. E a história acompanha o passar do tempo até a velhice do homem – que até o fim, já bem velho e cansado, é chamado de menino pela árvore.”

A história retrata uma relação de amor que, de início, quando o personagem é menino, é recíproca, mas depois, quando cresce, vai se tornando uma doação unilateral, pois a árvore dá, se dá, se doa, fica feliz de se oferecer e se sacrificar pelo seu menino, mas o menino, adulto, maduro, só tira, só recebe, sem lhe dar nada em troca. Mas sempre volta para sua árvore e lhe pede mais. Quando ela não tem mais nada para dar e se tornou apenas um toco e ele está velho e cansado, ainda ela lhe serve para ele se sentar e se confortar. E ela se sente sempre feliz em se doar para o seu menino.

O que ressalta à primeira vista na leitura é a oferta irrestrita da árvore (generosa) e o egoísmo depredatório e indiferente do menino, que cresceu, mas continua menino para sua árvore. Aliás, é sintomático que ele continue até o fim do livro, sendo chamado de menino, porque embora velho, ainda se comporta como um menino mimado, incapaz de assumir uma responsabilidade de amor com quem tanto lhe deu. Ela cuida e ele se descuida. Ela se oferece e ele vai embora. Ele volta e ela exulta, mas ele volta apenas para pedir mais. Ela quer vê-lo feliz e não mede sacrifícios para isso, ele se comporta de forma indiferente à dor que ela sente, ao vê-lo partir.

Claro que o comportamento do menino é revoltante, mas a atitude da árvore é divina. Uma atitude de amor pleno, de entrega total, de esquecimento de si, pelo ser que ama. Uma atitude aliás muito mal vista e mal compreendida no mundo atual, onde amor não pode incluir sacrifício e renúncia, mas apenas troca calculada e medida.

Existe, é verdade, um único tipo de amor que não comporta a entrega plena sem reciprocidade nenhuma: é o amor entre um casal. Nesse campo, é preciso haver um equilíbrio, embora possa um dos dois, que tiver maior maturidade espiritual, exercer uma doação maior. Mas se houver um descompasso muito grande, dá-se a anulação e a exploração, a desvalorização do outro. A reciprocidade do amor num casamento, numa relação a dois, é uma necessidade para a sua sobrevivência. Fora isso, o amor pode se libertar de qualquer espera de retorno, pode projetar a reciprocidade plena para a eternidade – o amor fraterno, o amor de amizade, o amor pedagógico e, sobretudo, o maior amor de todos, o materno (que não é exclusivo de uma mãe para com o filho, podemos experimentar o amor materno com qualquer outro ser humano), são amores que podem se soltar das amarras de cobrança e procurarem um status de divindade.

Não foi esse, por acaso, o amor de Jesus? Não é isso que propõe o cristianismo? Mais amar do que ser amado? Jesus, na cruz, dizendo: perdoai-lhes Pai, porque não sabem o que fazem não é igual à árvore entregando seus galhos para o menino egoísta? Qual o sentido desse amor? O amor que se sacrifica, que se devota, que se entrega plenamente é o amor que toca o outro, é o amor que fará um dia o menino crescer e amadurecer, sentir o quanto foi amado e aprender também a se devotar assim.

Essa árvore, ao contrário do que alguns podem pensar, não era masoquista, sobretudo porque a árvore ficava feliz em amar e se doar. Ela era sábia e sabia que seu menino ainda era mesmo um menino e teria muito o que aprender. Mas para ensiná-lo, não se nega, não recua, não repreende, não põe limites ao seu amor. Simplesmente exemplifica o que é de fato amar. Só se aprende o que é o amor pleno, recebendo esse amor de alguém. Por isso, as leis divinas fizeram as mães (embora muitas delas ainda não desenvolveram esse amor completo, e algumas até o renegam, mas ele está imanente até mesmo nos animais, porque é emanação de Deus): sem a entrega total de alguém que nos cuide e vele por nós nos primeiros anos de vida, não sobreviveríamos… Essa necessidade absoluta com que viemos ao mundo revela um momento na vida (poderá haver outros, em crises, doença, velhice e morte) em que precisamos exatamente de uma árvore generosa, que não meça sacrifícios por nós.

Mas o mundo contemporâneo tem grande dificuldade de entender e aceitar isso. Muitos, ao lerem essa história, se revoltam mais com a árvore, considerada tola, mole, masoquista, do que com o menino, egoísta e indiferente – vale dizer, imaturo. Porque nem mais as mães querem hoje ser árvores generosas! Estamos num mundo que despreza a entrega de si mesmo e prega que todos devemos exercitar o “pensar primeiro em si”. Ou seja, todo mundo tem é que se comportar como o menino. Mas se não houvesse árvores generosas, pessoas que se entregam ao próximo, que se sacrificam pelo bem e amam incondicionalmente, o mundo estaria ainda mais ressecado e vazio do que está.

Podemos ainda dizer que a árvore mais generosa do universo é Deus – amor infinito, irrestrito, pleno, o amor que cobre a multidão de pecados. Quando passarmos a entender e sentir mais Deus como amor pleno e não como um juiz punitivo, justiceiro, melhor compreenderemos e vivenciaremos esse amor divino em nós. Quem se comporta como a árvore generosa está aprendendo a ser mais perto de Deus. E os meninos mimados e egoístas crescerão. E só o amor das árvores generosas poderá curá-los e educá-los.


Como e por que sou anarquista – pequena cartilha política

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Em tempos de discussão política, de diferentes pautas e interesses, que se entrecruzam e se misturam, às vezes de maneira confusa e imprecisa, é bom pontuar algumas ideias e marcar uma posição mais clara.

