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Como e por que sou anarquista – pequena cartilha política

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Em tempos de discussão política, de diferentes pautas e interesses, que se entrecruzam e se misturam, às vezes de maneira confusa e imprecisa, é bom pontuar algumas ideias e marcar uma posição mais clara.

Digo isto, porque embora tenha ficado a princípio muito satisfeita e entusiasmada com o despertar do povo, saindo às ruas e reivindicando direitos, logo fui ficando menos empolgada, ao verificar que a maioria tem insatisfações genéricas, que as reivindicações vão da esquerda à direita, misturadas, e muitas vezes, mostrando a mesma alienação de sempre. Ou seja, embora tenha notado com alegria que há muita gente mais conscientizada, ainda percebe-se que há muitos outros conservadores de plantão que se dividem em duas classes: a dos que têm interesses próprios no sistema vigente e a dos que simplesmente não têm consciência política (ou seja, são alienados), por falta de formação e de informação! Alguns padecem simultaneamente dos dois problemas.

Como esse não é um espaço para um tratado profundo sobre o assunto, apenas quero deixar algumas definições básicas, úteis para quem não está habituado a certas reflexões.

Em primeiro lugar, quero definir como conservadores (ou de direita) aqueles que não conseguem ou não querem elaborar uma crítica ao sistema econômico globalizado em que vivemos. Podem criticar a corrupção (e criticam de preferência e com mais ênfase a do PT), podem querer genericamente mais saúde e educação, podem estar conscientes de alguns absurdos crônicos do cenário da política brasileira. Mas não vão além. Não percebem que por trás de políticos corruptos no Brasil e mesmo por trás de alguns possíveis bem intencionados, há as corporações e os bancos, que comandam o sistema mundial, diante de quem os governos nada podem. Mesmo um Obama é um marionete do sistema, sem muito o que fazer diante dos lobies econômicos, da força das indústrias de armas, dos banqueiros internacionais… Entre esses conservadores, pode haver os que acreditam nas instituições democráticas e não gostariam de uma ditadura (ditadura explícita, porque já vivemos numa ditadura econômica). Mas há também os radicais, que sentem saudades do militarismo (e agora soubemos da formação de um partido militar no Brasil!!!), que querem o fechamento do Congresso e coisas assim… Esses naturalmente não dão a mínima para aqueles que foram torturados, assassinados e desaparecidos nos tempos da repressão e ainda acham que comunistas comem criancinhas!

Em seguida, vamos apalpar um pouco o outro lado, que também junta muitas posições: a esquerda. Direita e esquerda são distinções que nasceram na Revolução Francesa e têm mostrado diferentes agendas nos últimos dois séculos. Por exemplo, aquela esquerda dos tempos da Guerra Fria, simplesmente não existe mais, porque ela era polarizada pela União Soviética. Hoje, a esquerda pode representar posições bem mais sofisticadas e variadas. Mas em todas as esquerdas, existe a consciência de que vivemos numa sociedade estruturalmente injusta, de que o capitalismo é excludente, perverso, porque centrado no lucro, na exploração, onde o ser humano nada vale, como objeto descartável do mercado. De algumas décadas para cá, a esquerda também se acresceu de uma consciência ecológica, porque além de massacrante em relação ao ser humano, o sistema capitalista é predatório da natureza, esgotando os recursos naturais da Terra (consciência, por exemplo, que uma esquerda marxista da década de 50 não tinha).

Entre as esquerdas marxista ou socialista, distinguem-se as revolucionárias, (em claro desuso atualmente) que pregam ou praticam o uso das armas para derrubar esse sistema e as reformistas, que pela eleição pensam chegar ao poder e transformar as coisas. É o que o PT prometia.

Entre as esquerdas, está o anarquismo, posição que adoto desde jovem.

 O que é o anarquismo?

O anarquismo partilha com todas as outras posições de esquerda a ojeriza ao sistema econômico capitalista, em que somos escravos do mercado de consumo, com uma doutrinação maciça da imprensa (que também é feita de corporações interessadas no lucro e não na verdade e no bem coletivo), num mundo globalizado em que a suposta liberdade econômica é sim o domínio de uns poucos sobre povos inteiros.

