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Adeus, Mister Spock! Boa viagem, Leonard Nimoy!

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Only

When I die

And realize

That I am born again

For dying is

A beginning

And I

Have died

Thousands of times

(Somente quando morro, percebo que renasço. Pois morrer é um início. E eu já morri milhares de vezes.)

Leonard Nimoy

A ficção científica tem o dom de nos fazer pensar e repensar questões humanas do presente ou questões atemporais, deslocando-as para um imaginário espaço-tempo. Transfigurar essas questões em problemas interplanetários, em coisas do futuro, parece que nos induz a um salutar estranhamento, que pode nos dar uma mensagem fortemente positiva e uma apreensão mais lúcida de nós mesmos. É claro que falo aqui de ficção científica séria, bem feita e não dessas de sessão pipoca, para apenas impressionar com efeitos especiais e monstros intergalácticos. Entre todas as que foram feitas até hoje, arrisco dizer que uma das melhores, senão a melhor, foi a Jornada nas Estrelas, sobretudo a com o time original, os mosqueteiros do espaço, Kirk, Mccoy e Spock, tanto na série da TV, quanto nos filmes posteriores, audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve.

Só para citar algumas de suas glórias, essa série, em plena luta dos direitos civis nos Estados Unidos, liderada por Martin Luther King Jr. colocou uma negra, lindíssima por sinal, Nichele Nicholson (Uhura) entre os principais personagens e ainda exibiu o primeiro beijo inter-racial da TV norte-americana, entre o Capitão Kirk e Uhura. Em plena Guerra Fria, outro personagem da tripulação da Enterprise era um russo…

Para os trackers de todo o mundo (entre os quais me incluo), isso tudo são informações corriqueiras. Mas como tracker, não poderia deixar de falar aqui de meu personagem mais querido, inspirador de tantas gerações: o Vulcano Spock, e de quem por trás dele se manifestava, o ator Leonard Nimoy, que se lançou agora numa jornada de fato estelar, deixando seu corpo na terra, como Spock tinha deixado o seu no planeta Gênesis, no filme A Ira de Khan.

A série Jornada nas Estrelas ao longo de seus episódios, discutiu diversas questões muito pertinentes ao contexto histórico em que estava, muitas ainda atuais, como pacifismo, respeito à pluralidade cultural e crítica ao imperialismo (a Federação Interestelar tinha a lei de não-interferência nas culturas encontradas em outros planetas – o que infelizmente os Estados Unidos não adotaram no planeta Terra), contracultura (a época também era dos hippies), diálogo inter-religioso, fenômenos paranormais e muitos outros temas…

Mas o personagem que representava a maior novidade, o portador de ideias e atitudes de vanguarda, era justamente Spock. Pouca gente sabe uma fato curioso. Quando Gene Roddenberry, o genial criador da série e dos personagens, estava concebendo Spock (será?), ele passava horas fazendo perguntas ao personagem e simulando respostas, para melhor entendê-lo. Mero exercício de escritor ou houve aí alguma inspiração mediúnica?

Meio Vulcano, meio humano, Spock representava por si mesmo, o conflito de duas culturas. Dividido entre suas reprimidas emoções humanas e sua lógica vulcana, era telepata, pacifista, praticava meditação. Dizia agir pela lógica e ter suprimido as emoções, mas mostrava sempre amizade, fidelidade, espírito de sacrifício – e o que dava maior prazer aos seus fãs, deixava que seu lado humano escapasse num meio sorriso e numa reação inesperada de afeto. Parecia muito com um budista – inclusive dizia não ter “ego” – ou com um estoico.

Por trás dessa figura enigmática e fascinante (uma palavra que usava o tempo todo), estava o ator, dando consistência e vida a esse personagem.

Leonard Nimoy não era uma pessoa qualquer. Era poeta, militante de movimentos sociais e ecológicos, descrito por seus amigos, como pessoa interessada no próximo. No filme que dirigiu Jornada nas Estrelas IV, a Volta para casa, na sensível história de resgate de uma espécie de baleia no passado da Terra, estava na verdade militando por uma de suas causas prediletas, a proteção às baleias. Gravou aliás um disco (na época dos discos de vinil), com sons de baleias e poemas e trechos literários famosos, lidos com aquela voz de baixo profundo.