Digo isto, porque embora tenha ficado a princípio muito satisfeita e entusiasmada com o despertar do povo, saindo às ruas e reivindicando direitos, logo fui ficando menos empolgada, ao verificar que a maioria tem insatisfações genéricas, que as reivindicações vão da esquerda à direita, misturadas, e muitas vezes, mostrando a mesma alienação de sempre. Ou seja, embora tenha notado com alegria que há muita gente mais conscientizada, ainda percebe-se que há muitos outros conservadores de plantão que se dividem em duas classes: a dos que têm interesses próprios no sistema vigente e a dos que simplesmente não têm consciência política (ou seja, são alienados), por falta de formação e de informação! Alguns padecem simultaneamente dos dois problemas.

Como esse não é um espaço para um tratado profundo sobre o assunto, apenas quero deixar algumas definições básicas, úteis para quem não está habituado a certas reflexões.

Em primeiro lugar, quero definir como conservadores (ou de direita) aqueles que não conseguem ou não querem elaborar uma crítica ao sistema econômico globalizado em que vivemos. Podem criticar a corrupção (e criticam de preferência e com mais ênfase a do PT), podem querer genericamente mais saúde e educação, podem estar conscientes de alguns absurdos crônicos do cenário da política brasileira. Mas não vão além. Não percebem que por trás de políticos corruptos no Brasil e mesmo por trás de alguns possíveis bem intencionados, há as corporações e os bancos, que comandam o sistema mundial, diante de quem os governos nada podem. Mesmo um Obama é um marionete do sistema, sem muito o que fazer diante dos lobies econômicos, da força das indústrias de armas, dos banqueiros internacionais… Entre esses conservadores, pode haver os que acreditam nas instituições democráticas e não gostariam de uma ditadura (ditadura explícita, porque já vivemos numa ditadura econômica). Mas há também os radicais, que sentem saudades do militarismo (e agora soubemos da formação de um partido militar no Brasil!!!), que querem o fechamento do Congresso e coisas assim… Esses naturalmente não dão a mínima para aqueles que foram torturados, assassinados e desaparecidos nos tempos da repressão e ainda acham que comunistas comem criancinhas!

Em seguida, vamos apalpar um pouco o outro lado, que também junta muitas posições: a esquerda. Direita e esquerda são distinções que nasceram na Revolução Francesa e têm mostrado diferentes agendas nos últimos dois séculos. Por exemplo, aquela esquerda dos tempos da Guerra Fria, simplesmente não existe mais, porque ela era polarizada pela União Soviética. Hoje, a esquerda pode representar posições bem mais sofisticadas e variadas. Mas em todas as esquerdas, existe a consciência de que vivemos numa sociedade estruturalmente injusta, de que o capitalismo é excludente, perverso, porque centrado no lucro, na exploração, onde o ser humano nada vale, como objeto descartável do mercado. De algumas décadas para cá, a esquerda também se acresceu de uma consciência ecológica, porque além de massacrante em relação ao ser humano, o sistema capitalista é predatório da natureza, esgotando os recursos naturais da Terra (consciência, por exemplo, que uma esquerda marxista da década de 50 não tinha).

Entre as esquerdas marxista ou socialista, distinguem-se as revolucionárias, (em claro desuso atualmente) que pregam ou praticam o uso das armas para derrubar esse sistema e as reformistas, que pela eleição pensam chegar ao poder e transformar as coisas. É o que o PT prometia.

Entre as esquerdas, está o anarquismo, posição que adoto desde jovem.

 O que é o anarquismo?

O anarquismo partilha com todas as outras posições de esquerda a ojeriza ao sistema econômico capitalista, em que somos escravos do mercado de consumo, com uma doutrinação maciça da imprensa (que também é feita de corporações interessadas no lucro e não na verdade e no bem coletivo), num mundo globalizado em que a suposta liberdade econômica é sim o domínio de uns poucos sobre povos inteiros.

Mas, ao contrário de socialistas e comunistas, os anarquistas não acreditam que o Estado possa ajudar a reverter esse sistema econômico injusto, porque o Estado já nasceu e sempre esteve a serviço dele. Um dos grandes anarquistas (e nesse caso anarquista cristão, partidário da não-violência) cujas ideias esposo e admiro, Lev Nikolaievitch Tolstoi, mostrava que o Estado é assentado na violência, porque ele precisa de exército e polícia para funcionar – ora, essa violência pode ser a toda hora voltada contra o cidadão (vimos isso fartamente nas manifestações havidas recentemente), porque o poder quer sempre se manter do poder, e, para manter-se, usa de violência. Para Tolstoi, a própria existência do Estado é contra a mensagem de Jesus, se a entendermos como uma mensagem de amor e não-violência, na medida em que o Estado é naturalmente bélico e repressor. Mesmo a suposta justiça, promovida pelo Estado, segundo Tolstoi, longe de ser uma proposta educativa, é uma vingança social. (Ele escreveu um livro belíssimo sobre o assunto: Ressurreição.)

O anarquismo propõe que o ser humano é capaz de gerir a si mesmo, em cooperativas, associações livres, em relações igualitárias e fraternas. A parafernália do Estado, com seu cortejo de políticos vivendo às custas da nação, com seus exércitos, com suas polícias repressoras, com os impostos que todos são obrigados a pagar (e isso no Brasil ainda é pior que em alguns outros países), tudo isso são coisas perfeitamente dispensáveis, quando poderíamos viver nos organizando fraternalmente.

Já vejo o muxoxo de desprezo de muitos, dizendo que a ideia pode ser muito bonita; mas utópica, irrealizável.

Pessoalmente, só acho que ela seja realizável através da educação, formando gerações que cresçam com autonomia, confiantes em si mesmas, praticantes desde cedo da cooperação e da fraternidade, ao invés da competição que o sistema atual estimula.