Mas, ao contrário de socialistas e comunistas, os anarquistas não acreditam que o Estado possa ajudar a reverter esse sistema econômico injusto, porque o Estado já nasceu e sempre esteve a serviço dele. Um dos grandes anarquistas (e nesse caso anarquista cristão, partidário da não-violência) cujas ideias esposo e admiro, Lev Nikolaievitch Tolstoi, mostrava que o Estado é assentado na violência, porque ele precisa de exército e polícia para funcionar – ora, essa violência pode ser a toda hora voltada contra o cidadão (vimos isso fartamente nas manifestações havidas recentemente), porque o poder quer sempre se manter do poder, e, para manter-se, usa de violência. Para Tolstoi, a própria existência do Estado é contra a mensagem de Jesus, se a entendermos como uma mensagem de amor e não-violência, na medida em que o Estado é naturalmente bélico e repressor. Mesmo a suposta justiça, promovida pelo Estado, segundo Tolstoi, longe de ser uma proposta educativa, é uma vingança social. (Ele escreveu um livro belíssimo sobre o assunto: Ressurreição.)

O anarquismo propõe que o ser humano é capaz de gerir a si mesmo, em cooperativas, associações livres, em relações igualitárias e fraternas. A parafernália do Estado, com seu cortejo de políticos vivendo às custas da nação, com seus exércitos, com suas polícias repressoras, com os impostos que todos são obrigados a pagar (e isso no Brasil ainda é pior que em alguns outros países), tudo isso são coisas perfeitamente dispensáveis, quando poderíamos viver nos organizando fraternalmente.

Já vejo o muxoxo de desprezo de muitos, dizendo que a ideia pode ser muito bonita; mas utópica, irrealizável.

Pessoalmente, só acho que ela seja realizável através da educação, formando gerações que cresçam com autonomia, confiantes em si mesmas, praticantes desde cedo da cooperação e da fraternidade, ao invés da competição que o sistema atual estimula.

É óbvio que a concepção anarquista se baseia numa visão otimista do ser humano, em que o mal e o crime são muito mais produtos de uma sociedade injusta, mal organizada e de uma educação deformante, do que algo intrínseco ao ser.

Como acredito na perfectibilidade humana e sei que uma educação libertadora e crítica, estimuladora de bons sentimentos e de valores humanos, pode acelerar essa capacidade de autonomia e bondade, sou anarquista agora, por ética pessoal, na medida do possível e do factível, e a médio e longo prazo, acredito que o anarquismo é o antissistema a ser alcançado num futuro não muito distante.

O que chamo de anarquismo por ética pessoal é o seguinte: mesmo vivendo numa sociedade altamente dominada por poderes econômicos e políticos, repressores da liberdade humana, viver de forma contrária a esse sistema. Por exemplo, não assisto à TV, não sou manipulada pela mídia, não estabeleço relações de hierarquia com ninguém. Nunca trabalhei em algo e por algo que contrariasse meus princípios (atitude que Tolstoi e Gandhi chamavam de não-colaboração com o mal), orgulho-me de ter recusado duas vezes um emprego na Veja, e isso mesmo quando estive em necessidade financeira. Procuro na medida do possível resistir na alimentação, no consumo, no cotidiano às imposições do mercado. Na família, no trabalho, nas relações pessoais procuro formas horizontais de troca e respeito, recusando posições de mando, o que não quer dizer recusar liderança. Há grande diferença entre ser chefe e ser líder. O comando se impõe e se faz valer por meios coercitivos, a liderança se conquista por mérito em alguma área ou por algum carisma pessoal e são os outros que lhe dão. O comando se quer a qualquer custo, a liderança se ganha espontaneamente.

E sobretudo, milito o tempo todo para acordar consciências e através da educação, de crianças, jovens, adultos, restituir ao ser humano a crença em si mesmo, em sua capacidade de se autogerir, de criticar, de questionar, derrubando gurus que manietam o livre pensar, denunciando mercadores de ideias e de ideologias, mostrando como as instituições (mesmo as espíritas, cito porque me considero espírita sempre) acabam por se cristalizar em poderes e disputa de poderes, massacrando a espontaneidade do ser humano e a espiritualidade despojada e simples, que é a única que nos eleva.