No início da década de 80, ainda muito jovem e muito apaixonada por Spock, encontrei uma preciosidade numa livraria de Miami: um livro de poesias Warmed by Love (Aquecido pelo amor). Singelas muitas, algumas profundas, simpáticas todas, essas poesias relevam um grande ser humano, que todos são unânimes em descrever. (Meu avô, injuriado que eu entrava em todo lugar na viagem e procurava coisas do Spock, dizia que eu só ia atrás do orelhudo).

poema Nimoy

Se eu já gostava de Spock/Nimoy, quando o descobri poeta, gostei mais ainda. Aqui, em homenagem à sua passagem para o além, algumas pequenas pérolas do seu livro, que ainda guardo em minha biblioteca, mais de 30 anos depois.

O milagre é esse

Quanto mais dividimos

Mais temos. 

*

Quando me deixas

tomar,

sou grato.

Quando me deixas

dar,

sou abençoado.

*

Naves espaciais são excitantes

Mas rosas num aniversário

também são.

Computadores são excitantes

Mas o pôr do sol também é.

A lógica jamais tomará 

o lugar do amor.

Às vezes, me pergunto

aonde pertenço:

no passado ou no futuro?

Acho que sou apenas

um homem do espaço

à moda antiga.

*

Uma boa acolhida no Além, Leo, e leve nosso afeto terreno para suas novas jornadas estelares!

 


Ágora – Hipátia morta pelo fanatismo

Agora, filme espanhol lançado em 2009, (traduzido como Alexandria), dirigido por  Alejandro Amenábar, é uma lição de história, muito bem produzida. Reconstituição de época, bela e fiel. Mas, como em outros filmes históricos (lembro Lutero ou Em nome de Deus apenas para citar dois de temática religiosa, que é a mesma tocada por Agora), para melhor captar o seu sentido, é bom ter maiores conhecimentos, saber o contexto, entender frases ditas rapidamente, personagens e situações, que podem passar desapercebidos aos não iniciados no assunto.

Outra coisa importante quando se assiste a um filme, é detectar que tese ou mensagem defende. É claro que há filmes tão ralos e de entretenimento tão banal, que não pretendem passar e não passam nenhum recado. Mas não é o caso de Agora.

O primeiro fato que se constata nesta narrativa do filme, que se passa na Alexandria, no século V depois de Cristo, é que o estabelecimento do cristianismo se fez a ferro e fogo, a ponto de eliminar uma inteligência brilhante como a da filósofa e astrônoma Hipátia e de destruir a maior biblioteca do mundo de então, a de Alexandria. No livro A História do Cristianismo de Paul Johnson, há um capítulo inteiro que tem o sugestivo título De Mártires a Inquisidores, e há minúcias dessa transição de uma seita perseguida pelos romanos para religião oficial do Estado, com poderes cada vez maiores.

As lutas violentas, entre cristãos e pagãos, cristãos e judeus, estão fartamente retratadas no filme e a impressão deixada, que não foge à verdade, é que naquele momento, a história estava prestes a mergulhar num período de retrocesso cultural, de barbarização. Quando se veem aquelas milícias dos parabolanos, agredir e matar uma filósofa, professora, sábia, astrônoma, representante da aristocracia intelectual pagã, pode-se concluir que o cristianismo foi uma verdadeira desgraça para a humanidade. Esses parabolanos de fato existiram e eram monges incumbidos de cuidar de doentes contagiosos e enterrar os mortos, mas ao mesmo tempo, serviam de agitadores guerreiros, a serviço dos bispos, promovendo tumultos e praticando violências.

O bispo Cirilo de Alexandria, o grande vilão do filme, está fielmente retratado e se fôssemos retroceder no tempo cerca de cem anos antes, teríamos ali, outro bispo de Alexandria, Atanasius, que atuava na mesma linha de Cirilo – e ambos são hoje santos da Igreja Católica. Recentemente, o ultra-conservador Bento XVI, referiu-se a São Cirilo, como “guardião da verdadeira fé”.      (http://noticias.cancaonova.com/noticia.php?id=242152)

Isso nos remete ao cerne da história, que não é contada no filme: o que nos é mostrado é que Cirilo usava de violência (comandando os parabolanos e o povo) contra judeus e pagãos, mas não fica evidente que também fazia uso da mesma violência contra outros cristãos que não pensavam como ele. Ou seja, essa vitória inquisitorial da Igreja sobre os adversários se deu também a nível interno – com eliminação das divergências, dos que tinham outras concepções de cristianismo.