É óbvio que a concepção anarquista se baseia numa visão otimista do ser humano, em que o mal e o crime são muito mais produtos de uma sociedade injusta, mal organizada e de uma educação deformante, do que algo intrínseco ao ser.

Como acredito na perfectibilidade humana e sei que uma educação libertadora e crítica, estimuladora de bons sentimentos e de valores humanos, pode acelerar essa capacidade de autonomia e bondade, sou anarquista agora, por ética pessoal, na medida do possível e do factível, e a médio e longo prazo, acredito que o anarquismo é o antissistema a ser alcançado num futuro não muito distante.

O que chamo de anarquismo por ética pessoal é o seguinte: mesmo vivendo numa sociedade altamente dominada por poderes econômicos e políticos, repressores da liberdade humana, viver de forma contrária a esse sistema. Por exemplo, não assisto à TV, não sou manipulada pela mídia, não estabeleço relações de hierarquia com ninguém. Nunca trabalhei em algo e por algo que contrariasse meus princípios (atitude que Tolstoi e Gandhi chamavam de não-colaboração com o mal), orgulho-me de ter recusado duas vezes um emprego na Veja, e isso mesmo quando estive em necessidade financeira. Procuro na medida do possível resistir na alimentação, no consumo, no cotidiano às imposições do mercado. Na família, no trabalho, nas relações pessoais procuro formas horizontais de troca e respeito, recusando posições de mando, o que não quer dizer recusar liderança. Há grande diferença entre ser chefe e ser líder. O comando se impõe e se faz valer por meios coercitivos, a liderança se conquista por mérito em alguma área ou por algum carisma pessoal e são os outros que lhe dão. O comando se quer a qualquer custo, a liderança se ganha espontaneamente.

E sobretudo, milito o tempo todo para acordar consciências e através da educação, de crianças, jovens, adultos, restituir ao ser humano a crença em si mesmo, em sua capacidade de se autogerir, de criticar, de questionar, derrubando gurus que manietam o livre pensar, denunciando mercadores de ideias e de ideologias, mostrando como as instituições (mesmo as espíritas, cito porque me considero espírita sempre) acabam por se cristalizar em poderes e disputa de poderes, massacrando a espontaneidade do ser humano e a espiritualidade despojada e simples, que é a única que nos eleva.

Gosto do anarquismo, porque ele é multifacetado, livre, não tem cartilhas fechadas, é aberto a experiências pessoais e coletivas, como considero que é nosso processo de maturação espiritual no decorrer das vidas. Acho mesmo que para ser anarquista é preciso, como Tolstoi propunha, ser cristão na essência do termo. Não o cristianismo institucionalizado, dogmático, igrejeiro. Mas o cristianismo de fraternidade real, em que o ser humano se despoje do seu desejo de dominar, explorar e ferir o outro, para entregar-se a vivências de ajuda mútua, cooperação e… o que afinal propunha Jesus: amor ao próximo como a si mesmo. Só isso!


Armadilhas da fé

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Fiz nesses dias um breve passeio pela rede, em algumas línguas, para colher pessoas, ideias e informações sobre o tema Educação e Espiritualidade, de que faremos um congresso internacional no ano que vem. E depois de medir um pouco a temperatura do que anda acontecendo nesse campo, na prática, nas universidades, no mundo editorial, inspirei-me a escrever algumas reflexões sobre a espiritualidade nesse nebuloso, mas estimulante início de milênio. Considere-se aqui espiritualidade qualquer ligação com o divino, com a dimensão espiritual do ser. A espiritualidade pode ou não estar vinculada a uma religião específica. Pode-se viver a espiritualidade dentro ou fora de uma determinada corrente religiosa.

A notícia animadora é que há muita gente no mundo trabalhando pelo diálogo, pelo encontro, pela convivência respeitosa e pacífica entre as pessoas de diferentes credos, etnias, origens… Há muita gente se propondo a uma espiritualidade aberta, questionadora, crítica, que permita a busca pessoal e o respeito à consciência de cada um. Há igualmente muitos estudos sérios, acadêmicos, que demonstram que a espiritualidade pode fazer bem à saúde, trazer resiliência, aumentar a qualidade de vida, melhorar a imunidade, produzir efeitos benéficos nas relações, promover valores solidários e pacificadores. Há pessoas propondo práticas educacionais que levem em conta a diversidade de crenças e cultivem a espiritualidade das novas gerações dentro de um pluralismo saudável.

Há também uma possibilidade, antes nunca experimentada em nenhuma época histórica, do ser humano ter acesso facilmente, rapidamente, às mais antigas ou mais recentes religiões, movimentos, tradições. Está tudo on-line, em todas as línguas. Está tudo publicado, em livro impresso ou eletrônico. Em poucos segundos, podemos achar uma maravilha da poesia sufi, diversas traduções do Baghavad Gita, salmos bíblicos, preceitos da Torá, ensinamentos das mais diferentes linhas do Budismo, vídeos de líderes das mais diversas correntes… Ou seja, há fartos alimentos espirituais em toda parte, disponíveis, acessíveis.

O problema começa no fato de que no meio de toda essa oferta há muita coisa misturada, de baixa qualidade e as pessoas não têm referência e ignoram como escolher as fontes confiáveis, o alimento mais saudável para a alma, assim como não sabem muitas vezes escolher o alimento mais saudável para o corpo. Da mesma forma que temos fast foods a cada esquina, que intoxicam e provocam câncer de cólon – temos espiritualidades enganosas, que induzem à alienação e ao anestesiamento do espírito.

O que há de preocupante no cenário religioso e espiritual em praticamente todas as nações? Em primeiro lugar, o fundamentalismo cada vez mais eloquente, retrógrado e agressivo que se manifesta como um câncer dentro de todas as religiões. Em todas elas, há pessoas e movimentos abertos e progressistas e há setores que se apegam à letra, que manifestam um fanatismo perigoso e que se fecham ao diálogo e à tolerância. Essa é uma ameaça que nunca será demais denunciar – mesmo porque ela está se fazendo cada vez mais forte no Brasil com os evangélicos mais radicais – e porque está instalada em vários pontos do mundo.