Gosto do anarquismo, porque ele é multifacetado, livre, não tem cartilhas fechadas, é aberto a experiências pessoais e coletivas, como considero que é nosso processo de maturação espiritual no decorrer das vidas. Acho mesmo que para ser anarquista é preciso, como Tolstoi propunha, ser cristão na essência do termo. Não o cristianismo institucionalizado, dogmático, igrejeiro. Mas o cristianismo de fraternidade real, em que o ser humano se despoje do seu desejo de dominar, explorar e ferir o outro, para entregar-se a vivências de ajuda mútua, cooperação e… o que afinal propunha Jesus: amor ao próximo como a si mesmo. Só isso!


17 de junho de 2013, o dia em que o Gigante acordou

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Num momento em que explodem as insatisfações seculares de um povo, que já não aguenta mais o cinismo das classes dominantes, apenas podemos manifestar melhor nossa adesão, através de um poema, que grite na internet, como nas ruas está gritando o povo!

Não são os vinte centavos
Que movem as multidões
E assombram nosso congresso
e assolam os corações!
 
São séculos de opressão
Inesgotáveis impostos
Corrupção sem fronteiras
E cínicos sempre a postos!
 
É nosso trabalho escravo
Sustentado vis Sarneys
É nossa descrença crônica
Na equidade das leis!
 
São as crianças nas ruas
São hospitais em pedaços
São escolas depredadas
E os políticos devassos!
 
Não é um partido ou outro
É uma casta que domina
Desde o Império à República
E nossa esperança mina!
 
O povo se movimenta
Nas ruas embandeiradas
E nasce em nós a centelha
De esperanças tão guardadas!
 
Esperanças de um Brasil
De justiça repartida
De igualdade verdadeira
E de infância protegida!
 
Não são os vinte centavos
Que movem as multidões
Mas é a esperança escondida
Que agita nossas visões!
 
A medida derramou
O gigante se mexeu
Façamos a nossa parte
Eles, nós, vocês e eu!

Pela maioridade do Bem (Invocação a Castro Alves)

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Às vezes, argumentos não bastam. Números, fatos, dados objetivos não conseguem abrir caminho na opinião obstinada, que se cristalizou num dogma. Há uma multidão de pessoas, que estão gritando pela redução da maioridade penal. Já argumentei, já mostrei números, artigos interessantes e as pessoas simplesmente não ouvem. Então, estou lançando mão da poesia. Fiz um apelo ao grande poeta Castro Alves, inflamado pelas causas sociais, sobretudo a do escravo. Muitas das crianças e adolescentes, que hoje estão na criminalidade – marginalizadas socialmente, que não tiveram acesso à educação e aos direitos fundamentais do ser humano – são remanescentes históricos da escravidão. Para clamar contra a injustiça, poetemos à Castro Alves!

Que ouço? Reclamam vozes

Rigores e punição

Ventam palavras ferozes                             

Endurece-se a nação!

 

Que a cadeia irrevogável

Encarcere o vil bandido

Nada seja perdoável

Brada o povo em alarido!

 

A mídia esse coro orquestra

Moldando as opiniões!

A demagógica mestra

Que põe na praça os vilões!

 

Mas quem são os acusados

Por tantos dedos hostis?

Onde estão acobertados

Nesses múltiplos Brasis?

 

Será aquele que trata

Como escravo um boliviano?

Ou o que infesta de mamata

O Congresso de ano a ano?

 

Será o que expulsa e que mata

Famílias do Pinheirinho?

Será o que não se retrata

Por torturar num cantinho?

 

Será talvez o assassino

Da missionária caída?

Ou o que violou um menino

Despedaçando-lhe a vida?

 

Serão os grandes senhores

De feudos descomunais

De escravidões e de horrores

De tempos coloniais?

 

Não! Nenhum destes, ó Musa!

Persegue a mídia e a nação!

Nenhum destes que se acusa

Com tanto rigor e agressão!

 

Querem justiça implacável

Com quem sem justiça nasceu!

Nenhuma lei maleável

A quem nada tem de seu!

  

Pobre, negro, quem na rua

Teve por casa a calçada,

E sem mãe, de vida nua,

Teve sua alma estuprada!

 

Aos meninos delinquentes

A punição exemplar!

Eles que ainda sem dentes

Só sabiam apanhar…

 

Pois apanhem de um padrasto,

Que o pai está na prisão!

Menino, siga o seu rastro,

É o que deseja a nação!

 

Perpetua-se a violência

Com mais violência e rancor!

Poderá haver decência

Numa nação sem amor?