Esses mesmos parabolanos mostrados no filme atuaram durante o II Concílio de Éfeso (449 d.C.), onde Cirilo se opôs ao Bispo Nestório. A disputa era em torno da natureza de Jesus, semelhante à que tinha se dado um século antes entre Atanasius a Arius. No Concílio de Nicéia (325), promovido por Constantino, Atanasius ganhou a partida e Arius foi exilado e todos os seus partidários, perseguidos. O Imperador baixou um édito de que se alguém fosse encontrado com um escrito de Arius seria condenado à morte. O mesmo aconteceu com Nestório, que não aceitava a ideia de que se pudesse chamar Maria, de Mãe de Deus. Sob a pressão dos parabolanos e a massa excitada por eles, o resultado do Concílio de Éfeso foi o banimento de Nestório e a consolidação do poder de Cirilo.

Esta “verdadeira fé”, a que se refere o Papa atual, de que Cirilo e Atanasius eram representantes, é a visão de que Jesus foi a encarnação de Deus – origem do dogma da Trindade, até hoje vigente na maioria das denominações cristãs. (Os cristãos que não aceitam a Trindade não são considerados cristãos por católicos, protestantes, ortodoxos etc.) Mas pode-se dizer que talvez haja uma relação direta entre essa doutrina e a prática de um cristianismo que fere os princípios de Jesus. Um diálogo do filme de Agora, capta muito bem a questão.

O ex-escravo Davus, fazendo então parte dos parabolanos e tendo participado das matanças dos judeus, dirige-se ao líder Amonius e questiona se o que estavam fazendo era certo, se Jesus não tinha dado o exemplo de perdão e de paz… O outro responde sem hesitação: mas Jesus era Deus, você quer se igualar a Deus? Ora, exatamente o que fez a doutrina da Divindade de Jesus foi afastar o seu exemplo ético da prática do cristão. É aquilo mesmo que Kardec tenta resgatar no Evangelho segundo o Espiritismo: a centralidade da mensagem de Jesus é a ética do amor ao próximo – tudo o mais no cristianismo é acessório. Arius propusera, cem anos antes daquela cena com Davus, que Jesus não era Deus, mas um seu filho, que fora enviado para nos mostrar o modelo de perfeição. Aceitando-se a divindade de Jesus, eliminava-se a possibilidade de seguir seus exemplos.

Paul Johnson concorda que se tivesse vencido na história uma versão do cristianismo mais otimista em relação ao ser humano (como um ser capaz de imitar Jesus, de atingir a perfeição, como queria Pelágio, outro proscrito como herético), a história teria sido diferente.

A única voz que aparece en passant no filme para mostrar que seria possível e necessária uma visão do cristianismo mais coerente com Jesus é justamente a desse escravo Davus… de resto, Hipátia é mostrada como ateia mais cristã do que todos os cristãos do filme. Esse é outra omissão ou desvio da narrativa – Hipátia não podia ser ateia, pois pertencia à escola neoplatônica, inspirada por Plotino, cuja filosofia tinha uma ênfase mística.

 Penso que fica faltando essa nuança na história, porque como está contada (apesar de estar corretamente contada), o peso negativo fica todo para o lado dos cristãos, que são mostrados como uma horda fanática e ignorante. É um lado verdadeiro. Mas havia outros cristãos e outras propostas – com as quais, por exemplo, a própria Hipátia poderia ter se confraternizado.

Aliás, a questão da fraternidade também deve ser mencionada. O filme dá pistas, muito pertinentes, de como o cristianismo representou uma revolução social. Davus, que amava Hipátia, decepciona-se e resolve aderir à revolução dos cristãos, quando ela o trata como escravo, reafirmando sua condição… A estrutura social escravagista do Império não admitia a noção de fraternidade que o cristianismo propunha e não se pode negar que, para muitos servos, miseráveis, marginalizados, sem voz, o cristianismo representou uma proposta de igualdade e dignidade, que nunca havia sido oferecida nem por egípcios, nem por gregos, nem por romanos. Neste ponto, Agora também se mostra fiel aos fatos: Hipatia, filósofa, professora, que praticava a tolerância com os cristãos, até o último momento não liberta seu escravo particular, com quem entretanto mantinha diálogos sobre astronomia.

Lições da história

Há algo que nos interessa nessa história ainda hoje? Serve-nos alguma lição para o mundo atual? Muitíssimas. A primeira delas é que de um lado ou de outro, nem no século V nem no século XXI, a maioria dos que se dizem seguidores do Cristo, inclusive nações inteiras que se consideram de tradição cristã, não entenderam o essencial da mensagem de Jesus, que é o amor ao próximo e a não-violência, a fraternidade universal e a compaixão. Esses princípios são os únicos antídotos possíveis contra o veneno da tirania, das guerras de extermínio, da intolerância, da perseguição a quem quer que seja… Se os cristãos tivessem sempre se inspirado nesses valores, nunca teríamos tido Cruzadas, Inquisições, matanças de judeus, árabes e heréticos ou o sacrifício de grandes personalidades como Hipátia, Joana D’Arc ou Giordano Bruno.