Mas o outro fenômeno, talvez não tão claro para muitos, é o esgarçamento, a diluição da espiritualidade num aluvião de livrinhos, pregações, símbolos que não têm nada de espiritual, mas apenas de comercial. Ideias, apelos, movimentos inteiros que são atrativos para os olhos, sedutores para as mentes superficiais da atualidade, mas sem nenhuma consistência. Isso que eu chamo de espiritualidade light, que mistura cristais com autoajuda, que faz de padres pop stars que vendem milhões de CDs, que torna monges budistas instrutores de executivos bem-sucedidos, que promove médiuns medíocres e espalhafatosos em produtores de best-sellers… essa espiritualidade é que nas prateleiras das livrarias está misturada com livros sérios de um Leonardo Boff, com belezas de uma poesia sufi, com a profundidade de uma obra de Teresa d’Ávila!

Num mundo em que a moeda mais valiosa é a  própria moeda, a lógica da oferta da fé é uma lógica comercial. E os consumidores, como estão acostumados a consumir lixo como comida, lixo como arte, também consomem lixo como fé… A maior parte da população perdeu, ou nunca chegou a ter, por falta de uma educação que proporcione isso, a sensibilidade e o discernimento para enxergar os falsos gurus, para distinguir as tradições genuinamente enraizadas dos modismos comerciais…

Mas assim como a rede, o mercado, os livros, os vídeos oferecem todo esse alimento espiritual verdadeiramente rico, misturado a grãos apodrecidos, também nela podemos achar polêmicas, denúncias, discussões históricas sobre todas as grandes tradições. Ao mesmo tempo em que podemos nos alimentar espiritualmente de várias origens ou escolher com mais conhecimento de causa o que mais fala ao nosso coração, podemos encontrar antídotos bastante relevantes contra mistificações, charlatanismos, falsidades históricas e assim por diante. Está tudo aí, o verdadeiro e o falso, o elevado e o abusivo, o sincero e o hipócrita, o que é fruto de pesquisa séria e o que é enganação deslavada.

Como viver de fato a espiritualidade 

Mas como nos conduzirmos nesse emaranhado de ideias, ofertas e caminhos? É possível não sermos enganados? Esses enganos podem ser mais inofensivos – como achar que um livro como Código da Vinci tem respaldo histórico – ou mais graves, como entrar para alguma seita que nos faça lavagem cerebral e nos aliene da própria razão!

Aqui, algumas dicas, que considero essenciais para podermos viver uma espiritualidade construtiva, autônoma e saudável!

1) Ouçamos os ateus e os antirreligiosos: eles têm críticas que podem ser úteis para nos imunizarmos contra os que abusam da religião para explorar o próximo e para ganhar poder e dinheiro. Um pouco de ceticismo faz bem à nossa espiritualidade.

2) Desconfiemos de líderes e gurus que aceitam ser reverenciados, que ditam regras de cima, que vivem muito distanciados das pessoas comuns. As pessoas que realmente vivem numa dimensão espiritual elevada são simples, despojadas, não permitem que ninguém se humilhe diante delas…vivem próximas às outras pessoas.

3) Desconfiemos de movimentos, instituições, líderes que têm muito dinheiro. Em nosso mundo, quem luta por ideais nobres e se alinha no bem, pode usar o dinheiro de maneira saudável e construtiva, mas encontra dificuldades sempre, porque no sistema capitalista, só faz fortuna quem age dentro da lógica do sistema – ora fazer fortuna com a espiritualidade é tratá-la como mercadoria.

4) Acima de tudo, enraizemos nossa espiritualidade em nós mesmos e não no outro. Para isso, é preciso ter tempo para vivenciá-la: tempo para orar, tempo para sentir a natureza, tempo para amar ao próximo e estar junto de quem precisa… ou seja, a vida contemporânea se opõe a esse vagar, a esse respirar da alma e justamente por isso, pretende vender espiritualidade em pastilhas, para serem tomadas entre um programa e outro de televisão! Quem tem experiências espirituais profundas, verdadeiras e legítimas não vai se iludir com falsos gurus!

A experiência espiritual pressupõe silêncio – dos ouvidos físicos e da alma. Um silêncio que permita o aflorar do divino em nós, que nos faça sentir a conexão com todas as coisas e nos permita saborear a paz. Por isso, a espiritualidade requer uma mudança de atitude de vida – sem excessos de trabalho, prazeres, informações, correrias. Uma vida de equilíbrio, em que nos permitamos a pausa para um respiro da alma, para nos sustentarmos com o alimento do céu, que sacia muito mais dos que os alimentos perecíveis do comércio da fé.


17 de junho de 2013, o dia em que o Gigante acordou

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Num momento em que explodem as insatisfações seculares de um povo, que já não aguenta mais o cinismo das classes dominantes, apenas podemos manifestar melhor nossa adesão, através de um poema, que grite na internet, como nas ruas está gritando o povo!

Não são os vinte centavos
Que movem as multidões
E assombram nosso congresso
e assolam os corações!
 
São séculos de opressão
Inesgotáveis impostos
Corrupção sem fronteiras
E cínicos sempre a postos!
 
É nosso trabalho escravo
Sustentado vis Sarneys
É nossa descrença crônica
Na equidade das leis!
 
São as crianças nas ruas
São hospitais em pedaços
São escolas depredadas
E os políticos devassos!
 
Não é um partido ou outro
É uma casta que domina
Desde o Império à República
E nossa esperança mina!
 
O povo se movimenta
Nas ruas embandeiradas
E nasce em nós a centelha
De esperanças tão guardadas!
 
