Os números de 2011

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 14.000 vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 5 concertos egostados para sentar essas pessoas todas.

Clique aqui para ver o relatório completo


Poema do menino Jesus

O tecido de noite natalina
É um tecido de estrelas diferentes,
Cobriu o berço da criança divina,
Que veio ao coração de todas as gentes!
 
Criança já sempre anuncia
Novidade, beleza e clarão…
Quanto mais o menino que irradia
O amor que desfaz a escuridão…
 
Menino que menino já sabia
A que vinha, nessa terra de torpezas
E sem julgar, distribui suas belezas,
Semeando imensidões à luz do dia!
 
O menino se fez homem, peregrino
Descalço, à beira do caminho
E acolhe o ser humano ainda tão menino
E de cada coração tira um espinho…
 
Que amor desmedido carrega por nós,
Que se dá, sem medir nem mesmo o sangue?
Que luz sem fim palpita em sua voz
Que ainda nos alcança a alma exangue?
 
Menino-homem, menino mestre,
Doce anjo que se fez terrestre,
olha ainda por nós, tua humanidade,
olha de onde nos esperas, nesta azul eternidade!……

Retrocessos autoritários à vista

Dois fatos nessas últimas semanas deflagraram essa minha reflexão a respeito de uma tendência cada vez mais forte em nossa sociedade – eu a chamaria de tendência repressiva, autoritária, policialesca. A ideia de que tudo deve se resolver com punição, violência, coerção, sempre fez parte da história da humanidade. Vejam-se as prisões cruéis, as penas de morte, as torturas, as ameaças de inferno das religiões, as inquisições etc… Entretanto, nos últimos séculos, há muitos pensadores, defensores do direito, educadores, humanistas, que trabalharam com ideias mais elevadas, com propostas mais misericordiosas, com princípios mais humanos! Mas há momentos em que os partidários da “porrada” gritam mais alto que os defensores do humanismo, dos direitos humanos, do respeito à dignidade, do diálogo como forma de resolução de conflitos e como método de ação social. E considero que no Brasil estamos hoje atravessando uma fase dessas. Um retrocesso, portanto.

Duas cenas me impressionaram. A primeira foi a presença da polícia numa escola infantil, chamada por uma professora em Piracicaba, para uma criança de 3 anos, porque ela estava mordendo e chutando! E a outra, a repressão violenta da polícia em cima dos alunos da USP. O pior é que no caso de Piracicaba, a diretora da escola não disse nada, a polícia foi até a escola e a criança foi levada à delegacia. E o pior é que no caso da USP, centenas de pessoas no Facebook (inclusive muitas cristãs, espiritualistas e espíritas!!) gostaram, apoiaram e fizeram publicidade do método de “bater nos baderneiros, nos maconheiros” ou coisa que o valha!

Outra notícia grave que está percorrendo a internet (e com o apoio de muitos) é a proposta de  mudança do ECA (Estatuto da criança e do adolescente) para criminalizar as agressões e “desrespeito” dos alunos aos professores!

Esses sintomas revelam algo muito grave em nossa sociedade: acreditamos muito mais na polícia, na repressão, na punição – leia-se vingança social – do que na educação. Colocar a polícia em cena em locais onde se pretende fazer educação é declarar a falência da própria educação! Tratar crianças e estudantes como bandidos (por mais que estejam agredindo e se revoltando – então temos que descobrir as causas dessa revolta e tratá-las – a educação é justamente para isso!) é mostrar que não acreditamos na força do diálogo, da construção de personalidades autônomas e pensantes, que não damos o mínimo valor ao que uma boa educação – quando cultivada – consegue fazer: trazer à tona o divino que existe em todas as criaturas, para que elas sejam melhores…

A atribuição de responsabilidade criminal a crianças e adolescentes já acontece, embora não se assuma isso, porque comparecem em condição humilhante diante de juízes, quando deveriam ser orientadas em terapias, assistidas socialmente e trabalhadas afetivamente, para se recuperarem dos traumas que passaram nas ruas, com os abusos e violências recebidas, com o abandono dos familiares. Mas a sociedade não está satisfeita: quer a diminuição da maioridade, quer criminalizar agressões dentro da escola! E o que a sociedade faz pelas crianças? Que estímulos positivos dá? Que educação oferece em escolas públicas que mais parecem presídios que escolas? Aliás, deveria ser o contrário: os presídios deveriam mais parecer escolas e não escolas parecerem presídios. Isso revela o quão pouco fazemos pela educação. Quando pensarmos em  todos os níveis, mais em educação que punição, mais em investimento no que é positivo do que em repressão ao que é negativo, mais em oferecer alternativas de vida, de aprendizagem, de esperança e sonho, do que impor limites, regras, amarras… então estaremos de fato contribuindo para a melhoria da escola, das crianças, dos jovens, das universidades e da sociedade em geral.

Façam-se das escolas lugares com boa música, com flores, com natureza, com professores estimulados, bem renumerados, capacitados, amorosos… Façam-se escolas com teatro, poesia, com cores, com escolha livre de projetos interessantes e não com aulas mortas, em classes de 40 pessoas, diante de uma lousa… Façam-se escolas onde de fato se aprenda, com computadores, com midiatecas bem equipadas, com laboratórios, material didático farto e de ponta… Façam-se escolas com corais, orquestras, grupos de dança… E não haverá mais problemas de disciplina, evasão, agressão… Há diversas experiências no Brasil e no mundo que demonstram isso!

Façam-se universidades onde se recupere a espiritualidade e onde se discutam questões existenciais (vi várias pessoas dizendo que os maconheiros deveriam ser presos – mas o que se oferece em termos de sentido existencial, em estímulo de vida, a uma juventude que só vê nihilismo nas faculdades e consumismo na sociedade?)… Façam-se universidades, onde se aprenda a dialogar e a pensar, onde se pense mais socialmente… Façam-se universidades que deem perspectivas de trabalho, de transformação da sociedade e não se faça tudo apenas para encaixar o indivíduo robotizado num mercado desumano… E os jovens terão outros ideais do que esses que apoiam a polícia dentro da universidade e do que esses que se entopem de bebida e drogas!

Quando tivermos essas escolas e essas universidades, dispensaremos polícias, repressões e punições – porque quando bem estimulado, quando despertado para o melhor que traz dentro de si, pela arte, pela espiritualidade saudável (não pela religião fanática), pelo amor recebido de verdadeiros mestres,  o ser humano mostra a sua divindade e desenvolve suas potencialidades de maneira harmoniosa e útil, para si e para o mundo!

Entendamos que a violência, a punição, a repressão, humilham, causam mais revolta, pioram o ser humano, que se já está em crise, se torna um bicho acuado. Ao passo que o diálogo, o respeito, a confiança, a construção paciente e humana de um processo pedagógico restaura a integridade da pessoa e a torna melhor.