Disso se depreende que o fundamentalismo fanático, intolerante, desrespeitoso à dignidade humana e à liberdade de pensamento é um desvio enorme dos princípios verdadeiramente cristãos, os que Jesus exemplificou. Contra essa tendência, que pode nos levar de novo a um mergulho na barbárie histórica, temos a apresentar o quê? Justamente, o valor do ser humano, a grandeza de sua herança divina, as promessas de sua realização plena, e o amor universal e indistinto por todas as criaturas. E de onde vêm esses valores senão do próprio cristianismo bem entendido e, se bem entendido e bem praticado, ele dialoga com a ética budista, judaica, hindu… no mesmo diapasão de amor à humanidade.


Avatar: a violência contra a violência

Cena de Avatar, 2009 - Direção James Cameron

Consegui assistir ao aclamado filme Avatar somente em casa, depois que já havia saído dos cinemas e estava disponível nas locadoras. Portanto, não peguei a imagem 3D e não degustei aquele mundo paradisíaco de uma maneira mais integrada… mas isso não invalida a minha apreciação do roteiro e da mensagem final do filme.

Os comentários positivos foram tantos e minha paixão por science fiction é tão grande, que me pus a ver o filme com grande ânsia e expectativa por algo realmente maravilhoso.

De fato, há duas coisas excelentes: a beleza das imagens (que em 3D devem ser de tirar o fôlego) e a função que toda boa ficção científica exerce, que é a de criar uma situação imaginária, no futuro ou em outros mundos, mas através da qual podemos fazer uma leitura crítica da nossa realidade e do nosso mundo.

É por demais óbvia a relação que podemos estabelecer no filme com todos os imperialismos, os massacres étnicos, as agressões ecológicas, que vivenciamos no planeta desde que o mundo é mundo – mas com maior requinte, desde que se instalou o capitalismo como mola propulsora das ações dos grandes impérios. Afinal, atrás de toda a trama do filme está uma empresa que quer explorar um minério preciosíssimo que há no subsolo de Pandora, o habitat dos homens azuis. Podemos substituir esse minério Unobtainium, em diversos momentos dos últimos quinhentos anos de história terrestre, seja por ouro, esmeraldas, marfim ou petróleo e temos um enredo igualzinho ao do Avatar, onde não faltam nem mesmo os europeus conquistadores se apaixonando por indígenas colonizadas, como o caso de Pocahontas e nem os representantes dos impérios que se converterem para o lado dos conquistados e ajudaram na luta de resistência – situação retratada no filme A Missão (para ficarmos no campo cinematográfico).

Entretanto, o filme é feito dentro do próprio sistema que pretende criticar. E a ideologia central do sistema permanece como bandeira do filme. Que ideologia é essa? Que a violência é o única solução para todos os embates humanos. Que violência se contra-ataca com violência e a própria justiça só se cumpre com violência. Ou seja, trata-se de ideologia anti-cristã, pois Jesus ensinou a pagar o mal com o bem e a perdoar setenta vezes sete e a oferecer a outra face.

O filme quer se fazer politicamente correto – propõe-se a defender o indígena contra o invasor; a natureza contra seus agressores, a sobrevivência das culturas locais contra o massacre imperialista… mas da primeira cena tocante em que a nativa Neytiri pede desculpas ao animal por tê-lo matado e diz ao americano travestido de extraterrestre azul que aquilo era muito triste, vamos sendo conduzidos por um caminho de emoções que, no final, nós mesmos entraríamos no filme e estrangularíamos o Coronel Miles Quaritch.

Estamos aí longe de um episódio de ficção científica da antiga série televisiva Jornada nas Estrelas (Star Trek)  – e essa sim, em muitos enredos, pacifista. Esta história se chamava Errand of Mercy. Os klingons (os vilões militaristas, guerreiros e imperialistas) haviam invadido um planeta pacífico e aparentemente estagnado numa cultura simples e agrícola. James Kirk, ao lado de Spock e da tripulação da Enterprise (representando quem sabe, a ideologia de “campeões da liberdade” dos Estados Unidos) põe-se em defesa do planeta e, embora não estejam inclinados a usar de violência, não encontram outro recurso. Mas quando klingons e representantes da Federação estão a ponto de iniciar uma guerra, eles se vêem impedidos disso. As armas esquentam a um ponto que eles são obrigados a soltá-las, os aparelhos das naves ficam inativos… Então, os anciões do planeta se apresentam como realmente eram – espíritos puros, de luz, que usavam aquelas vestes carnais apenas para recepcionarem os visitantes. Eles pararam a guerra com seu poder mental. Os klingons na verdade não tinham poder nenhum sobre eles e ao matarem os habitantes não estavam realmente matando, porque eles estavam em outra dimensão.