Esperanças de um Brasil
De justiça repartida
De igualdade verdadeira
E de infância protegida!
 
Não são os vinte centavos
Que movem as multidões
Mas é a esperança escondida
Que agita nossas visões!
 
A medida derramou
O gigante se mexeu
Façamos a nossa parte
Eles, nós, vocês e eu!

Pela maioridade do Bem (Invocação a Castro Alves)

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Às vezes, argumentos não bastam. Números, fatos, dados objetivos não conseguem abrir caminho na opinião obstinada, que se cristalizou num dogma. Há uma multidão de pessoas, que estão gritando pela redução da maioridade penal. Já argumentei, já mostrei números, artigos interessantes e as pessoas simplesmente não ouvem. Então, estou lançando mão da poesia. Fiz um apelo ao grande poeta Castro Alves, inflamado pelas causas sociais, sobretudo a do escravo. Muitas das crianças e adolescentes, que hoje estão na criminalidade – marginalizadas socialmente, que não tiveram acesso à educação e aos direitos fundamentais do ser humano – são remanescentes históricos da escravidão. Para clamar contra a injustiça, poetemos à Castro Alves!

Que ouço? Reclamam vozes

Rigores e punição

Ventam palavras ferozes                             

Endurece-se a nação!

 

Que a cadeia irrevogável

Encarcere o vil bandido

Nada seja perdoável

Brada o povo em alarido!

 

A mídia esse coro orquestra

Moldando as opiniões!

A demagógica mestra

Que põe na praça os vilões!

 

Mas quem são os acusados

Por tantos dedos hostis?

Onde estão acobertados

Nesses múltiplos Brasis?

 

Será aquele que trata

Como escravo um boliviano?

Ou o que infesta de mamata

O Congresso de ano a ano?

 

Será o que expulsa e que mata

Famílias do Pinheirinho?

Será o que não se retrata

Por torturar num cantinho?

 

Será talvez o assassino

Da missionária caída?

Ou o que violou um menino

Despedaçando-lhe a vida?

 

Serão os grandes senhores

De feudos descomunais

De escravidões e de horrores

De tempos coloniais?

 

Não! Nenhum destes, ó Musa!

Persegue a mídia e a nação!

Nenhum destes que se acusa

Com tanto rigor e agressão!

 

Querem justiça implacável

Com quem sem justiça nasceu!

Nenhuma lei maleável

A quem nada tem de seu!

  

Pobre, negro, quem na rua

Teve por casa a calçada,

E sem mãe, de vida nua,

Teve sua alma estuprada!

 

Aos meninos delinquentes

A punição exemplar!

Eles que ainda sem dentes

Só sabiam apanhar…

 

Pois apanhem de um padrasto,

Que o pai está na prisão!

Menino, siga o seu rastro,

É o que deseja a nação!

 

Perpetua-se a violência

Com mais violência e rancor!

Poderá haver decência

Numa nação sem amor?

 

Meninos querem afeto

Mesmo de armas na mão,

Foi a vida num deserto

Que pôs suas almas no chão!

 

Ó Musa, chama o poeta

Que cantou a abolição!

E faz que sua voz dileta

Diga por mim: compaixão!

 

Ao invés de mais cadeias

Que são escolas de crime

Semeemos a mancheias

A educação que redime!

 

Escolas de liberdade

Em militância no bem!

Justiça, paz, igualdade

Que nada falte a ninguém!

 

Musas, Deuses, Mestres, Guias!

Poetas de hoje e de além!

Calem-se as vozes sombrias

Cantemos vozes do Bem!

 


O mundo precisa de mães!

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Vou começar a minha reflexão do dia das mães, sobre maternidade e maternagem, relembrando a minha própria mãe. Quando ela se foi, eu tinha 34 anos. Ela era uma grande parceira intelectual, uma mãe presentíssima. Compartilhávamos conversas, ideias, ideais, livros lidos, projetos a realizar. Apesar dessa ligação muito “cabeça” que tínhamos, quero lembrar de um fato aqui que me introduz no tema de hoje. Até um mês antes de ir para o hospital, onde faleceu dois meses depois, com câncer de pâncreas, ela diariamente arrumava minha cama. Não que fosse uma mãe essencialmente doméstica: fazíamos os serviços de casa em parceria, tínhamos uma pessoa que nos ajudava, a Maria, que depois veio a se tornar para mim uma segunda mãe. Minha mãe estudava, trabalhava, mas sabia que eu detestava arrumar a cama (coisa de que até hoje não gosto) e ela nunca falhava em me oferecer esse gesto de carinho diário.

Hoje tenho ouvido relatos de educadores e diretores, de escolas públicas e particulares, de crianças pequenas que chegam pela manhã na creche ou jardim da infância de período integral, com a mesma fralda com que foram para casa, no dia anterior.

Um documentário, como Muito além do peso (disponível gratuitamente no Youtube) mostra mães (e pais) totalmente impotentes e perplexos diante de filhos pequenos com hipertensão, diabetes, triglicérides e colesterol alto, por uma alimentação de nuggets, salgadinhos, batatas fritas e toneladas de açúcar… Crianças que não sabem o nome de nenhum legume e nenhuma fruta, que são viciadas em coca-cola e bolachas recheadas.

Esses são apenas algumas citações (cada uma das quais mereceria um artigo específico), para demonstrar como a nossa sociedade está negligente, incompetente e omissa em relação às crianças. E depois querem puni-las por desrespeito, querem reduzir a maioridade penal, querem impor limites e castigos…

O que está faltando hoje em muitos lares (de todas as classes sociais) é o que Winnicott chamou de “maternagem”, aqueles cuidados básicos, essenciais, necessários, que toda criança tem que receber. A criança, principalmente nos seus primeiros anos de vida, tem necessidade de total devotamento, cuidados plenos, amor incondicional. Depois desse primeiro período, que vai até pelo menos 2 anos, ela ainda precisa continuar a receber cuidados, ternura, presença atenta, embora já inicie seu processo de separação da mãe, de autonomia e de construção de sua identidade.