Lembro aqui da experiência maravilhosa de Padre Flanagan nos Estados Unidos, nas décadas de 30 e 40, com a construção da Cidade dos Meninos (Boys’ Town), até hoje existente (hoje Girls’ and Boys’ Town). Nos primeiros 10 anos, passaram por lá 4 mil meninos, considerados delinquentes, alguns já com crimes cometidos, e qual foi o índice de recuperação dessas crianças? 100%. O método usado: amor, liberdade, confiança. Os meninos geriam a cidade, elegendo prefeitos em assembleias; havia oficinas, música, religiosidade plural (estimulava-se que cada um praticasse a religião própria). Não havia muros, as portas ficavam abertas, não havia guardas, policiais, celas, punições… Havia a possibilidade de construir uma nova vida, sob a liderança de um padre amoroso, que dizia: “Não há meninos maus! Há má educação, maus estímulos, más companhias!”.

O problema fundamental dos repressores é que eles não acreditam na bondade humana. São amargos, pessimistas, não creem que o amor possa despertar o anjo que mora em nós, mas acham que a violência tem que reprimir o bicho que somos. No entanto, se essas pessoas, que assim pensam (e são muitas) se autodenominam cristãs, deveriam lembrar-se de algumas palavras de Jesus:

“O reino de Deus está dentro de vós!”  e  “Vós sois deuses” – isso significa que todos temos uma bondade essencial que precisa ser tocada e despertada.

“Perdoai setenta vezes sete!”  e “Misericórdia quero, não sacrifício!” – quanto mais isso se aplica com uma criança, um adolescente, que estão começando, que precisam de afeto, orientação e compreensão!

“Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o Reino dos Céus” – Jesus disse que era preciso nos fazermos como crianças para entrarmos no Reino, isso significa uma primazia da inocência, da pureza e da bondade natural da criança. Se ela agride, se está desajustada, ela está reagindo a uma situação negativa, está com um problema que tem que ser resolvido amorosamente. Ela não é má, não está endiabrada (como querem as professoras evangélicas, que andam fazendo exorcismo dentro das escolas públicas – isso será objeto de outro artigo), não é uma peste!!! Ela precisa de amor e ajuda.

“Amai os vossos inimigos e fazei bem aos que vos perseguem”. O que isso significa? Essa é a essência da mensagem de Jesus: combater o mal com o bem e não nos tornando piores que os agressores. Acender uma luz para dissolver as trevas e não nos tornando inquisidores dos que achamos que estão errados (e às vezes nem errados estão!).

Fica então essa mensagem, que é de Jesus, de Gandhi, de Buda, de Confúcio, de Francisco de Assis e dos grandes educadores, como Comenius, Pestalozzi, Eurípedes… O dia em que acreditarmos na força do amor, da bondade, do diálogo e da compaixão, deporemos nossas armas internas e vamos arar os corações com instrumentos de paz!


Por um mundo melhor para as crianças!

Há pouco mais de 300 anos que a civilização descobriu a infância. O que significa isso? A criança não valia nada durante toda a história – não era sujeito de direitos, não era lamentada, se morta; não havia literatura a ela direcionada, as escolas não tinham métodos adequados para desenvolver-lhe os talentos, a criança não tinha voz alguma e… não era considerada criança. Isso significa que não era vista como um ser em desenvolvimento, com necessidades especiais, merecedora de respeito em sua fase de amadurecimento. Não se condenava socialmente a pedofilia, o espancamento de crianças na escola e em casa era coisa corriqueira, o trabalho infantil era legal.

Depois de grandes educadores, como Comenius, Rousseau, Pestalozzi, Montessori, Janusz Korzcak, que trabalharam incansavelmente pela infância, demonstrando nos últimos séculos, que a criança é criança, e não um adulto em miniatura, tem que ser tratada e respeitada enquanto tal – uma nova cultura e até uma nova legislação passaram a vigorar em muitos países. A Declaração Universal dos Direitos das Crianças inspira legislações locais, como o nosso Estatuto da Criança e do Adolescente.

Entretanto, apesar desses avanços, ainda a criança está longe de ter a voz que merece, de ser respeitada em sua especificidade infantil, de ser tratada com o amor que faria com que ela desabrochasse plenamente suas potencialidades.

Apesar de condenada socialmente, a pedofilia é um fato por demais frequente em todo o mundo e, o que é pior, dentro das famílias de todas as classes sociais; a violência contra a criança, em casa ou na sociedade é algo por demais comum; a exploração do trabalho infantil toma proporções indecentes na China e acontece diante de nosso nariz, aqui mesmo no Brasil! Então, a militância para que as crianças tenham seus direitos, tenham voz, é uma necessidade constante, uma urgência humanitária. Acontece que todos os setores sociais têm sua representatividade, sua militância, sua voz: as mulheres, há 200 anos têm lutado por sua igualdade e suas conquistas são patentes; as minorias étnicas, sexuais – todos vão às ruas, reivindicam… mas e a criança? Ela é tutelada! Não pode denunciar o pai que a estrupa, a mãe que a massacra, a escola que a tortura psiquicamente e não cumpre seu papel… Não pode ir às ruas, ao Congresso Nacional, não têm sites, não aparece entrevistada na televisão, opinando sobre as condições em que vive. A criança não tem canais de manifestação e de reivindicação – quando ela pode falar, como adulta, o estrago já foi feito, o sofrimento já foi desmedido, a marca já se tornou irreversível. Então, cumpre-nos falar por ela, lutar pela criança e emprestar-lhe a nossa voz.

Mas se pensamos que a criança só é desrespeitada nesses casos extremos de abuso sexual, espancamento e trabalho infantil, estamos muito enganados. Digo sempre que a infância é o último reduto da tirania. Em nosso cotidiano, entre pessoas “normais” e “civilizadas”, que não admitiriam a pedofilia, a violência e a exploração, ainda aí a criança é desrespeitada em todas as situações. Vamos enumerar algumas:

• Na propaganda diária da TV, a que está exposta e de que os pais não reclamam, ou se reclamam, nada fazem ou acham que nada podem fazer. Aí as crianças são manipuladas para um consumismo desenfreado, para uma alimentação de lixo, para uma arte degenerada, para uma estimulação sexual precoce e para uma violência desmedida… e ninguém toma uma atitude.

• A escola, com lousa, nota, provas, aulas de desinteressantes de 50 minutos, dadas por professores arcaicos, despreparados, mal pagos, desestimulados … é uma prisão da criatividade infantil, um processo de morte lenta de seus talentos, de sua curiosidade, de seu impulso de desenvolvimento. Essa escola tradicional nunca atendeu às necessidades, curiosidades e capacidades da infância e, muito menos, da infância do século XXI!

• A negligência a que a criança hoje está exposta. Muitos pais (de todas as classes sociais) não colocam os filhos em primeiro lugar e a criança deveria ser sempre a prioridade na família, na escola e na sociedade. Pois a criança é a melhor parte da humanidade, ainda não corrompida, com promessas maravilhosas, que se não cumpridas, se tornam essa frustração dos adultos amargados. A criança é o futuro e quem não prioriza o futuro está se condenando ao retrocesso! As crianças estão com fome de atenção, de carinho, de diálogo, de olhos nos olhos!

• As relações com as crianças ainda padecem de muitos vícios imperdoáveis: gritamos o tempo todo com esses seres sensíveis; achamos normal mentir para essas pessoinhas tão sinceras e crédulas… Temos o hábito de desprezar suas opiniões e de não conversarmos com elas, de maneira respeitosa, serena e amorosa!

