A liberdade de pensar: sem incoerência, sem dogmatismo, sem patrulhamento

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Neste mês, publiquei um artigo sobre política, fazendo uma análise da situação e da personalidade de Lula, sob vários aspectos… No artigo, me declaro anarquista, espírita e cristã. Foram mais de 220 mil visualizações, centenas de comentários, milhares de compartilhamentos e reproduções, inclusive em alguns blogs famosos como o de Luis Nassif.

Mas pareceu-me ter entrado num turbilhão e me lançado sem âncora em alto mar. Milhares de elogios, milhares de agressões.

Não me afetei emocionalmente com as agressões, porque já estou acostumada. Mas, como tudo é aprendizado, vou tecer algumas reflexões aqui sobre algumas das coisas que me escreveram.

Muitas das mais agressivas investidas eram nesse tom: “Anarquista, espírita e cristã? Interna!” E isso escrito por espíritas e por anarquistas! E porque, depois de fazer toda uma crítica a todos os partidos e a todos políticos, incluindo o PT e Lula, eu dizia que na presente circunstância eu estava inclinada a votar no Lula…se caso ele chegasse a 2018, então as agressões se multiplicaram: petralha, petista disfarçada de anarquista, idiota, ingênua etc…

Além de um problema evidente que observamos no Brasil – a dificuldade de entendimento de um texto, suas argumentações e seu fio condutor, fiquei pensando como é difícil as pessoas aceitarem que pensemos livremente, sem obedecer a uma cartilha pré-estabelecida… por exemplo, se sou anarquista, tenho que seguir todos os seus pressupostos. Se sou espírita, tenho que seguir a massa média do movimento espírita – aliás conservador em sua maioria. Mas o anarquismo permite várias leituras; o espiritismo permite várias leituras também. Não sou marxista, mas posso concordar com muitas e pertinentes leituras que o marxismo faz da economia, da sociedade… Enfim, posso pensar como me apraz, usando meu raciocínio, minha experiência de vida, meus múltiplos encontros com correntes diversas, autores diferentes.

No meio de tudo isso, devo e posso permanecer coerente, mantendo fidelidade a alguns princípios fundamentais. Por exemplo, o princípio fundamental que me impulsionou nesse artigo foi o humanismo, com o devido o respeito à dignidade humana e a repulsa a qualquer tipo de violência e abuso…

Pensar é um ato único, solitário, original, abrangente. Não é seguir um almanaque de posições, não é seguir opiniões alheias e hegemônicas.

Isso não quer dizer que gosto de saladas ecléticas e contraditórias. Aliás, acho que o fio de racionalidade deve entretecer nosso discurso, embebido em sentimentos elevados e ideais humanitários.

Por isso mesmo, a ideia da Universidade Livre Pampédia – porque nos meios acadêmicos, sobretudo nas áreas de humanidades, imperam os guetos ideológicos, onde só se entra quem estiver totalmente submisso àquela visão de mundo. Guetos marxistas, pós-modernos, lacanianos, estruturalistas, piagetianos e outros que tais. Não é sequer permitido reinterpretar os autores estudados.  É repetir suas ideias, com as palavras deles e ponto. Dizer por exemplo que o Espírito Absoluto de Hegel é uma forma de Deus panteísta é um pecado lesa-hegeliano.

Queremos um espaço de discussão realmente livre, sem agressões, sem patrulhamentos, sem repressões – em que as pessoas possam conhecer todas as formas de pensar e construir sua própria perspectiva de mundo! Um lugar de debate respeitoso e de pensamento original – que necessariamente vai se afastar das cartilhas fechadas dos dogmatismos.

Para mim, isso é ser anarquista, ser espírita, ser cristã: prezar a liberdade e a fraternidade acima de tudo. O resto é consequência.

*Texto publicado no Blog da Universidade Livre Pampédia

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14 respostas para “A liberdade de pensar: sem incoerência, sem dogmatismo, sem patrulhamento

  • Leonila Gois

    Dora,

    Fiquei impedida de comentar, por seu site exigir que eu tenha um endereço de internet, e eu não tenho site. Diante disso, como ficam as colocações que fez em seu artigo?

    Abraço, Leonila

    ____________________________________________ Eu sou a expressão da Luz Divina que sempre acerta. Que você seja, da mesma forma, a expressão da Luz Divina que sempre acerta.

  • Adilson Gomes

    A questão que está em discussão é sobre se os fins justificam os meios. A liberdade de pensar pressupõe também a responsabilidade pelas ações que daí decorrem, pessoais ou de terceiros. Apesar de tudo, os clichês permanecem os mesmos, para explicar as nossas posições políticas. Sem patrulhamento ideológico, acredito que sob o ponto de vista ético, o bem maior deve ser sempre ser buscado. O que me parece não estar acontecendo.