Embora a Psicologia nos ensine que se a maternagem não ceder à independência da criança no momento certo, o amor materno pode se tornar opressivo e prejudicial ao desenvolvimento do ser humano, ela também nos mostra que a negligência, o abandono e o não-preenchimento desses cuidados básicos, que incluem afetividade e acolhimento, colo e carinho, podem gerar lacunas psíquicas, que mais tarde poderão gerar graves distúrbios mentais.

O termo maternagem – que são esses cuidados maternos que toda mãe deveria dar, mas nem sempre dá, e que outra pessoa, que não seja a mãe, também pode oferecer – na Psicanálise, refere-se também aos cuidados que o terapeuta pode prestar ao seu paciente, de certa forma resgatando a maternagem que o indivíduo deveria ter recebido na infância.

Podemos ampliar ainda mais essa palavra e afirmar que todos nós em alguns momentos na vida, precisaremos de maternagem, mesmo quando já nos sentimos adultos e maduros. A nossa criança interna, carente e frágil, pode vir à tona e precisar de um colo materno e fraterno, para nos acalentar. Por outro lado, todos podemos também oferecer maternagem aos que estão à nossa volta, preocupando-nos com o bem-estar físico, psíquico e emocional do outro.

Quando a sociedade desnatura a mãe

A maternidade é um dado biológico, uma vinculação dada pela gestação, que pode continuar a se manifestar ou não em forma de maternagem. Uma mãe que abandona o filho não pratica a maternagem. Ela pode transferi-la para outra pessoa, no caso de uma adoção, ou emprestá-la ou ainda partilhá-la, no caso de entregar o filho a uma babá ou a uma creche (onde atualmente quase que se proíbe a maternagem, como se professoras de crianças pequenas tivessem de ser apenas “professoras”, quando toda criança pequena precisa o tempo todo de cuidados maternos). O pai também pode e até deve exercer a maternagem.

O que se dá é que em nossa sociedade, esfriada, individualista, competitiva, desumanizada, as pessoas estão desaprendendo de serem maternas. Porque todos devem ser “produtivos” no sentido econômico do termo. Não podemos nos dar ao luxo de cuidar de alguém, seja uma criança, seja um doente, seja um idoso. Temos todos, homens e mulheres, de trabalhar o tempo inteiro para “ganharmos a vida” e assim vamos perdendo a vida, esvaziando-a de carinho, de afeto e de cuidados mútuos.

Está certo que a Psicanálise desencantou as mães, mostrando-as como possíveis responsáveis por neuroses e psicoses, devido ao apego excessivo, ao devotamento doentio; é certo que a mulher saiu para o mercado de trabalho e não pode recuar da vida no mundo, dando sua contribuição para a sociedade; é certo que não podemos mais idealizar a mãe como sendo sempre um modelo de renúncia e abnegação – mas precisamos sim de sentimentos maternos para vivermos em sociedade de forma saudável, amorosa e plena.

Lembro aqui do amorosíssimo Francisco de Assis, que dizia aos seus companheiros, que eles se cuidassem mutuamente como mães… Lembro de Pestalozzi, o grande educador que tratou pela primeira vez da necessidade do afeto na educação e seus biógrafos reconheceram nele “um grande coração maternal”. Lembro de todas as mães, do decorrer dos milênios e ainda hoje, perdidas na multidão, que não saem nas matérias da Revista Veja, sobre executivas bem-sucedidas, que parecem mulheres despersonalizadas de seu estatuto feminino – lembro de todas as mulheres – dizia – que abriram caminhos para que seus filhos crescessem fortes, saudáveis e pessoas de bem, pelo amor com que se dedicaram a eles, pelo devotamento de sua presença… e lembro de minha mãe, que intelectualizada, parceira de livros e ideias, e que não suportava a idealização de uma “santa mãezinha”, não deixava de arrumar minha cama e de cuidar de nosso bem-estar psíquico e físico, de que, sabemos, as verdadeiras mães continuam a cuidar, mesmo do outro lado da vida…

O toque materno, a ternura, a preocupação com o outro é que arranca a vida da aridez e do vazio. Quem teve o privilégio de receber esses cuidados de sua mãe biológica, tanto melhor. Quem teve a sorte de ser “maternado” por outras pessoas, em sua infância, adolescência ou encontrar compensações maternas em suas relações atuais, ótimo. O que não podemos é passarmos a vida sem nenhum tipo de doçura materna, sem nenhum colo que nos aconchegue a alma.

Não é à toa que Maria, mãe de Jesus, é venerada em todos os cantos do planeta. Ela representa espiritualmente esse colo sagrado, acolhedor e pleno, no qual nos sentimos crianças de novo e seguros de uma proteção confortadora.

Mas também devemos ter consciência de que amadurecer, crescer, emancipar-se psiquicamente e espiritualmente, é sermos capazes por nossa vez de oferecer colos, de ofertar cuidados maternos e de sermos ternura no caminho de alguém.


A Páscoa de Jesus

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A morte de Jesus pode ser vista e interpretada de diversas maneiras. Na ortodoxia do cristianismo tradicional, é artigo de fé de que Jesus morreu para selar com o sangue a salvação da humanidade. Na teologia estabelecida por Paulo de Tarso, o  homem pecou com Adão e redimiu-se com o Cristo. Não procuremos entender a racionalidade dessa doutrina: por um, todos caem; por um, todos se salvam… parece injusto e desproporcional. Carregamos todos o pecado de Adão e podemos ser salvos se acreditarmos em Cristo. Mas os artigos de fé das religiões em geral não pretendem ser racionais; aliás, a obscuridade e o mistério é que constituem o seu atrativo.