 Como se vê, ainda temos muito o que conquistar para que as crianças tenham uma vida feliz nesse planeta, recebam o amor que merecem e possam desabrochar como seres inteiros, para uma vida plena!

 Há muitos anos, num congresso em Curitiba, elaborei o que chamei de Decálogo do Educador Espírita (mas, se tirarmos o item da reencarnação, pode ser simplesmente o Decálogo do Educador):

1)    Prometo ajudar a extrair da criança seus germes divinos, reverenciando nela a presença do Criador.

2)    Prometo olhar a criança como um ser integral, individualidade livre, dotada de direitos.

3)    Prometo me dedicar à criança com amor e respeito.

4)    Prometo permitir a criança aprender por si mesma.

5)    Prometo aprender da criança a sua ternura, sinceridade e senso de justiça.

6)    Prometo ser exemplo à criança de integridade e de bom senso.

7)    Prometo ser para a criança o amigo que ouve, o pai que oferece segurança, a mãe que dá aconchego.

8)    Prometo enxergar na criança um ser reencarnado com uma herança a ser trabalhada.

9)    Prometo favorecer a criança para que descubra e cumpra sua tarefa existencial.

10) Prometo abrir à criança o caminho para um mundo mais fraterno e feliz.

 

Às crianças do mundo inteiro, o voto de que num breve futuro, todos os dias sejam das crianças!


Grandes pessoas para as crianças

Uma das ilustrações magníficas feitas por Anasor, para o livro "Pestalozzi e a Escola num Castelo"

Uma das propostas em que mais acredito para se trabalhar na formação ética das crianças e adolescentes é fazer com que eles conheçam biografias de personalidades que deram exemplos elevados. Por isso, em nossa coleção Todos os Jeitos de Crer, temos um volume inteiro com o título Vidas. Nele, há as histórias de Sócrates, Jesus, Buda, Gandhi, Francisco de Assis, Martin Luther King, entre outros… Por isso, também temos uma série de livros, da qual lançamos há 10 anos o primeiro volume: Francisco, o pobre rico de Assis. E só agora, por incrível que pareça, estamos publicando o segundo, Pestalozzi e a escola num castelo. São ambos pela Editora Comenius e não lançamos outros (já há mais de 10 volumes escritos por diferentes autores), por falta de recursos financeiros. (Bem-vindas parcerias!! Esse de Pestalozzi contou com o apoio da Fundação Pestalozzi de Franca.)

Por que considero importante esse trabalho? Ora, porque um dos caminhos essenciais para promovermos a bondade, a fraternidade, a virtude em geral neste mundo é estarmos convencidos de que o ser humano é capaz de ser bom, fraterno, virtuoso. Uma visão pessimista da alma humana nos leva à descrença em nossa própria capacidade de sermos melhores. A amargura é a raiz de todo mal.

Por outro lado, em nossa sociedade capitalista, os vencedores são louvados e exaltados como exemplos a serem seguidos. Que tipo de vencedores? Os que ganham guerras violentas, os que conquistam sucesso, fama e dinheiro, mesmo à custa de princípios morais, atropelando o próximo, calando a consciência.

Assim, numa sociedade em que a lei do mais forte é cultuada, em que o homem é visto como bicho competitivo, cujos instintos de domínio, agressividade e posse devem ser estimulados – é preciso encontrar a rota da cooperação, da não-violência, da solidariedade e mesmo do sacrifício.

Não podemos esperar fazer um mundo justo e fraterno, sem criaturas justas e fraternas e não podemos formar criaturas justas e fraternas, se não acreditamos que a natureza humana permite essa ascensão, se não descartarmos a inexorabilidade do “homem como lobo do homem”.

Pois uma das coisas que mais nos convencem a respeito dessa positiva natureza humana é sermos informados de que houve homens e mulheres no decorrer da história que viveram virtudes, deram exemplos, fizeram por merecer o título de apóstolos, mártires e heróis. Histórias verdadeiras dessas pessoas nos inspiram, nos estimulam, nos comovem, despertam em nós o desejo de sermos bons.

Isso ainda é mais verdadeiro com as crianças, que naturalmente torcem pelos personagens do bem em qualquer narrativa.

Mostrarmos personagens do bem que viveram de verdade e que não usaram violência para vencer batalhas na Terra ou nas estrelas, mas foram supostos fracassados no mundo, deixando mensagens eternas de amor e perdão – eis o que é necessário, inspirador, benéfico para as novas gerações. As crianças precisam aprender que o sucesso do bem quase nunca é o sucesso do mundo (dinheiro, fama, poder). Ao invés, a vitória do bem muitas vezes é a semeadura do sacrifício, da luta pela verdade.

Não é esse o exemplo máximo de Jesus? Aos olhos dos partidários nieztscheanos  da lei do mais forte, Jesus é um fracasso: morreu na cruz, entre ladrões, foi abandonado, traído, era pobre, não possuía cátedra ou poder… Mas aos olhos dos partidários dos bens espirituais, ele é o maior dos exemplos: semeou ideias e ensinos, sentimentos de amor e compaixão, que atravessaram os milênios e tocaram o coração de multidões, transformando a humanidade.

Não se trata de pregar às novas gerações a autoflagelação e o martírio, formando pessoas fanáticas, masoquistas e suicidas! É, ao invés, trazer vidas inspiradoras de alegria no bem, de serviço à humanidade, de compaixão para com os seres vivos. Os verdadeiros mestres da virtude, embora possam enfrentar dificuldades, resistências, fracassos e até a morte, não são seres carrancudos, que se cobrem de cinzas ou vivem se martirizando e lamentando. Ao contrário, os evoluídos, os santos, os iluminados, como um Buda, um Francisco de Assis, um Gandhi são pessoas que irradiam paz, alegria, bem-estar, equilíbrio. São dessas irradiações, que podemos impregnar as crianças. Mesmo porque, além da inspiração de vida que esses grandes seres humanos podem nos dar, há ainda a sintonia mental que estabelecemos com eles, quando nos conectamos com a narrativa de suas vidas. Essa ligação vibratória já nos faz bem, nos eleva e nos aproxima do clima espiritual dessas grandes almas.

Uma objeção comum a essa proposta de trabalho com pessoas de qualidades morais elevadas é a de que não devemos favorecer a idolatria e de que isso seria anular o espírito crítico necessário à visão histórica. Essa ponderação é pertinente e devemos tomá-la em consideração, primeiro porque a educação, para ser libertadora,  não pode em hipótese alguma favorecer a negação do espírito crítico, formando pessoas crédulas, ingênuas e sem discernimento. Assim, não podemos perder de vista os seguintes senões:

• Não existem de fato criaturas humanas perfeitas e mesmo aquelas que atingiram níveis elevados de virtude podem apresentar alguma fraqueza. Isso não as desmerece.

• Não devemos idolatrar as figuras do bem, mas amá-las e seguir seus exemplos.

• É preciso distinguir os bons de fato dos falsos profetas, dos hipócritas que pululam em todas as comunidades religiosas (sobretudo).