  • Jefferson Rosa

    Curto muito sua maneira de refletir a realidade e a educação.   Fonte de inspiração para mim. Bjs Jefferson Rosa 

    Enviado por Samsung Mobile

  • Heitor Mendes

    Dora, aqui você toca num ponto vital: a fraternidade. É o elo que falta para a ‘corrente do bem’ prosperar na Terra, a meu ver. Mas ela tem pressupostos: primeiro o respeito. Esse o princípio de convivência mínima. Eu tenho visto que há muita falta de respeito uns pelos outros e assim nada prospera. É o elemento vital que precisamos trabalhar desde a mais tenra infância. Abraço amigo. Heitor Mendes

  • Veronica Nagy

    Oi Dora! admiro sempre suas colocações, sua coerência, eu gostei do texto sobre anarquia, espírita, cristã! Este esclarecimento q você faz sobre a liberdade de pensar eu concordo! Só acrescento que ouvir sem julgar é ser benevolente e também uma forma de caridade! Virtude difícil de desenvolver!! Gratidão por compartilhar suas reflexões! Abraço!

  • ICINOCENCIO

    Boa Tarde Dori,
    Postei o texto anterior, onde muitos compartilhamentos e comentários, e já esperava diga-se de passagem por essas reações, como de fato aconteceram, mas postagens continuam e agradeço de antemão, pelo belo texto. Espero poder participar do seu blog e apreciar seus lúcidos textos, nesses tempos de confusão ideológica, e outras, que sabemos passarão.

  • Herbert Brüggemann

    Parabéns Dora. Te admiro.

  • Maxwell Teixeira

    Boa tarde, Dora! Continue a nos inspirar, certo? Creio que estamos aprendendo nas experiências também. Talvez você não esperasse que seu texto adquirisse uma visibilidade tão ampla, bem maior do que as demais publicações suas que sempre foram referência no meio espírita. E agora fica mais fácil perceber que o patrimonialismo dogmático não se resume apenas a certas convenções espíritas, estando presente até com ranços maiores em certos espaços anarquistas. Assim caminha a ideologia. Por outro lado, possibilitastes um diálogo com visões humanistas que tinham inclusive graves ressalvas, quando não preconceitos, em relação ao espiritismo e seu movimento majoritariamente conservador e eivado de “teologias” do sofrimento. Isso por si só já é importante!

  • Henrique R

    É espetacular e muitissimo real o que tu escreves.
    Fizeste-me lembrar do que escreveu Liv Ullmann:
    “Posso ser livre por vontade própria, ser meu próprio criador e guia. Meu amadurecimento e meu desenvolvimento dependem do que escolho ou rejeito na vida. Estão em mim as sementes de minha vida futura.”

    Obrigado Dora por teus ensinamentos e tua verdade.

  • Mauricio Antonio Brandão

    Gostei muito do texto ! Meus parabéns pela defesa do livre-pensar !

  • Ariston Quadros

    Cara Dora: Acho muito justo, neste clima de repressão de ideias que esse país vive, que você ou qualquer outra pessoa possa se expressar sem que receba nenhum tipo de agressão. Parabéns por sua coragem. Não, eu não concordo com as suas ideias do seu post anterior. Tenho outras ideias. Mas, como dizia Voltaire: “Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-la.” E quero ouvi-las sem te rotular de nada. E também não quero que me rotulem dentro desta “carimbagem” bipolar de pessoas agressivas e míopes que normalmente querem que o mundo seja dividido em dois – ou você é isso ou você é aquilo. Sempre dois porque são simplistas e ignorantes. Viva a liberdade, viva o respeito. Viva a tolerância e as discussões positivas. Grande abraço!

  • Gustavo Cordeiro

    Concordo com o texto e com suas ideias em geral! infelizmente, temos uma ciência servil e não uma ciência que visa o desenvolvimento humano, por isso tanto engessamento de ideias, cabe a nós educadores crer e remar na direção da luz…

  • strunfim

    Resido em uma vila há mais de 50 anos.
    Até 1986 em comércio da família vi trabalhadores rurais indo pra roça em pau-de-arara (na época ainda eram permitidos esses caminhões sem cobertura e os rurículas na carroceria), muitos levaram apenas arroz.
    Muitos sem perspectiva de melhorias, aposentadoria, atendimento médico. Até mesmo com trabalhadores urbanos.
    E ouvia muitas histórias de trabalho duro. E O PIOR é que todo esse sofrimento é visto como “normal”.
    Sempre participei de campanhas políticas, Fui filiado no PMDB, PL, PFL partidos conservadores. Quis ser Vereador pelo PL (Partido Liberal), mas o povo não quis.
    Todos do município sabíamos que roubavam dinheiro da Prefeitura. Ouvia histórias absurdas, isso há mais de 40 anos.
    Todos sabem o que acontece de errado em seus municípios (principalmente de porte médio e pequeno). E “todos” toleram os erros dos Prefeitos, Vereadores, Funcionários. Só causa indignação quando se trata de Governadores e/ou Presidentes.

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