 

Meninos querem afeto

Mesmo de armas na mão,

Foi a vida num deserto

Que pôs suas almas no chão!

 

Ó Musa, chama o poeta

Que cantou a abolição!

E faz que sua voz dileta

Diga por mim: compaixão!

 

Ao invés de mais cadeias

Que são escolas de crime

Semeemos a mancheias

A educação que redime!

 

Escolas de liberdade

Em militância no bem!

Justiça, paz, igualdade

Que nada falte a ninguém!

 

Musas, Deuses, Mestres, Guias!

Poetas de hoje e de além!

Calem-se as vozes sombrias

Cantemos vozes do Bem!

 


O mundo precisa de mães!

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Vou começar a minha reflexão do dia das mães, sobre maternidade e maternagem, relembrando a minha própria mãe. Quando ela se foi, eu tinha 34 anos. Ela era uma grande parceira intelectual, uma mãe presentíssima. Compartilhávamos conversas, ideias, ideais, livros lidos, projetos a realizar. Apesar dessa ligação muito “cabeça” que tínhamos, quero lembrar de um fato aqui que me introduz no tema de hoje. Até um mês antes de ir para o hospital, onde faleceu dois meses depois, com câncer de pâncreas, ela diariamente arrumava minha cama. Não que fosse uma mãe essencialmente doméstica: fazíamos os serviços de casa em parceria, tínhamos uma pessoa que nos ajudava, a Maria, que depois veio a se tornar para mim uma segunda mãe. Minha mãe estudava, trabalhava, mas sabia que eu detestava arrumar a cama (coisa de que até hoje não gosto) e ela nunca falhava em me oferecer esse gesto de carinho diário.

Hoje tenho ouvido relatos de educadores e diretores, de escolas públicas e particulares, de crianças pequenas que chegam pela manhã na creche ou jardim da infância de período integral, com a mesma fralda com que foram para casa, no dia anterior.

Um documentário, como Muito além do peso (disponível gratuitamente no Youtube) mostra mães (e pais) totalmente impotentes e perplexos diante de filhos pequenos com hipertensão, diabetes, triglicérides e colesterol alto, por uma alimentação de nuggets, salgadinhos, batatas fritas e toneladas de açúcar… Crianças que não sabem o nome de nenhum legume e nenhuma fruta, que são viciadas em coca-cola e bolachas recheadas.

Esses são apenas algumas citações (cada uma das quais mereceria um artigo específico), para demonstrar como a nossa sociedade está negligente, incompetente e omissa em relação às crianças. E depois querem puni-las por desrespeito, querem reduzir a maioridade penal, querem impor limites e castigos…

O que está faltando hoje em muitos lares (de todas as classes sociais) é o que Winnicott chamou de “maternagem”, aqueles cuidados básicos, essenciais, necessários, que toda criança tem que receber. A criança, principalmente nos seus primeiros anos de vida, tem necessidade de total devotamento, cuidados plenos, amor incondicional. Depois desse primeiro período, que vai até pelo menos 2 anos, ela ainda precisa continuar a receber cuidados, ternura, presença atenta, embora já inicie seu processo de separação da mãe, de autonomia e de construção de sua identidade.

Embora a Psicologia nos ensine que se a maternagem não ceder à independência da criança no momento certo, o amor materno pode se tornar opressivo e prejudicial ao desenvolvimento do ser humano, ela também nos mostra que a negligência, o abandono e o não-preenchimento desses cuidados básicos, que incluem afetividade e acolhimento, colo e carinho, podem gerar lacunas psíquicas, que mais tarde poderão gerar graves distúrbios mentais.

O termo maternagem – que são esses cuidados maternos que toda mãe deveria dar, mas nem sempre dá, e que outra pessoa, que não seja a mãe, também pode oferecer – na Psicanálise, refere-se também aos cuidados que o terapeuta pode prestar ao seu paciente, de certa forma resgatando a maternagem que o indivíduo deveria ter recebido na infância.

Podemos ampliar ainda mais essa palavra e afirmar que todos nós em alguns momentos na vida, precisaremos de maternagem, mesmo quando já nos sentimos adultos e maduros. A nossa criança interna, carente e frágil, pode vir à tona e precisar de um colo materno e fraterno, para nos acalentar. Por outro lado, todos podemos também oferecer maternagem aos que estão à nossa volta, preocupando-nos com o bem-estar físico, psíquico e emocional do outro.