A questão toda é que não podemos colocar seres humanos em pedestais inacessíveis, para adorarmos de joelhos. Ao contrário, a proposta que estamos trabalhando é justamente a de mostrar que a virtude é acessível a todos e de qualquer um de nós é capaz de se iluminar! O problema da divinização de Jesus foi esse: tornando-o Deus, afastamos a possibilidade de sermos iguais a ele, de seguirmos seus passos, pois quem se atreveria a querer imitar Deus? (Ver a esse respeito a crítica nesse blog ao filme Ágora.)

Abramos pois a possibilidade às novas gerações de conhecerem mestres de verdade, vencedores do espírito e iluminados de alma. Para isso também temos que preferir que nossos filhos sejam pessoas de bem, sobretudo, e não necessariamente grandes competidores do mercado de trabalho, homens e mulheres de grande sucesso profissional e de grande vazio existencial. Projetarmos seres humanos melhores é o mais necessário para um mundo melhor.


Ser pai no século XXI

As crianças aprendem com os pais a serem futuros pais e mães

Cristóvão Colombo, o navegador, com suas grandezas e suas pequenezas, é considerado pelos seus biógrafos como um bom pai. Quando escrevia a seus filhos Diego e Hernando, costumava assinar assim: “Tu padre que te ama más que a si!” Acho bem interessante essa maneira de caracterizar a paternidade (e, sem dúvida, também a maternidade), porque ser pai e ser mãe significa exatamente ter a maior oportunidade de remover o egoísmo. Naturalmente, quem assume os filhos, e cumpre sua missão, sai de si mesmo, de sua zona de conforto e tem que doar-se inteiro, em cansaço, lutas, ideais, afeto, preocupações… mas, por outro lado, que colheita farta de amor, alegria, conforto na alma, de ver filhos crescendo, se fazendo, se tornando pessoas grandes e de bem!

A civilização contemporânea, com seu individualismo assumido, pregado aos quatro ventos, se põe contrária a essa tarefa (tanto paterna quanto materna), porque exige-se que pais e mães atuais primeiro têm de pensar na empresa, no emprego, vestir a camisa, não ter horário, não desobedecer ordens de viagens, horas-extras, transferências… não importa a vida familiar para o empregador anônimo capitalista. Em minhas viagens Brasil afora, eu como solteira (e saudosa dos sobrinhos), vejo nos aviões muitos pais e mães tristonhos, saudosos do lar, vejo outros enregelados, que assumiram esse discurso como bom e necessário e já deixaram para lá, e encontro muitos também que  não pensam em ter filhos, porque acham não poderem coadunar família e trabalho.

É preciso, portanto, hoje, para haver pais e mães presentes (e não adianta falar que o que importa é a qualidade da convivência e não a quantidade, porque ninguém pode educar de fim de semana), nadar contra a maré, fazer resistência ao sistema, arranjar trabalhos alternativos, ou dividir os horários de trabalho entre pai e mãe, ou ainda, por um tempo, a mãe ficar em casa mesmo… enfim, é preciso encontrar atalhos e não se deixar engolir pelo sistema, para não acontecer depois que se descubra que os filhos cresceram, a infância com seus beijos e encantos se perdeu, e não há mais diálogo… ou pior, quando se descobre que a droga ou as más companhias já tomaram o lugar do afeto familiar.

Não é só o mercado de trabalho que disputa o espaço de convivência que os filhos precisam ter com os pais. Também o mercado sexual. A fidelidade, a relação harmoniosa e amorosa entre pai e mãe é o maior presente, a maior segurança, a maior fonte de estabilidade emocional, que se pode oferecer a uma criança. E é aí que o bicho pega. Novidades mil, estímulos de roldão, apelos desencontrados, homens e mulheres se atirando sobre mulheres e homens casados, o discurso predominante do prazer acima de tudo, mesmo acima do amor e da responsabilidade – esse é o cenário a que também se tem que resistir, pensando nos sorrisos maravilhosos que serão colhidos ao chegar em casa… A fidelidade não é algo que se entrega só ao cônjuge, é algo que se faz por toda a família, pelos filhos também. As crianças merecem que os pais ajam, correspondendo à confiança que neles depositam. Não mentir, não fingir, não enganar, não ter vida dupla, não sonegar presença integral – é fundamental para que haja um firme laço de afeto entre pais e filhos, sobre o qual se constrói a educação.

Mas não falemos apenas dos problemas, falemos das conquistas das últimas décadas, em relação ao exercício da paternidade. Hoje não é mais vergonha o pai se encantar com os filhos, chorar por eles, cuidar, trocar fraldas… isso tudo não é considerado mais apenas coisa de mulher. Há muitos pais participativos, sensíveis, presentes, que aproveitam intensamente a maravilha de serem pais. Já se sabe e se proclama que os pais não devem ser apenas provedores, mas precisam ser gente, amigos, companheiros… Hoje, em famílias esclarecidas, não se recorre mais ao pai para castigar e atuar como a autoridade autoritária, que violenta e se mantém distante afetivamente dos filhos. Infelizmente, não são todos os pais que cumprem sua paternidade, há ainda muitos que a abandonam. Mas, os que cumprem têm mais consciência de como cumpri-la, tem mais espaço para serem afetivos e podem ser pais mais plenamente.

Entre avanços e desafios, entre obstáculos e conquistas, estamos pois nesse processo complicado, mas rico, que é a evolução humana, que passa pela evolução social, cultural e individual.

Esperemos construir um milênio em que a família seja revalorizada – e pessoalmente considero que essa revalorização inclui o quesito da longevidade e não da descartabilidade – e onde se possam semear os frutos de uma educação mais equilibrada, mais empenhada e sempre mais amorosa, porque só o amor educa de fato.


A Filosofia que não filosofa

Estudo Filosofia desde os 12 anos de idade, quando li pela primeira vez a Apologia de Sócrates de Platão. Ainda costumo me dedicar à leitura e reflexão dos filósofos. Na Universidade, fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado na área de Filosofia da Educação. E nos últimos anos, tenho me dedicado a projetos interdisciplinares de Filosofia na escola, no ensino fundamental e médio, inclusive com a publicação com Alessandro Cesar Bigheto do livro Filosofia: Construindo o pensar.

Estou convencida do poder fecundante da Filosofia, para formar pessoas críticas, agentes transformadores da sociedade e por isso penso que ela pode ser trabalhada com pessoas de qualquer idade, de qualquer condição. O que importa principalmente  é aprender a pensar, a se questionar. É claro que para melhor pensar, com mais acuidade e profundidade, há que se conhecer como outros pensaram, há que se apropriar de uma racionalidade, que é própria da história da Filosofia ocidental.

Em contato, porém, com acadêmicos da área da chamada Filosofia pura, tenho constatado um fato triste, de que ninguém se dá conta: nas faculdades de Filosofia, é proibido pensar. O que quero dizer com isso? A Filosofia é apreendida em sistemas fechados e incomunicáveis entre si. Cada pensador e cada escola são estudados de maneira estanque, por especialistas que só entendem daquele filósofo ou daquela corrente e só reproduzem o que já foi dito e o que já foi escrito. O espaço para comparações, analogias, buscas pessoais, interpretações, é praticamente nulo. Até mesmo um viés inédito de leitura de um autor consagrado é totalmente desencorajado.