Para uma visão mais politizada, podemos dizer que Jesus foi um subversivo, pois era um crítico do clero judaico e alguém que emancipava consciências e por isso, como em todas as épocas e em todas culturas, não agradou a nenhum representante do poder. Judeus e romanos; Kaifás, Herodes e Pilatos se deram as mãos (ou lavaram-nas), para entregar Jesus à morte.

Numa perspectiva espírita, Jesus, que não é Deus, mas um Espírito que já alcançou um status de perfeição ainda distante de nós, sua morte representa o testemunho de um mártir, que nos deixou um modo de ser e estar no mundo – um modo amoroso, não-violento, cheio de compaixão e bondade. E coerente até o fim com essa ética, entregou-se à injustiça dos homens, para neles despertar o senso de justiça; aceitou a morte violenta, para demonstrar a não-violência e o perdão. É aquele que toma sobre si amorosamente o ônus da ignorância humana, para mostrar-nos um caminho melhor. Nesse sentido, simbolicamente, pode-se até concordar que ele é o Cordeiro de Deus, que toma sobre si os pecados do mundo. Não num sentido salvacionista, mas numa dimensão pedagógica, para ensinar como mestre, algumas lições tão inesquecíveis, que só poderiam ser seladas com o sacrifício de si e com a morte.

A morte de Jesus também é uma mensagem sobre a própria morte. Em todos os tempos, a finitude do homem o tem assustado. Por causa do medo da morte, criam-se as dominações religiosas; por sentir-se mortal, o ser humano se fragiliza, muitas vezes infantilizando-se diante de deuses opressores, de sacerdócios que lhe exploram o boa-fé ou aliena-se em doutrinas fanáticas e irracionais. Mais uma vez, lembrando Paulo, Jesus venceu a morte – não no sentido que os cristãos tradicionais entendem (como uma derrogação da lei natural, ressurgindo em corpo carnal) – mas no sentido de demonstrar praticamente que a morte é uma passagem natural, um atravessar simples e rápido para uma outra dimensão da existência e que não há nada a temer – muito menos devemos temer o nada! A naturalidade com que Jesus aparece para conversar com Madalena, com os apóstolos, com os viajantes de Emaús – é um testemunho histórico de que morto o corpo, o Espírito sopra onde quer e se manifesta com seu corpo espiritual, fazendo-se ver e tocar, deixando uma mensagem de eternidade.

Depois da tragédia da cruz, os açoites, o abandono dos mais queridos – que serviu para que o Mestre demonstrasse a força do perdão, da compaixão e da coragem – Jesus aparece aqui e ali e mostra-se imortal, inteiro, luminoso.

Essas são as minhas meditações de Páscoa, com os votos de que possamos meditar no exemplo ético de Jesus, seu amor universal, dirigido a toda a humanidade e a mensagem que nos deixou para sempre: a morte não existe, mas em toda parte há vida eterna, amor em abundância e misericórdia sem limites!


Reflexões espíritas sobre a Tragédia de Santa Maria

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A tragédia de Santa Maria me leva a algumas reflexões que considero importantes para o movimento espírita.

Recentemente participei de uma banca de doutorado na Universidade Metodista, em que o pesquisador José Carlos Rodrigues, examinou em ampla investigação de campo quais os principais motivos de “conversão”, eu diria, “migração” para o espiritismo, no Brasil. Ganhou disparado a “resposta racional” que a doutrina oferece para os problemas existenciais.

De fato, essa é grande novidade do espiritismo no domínio da espiritualidade: introduzir um parâmetro de racionalidade e distanciar-se dos mistérios insondáveis, que as religiões sempre mantiveram intactos e impenetráveis, sobretudo o mistério da morte.

Entretanto, essa racionalidade, que era realmente a proposta de Kardec, tem sido barateada em nosso meio, como tudo o mais, para tornar-se uma cartilha de respostinhas simples, fechadas e dogmáticas, que os adeptos retiram das mangas sempre que necessário, de maneira triunfante e apressada, muitas vezes, sem respeito pela dor do próximo e sem respeito pelas convicções do outro. Explico-me.

Por exemplo: existe na Filosofia espírita uma leitura de mundo de “causa e efeito”, que traduziram como “lei do karma”, conceito que vem do hinduísmo. Essa ideia é de que nossas ações presentes geram resultados, que colheremos mais adiante ou que nossas dores presentes podem ser explicadas à luz de nossas ações passadas. Mas há muitas variáveis nesse processo: por exemplo, estamos sempre agindo e portanto, sempre temos o poder de modificar efeitos do passado; as dores nem sempre são efeitos do passado, mas sempre são motivos de aprendizado. O sofrimento no mundo resulta das mais variadas causas: má organização social, egoísmo humano, imprevidência… Estamos num mundo de precário grau evolutivo, onde a dor é nossa mestra, companheira e o que muitas vezes entendemos como “punição” é aprendizado de evolução.

O assunto é complexo e pretendo escrever mais profundamente sobre isso. Aqui, apenas gostaria de afirmar que nós espíritas, temos sim algumas respostas racionais, mas elas são genéricas e não podem servir como camisas de força para toda a realidade. Que respostas baseadas em evidências e pesquisas temos, por exemplo, para essas famílias enlutadas com a tragédia de Santa Maria?

• que a morte não existe e que esses jovens continuam a viver e que poderão mais dia, menos dia, dar notícias de suas condições;

• que a morte traumática deixa marcas para quem fica e para quem foi e que todos precisam de amparo e oração;

• que o sofrimento deve ter algum significado existencial, que cada um precisa descobrir e transformá-lo em motivo de ascensão…

• que a fé, o contato com a Espiritualidade, seja ela qual for, dá forças ao indivíduo, para superar um trauma dessa magnitude.