Cito esse episódio porque isso sim é pensar diferente, raciocinar em outros termos e poder sair do ciclo de violência extrema em que vivemos neste mundo.

Enquanto todos se deleitarem com as cenas de violência de que o filme Avatar está cheio, supondo que para combater a violência e a injustiça, não há outro remédio senão a violência, não sairemos jamais desse diapasão na Terra.

Quando vi as cenas de Pandora, no trailer do filme, pensei que fôssemos fazer uma viagem para um reino de paz e beleza e pudéssemos usar a mente em outras alternativas de existência, mas na verdade o filme excita os que gostam de armas pesadas e de tecnologia para matar e acende nossos instintos primitivos de querermos vingança dos matadores. Ou seja, afinal, quem é o herói do filme? Quem sobrevive e é exaltado? O jovem Jake – que é um guerreiro! Ou seja, transferimos o faroeste para o espaço e agora vamos defender os índios… mas ainda o herói é o colonizador guerreiro!

Enquanto não fizermos filmes em que os heróis sejam modelos como de Jesus, Buda ou Gandhi, não podemos fazer um educação estética e ética para as novas gerações em que o bem (pacífico) vença afinal. O cinema americano, como a própria ideologia do sistema vigente no mundo, é essencialmente anti-cristão, embora se afirmem cristãos nominalmente. Porque a essência da mensagem de Jesus, como muito bem compreendeu Gandhi, um hindu, é a não-violência.

A grande questão que se põe é a seguinte: o que no limite fazer com um homem como o coronel do filme, que tem prazer em matar e não tem um pingo de compaixão? Haverá outra alternativa senão eliminá-lo? Justamente isso é que o filme nos faz acreditar e que toda ideologia maniqueísta usada hoje em dia nos faz crer: que há homens inumanos e que só nos resta varrê-los da terra. Se considerarmos porém, numa outra visão, que todos os seres humanos têm um lado humano, que pode ser tocado – em termos de ficção científica, todo Darth Vader na verdade é um menino desviado, pela revolta, mas pode ser tocado pelo amor de um filho ou de alguém…, então as tramas se tornariam mais ricas, menos “râmbicas”… aliás, não é à toa que Cameron – diretor de Avatar, também esteve envolvido na produção do Rambo (modelo máximo dessa ética do faroeste!).

Isso está ligado a um outro aspecto do filme: a espiritualidade. Muitas pessoas me disseram que a espiritualidade estava fortemente presente em Avatar. De fato, o próprio nome Avatar vem do hinduísmo e que dizer “encarnação de um ser divino”. A transferência de espíritos de um corpo humano para o corpo Na’vi sugere a independência da alma em relação à matéria. As orações, o culto à grande mãe – tudo isso lembra as religiões pagãs, em que sacerdotizas exerciam o culto da terra-mãe, de Deusas maternas. No Egito, entre os celtas e muitos povos da Antigüidade, isso era comum. E existe uma volta ao neo-paganismo no mundo pós-moderno.

Isso demonstra uma característica muito patente em nosso milênio – voltamos a toda sorte de espiritualidade e aceitação do sagrado e muitas vezes ao que era pré-cristão. Mas a essência ética da mensagem de Jesus e, nesse caso, também de Buda – a da não-violência – não é invocada. Ou seja, estamos numa posição muito cômoda, que é a que aparece no filme O Gladiador, aceitamos todas as formas de espiritualidade, mas olvidamos a que alimenta a nossa tradição ocidental, com sua proposta radical de perdão, paz e não-violência. No filme O Gladiador, passado em torno do ano 200, época em que os cristãos morriam às pencas nas arenas romanas e morriam cantando, perdoando seus algozes, eles não são sequer mencionados, porque o grande herói é um guerreiro que passa o filme inteiro para executar a sua vingança e não há a voz de um cristão para lhe dizer: perdoe!

Essas são as reflexões nascidas do filme Avatar. Esperemos que outros possam pensar críticas nesse sentido, para começarmos a escapar da hipnose da ideologia dominante.