Ou seja, só podemos falar de Heidegger a partir do próprio Heidegger ou das leituras já aceitas sobre a sua obra. Os estudantes e os professores de filosofia são meros dissecadores do pensamento alheio, sem nenhuma possibilidade de… filosofar!

É verdade que isso também faz parte do colonialismo cultural em que ainda nos mergulhamos e que se instala na área das ciências humanas, com as escolas de pensamento importadas: temos os guetos marxistas, os guetos pós-modernos, os guetos kantianos e assim por diante. Temos cartilhas ideológicas e sistemas prontos a serem adotados, mas não temos pensadores originais, não permitimos que eles surjam, porque se alguém ousa pensar, se manifestar, comparar, interpretar… é tido como superficial, como eclético, como pretensioso, como não habilitado à filosofia.

Em geral, nas faculdades de humanidades no Brasil é proibido afirmar, indagar, criticar, discordar – é permitido apenas repetir o que já foi dito. Mesmo o pensamento crítico é a crítica já feita, a leitura de mundo já formulada por outros. (Um sintoma disso são os professores de Filosofia que leem suas aulas ou palestras: o medo de assumir uma posição pessoal, a insegurança de usar uma palavra que não esteja dentro do jargão daquela escola, daquele autor  – leva-os a ler blocos monolíticos, sem possibilidade de questionamento.)

Não estou aqui defendendo o achismo pessoal, a mistura de conceitos, a irresponsabilidade científica. O rigor da conceituação, a pesquisa profunda, a consistência teórica são obviamente necessários ao pensamento acadêmico. Mas a interdição do debate, por excesso de preciosismo; o impedimento de novas visões, por dogmatismos de escolas; o exílio do pensamento original, pelo cerceamento da busca pessoal – tudo isso faz com que a Universidade se torne um museu de ideias mortas, que nenhuma influência exercem sobre a sociedade. Temos assim uma filosofia que não serve para nada, a não ser para meia dúzia de teóricos se dedicarem a discussões fechadas e esotéricas. Mesmo entre esses não há diálogo entre estudiosos de diferentes escolas: kantianos não conversam com marxistas, que não conversam com heideggerianos, que não conversam com seguidores de Wittgenstein… Pelo simples fato de que cada qual fica escravo das ideias, dos termos específicos, da linha de argumentação, do autor que estudam e não podem se mexer em outra direção.

Sempre observei essas coisas e tenho tido algumas experiências pessoais desagradáveis por ser uma intelectual que gosta de pensar por si mesma e formular novas trilhas de investigação. Recentemente, tornou-se minha aluna na pós-graduação Yara Zélia, uma egressa de uma faculdade de Filosofia em São Paulo. Pessoa mais madura, percebeu de maneira precisa o que descrevo acima. Transcrevo seu angustiado testemunho, que me parece muito a propósito:

Em uma vida inteira contemplada tantos por conhecimentos formais como informais, resolvi ingressar em uma faculdade de Filosofia aos 58 anos de idade. A meu ver, seria a oportunidade de construir em mim um pensamento filosófico de acordo com as academias e poder formar meu próprio conceito, questionando os demais, recebendo uma base para tanto. Teria alcançado esse objetivo?

A resposta é não. Nunca pensei que o próprio academicismo podaria o meu livre pensar e o meu livre expressar. O meu conceito sobre uma faculdade de Filosofia seria o de obter bases e explicações, ou seja, ter subsídios suficientes para abarcar todo conhecimento cristão que havia adquirido durante o meu caminho. Qual não foi minha surpresa quando os pensamentos e os conceitos começaram a se confrontar e nada disso poder ser mencionado ou debatido no âmbito acadêmico. Houve uma frustração e uma angústia, pois constatei algo que muito me abalou: a Filosofia nunca pode ser questionada, somente apreendida e estudada, servindo de fundamentos para outras filosofias. Eu, antes uma pessoa com pensamento direto e objetivo, tornei-me profundamente prolixa. A Filosofia ensinou-me a consultar sempre as bases filosóficas para responder a um questionamento, mas não como uma proposta autônoma para a elaboração da resposta, mas sim me espelhando no conhecimento dos pensadores.

Este fato me fez relembrar algo que minha filha, hoje professora de Língua Portuguesa, disse-me quando cursava sua faculdade de Letras: “Nenhum texto é original. Todo autor possui um conhecimento prévio e se baseia no conceito de outros para poder escrever. Isso é conhecimento de mundo.” Na Filosofia, isso não é diferente. Os filósofos se baseiam em conceitos anteriores para estruturar seu próprio pensamento filosófico. Sócrates, que havia teoricamente estudado em uma escola sofista, só desejava mostrar o caminho da ética e da virtude aos que o seguiam. Em seguida, Platão honra seu mestre, que nada deixou por escrito, criando uma pedagogia encantadora em que o bem deveria a tudo permear. O filósofo também fala da alma e da reencarnação dessa mesma alma. Minha reflexão durante as aulas sobre ele era a seguinte: “Mas, isso me remete a Kardec, com seus ensinamentos sobre a doutrina espírita…”. Ao questionar minha professora sobre minhas constatações, a resposta: “Não é nada disso, não é tão simples assim!”. Portanto, não podia falar, não podia questionar, não podia me expressar e nem sequer discordar. Esse é um dentre tantos episódios pelos quais passei durante os quatro anos da faculdade: adquirir conhecimento e não poder questioná-lo e nem utilizá-lo.

Neste momento, surge a seguinte indagação: para mim, qual a utilidade de faculdade de Filosofia? Um curso completo somente para a aquisição de um diploma de Bacharel em Filosofia?

Certa vez, perguntaram-me: “Como é chamado alguém que se forma nessa faculdade? É filósofo?”. Nós não podemos ser alcunhados de filósofos, pois não formamos a nossa filosofia, somente estudamos e tentamos compreender o pensamento dos filósofos. No meu entendimento, a falta de questionamento não pode gerar novos pensamentos e, consequentemente, novos filósofos.

Por fim, o curso de Filosofia não calou somente a minha voz… Calou também a minha alma. Filosofia, portanto, é só para se ler.


Nossa Senhora da Ternura

Notre Dame de la Tendresse - Sérgio Prata

Controvertida questão, para muitos fechada pela resposta negativa, para outros tantos óbvia pela resposta positiva: devemos orar a Maria? Protestantes, católicos, espíritas – os de tradição cristã – mostram posições diferentes. Para mim, podemos orar a quem nos sentimos ligados pelos laços seculares do coração. Maria representa para milhões de almas, o aconchego divino e materno, a lembrança que reconforta o coração. Mãe atávica, milenar; mãe que representa todas as mães. Sou sim dos oram para Maria, dos que encontram nela a ressonância de Espírito materno, sempre.

Fiz essa oração abaixo em homenagem a um quadro (que está hoje em meu escritório), do artista plástico Sérgio Prata (http://www.sergioprata.com.br/):

 
Nossa Senhora da Ternura
(Notre Dame de la Tendresse)
Maria de Nazaré,
Esteio de nossa fé,
Olhos doces, permanentes,
Estendidos sobre nós!
Olhos agudos, fulgentes,
Que nos atraem a vós!
 