 

Não podemos afirmar por que esses jovens morreram. Não devemos oferecer uma explicação pronta, acabada, porque não temos esses dados. Os espíritas devem se conformar com essa impotência momentânea: não alcançamos todas as variáveis de um fato como esse, para podermos oferecer uma explicação definitiva. Havia processos da lei de causa e efeito? Provavelmente sim. Houve falha humana, na segurança? Certamente sim. Qual o significado que essa tragédia terá? Cada pai, cada mãe, cada familiar, cada pessoa envolvida deverá achar o seu significado. Alguns talvez terão notícias de algum evento passado que terá desembocado nesse drama; outros extrairão dessa dor, um motivo de luta para mais segurança em locais de lazer; outros acharão novos valores e farão de seu sofrimento uma bandeira para ajudar outros que estejam no mesmo sofrimento e assim por diante.

Oremos por essas pessoas, ofereçamos nossas melhores vibrações para os que foram e para os que ficaram e ainda para os que se fizeram de alguma forma responsáveis por esse evento trágico. Mas tenhamos delicadeza ao tratar da dor do próximo! Não ofereçamos respostas fechadas, apressadas, categóricas, deterministas. Ofereçamos amor, respeito e àqueles que quiserem, um estudo aberto e não dogmático, da filosofia espírita.

 


Os números de 2012

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2012 deste blog.

Aqui está um resumo:

4,329 films were submitted to the 2012 Cannes Film Festival. This blog had 27.000 views in 2012. If each view were a film, this blog would power 6 Film Festivals

Clique aqui para ver o relatório completo


Meditações e prece de Natal

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É verdade que, historicamente, o Natal não é a data exata do nascimento de Jesus. É verdade que a narrativa da manjedoura, dos reis magos, da estrela de Belém, do descendente de Davi é uma história mítica, arranjada para provar que Jesus era o Messias esperado pelos judeus. Não houve recenseamento, não foi preciso que o carpinteiro José se deslocasse de Nazaré e fosse com sua esposa se apresentar em Belém. Mesmo porque se os romanos fizessem um recenseamento do seu Império, não lhes interessaria contar os judeus pela sua descendência. (Na história bíblica, José como descendente de Davi teria de se apresentar para o recenseamento em Belém.)

Provavelmente, Jesus nasceu em Nazaré, viveu tranquilamente em sua aldeia, aprendeu o ofício de seu pai. Não precisou buscar refúgio no Egito. Mas tudo isso apenas aumenta sua grandeza: um filho de carpinteiro, crescido numa aldeia obscura, num recanto do Império romano, ergueu a voz de sua mensagem e transformou o mundo.

É verdade também que o Natal se tornou no mundo cristão uma data comercial, para compra de presentes, para movimentar o mercado, para aguçar o consumo. Que o seu personagem anda longe dos pensamentos, distante dos corações, apagado dos atos da maioria das pessoas.

É verdade, é verdade.

Mas é verdade também que o Natal tem uma poesia toda sua…o presépio pode ser mítico, mas é um símbolo de humildade e acolhimento. A data pode não ser a correta, mas como ao longo dos séculos muitos pensaram em Jesus nesse dia e procuraram conexão com ele, a noite natalina ficou impregnada de devoção e alegria.

A verdade é que a figura de Jesus paira acima dos séculos, acima dos mitos, acima do comércio, emanando amor em seu olhar, que abarca o mundo inteiro.

É verdade que a sua mensagem de paz e fraternidade permanece insuperável, como um apelo permanente aos corações de boa vontade, cristãos ou não cristãos.

Seu coração amoroso vibra ainda pela humanidade e nos acompanha de longe e de perto.

Por isso, dedico como sempre um poema de Natal ao Mestre carpinteiro, ao Mestre de Nazaré, ao Mestre da humildade e da paz!

Prece de Natal
 
Podem os homens da terra
Semear flores de sangue
Mas tua paz invisível medra
Na alma do povo exangue…
 
Podem as criaturas
Retalhar a natureza
Acinzentar o horizonte
Mas envias sempre uma alma pura
trazendo a delicadeza
de um gesto oculto que cura.
 
Podem os incautos
Mancharem a esperança
Propagarem a maldade
Exaltarem a ganância
Ferirem o coração de uma criança,
Pondo espinhos num coração de mãe.
Mas tu levantas o caído
Amparas o traidor e o traído.
Desfazes toda dureza
E restauras a bonança.
 
O séculos se sucedem
E teus pés percorrem sempre
As pedras de nosso mundo
E semeias de passagem
O sonho de nova paisagem
As lágrimas de amor profundo
Com que nos tocas a vida.
 
Podem os percalços
em minha alma dolorida
fazer sulcos de tristeza,
mas nada pode arrancar
a doçura e a beleza
desse teu macio olhar…
 
Estás sempre aí,
Além, aquém, aqui…
Como rocha milenar
Ancorando nossa esperança
De um reino que não há de acabar…
Estás acima do tempo
Para que façamos dele
Um tecido de estrelas a raiar
 
Podem os fanáticos
Fazer de ti um mito sem rosto,
Um rei de cetro e com gosto
De tirania celeste.
Mas tu ainda nos lavas os pés
E neste gesto nos deste
A glória de muitas fés.
 
Mestre, sábio, sublime irmão,
Estás bem perto de nós
E basta abrir uma brecha
No cansado coração
Para ouvirmos o sussurro de tua voz!
 
Vem aqui, querido Jesus Cristinho
E encontra um lugar, um ninho,
Dentro de nossas casas…
E então teremos asas
Para voar acima dos montes
Abrir azuis horizontes
E enfim, amado amigo,
Sermos assim um contigo!