Na semana passada, dia 4 de dezembro, completei 58 anos e lancei meu 45º livro. Isso contando com os livros de minha inteira autoria, e ainda os organizados, os traduzidos, os psicografados. Esse último lançamento é de poesia – Luas vermelhas, poemas de outono– entre outros sobre educação, espiritismo, espiritualidade, infanto-juvenis, didáticos e paradidáticos. De tudo um pouco. Não estão entre esses 45 títulos, os tantos outros editados por mim, pela Editora Comenius.
Queria comentar sobre lançar livros de poesia – o primeiro que publiquei, aos 19 anos, Chamas de Paz, foi de poesia, o lançamento desses últimos dias também. E no meio dos dois, um outro de 2014, A Hora de Dora. Poderia ter lançado muitos outros, porque poemas feitos não faltam.
Quando decidi que iria ser escritora aos 13 anos de idade, já escrevia poesias e talvez, entre todas as coisas que produzo, é o que me dá mais prazer escrever, declamar e publicar.
Mas a poesia parece um artigo de luxo em nossa sociedade corrida, pragmática, tecnológica. Pode ser até que muita gente goste, mas poucos se importam em adquirir um livro de poemas, e ainda menos dedicarem um tempo a uma leitura poética.
E no entanto, poesia é alívio da alma, fruição do coração, estímulo ao cérebro, catarse da dor – tudo isso para quem faz (e todo mundo pode fazer) e para quem lê.
Desde a minha primeira adolescência, eu era dessas que na volta da escola, sempre que me sobrava um dinheirinho da mesada, passava numa livraria que havia no caminho entre o colégio e minha casa, e comprava um livrinho da Edições de Ouro, que fosse de Castro Alves, Casimiro de Abreu, Mário de Andrade, Cecília Meirelles, Fernando Pessoa. E vinha lendo até em casa.
Depois que mergulhei fartamente em toda a literatura luso brasileira, passei a ler em outras línguas. Poetas alemães, franceses, espanhóis. Os russos também me apeteciam, mas esses só podia ler traduzidos. Lembro-me que aos 15 anos, comprei várias obras de Victor Hugo em francês (que ainda não havia estudado) e procurava palavra por palavra no dicionário, para decifrar os longos e épicos ou líricos poemas do gênio francês. Já aos 16, lia poetas em alemão, como Goethe e Schiller, depois de ter vivido em Berlim e estudado em escolas de lá.
A poesia me encharcava de deleite e imaginar ser poeta, publicar livros, era um sonho fagueiro (para usar uma expressão dos meus românticos prediletos).
A realidade, porém, não é assim tão dourada. Imprimir um livro custa dinheiro. E para mim, até hoje, livro só publicado em e-book, não está publicado. Editoras não se interessam por quem já não é renomado. Para escrever poesia, nunca fui muito incentivada em família, mas por alguns poucos professores e amigos, e sempre senti que muita gente acha que a poesia é supérflua. Que não vende, que não dá dinheiro, que é perda de tempo.
Mas a poesia é uma necessidade, sim. Nessa pandemia, vimos o quanto todas as artes são essenciais, incluindo a sagrada poesia de cada dia.
Por tudo isso, encorajo-me, apesar dos pesares, a publicar livros de poesia, a declamar meus poemas e de outros autores em vídeos diários, que tenho feito na pandemia – o Boas palavras para um bom dia – porque semear poesia é algo que sustenta a força de viver – minha e de outros que se sintonizam no mesmo élan poético.
A poesia também é arma de luta, a palavra que denuncia as mazelas do mundo e anuncia as esperanças que vêm.
Até mesmo nessa coluna (do Jornal GGN), quando não consigo articular a prosa crítica, pelo peso do momento e pelos temas sombrios, me valho do verso cortante, para deixar a rebelião necessária.
Aqui abaixo, um dos poemas desse meu novo livro, Luas Vermelhas, que está disponível no site da Editora Comenius!
A salvação da poesia Depois de uma guerra Sobra poesia? E enquanto se atura Uma pandemia? Sobrevive a poesia? Mas em tempos de paz suposta De normalidade torta Onde se esconde a poesia No meio da noite fria Com o irmão da rua? Como se canta a lua Com a chacina na favela? A poesia, onde se esgueira Ante a criança abusada Ante o pobre sem beira E a mulher espancada? Onde se acha a poesia Quando a natureza anda abatida? A poesia corre enlouquecida Ávida de flores e de delicadezas. A poesia grita proezas Para reclamar justiça e humanidade, Para ensaiar beleza e sanidade! Apesar dos pesares A poesia persiste Avista estrelas Na noite triste. Abre-se em mares De pranto reparador. A poesia pode gemer de dor Mas ainda nos salva do destempero Abranda o desespero E nos faz tecer A cada dia, um caminho De certo alvorecer... NOTA: Esse texto foi originalmente publicado no Jornal GGN, em minha coluna Espiritismo Progressista
8 dezembro, 2020 at 12:50 pm
Parabéns! Há muita injustiça no mundo a ser denunciada na poesia, mas também muita esperança. E a divulgação do Espiritismo, sem divisões e com muito amor, respeito ao próximo e união são atitudes fundamentais em nosso esforço pessoal em prol de um mundo melhor.