Mãe, de tua boca santa
Flui esta voz que acalanta
A alma cansada e sedenta
Voz que refresca e que cura
E voz que nos apascenta
Fecunda toda secura!
 
Maria, mãe do aconchego,
Senhora, que não renego,
Mãe de toda a humanidade,
Mãe de meu Mestre Jesus!
Teu rendilhado de luz
Sutil, suave, nos cobre!
Teu coração sempre nobre
Nos acolhe com bondade!
Ainda que carreguemos
Andrajos, fel e misérias,
Ainda que te mostremos
Nossas chagas deletérias…
Tuas mãos simples, etéreas
São afago, alívio e paz
Amor que sara e refaz!
 
Maria, mãe da ternura
Perante tua candura
Desmancham-se densas trevas
Pois que visitas e elevas
A mais rude criatura!
 
Como, pois, Mãe de clemência
Dizer algo que agradeça
E humildemente entreteça
Toda a nossa reverência?
Como louvar tua glória,
Que perpassa toda a história,
Mulher vestida de luz,
Que carregaste no ventre
O homem divino da cruz?
 
Maria, ó mãe santíssima,
Só o silêncio é veemente,
E só meu olhar em pranto
Pode ser singelo canto
De minha alma reverente!

O mestre Herculano

Fotos de José Herculano Pires (1914-1979)

Lembranças da adolescência

Escrever sobre o mestre Herculano é para mim um dever e um deleite, pois o despertar de minhas pro­postas existenciais nesta vida se deu sob a sua influên­cia. Eu o admirava com fervor durante minha infância e adolescência, a ponto de ficar horas prestando aten­ção nas conversas que mantinha com a multidão de pessoas que frequentava sua casa, bebericando o café de D. Virgínia. Esta, sempre muito preocupada, queria me arranjar outras crianças para brincar, queria me dar alguma tarefa mais de acordo com minha idade… mas eu teimava em ficar na sala, embora fosse grande amiga da neta Regina, com quem costumava me en­treter.

Desde os 11, comecei a receber poemas psicogra­fados. Herculano os escutava, me estimulava e orien­tava. Aos 13 anos, já estava decidida a me tornar es­critora como ele. E ele me indicava livros, discutia po­etas de que gostávamos. Lembro-me de ele dizer o quanto apreciava Cecília Meirelles. Falávamos dos escritores russos – outra paixão – sobretudo Tolstoi, de quem ele tinha um retrato no escritório. Para fazer par, eu mandei enquadrar um de Dostoievski, que lhe dei de presente de aniversário. Atento à minha sede de aprender, o mestre me fazia dedicatórias esperançosas nos livros que me dava. Aos 14 anos, fez-me um fan­tástico poema, A Hora de Dora. Uma resposta a uma incipiente poesia que eu fizera em sua homenagem, cheia daquele ardente amor filial. Nele, Herculano procurava me trazer para a realidade presente, pois eu era muito fixada em recordações espontâneas de vidas passadas:

Dora cisma à luz da aurora
Musas cantam céu em fora.
Dora, Dora, por que chora?
Na distância a lua agora
Fria e trêmula descora,
Baço espelho a Dora enflora
Tempo antigo a Dora adora,
Dora sonha, rememora…
Ora às musas Dora ora
Morre a lua em cada aurora,
Toda aurora é cor de amora.
Canta agora, Dora, Dora,
Da poesia a voz sonora
Canta e exalta a nova Dora
Céu em fora terra em flora
Na pletora de outra hora.
 
Dora é Dora em cada hora,
Integrada tempo em fora
Na hora de Dora – ora!

 

Aos 15, inaugurei minha mediunidade de psicofo­nia, numa reunião mediúnica dirigida por ele. Como eu era novata, fez questão ele próprio de conversar com os três Espíritos que recebi logo na primeira vez. De­pois do terceiro, mandou que eu saísse da mesa, por­que já bastava para começo. Não me esqueço da do­çura firme com que falava com os Espíritos mais difí­ceis, nem da vibração de amor, com que suas palavras vinham carregadas.

A participação nas reuniões mediúnicas, dirigidas por Herculano, durou muito pouco. Logo em seguida, fui morar na Alemanha, com minha família, pela se­gunda vez. Então, em janeiro de 1979, meu irmão mais novo, Luis, ficou com hepatite em pleno inverno euro­peu. Apavorados com a possibilidade de os médicos alemães, como era de praxe, isolarem o menino num hospital de doenças infecto-contagiosas, viemos às pressas para o Brasil, para que ele fosse tratado em casa. Foi a oportunidade de nos despedirmos de Her­culano.

No início de março, no dia 4, fomos lhe fazer uma visita, meus pais, meu irmão, já curado, que Herculano chamava de Luigino, e eu. Ele estava com muita difi­culdade de enxergar, com uma catarata avançada. Nas dedicatórias que nos fez, os emes tinham muitas per­nas. A serenidade de sempre, o acolhimento de cos­tume mataram nossas saudades.

Na noite do dia 9 de março, meus pais haviam saído e eu fiquei sozinha, em meu quarto, na casa da minha avó. Senti uma inexplicável vontade de chorar. Não sabia por que a sensação de melancolia. Entendi no dia seguinte, quando de manhã, recebemos o telefo­nema com a notícia de que Herculano se fora na vés­pera.

A imagem que guardo dele, de seu rosto, de seus gestos, de seu olhar é a da figura paterna, benevolente, bem humorada. Ao mesmo tempo, lembro de sua ines­gotável erudição, de sua paciência em ensinar, de sua despretensão ao abordar os temas mais difíceis e trans­cendentes.

Tinha eu 16 anos, quando acabou essa relação na terra, mas iniciou-se a leitura aprofundada e a crescente identifi­cação com seu pensamento. Ao mesmo tempo, em Es­pírito, sua inspiração nunca me falta, seu olhar nunca se afasta.

Das mãos de Herculano, recebi a compreensão da genialidade de Kardec e a veneração pelo mestre; re­cebi também o ideal da Pedagogia Espírita. Seguindo seus passos, fui estudar jornalismo e adotei a filosofia como objeto permanente de estudo. Obedeço ao seu conselho, em uma dedicatória que me fez, tentando “viver a poesia em ritmo existencial” e procuro dar minha contribuição para “aclarar os nevoeiros do mundo”. E ainda me integrando “no tempo de Dora”, ajustada ao tempo de agora, para melhor atuar no presente.

Esse testemunho pessoal parece-me  re­levante para o entendimento do pensador. É que existe uma coerência vital entre o homem e a obra. Não havia contradição entre o que escrevia, o que falava, o que fazia e a vibração que irradiava. Herculano era um homem reto, bom, generoso, sobretudo sincero. Nele não havia dissimulações, meias palavras, mas pesso­almente não havia também agressividade. A exaltação que revelava às vezes nos escritos era indignação justa, era ardor na batalha das ideias. Não era ódio, violência ou qualquer sentimento antagônico que fosse – porque não havia nada disso em Herculano. Era essencial­mente sereno. Mas como ele mesmo explicou em sua obra O Ser e a Serenidade, a serenidade existencial não exclui a defesa viril de uma ideia ou a luta enga­jada por uma causa.