Quando a sociedade desnatura a mãe

A maternidade é um dado biológico, uma vinculação dada pela gestação, que pode continuar a se manifestar ou não em forma de maternagem. Uma mãe que abandona o filho não pratica a maternagem. Ela pode transferi-la para outra pessoa, no caso de uma adoção, ou emprestá-la ou ainda partilhá-la, no caso de entregar o filho a uma babá ou a uma creche (onde atualmente quase que se proíbe a maternagem, como se professoras de crianças pequenas tivessem de ser apenas “professoras”, quando toda criança pequena precisa o tempo todo de cuidados maternos). O pai também pode e até deve exercer a maternagem.

O que se dá é que em nossa sociedade, esfriada, individualista, competitiva, desumanizada, as pessoas estão desaprendendo de serem maternas. Porque todos devem ser “produtivos” no sentido econômico do termo. Não podemos nos dar ao luxo de cuidar de alguém, seja uma criança, seja um doente, seja um idoso. Temos todos, homens e mulheres, de trabalhar o tempo inteiro para “ganharmos a vida” e assim vamos perdendo a vida, esvaziando-a de carinho, de afeto e de cuidados mútuos.

Está certo que a Psicanálise desencantou as mães, mostrando-as como possíveis responsáveis por neuroses e psicoses, devido ao apego excessivo, ao devotamento doentio; é certo que a mulher saiu para o mercado de trabalho e não pode recuar da vida no mundo, dando sua contribuição para a sociedade; é certo que não podemos mais idealizar a mãe como sendo sempre um modelo de renúncia e abnegação – mas precisamos sim de sentimentos maternos para vivermos em sociedade de forma saudável, amorosa e plena.

Lembro aqui do amorosíssimo Francisco de Assis, que dizia aos seus companheiros, que eles se cuidassem mutuamente como mães… Lembro de Pestalozzi, o grande educador que tratou pela primeira vez da necessidade do afeto na educação e seus biógrafos reconheceram nele “um grande coração maternal”. Lembro de todas as mães, do decorrer dos milênios e ainda hoje, perdidas na multidão, que não saem nas matérias da Revista Veja, sobre executivas bem-sucedidas, que parecem mulheres despersonalizadas de seu estatuto feminino – lembro de todas as mulheres – dizia – que abriram caminhos para que seus filhos crescessem fortes, saudáveis e pessoas de bem, pelo amor com que se dedicaram a eles, pelo devotamento de sua presença… e lembro de minha mãe, que intelectualizada, parceira de livros e ideias, e que não suportava a idealização de uma “santa mãezinha”, não deixava de arrumar minha cama e de cuidar de nosso bem-estar psíquico e físico, de que, sabemos, as verdadeiras mães continuam a cuidar, mesmo do outro lado da vida…

O toque materno, a ternura, a preocupação com o outro é que arranca a vida da aridez e do vazio. Quem teve o privilégio de receber esses cuidados de sua mãe biológica, tanto melhor. Quem teve a sorte de ser “maternado” por outras pessoas, em sua infância, adolescência ou encontrar compensações maternas em suas relações atuais, ótimo. O que não podemos é passarmos a vida sem nenhum tipo de doçura materna, sem nenhum colo que nos aconchegue a alma.

Não é à toa que Maria, mãe de Jesus, é venerada em todos os cantos do planeta. Ela representa espiritualmente esse colo sagrado, acolhedor e pleno, no qual nos sentimos crianças de novo e seguros de uma proteção confortadora.

Mas também devemos ter consciência de que amadurecer, crescer, emancipar-se psiquicamente e espiritualmente, é sermos capazes por nossa vez de oferecer colos, de ofertar cuidados maternos e de sermos ternura no caminho de alguém.


Choremos por Belo Monte!

O choro de Raoni por Belo Monte

Milhões de anos construíram a tessitura delicada e forte da floresta. Bastarão algumas empreiteiras ávidas de dinheiro, para ferir a mata e atingir mais uma vez o pulmão do mundo, dizimando pássaros e peixes.

Centenas de povos e comunidades se alimentam há séculos da seiva fecunda do rio, tirando alimento pacífico da natureza e cuidando para que ela esteja lá, sempre bela e viva. Bastará um punhado de empresas nacionais e internacionais, sob a guarda de um governo (como todos os outros) rendido aos interesses econômicos desumanos, para desterrar as pessoas ribeirinhas e para acabar com o rio, que é fonte de vida.

Os donos antigos da terra, os indígenas, choram e clamam, ameaçam e lutam, vão para fora do Brasil e reivindicam, como o grande Raoni – mas nada acontece. Belo Monte avança, implacável. Filmes, documentários, entrevistas, estudos, militâncias de brasileiros e estrangeiros mostram a desgraça que se arma, o desrespeito à vida, à natureza, aos direitos fundamentais dos povos e das pessoas – mas o governo não escuta, os políticos da região, com faces boçais e frases de efeito, repetem discursos vazios de progresso para a região – como se essa noção de progresso, depredador da natureza e do ser humano já não estivesse sendo criticada, questionada e desqualificada há décadas, por ambientalistas, por pacifistas, por defensores dos direitos humanos!

O rio Xingu vai morrer, inundado, afogado pelas próprias águas, sufocado em alguns lugares, estrangulado pela ganância de empreiteiras. As pessoas que lutarem para defender a natureza e sua fonte de sobrevivência também morrerão, como morreram já tantos ambientalistas, defensores dos índios, missionários e militantes… A Amazônia vai pouco a pouco se extinguir, porque, como explicam os que entendem da coisa, a usina Belo Monte ficará parada pelo menos 4 meses ao ano (o que já não justificaria a sua construção) e então serão necessárias outras barragens, outras inundações, outras expulsões de povos à beira, outras perdas irreparáveis nas matas.

E as vozes do povo da terra, a vozes das pessoas sensíveis ao direito do outro e à natureza, mesmo se postas em várias línguas, em vários canais na rede, ficam perdidas, cobertas pelo som das escavadeiras, que já estão mutilando a terra.

O problema desse modelo econômico capitalista, predador, desumano, sem medida do bem e do mal, é que as pessoas são compradas. Os que poderiam se opor se vendem e apoiam. Os que se opõem sem nenhum poder, são calados ou mortos.

A democracia dos países que se dizem democráticos é uma farsa, um engodo em que a população participa como marionete, pensando que está decidindo algo, mas é apenas manipulada pelo sistema econômico, pela mídia e pelos governos eleitos. Neste ponto, não há diferença entre o governo militar que construiu Tucuruí e os governos petistas que estão construindo Jirau ou Belo Monte. De direita ou esquerda, militares ou ex-militantes contra a ditadura, todos têm a mesma concepção de progresso: predador da natureza, com desprezo pelos custos ambientais e sociais. Todos têm o mesmo comprometimento: atender aos interesses econômicos de investidores nacionais e internacionais. Porque qualquer governo no mundo só se conquista e se mantém se submetendo a esses interesses. Os governos eleitos nada mandam, apenas dançam miudinho diante das corporações, dos bancos, do sistema financeiro internacional. Lembro-me ainda da primeira grande decepção que tive com o Lula (embora não tenha votado nele e em nenhum outro): quando ele cedeu tudo o que podia para os interesses agressivos da Monsanto.

O sistema engole governos, ongs, passa por cima dos direitos fundamentais dos seres humanos, arrasa com a natureza e vai sufocar o pulmão do mundo, a Amazônia. Mas o sistema não é uma entidade abstrata: ele é feito de seres humanos, que o inventaram, que o servem, que colaboram com ele, que, sobretudo, se vendem para ele.

Então, se queremos ter alguma esperança de mudança, temos que ensinar às novas gerações, jamais se venderem, jamais cederem em princípios fundamentais, por interesse de ganho e ambição de poder. Como fazer isso através da educação é assunto para outro texto, mas podemos pelo menos dizer aqui que os mais velhos precisam exemplificar.

Mas até que novas gerações assumam a direção do mundo, esperemos que de uma forma mais humana, solidária e ecológica, a Amazônia terá morrido, dilacerada por plantações de extração de celulose, por usinas hidrelétricas, por pastos para gado…

Choremos pois, porque não acredito que a Dilma ou quem quer que seja, vá ouvir a voz do povo que clama e vá parar Belo Monte! Os índios prometem guerrear! Mas que podem eles contra o exército? Choremos!

Assistam ao filme abaixo e sintam toda a tragédia!