Lembro-me certa vez de uma conversa em família. D. Virgínia, como defensora natural do marido, refe­ria-se a certa liderança do movimento espírita de São Paulo que (como outras tantas) havia traído a confi­ança de Herculano e que, de amigo, passara a adversá­rio… Herculano, então, com palavras mansas, relatou um encontro que tivera com essa pessoa na rua e como lhe estendera a mão, como se compadecera de seu es­tado físico aparentemente doentio. Mas não dizia isso com nenhum laivo de pretensão à santidade, nenhum exibicionismo de parecer superior. Era fraternidade autêntica, era benevolência pura.

Era evidente que lutava por ideias, apaixonada­mente, mas não se deixava atingir por nenhum ressen­timento ou revolta contra as pessoas que pensavam diferentemente dele.

Jamais vi Herculano alterar a voz. Mas nunca senti algo de excessivamente açucarado, que pudesse ensejar qualquer desconfiança quanto à sinceridade absoluta do que dizia. Se tivesse que caracterizá-lo com poucas palavras, escolheria estas três: coerência, serenidade e benevolência.

O reencontro na maturidade

Apenas mais tarde, porém, pude compreender a pujança intelectual de Herculano Pires. Quando me aprofundei em suas obras e nas de Kardec é que pude aquilatar a contribuição única que Herculano dera ao desenvolvimento do espiritismo.

A primeira dessas contribuições está na própria compreensão da ideia espírita. Tratando-se de uma re­volução conceitual, uma quebra de paradigma, um passo inédito na história do conhecimento – a sua di­mensão e o impacto renovador de suas propostas ainda não foram entendidos pelos seus adeptos mesmos, que o tocam apenas superficialmente, carregados dos vícios religiosos do passado, incapazes de singrarem nos ma­res abertos, descortinados por Kardec.

A maioria dos espíritas no Brasil aceita o espiri­tismo como mais uma religião apenas, embora mante­nham o discurso do tríplice aspecto. Herculano soube sondar as profundidades da obra de Kardec, enten­dendo-a como uma revolução cultural, como uma pro­posta pedagógica, como ciência nova, como filosofia inédita, sem negar seu aspecto religioso.

Muitos espíritas – ouvia eu desde pequena mur­múrios neste sentido – o consideravam fanático por Kardec, mas Herculano não tinha nenhum laivo de fa­natismo, era aliás uma pessoa avessa às idolatrias. O caso é que ele entendeu como ninguém o papel de Kardec no espiritismo. Ainda hoje, a maioria dos espí­ritas tem a ideia equivocada de que Kardec teria apenas organizado (por isso a ênfase na palavra codificador) uma revelação pronta, dada pelos Espíritos. Entretanto, apesar de ter havido sim uma revelação, a estruturação da filosofia espírita e a criação de uma metodologia de abordagem científica foram do homem Kardec. Her­culano colocou em relevo esta contribuição de mestre.

Fez isso, não de maneira histórica, inserindo-o no seu contexto, mas na contemporaneidade, com que tra­vou permanente diálogo. Como jornalista-filósofo, Herculano esteve sempre ligado à realidade, ao turbi­lhão de ideias do seu tempo e procurou mostrar a co­nexão do pensamento espírita com o processo evolu­tivo da filosofia, das pesquisas e da história humana. Temos assim não um mero divulgador de ideias espí­ritas do século XIX, mas um pensador que pensou es­piritamente o século XX.

Essa é a função de todo conhecimento vivo. O es­piritismo não pode se tornar letra morta, bíblica, que adotamos de forma postiça, como um credo fechado. É uma nova maneira de ver, pensar e sentir o mundo e assim pode iluminar o progresso do pensamento hu­mano, interagindo com as ciências, as filosofias, as correntes pedagógicas.

Isso, porém, não é ecletismo. Certa vez, muitos anos atrás, ainda no início da minha jornada intelec­tual, travei conhecimento em Portugal com uma pessoa formada em Filosofia e ela me dizia indignada que Herculano era eclético. Como se sabe, tal adjetivo é altamente pejorativo no meio acadêmico, porque signi­fica colocar diferentes elementos, díspares, numa pro­posta de pensamento ­– o que revelaria superficiali­dade e falta de conhecimento aprofundado das nuanças das diversas correntes. Uma salada mista, em suma. Essa crítica na época me irritou sobremaneira, mas foi ex­celente desafio, porque mergulhei com mais afinco do pensamento de Herculano, para desmentir a acusa­ção. Nunca mais encontrei essa pessoa, mas depois de mais de 20 anos de estudo das obras de Herculano e tendo percorrido os bancos acadêmicos da graduação ao pós-doutorado, posso afirmar com toda certeza que não há o mínimo ecletismo em Herculano.

O filósofo de Avaré nunca perde a identidade do pensamento espírita, mas compreende que faz parte dessa identidade o enxergar os elos com outras formas de pensamento e entender a história das ideias huma­nas como uma construção coletiva de conhecimento e descoberta da verdade. Assim, dialogar e integrar evita o dogmatismo e a estagnação, mas o eixo da racionali­dade metodológica, proposta por Kardec, é o que dá sentido e nos faz ver as possíveis conexões.

Podemos portanto dizer que o pensamento de Herculano Pires é amplo e aberto e por isso mesmo fiel aos princípios lançados por Kardec.

Foi essa leitura estimulante que me levou ao tra­balho que tenho procurado realizar de encarar o espiri­tismo como proposta cultural abrangente, estabele­cendo um diálogo com o conhecimento acadêmico, para que ele não se feche nos guetos dos centros espí­ritas, apenas como forma de manifestação religiosa, e ainda muito carregada de misticismo.


Ágora – Hipátia morta pelo fanatismo

Agora, filme espanhol lançado em 2009, (traduzido como Alexandria), dirigido por  Alejandro Amenábar, é uma lição de história, muito bem produzida. Reconstituição de época, bela e fiel. Mas, como em outros filmes históricos (lembro Lutero ou Em nome de Deus apenas para citar dois de temática religiosa, que é a mesma tocada por Agora), para melhor captar o seu sentido, é bom ter maiores conhecimentos, saber o contexto, entender frases ditas rapidamente, personagens e situações, que podem passar desapercebidos aos não iniciados no assunto.

Outra coisa importante quando se assiste a um filme, é detectar que tese ou mensagem defende. É claro que há filmes tão ralos e de entretenimento tão banal, que não pretendem passar e não passam nenhum recado. Mas não é o caso de Agora.

O primeiro fato que se constata nesta narrativa do filme, que se passa na Alexandria, no século V depois de Cristo, é que o estabelecimento do cristianismo se fez a ferro e fogo, a ponto de eliminar uma inteligência brilhante como a da filósofa e astrônoma Hipátia e de destruir a maior biblioteca do mundo de então, a de Alexandria. No livro A História do Cristianismo de Paul Johnson, há um capítulo inteiro que tem o sugestivo título De Mártires a Inquisidores, e há minúcias dessa transição de uma seita perseguida pelos romanos para religião oficial do Estado, com poderes cada vez maiores.

As lutas violentas, entre cristãos e pagãos, cristãos e judeus, estão fartamente retratadas no filme e a impressão deixada, que não foge à verdade, é que naquele momento, a história estava prestes a mergulhar num período de retrocesso cultural, de barbarização. Quando se veem aquelas milícias dos parabolanos, agredir e matar uma filósofa, professora, sábia, astrônoma, representante da aristocracia intelectual pagã, pode-se concluir que o cristianismo foi uma verdadeira desgraça para a humanidade. Esses parabolanos de fato existiram e eram monges incumbidos de cuidar de doentes contagiosos e enterrar os mortos, mas ao mesmo tempo, serviam de agitadores guerreiros, a serviço dos bispos, promovendo tumultos e praticando violências.

O bispo Cirilo de Alexandria, o grande vilão do filme, está fielmente retratado e se fôssemos retroceder no tempo cerca de cem anos antes, teríamos ali, outro bispo de Alexandria, Atanasius, que atuava na mesma linha de Cirilo – e ambos são hoje santos da Igreja Católica. Recentemente, o ultra-conservador Bento XVI, referiu-se a São Cirilo, como “guardião da verdadeira fé”.      (http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=242152)

Isso nos remete ao cerne da história, que não é contada no filme: o que nos é mostrado é que Cirilo usava de violência (comandando os parabolanos e o povo) contra judeus e pagãos, mas não fica evidente que também fazia uso da mesma violência contra outros cristãos que não pensavam como ele. Ou seja, essa vitória inquisitorial da Igreja sobre os adversários se deu também a nível interno – com eliminação das divergências, dos que tinham outras concepções de cristianismo.

Esses mesmos parabolanos mostrados no filme atuaram durante o II Concílio de Éfeso (449 d.C.), onde Cirilo se opôs ao Bispo Nestório. A disputa era em torno da natureza de Jesus, semelhante à que tinha se dado um século antes entre Atanasius a Arius. No Concílio de Nicéia (325), promovido por Constantino, Atanasius ganhou a partida e Arius foi exilado e todos os seus partidários, perseguidos. O Imperador baixou um édito de que se alguém fosse encontrado com um escrito de Arius seria condenado à morte. O mesmo aconteceu com Nestório, que não aceitava a ideia de que se pudesse chamar Maria, de Mãe de Deus. Sob a pressão dos parabolanos e a massa excitada por eles, o resultado do Concílio de Éfeso foi o banimento de Nestório e a consolidação do poder de Cirilo.

Esta “verdadeira fé”, a que se refere o Papa atual, de que Cirilo e Atanasius eram representantes, é a visão de que Jesus foi a encarnação de Deus – origem do dogma da Trindade, até hoje vigente na maioria das denominações cristãs. (Os cristãos que não aceitam a Trindade não são considerados cristãos por católicos, protestantes, ortodoxos etc.) Mas pode-se dizer que talvez haja uma relação direta entre essa doutrina e a prática de um cristianismo que fere os princípios de Jesus. Um diálogo do filme de Agora, capta muito bem a questão.

O ex-escravo Davus, fazendo então parte dos parabolanos e tendo participado das matanças dos judeus, dirige-se ao líder Amonius e questiona se o que estavam fazendo era certo, se Jesus não tinha dado o exemplo de perdão e de paz… O outro responde sem hesitação: mas Jesus era Deus, você quer se igualar a Deus? Ora, exatamente o que fez a doutrina da Divindade de Jesus foi afastar o seu exemplo ético da prática do cristão. É aquilo mesmo que Kardec tenta resgatar no Evangelho segundo o Espiritismo: a centralidade da mensagem de Jesus é a ética do amor ao próximo – tudo o mais no cristianismo é acessório. Arius propusera, cem anos antes daquela cena com Davus, que Jesus não era Deus, mas um seu filho, que fora enviado para nos mostrar o modelo de perfeição. Aceitando-se a divindade de Jesus, eliminava-se a possibilidade de seguir seus exemplos.

Paul Johnson concorda que se tivesse vencido na história uma versão do cristianismo mais otimista em relação ao ser humano (como um ser capaz de imitar Jesus, de atingir a perfeição, como queria Pelágio, outro proscrito como herético), a história teria sido diferente.

A única voz que aparece en passant no filme para mostrar que seria possível e necessária uma visão do cristianismo mais coerente com Jesus é justamente a desse escravo Davus… de resto, Hipátia é mostrada como ateia mais cristã do que todos os cristãos do filme. Esse é outra omissão ou desvio da narrativa – Hipátia não podia ser ateia, pois pertencia à escola neoplatônica, inspirada por Plotino, cuja filosofia tinha uma ênfase mística.

 Penso que fica faltando essa nuança na história, porque como está contada (apesar de estar corretamente contada), o peso negativo fica todo para o lado dos cristãos, que são mostrados como uma horda fanática e ignorante. É um lado verdadeiro. Mas havia outros cristãos e outras propostas – com as quais, por exemplo, a própria Hipátia poderia ter se confraternizado.

Aliás, a questão da fraternidade também deve ser mencionada. O filme dá pistas, muito pertinentes, de como o cristianismo representou uma revolução social. Davus, que amava Hipátia, decepciona-se e resolve aderir à revolução dos cristãos, quando ela o trata como escravo, reafirmando sua condição… A estrutura social escravagista do Império não admitia a noção de fraternidade que o cristianismo propunha e não se pode negar que, para muitos servos, miseráveis, marginalizados, sem voz, o cristianismo representou uma proposta de igualdade e dignidade, que nunca havia sido oferecida nem por egípcios, nem por gregos, nem por romanos. Neste ponto, Agora também se mostra fiel aos fatos: Hipatia, filósofa, professora, que praticava a tolerância com os cristãos, até o último momento não liberta seu escravo particular, com quem entretanto mantinha diálogos sobre astronomia.

Lições da história

Há algo que nos interessa nessa história ainda hoje? Serve-nos alguma lição para o mundo atual? Muitíssimas. A primeira delas é que de um lado ou de outro, nem no século V nem no século XXI, a maioria dos que se dizem seguidores do Cristo, inclusive nações inteiras que se consideram de tradição cristã, não entenderam o essencial da mensagem de Jesus, que é o amor ao próximo e a não-violência, a fraternidade universal e a compaixão. Esses princípios são os únicos antídotos possíveis contra o veneno da tirania, das guerras de extermínio, da intolerância, da perseguição a quem quer que seja… Se os cristãos tivessem sempre se inspirado nesses valores, nunca teríamos tido Cruzadas, Inquisições, matanças de judeus, árabes e heréticos ou o sacrifício de grandes personalidades como Hipátia, Joana D’Arc ou Giordano Bruno.

Disso se depreende que o fundamentalismo fanático, intolerante, desrespeitoso à dignidade humana e à liberdade de pensamento é um desvio enorme dos princípios verdadeiramente cristãos, os que Jesus exemplificou. Contra essa tendência, que pode nos levar de novo a um mergulho na barbárie histórica, temos a apresentar o quê? Justamente, o valor do ser humano, a grandeza de sua herança divina, as promessas de sua realização plena, e o amor universal e indistinto por todas as criaturas. E de onde vêm esses valores senão do próprio cristianismo bem entendido e, se bem entendido e bem praticado, ele dialoga com a ética budista, judaica, hindu… no mesmo diapasão de amor à humanidade.